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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Religião à luz do Espiritismo

TOMO III — ESPIRITISMO, O CONSOLADOR PROMETIDO POR JESUS
Módulo II — A Morte e seus Mistérios

 

Roteiro 2

 

Mortes prematuras

(O abortamento, desencarnação de crianças, suicídio, eutanásia)

 

Objetivos: Identificar os principais tipos de mortes prematuras e em que condições elas ocorrem.Analisar, em cada caso de morte prematura estudado, as conseqüências espirituais desse tipo de desencarnação.


 

IDEIAS PRINCIPAIS

  • As principais mortes prematuras podem ser assim classificadas: aborto deliberado; desencarnação de crianças; suicídio; eutanásia.

  • […] Uma mãe, ou qualquer outra pessoa, cometerá crime sempre que tirar a vida de uma criança antes do nascimento, pois está impedindo uma alma de suportar as provas de que serviria de instrumento o corpo que estava se formando. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, questão 358.

  • A duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que nela está encarnado, o complemento de uma existência interrompida antes do término devido, e sua morte, quase sempre, constitui provação ou expiação para os pais. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, questão 199.

  • No suicídio […] Atormentada de dor, a consciência desperta no nível de sombra a que se precipitou, suportando compulsoriamente as companhias que elegeu para si própria, pelo tempo indispensável à justa renovação. Contudo, os resultados não se circunscrevem aos fenômenos de sofrimento intimo porque surgem os desequilíbrios conseqüentes nas sinergias do corpo espiritual, com impositivos de reajuste em existências próximas. […]. Emmanuel: Religião dos Espíritos. Item: suicídio.

  • O Espiritismo não apóia a eutanásia. Por este motivo, pondera Emmanuel: […] Não te creias autorizado a desferir o golpe supremo naqueles que a agonia emudece, a pretexto de consolação e de amor, porque, muita vez, por trás dos olhos baços e das mãos desfalecentes que parecem deitar o último adeus, apenas repontam avisos e advertências para que o erro seja sustado ou para que a senda se reajuste amanhã. […]. Emmanuel: Religião dos Espíritos. Item: sofrimento e eutanásia.

 


 

SUBSÍDIOS

 

Há várias situações que podem ser identificadas como mortes prematuras, mas, em termos objetivos, podemos considerar os casos de:

a) abortamentos, naturais e provocados;

b) desencarnação infantil e na adolescência;

c) suicídios, diretos ou indiretos;

d) eutanásia.

As desencarnações ocorridas pelo uso de substâncias psicoativas, por homicídio e por atos de violência podem se enquadrar, direta ou indiretamente, em uma dessas categorias de mortes prematuras. Importa considerar, todavia, que somente a justiça e misericórdia divina têm poder para analisar caso a caso, definindo atenuantes e agravantes.

Há mortes prematuras que independem da vontade e ação humanas, uma vez que fazem parte do quadro de expiação e provações definidas no planeja- mento reencarnatório. Em sentido oposto, existem mortes que são antecipadas, em meses ou anos, por invigilância e uso indevido do livre arbítrio por parte dos envolvidos. Nesta situação, o estado de perturbação se prolonga por um período de tempo difícil de precisar.

Para o Espírito […] “cuja consciência não está pura, a perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à medida que ele reconhece a sua nova situação. […].” (1)

 

1. O abortamento

 

O aborto pode ocorrer de forma espontânea ou provocada. No primeiro caso os envolvidos não são julgados culpados, uma vez que nada executaram, na presente reencarnação, que pudesse ser catalogado como atentado à vida do ser em vias de reencarnar. A segunda possibilidade é considerada delito grave contra as leis de Deus, sendo que a legislação do Brasil faculta duas exceções: quando a gestação implica risco de vida para a mãe ou nos casos de estupro.

