1.
A ausência de Aniceto deu ensejo a palestras interessantes.
Formaram-se grupos de conversação amiga.
2 Impressionado com as senhoras
que haviam solicitado providências para Otávio, pedi a Vicente me apresentasse
a elas, não que me movesse curiosidade menos digna, mas desejo de alcançar
novos valores educativos sobre a tarefa mediúnica, que a palavra de
Telésforo me fizera sentir em tons diferentes.
O amigo atendeu de boamente.
3 Em breves momentos, não
me achava tão só à frente das irmãs Isaura e Isabel, mas do próprio
Otávio, um pálido senhor que aparentava quarenta anos.
— Também sou principiante aqui, — expliquei, — e minha condição é a do médico falido nos deveres que o Senhor lhe confiou.
4 Otávio sorriu e respondeu:
— Possivelmente, o meu amigo terá a seu favor o fato de haver ignorado
as verdades eternas, no mundo. O mesmo não ocorre comigo, ai de mim!
Não desconhecia o roteiro certo, que o Pai me designava para as lutas
na Terra. 5 Não possuía
títulos oficializados de competência; entretanto, dispunha de considerável
cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é de maior importância
que a cultura intelectual, simplesmente considerada. 6
Tive amigos generosos do Plano superior, que se faziam visíveis aos
meus olhos, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria e, no entanto,
caí mesmo assim, obedecendo à imprevidência e à vaidade.
2.
As observações de Otávio impressionavam-me vivamente. Quando no mundo,
eu não tivera contato especial com as escolas espiritistas e experimentava
certa dificuldade para compreender tudo quanto ele desejava dizer.
— Ignorava a extensão das responsabilidades mediúnicas, — respondi.
2 — As tarefas espirituais,
— tornou o interlocutor, algo acabrunhado, — ocupam-se de interesses
eternos e daí a enormidade de minha falta. Os mordomos de bens da alma
estão investidos de responsabilidades pesadíssimas. Os estudiosos, os
crentes, os simpatizantes, no campo da fé, podem alegar ignorância e
inibição; todavia, os sacerdotes não têm desculpa. 3
É o mesmo que se verifica na tarefa mediúnica. Os aprendizes ou beneficiários,
nos templos da Revelação nova, podem referir-se a determinados impedimentos;
mas o missionário é obrigado a caminhar com um patrimônio de certezas
tais, que coisa alguma o exonera das culpas adquiridas.
3.
— Mas, meu amigo, — perguntei, assaz impressionado, — que teria motivado
seu martírio moral? Noto-o tão consciente de si mesmo, tão superiormente
informado sobre as leis da vida, que me custa acreditar se encontre
necessitado de novas experiências nesse capítulo…
2 Ambas as senhoras presentes
mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otávio respondia:
— Relatarei minha queda. Verá como perdi maravilhosa oportunidade de elevação.
3 E, após mais longa pausa,
continuou, gravemente:
— Depois de contrair dívidas enormes na Esfera carnal, noutro tempo,
vim bater às portas de “Nosso Lar”, sendo atendido por irmãos generosos,
que se revelaram incansáveis para comigo. Preparei-me, então, durante
trinta anos consecutivos, para voltar à Terra em tarefa mediúnica, desejoso
de saldar minhas contas e elevar-me alguma coisa. 4
Não faltaram lições verdadeiramente sublimes, nem estímulos santos ao
meu coração imperfeito. O Ministério da Comunicação favoreceu-me com
todas as facilidades e, sobretudo, seis entidades amigas movimentaram
os maiores recursos em benefício do meu êxito. 5
Técnicos do Auxílio acompanharam-me à Terra, nas vésperas do meu renascimento,
entregando-me um corpo físico rigorosamente sadio. Segundo a magnanimidade
dos meus benfeitores daqui, ser-me-ia concedido certo trabalho de relevo,
na esfera de consolação às criaturas. 6
Permaneceria junto das falanges de colaboradores encarregados do Brasil,
animando-lhes os esforços e atendendo a irmãos outros, ignorantes, perturbados
ou infelizes. 7 O matrimônio
não deveria entrar na linha de minhas cogitações, não que o casamento
possa colidir com o exercício da mediunidade, mas porque meu caso particular
assim o exigia. 8 Nada
obstante, solteiro, deveria receber, aos vinte anos, os seis amigos
que muito trabalharam por mim, em “Nosso Lar”, os quais chegariam ao
meu círculo como órfãos. 9
Meu débito para com essas entidades tornou-se muito grande e a providência
não só constituiria agradável resgate para mim, como também garantia
de triunfo pelo serviço de assistência a elas, o que me preservaria
o coração de leviandades e vacilações, porquanto o ganha-pão laborioso
me compeliria a não aceder a sugestões inferiores nos domínios do sexo
e das ambições incontidas. 10
Ficou também assentado que minhas atividades novas começariam com muitos
sacrifícios, para que o possível carinho de outrem não amolecesse a
minha fibra de realização, e para que se não escravizasse minha tarefa
a situações caprichosas do mundo, distantes dos desígnios de Jesus,
e, sobretudo, para que fosse mantida a impessoalidade do serviço. 11
Mais tarde, então, com o correr dos anos de edificação, me enviariam
de “Nosso Lar” socorros materiais, cada vez maiores, à medida que fosse
testemunhando renúncia de mim mesmo, desprendimento das posses efêmeras,
desinteresse pela remuneração dos sentidos, de maneira a intensificar,
progressivamente, a semeadura de amor confiada às minhas mãos.
