1 O Doutor Leonel de Souza
Dono de terra e dinheiro,
Trazia a cabeça em fogo,
Hora a hora, dia inteiro.
2 Tinha uma filha somente,
A jovem Ana Maria,
Que lhe dera ao coração
A presença da alegria.
3 Ela, porém, namorava
O jovem Joaquim Mutamba,
Sempre juntos, noite a noite,
Lembravam corda e caçamba.
4 Sabendo que os dois se amavam
Com manifesta loucura,
O pai ficou alarmado
E disse à filha, insegura:
5 — “Ana Maria, você
Não mais procure Joaquim,
Considere o seu romance
Um caso que chega ao fim.
6 “Largue, filha, enquanto é tempo,
Esse Joaquim do pé torto,
Um varredor de cinema
Não tem onde cair morto…”
7 A filha pediu, no entanto:
— “Pai, rogo à sua bondade,
Quero casar com Joaquim,
Já temos intimidade!…”
8 “O velho esmurrou a mesa,
Dando mostra de machão,
E asseverou, irritado:
— “Não aceito, não e não!…”
9 O pai buscou, no outro dia,
Um famoso pistoleiro…
Queria um tiro no moço,
Pagaria bom dinheiro.
10 O pistoleiro, maldoso,
Que era pobre, muito pobre,
Comunicou ao cliente:
— “Sinto fome do seu cobre…”
11 Semana passa semana,
E o pistoleiro com jeito,
Derrubou Joaquim, a tiros,
Num crime duro e perfeito.
12 Ninguém viu a cena triste…
No povo, apenas mumunhas. n
Buscou a polícia, em vão,
Informes e testemunhas.
13 Ana Maria chorou
Por muitos e muitos dias,
Parecia torturada
Por íntimas agonias…
14 O pai cercou-a de mimos,
Sentindo arrependimento
E a moça continuava
Toda entregue ao sofrimento…
15 Notei com grande surpresa
Que ela trazia de lado,
Em todo passo do dia,
Mutamba desencarnado.
16 Quatro anos se passaram…
Veio o estouro de repente;
A jovem Ana Maria
Teve um novo pretendente.
17 Era um rapaz educado,
Um competente engenheiro…
O pai fez o casamento
Gastando muito dinheiro.
18 Morrer não fora vantagem,
De coração renovado,
A moça trouxera à luz
O primeiro namorado.
19 Decorridos onze meses
Surgiu a reviravolta…
Um pequenino nasceu…
Era Mutamba, de volta.
20 Tudo era festa em família,
Felicidade, alegria…
O genro e o sogro, contentes,
Beijavam Ana Maria.
21 O pequenino ante o seio
Sugava o leite com gana
E eu ficava refletindo
Nas tricas da vida humana.
22 O avô, vendo o neto ativo
Parecendo esfomeado,
Exclamava, todo dia:
— “Eta, menino danado!…”
Jair Presente
|