Os Espíritos Orientadores da Codificação Espírita apresentaram a seguinte resposta a Kardec, quando ele perguntou se a provocação do aborto constituiria crime: (2)

 

[…] Há crime toda vez que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou qualquer outra pessoa, cometerá crime sempre que tirar a vida de uma criança antes do nascimento, pois está impedindo uma alma de suportar as provas de que serviria de instrumento o corpo que estava se formando.

 

Esses mesmos Espíritos somente justificaram a indicação do aborto se a gestação e o nascimento da criança colocassem em risco a vida da gestante, apresentando o seguinte argumento: “É preferível sacrificar o ser que ainda não existe a sacrificar o que já existe.” (3)

A mulher como todo ser humano pode usar do seu livre-arbítrio na forma que bem lhe aprouver, não resta dúvida. Entretanto, deve estar ciente que responderá pelas conseqüências, boas ou más, dos atos praticados.

Assim, ela pode, evidentemente, tomar decisões relacionadas ao próprio corpo, até por uma questão de liberdade individual. Não tem direito, contudo, de decidir sobre o corpo ou a vida de outra pessoa, mesmo que este corpo se encontre temporariamente alojado no interior do seu, na condição de embrião ou feto.

No que diz respeito à sua capacidade reprodutiva, ela possui também liberdade para decidir se deseja uma gravidez ou se quer evitá-la pela utilização de métodos anticonceptivos. Analisemos, porém, que “[…] não existe liberdade e respeito sem obrigação e [amor ao próximo]. Meditemos na lição para não cairmos de novo sob o antigo e pesado jugo de nossas próprias paixões.” (4)

A nenhum ser humano, sob quaisquer justificativas, é concedida a liberdade de atentar contra a vida do seu semelhante, principalmente a que se encontra em fase de gestação, totalmente vulnerável à vontade de quem lhe deve proteção. Assim é totalmente falsa a idéia de que a mulher pode dispor de forma absoluta de seu corpo para a prática do aborto. Não se trata de um direito, uma vez que o corpo que ela abriga, durante a gravidez, pertence a outro ser humano. O direito de escolha da mulher precede o ato da concepção, mas se subordina ao direito absoluto da vida do reencarnante.

O aborto voluntário faz a consciência entrar em choque contra si mesma, situação geradora de culpas e remorsos inevitáveis que, cedo ou tarde, atingirão a organização física e psíquica dos que cometeram semelhante ação.

Sendo assim, é importante recordar:

 

Convictos de que o Espírito escolhe as provações que experimentará na Terra, quando se mostre na posição moral de resolver quanto ao próprio destino, é justo recordar que a criatura, durante a reencarnação, elege, automaticamente, para si mesma, grande parte das doenças que se lhe incorporam às preocupações. […] Guardemo-nos, assim, contra a perturbação, procurando o equilíbrio e compreendendo no bem expressando bondade e educação a mais alta fórmula para a solução de nossos problemas. (5)

 

Assim, perante uma gravidez indesejável a mulher tem liberdade para decidir se deseja criar o filho gerado ou se prefere entregá-lo à adoção, jamais abortá-lo voluntariamente. Na realidade, a decisão entre uma e outra ação caracteriza, sempre, o exercício do seu livre-arbítrio, cujas conseqüências delinearão a sua vida futura.

 

2. Desencarnação de crianças

 

Esclarecem os postulados espíritas que a “[…] curta duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que nela está encarnado, o complemento de uma existência interrompida antes do término devido, e sua morte, quase sempre, constitui provação ou expiação para os pais.” (6)

Em mensagem transmitida em 1863, o Espírito Sanson, ex-membro da Sociedade Espírita de Paris, emite comentários sobre a morte precoce de entes queridos. Eis alguns trechos desta confortadora mensagem: (7)

  • Quando a morte ceifa nas vossas famílias, arrebatando, sem restrições, os mais jovens antes dos velhos, costumais dizer: Deus não é justo, pois sacrifica o que está forte e tem grande futuro e conserva os que já viveram longos anos cheios de decepções; pois leva os que são úteis e deixa os que já não servem para nada; pois despedaça o coração de uma mãe, privando-a da inocente criatura que era toda a sua alegria. Humanos, é nesse ponto que precisais elevar-vos acima do terra-a-terra da vida, a fim de compreenderdes que o bem, muitas vezes, está onde julgais ver o mal, e a sábia previdência onde acreditais ver a cega fatalidade do destino. […].