12 Tudo combinado, voltei,
não só prometendo fidelidade aos meus instrutores, como também hipotecando
a certeza do meu devotamento às seis entidades amigas, a quem muito
devo até agora.
4.
Otávio, nesse momento, fez uma pausa mais longa, suspirou fundamente,
e prosseguiu:
2 — Mas, ai de mim,
que olvidei todos os compromissos! Os benfeitores de “Nosso Lar” localizaram-me
ao lado de verdadeira serva de Jesus. Minha mãe era espiritista cristã
desde moça, não obstante as tendências materialistas de meu pai, que
era, todavia, um homem de bem. 3
Aos treze anos fiquei órfão de mãe e, aos quinze, começaram para mim
os primeiros chamados da Esfera superior. Por essa ocasião, meu pai
contraiu segundas núpcias, e, apesar da bondade e cooperação que a madrasta
me oferecia, eu me colocava num plano de falsa superioridade, a respeito
dela. 4 Em vão, minha
genitora endereçou, do Invisível, apelos sagrados ao meu coração. Eu
vivia revoltado, entre queixas e lamentações descabidas. 5
Meus parentes conduziram-me a um grupo espiritista de excelente orientação
evangélica, onde minhas faculdades poderiam ser postas a serviço dos
necessitados e sofredores; entretanto, faltavam-me qualidades de trabalhador
e companheiro fiel. 6
Minha negação em matéria de confiança nos orientadores espirituais e
acentuado pendor para a crítica dos atos alheios compeliam-me a desagradável
estacionamento. Os beneméritos amigos do Invisível estimulavam-me ao
serviço, mas eu duvidava deles com a minha vaidade doentia. 7
E como prosseguissem os apelos sagrados, por mim interpretados como
alucinações, procurei um médico que me aconselhou experiências sexuais.
Completara, então, dezenove anos e entreguei-me desenfreadamente ao
abuso de faculdades sublimes. Desejava conciliar, à força, o prazer
delituoso e o dever espiritual, alheando-me, cada vez mais, dos ensinos
evangélicos que os amigos da Esfera superior nos ministravam. 8
Tinha pouco mais de vinte anos, quando meu pai foi arrebatado pela morte.
Com a triste ocorrência, ficavam na orfandade seis crianças desfavorecidas,
porquanto minha madrasta consorciara-se, igualmente, em segundas núpcias, e trouxera para a tutela de meu genitor três pequeninos. 9
Em vão implorou-me socorro a pobre viúva. Nunca me dignei aceitar os
encargos redentores que me estavam destinados. Após dois anos de segunda
viuvez, minha desventurada madrasta foi recolhida a um leprosário. Afastei-me,
então, dos pequenos órfãos, tomado de horror. 10
Abandonei-os definitivamente, sem refletir que lançava meus credores
generosos, de “Nosso Lar”, a destino incerto. Em seguida, dando largas
à ociosidade, cometi uma ação menos digna e fui obrigado a casar-me
pela violência. 11
Mesmo assim, porém, persistiam os chamados do Invisível, revelando-me
a inesgotável misericórdia do Altíssimo. Contudo, à medida que olvidava
meus deveres, toda tentativa de realização espiritual figurava-se-me
mais difícil. 12
E continuou a tragédia que inventei para meu próprio tormento. A esposa
a que me ligara, tão somente por apetites inconfessáveis, era criatura
muito inferior à minha condição espiritual e atraiu uma entidade monstruosa,
em ligação com ela, para tomar o papel de meu filho. 13
Releguei à rua seis carinhosas crianças, cuja convivência concorreria
decisivamente para minha segurança moral, mas a companheira e o filho,
ao que me pareceu, incumbiram-se da vingança. 14
Atormentaram-me ambos, até ao fim da existência, quando para aqui regressei,
mal tendo completado quarenta anos, roído pela sífilis, pelo álcool
e pelos desgostos… sem nada haver feito para meu futuro eterno… Sem
construir coisa alguma no terreno do bem…
15 Enxugou os olhos úmidos
e concluiu:
— Como vê, realizei todos os meus condenáveis desejos, menos os desejos de Deus. Foi por isso que fali, agravando antigos débitos…
16 Nesse instante, calou-se
como se alguma coisa invisível lhe constringisse a garganta.
Abracei-o com simpatia fraternal, ansioso de proporcionar-lhe estímulo ao coração, mas Dona Isaura aproximou-se mais, acariciou-lhe a fronte e falou:
17 — Não chores, filho! Jesus
não nos falta com a bênção do tempo. Tem calma e coragem…
E identificando-lhe o carinho, meditei na Bondade Divina, que faz ecoar o cântico sublime do amor de mãe, mesmo nas regiões dʼalém-morte.
André Luiz
Os capítulos do n.º 5 ao 12, dizem respeito às observações e estudos efetuados por André Luiz em uma reunião no Centro de Mensageiros.