  • Crede-me, a morte é preferível, numa encarnação de vinte anos, a esses desregramentos vergonhosos que desolam as famílias respeitáveis, ferem um coração de mãe e fazem que os cabelos dos pais embranqueçam antes do tempo. Quase sempre a morte prematura é um grande benefício que Deus concede àquele que se vai e que assim se preserva das misérias da vida, ou das seduções que talvez o arrastassem à perdição. Aquele que morre na flor da idade não é vítima da fatalidade; é que Deus julga não convir que ele permaneça por mais tempo na Terra.

  • […] Em vez de vos queixardes, alegrai-vos quando for agradável a Deus retirar um de seus filhos deste vale de misérias. Não seria egoísmo desejardes que ele aí continuasse para sofrer convosco? Ah! essa dor se concebe naquele que não tem fé e que vê na morte uma separação eterna. Mas vós, espíritas, sabeis que a alma vive melhor quando desembaraçada do seu invólucro corpóreo. Mães, sabei que vossos filhos bem-amados estão perto de vós; sim, estão muito perto; seus corpos fluídicos vos envolvem, seus pensamentos vos protegem e a lembrança que deles guardais os transporta de alegria; mas as vossas dores desarrazoadas também os afligem, porque denotam falta de fé e constituem uma revolta contra a vontade de Deus.

3. Suicídio

 

As causas alegadas para cometer o suicídio são várias. Em geral, indicam desconhecimento do valor que as provações representam no mecanismo de reajuste da consciência culpada perante as leis de Deus, e, também, declarada desinformação quanto à continuidade da vida no além-túmulo.

Analisemos o seguinte conjunto de idéias, retirado, respectivamente, de O Evangelho segundo o Espiritismo e de O Livro dos Espíritos.

  • A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as idéias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio: produzem a covardia moral. Quando se vêem homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se esforçarem por provar aos que os ouvem ou lêem que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer é matar-se? Que lhes poderiam dizer para desviá-los dessa conseqüência? Que compensação podem oferecer-lhes? Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não ser o nada. […] (8)

  • A propagação das idéias materialistas é, pois, o veneno que inocula a idéia do suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se fazem seus defensores assumem terrível responsabilidade. Com o Espiritismo a dúvida já não é possível, modificando-se, portanto, a visão que se tem da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para além do túmulo, mas em condições muito diversas. Daí a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; daí, numa palavra, a coragem moral. (8)

  • […] Deus ajuda aos que sofrem, e não aos que não têm força nem coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados! (9)

  • O suicídio não apaga a falta. Ao contrário, em vez de uma, haverá duas. Quando se teve a coragem de praticar o mal, é preciso tê-la também para lhe sofrer as conseqüências. Deus é quem julga e, algumas vezes, conforme a causa, pode abrandar os rigores de sua justiça. (10)

  • As conseqüências do suicídio são muito diversas. Não há penas fixadas e, em todos os casos, são sempre relativas às causas que o produziram. Há, porém, uma conseqüência à qual o suicida não pode escapar: o desapontamento. Ademais, a sorte não é a mesma para todos; depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta imediatamente, outros em nova existência, que será pior do que aquela cujo curso interromperam. (11)

  • De fato, […] os efeitos do suicídio não são idênticos. Há, porém, os que são comuns a todos os casos de morte violenta e que resultam da interrupção brusca da vida. Isto se deve principalmente à persistência mais prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo, já que esse laço se encontra em todo o seu vigor no momento em que é rompido, enquanto na morte natural ele se enfraquece gradualmente e muitas vezes se desfaz antes mesmo que a vida se haja extinguido completamente. As conseqüências deste estado de coisas são o prolongamento da perturbação espiritual, sucedendo um período de ilusão em que o Espírito, durante mais ou menos tempo, julga pertencer ainda ao número dos vivos [encarnados]. (12)

O suicídio pode ser classificado como direto ou indireto, ou consciente em inconsciente.

O suicídio direto, independentemente da causa geradora, é precedido de um planejamento arquitetado, às vezes, em nível de detalhes: “No suicídio intencional, sem as atenuantes da moléstia ou da ignorância, há que considerar não somente o problema da infração ante as Leis Divinas, mas também o ato de violência que a criatura comete contra si mesma, através da premeditação mais profunda, com remorso mais amplo.” (13)

Emmanuel prossegue esclarecendo a respeito das conseqüências do suicídio direto: (14)

 

Atormentada de dor, a consciência desperta no nível de sombra a que se precipitou, suportando compulsoriamente as companhias que elegeu para si própria, pelo tempo indispensável à justa renovação. Contudo, os resultados não se circunscrevem aos fenômenos de sofrimento íntimo, porque surgem os desequilíbrios conseqüentes nas sinergias do corpo espiritual, com impositivos de reajuste em existências próximas. […] Ser-nos-á fácil, desse modo, identificá-los, no berço em que repontam, entremostrando a expiação a que se acolhem. Os que se envenenaram, conforme os tóxicos de que se valeram, renascem trazendo as afecções valvulares, os achaques do aparelho digestivo, as doenças do sangue e as disfunções endocrínicas, tanto quanto outros males de etiologia obscura; os que incendiaram a própria carne amargam as agruras da ictiose ou do pênfigo; os que se asfixiaram, seja no leito das águas ou nas correntes de gás, exibem os processos mórbidos das vias respiratórias, como no caso do enfisema ou dos cistos pulmonares; os que se enforcaram carreiam consigo os dolorosos distúrbios do sistema nervoso, como sejam as neoplasias diversas e a paralisia cerebral infantil; os que estilhaçaram o crânio ou deitaram a própria cabeça sob rodas destruidoras, experimentam desarmonias da mesma espécie, notadamente as que se relacionam com o cretinismo, e os que se atiraram de grande altura reaparecem portando os padecimentos da distrofia muscular progressiva ou da osteíte difusa. Segundo o tipo de suicídio, direto ou indireto, surgem as distonias orgânicas derivadas, que correspondem a diversas calamidades congênitas, inclusive a mutilação e o câncer, a surdez e a mudez, a cegueira e a loucura, a representarem terapêutica providencial na cura da alma.

 

No suicídio indireto o atentado contra a própria vida ocorre em decorrência dos comportamentos e hábitos desenvolvidos pelo indivíduo, os quais, de uma forma ou de outra, lesam a saúde física, psíquica, ou ambas, ao longo dos anos. Enquadram nesta categoria todos os vícios, desde os chamados lícitos ou legalmente tolerados, e os ilícitos (drogatização por substâncias psicoativas), destituídos do apoio da lei. Os graves processos obsessivos e enfermidades mentais severas fazem parte dessa classificação, uma vez que o indivíduo não tem mais domínio sobre si mesmo, sobre os seus pensamentos e atos.

Não existem dúvidas sobre os efeitos produzidos pela dependência de drogas ilícitas no organismo físico e na mente do Espírito. A utilização sistemática de substâncias consideradas lícitas, entretanto, apresenta conseqüências danosas de pequena, média ou grande magnitude, conforme o caso, as quais, em geral, não são seriamente consideradas pelos usuários. Na verdade, o uso de drogas toleradas pela lei representa terrível armadilha à saúde física e mental, sobretudo se o usuário dispõe de algum esclarecimento intelectual e espiritual. Daí a existência de inúmeras campanhas educativas a respeito das conseqüências do tabagismo, do alcoolismo, do sexo irresponsável, da gula desenfreada, entre outros. Todo cuidado é pouco, pois, nessa situação, não é incomum Espíritos aportarem no mundo espiritual como suicidas.

Por fraqueza moral, esses Espíritos ingeriram ou absorveram tóxicos considerados permissíveis, durante o período da existência física, não ponderando seriamente, contudo, sobre os efeitos dessas substâncias na produção de lesões que debilitaram o corpo físico, predispondo-o a doenças não programadas, antecipando, dessa forma, o tempo programado para a desencarnação. Isto sem considerar os maus exemplos que fornecem e os sofrimentos que produzem nas pessoas queridas. Analisemos, a propósito, este depoimento do Espírito Joaquim Dias. (15)

 

Alcoólatra! Que outra palavra existirá na Terra, encerrando consigo tantas potencialidades para o crime? O alcoólatra não é somente o destruidor de si mesmo. É o perigoso instrumento das trevas, ponte viva para as forças arrasadoras da lama abismal. O incêndio que provoca desolação aparece numa chispa. O alcoolismo que carreia a miséria nasce num copinho. De chispa em chispa, transforma-se o incêndio em chamas devoradoras. De copinho a copinho, o vício alcança a delinqüência. […].

 

Quanto ao suicídio, produzido por obsessão grave, inserimos, em seguida, trechos de significativa mensagem presente no livro Vozes do Grande Além que relata a triste experiência vivenciada pelo Espírito Hilda. A mensagem fornece preciosos ensinamentos a respeito do assunto. (16)

 

Amigos: Há duas palavras com significação muito diferente na Terra e na Vida Espiritual. Uma delas é “consciência”, a outra é “responsabilidade”. No Plano físico, muitas vezes conseguimos sufocar a primeira e iludir a segunda temporariamente, mas, no campo das Verdades Eternas, não será possível adormecer ou enganar uma e outra. A consciência revela-nos tais quais somos, seja onde for, e a responsabilidade marca-nos a fronte com os nossos merecimentos, culpas ou compromissos. Enquanto desfrutais o aprendizado na experiência humana, acautelai-vos na conceituação dessas duas forças, porque o pensamento é a energia coagulante de nossas aspirações e desejos. Por isso, não fugiremos aos resultados da própria ação. Fala-vos humilde companheira que ainda sofre, depois de aflitiva tragédia no suicídio, alguém que conhece de perto a responsabilidade na queda a que se arrojou, infeliz. O pensamento delituoso é assim como um fruto apodrecido que colocamos na casa de nossa mente. De instante a instante, a corrupção se dilata e atraímos em nosso desfavor todos aqueles elementos que se afinam com a nossa invigilância e que se sentem garantidos por nossa incúria, presidindo-nos a perturbação que fatalmente nos arrasta a grande perda. […] Agora, que se me refazem as energias, recebi a graça de acordar nos amigos encarnados a noção de “responsabilidade” e “consciência”, no campo das imagens que nós mesmos criamos e alimentamos, serviço esse a que me consagrei, até que novo estágio entre os homens me imponha a recapitulação total da prova em que vim a desfalecer. É por essa razão que terminamos as nossas frases despretensiosas, lembrando a vós outros que o pensamento deplorável, na vida intima, é assim como o detrito que guardamos irrefletidamente em nosso templo doméstico. Se somos atenciosos para com a higiene exterior, usando desinfetantes e instrumento de limpeza, assegurando a saúde e a tranqüilidade, movimentemos também o trabalho, a bondade e o estudo, contra a dominação do pensamento infeliz, logo que o pensamento infeliz se esboce levemente na tela de nossos desejos imanifestos. Cumpramos nossas obrigações, visitemos o amigo enfermo, atendamos à criança desventurada, procuremos a execução de nossas tarefas, busquemos o convívio do livro nobre, tentemos a conversação robusta e edificante, refugiemo-nos no santuário da prece e devotemo-nos à felicidade do próximo, instalando-nos sob a tutela do bem e agindo sempre contra o pensamento insensato, porque, através dele, a obsessão se insinua, a perseguição se materializa, e, quando acordamos, diante da própria responsabilidade, muitas vezes a nossa consciência chora tarde demais.

 

4. Eutanásia

 

Em O Evangelho segundo o Espiritismo Kardec indaga à São Luís: Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito lhe pouparmos alguns instantes de angústias, apressando-lhe ó fim? (17)

A resposta, transmitida pelo Espírito em reunião mediúnica ocorrida em Paris, no ano de 1860, revela o terrível equívoco da prática da eutanásia, fato que ainda persiste nos dias atuais: (17)

 

Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode Ele conduzir o homem até à beira do sepulcro, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e modificar-lhe os pensamentos? Ainda que um moribundo haja chegado ao último extremo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe tenha soado a última hora. A Ciência não se terá enganado alguma vez em suas previsões? Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, não há inúmeros exemplos em que o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanima- se e recobra suas faculdades por alguns instantes? Pois bem! Essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância, pois ignorais as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe podem poupar um relâmpago de arrependimento. O materialista, que apenas vê o corpo e não leva em nenhuma conta a alma, não pode compreender essas coisas; mas o espírita, que já sabe o que se passa no além-túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai os derradeiros sofrimentos, tanto quanto puderdes; guardai-vos, porém, de abreviar a vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro.

 

Realmente, não é fácil presenciar o sofrimento de entes queridos em razão de enfermidades ou nos momentos finais da existência física, sobretudo se estes se prolongam e se revelam dolorosos: produzem angústias e sofrimentos.

Entretanto, como nada acontece por acaso, sabemos que atrás de cada acontecimento há uma causa justa, determinada pela misericórdia divina. Assim, aconselha Emmanuel: (18)

 

Quando te encontres diante de alguém que a morte parece nimbar de sombra, recorda que a vida prossegue, além da grande renovação… Não te creias autorizado a desferir o golpe supremo naqueles que a agonia emudece, a pretexto de consolação e de amor, porque, muita vez, por trás dos olhos baços e das mãos desfalecentes que parecem deitar o último adeus, apenas repontam avisos e advertências para que o erro seja sustado ou para que a senda se reajuste amanhã. Ante o catre da enfermidade mais insidiosa e mais dura, brilha o socorro da Infinita Bondade facilitando, a quem deve, a conquista da quitação. Por isso mesmo, nas próprias moléstias reconhecidamente obscuras para a diagnose terrestre, fulgem lições cujo termo é preciso esperar, a fim de que o homem lhes não perca a essência divina. E tal acontece, porque o corpo carnal, ainda mesmo o mais mutilado e disforme, em todas as circunstâncias, é o sublime instrumento em que a alma é chamada a acender a flama de evolução. […] Em todos eles, contudo, palpita a concessão do Senhor, induzindo-nos ao pagamento de velhas dívidas que a Eterna Justiça ainda não apagou. Não desrespeites, assim, quem se imobiliza na cruz horizontal da doença prolongada e difícil, administrando-lhe o veneno da morte suave, porquanto, provavelmente, conhecerás também mais tarde o proveitoso decúbito indispensável à grande meditação. […].

 

ORIENTAÇÕES AO MONITOR:

 

De acordo com a orientação dada no Roteiro de Estudo, da reunião anterior, os participantes apresentam, em plenária, o resultado da pesquisa realizada sobre mortes prematuras.

Estimular um debate sobre os tipos de mortes prematuras, com base nos conteúdos apresentados neste Roteiro. O assunto deve ser analisado mais profundamente, daí a recomendação de realizar o estudo em duas reuniões, no mínimo.

Observação: informar à turma que o assunto da próxima reunião será desenvolvido por um convidado.

 

 


Referências:

1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008, questão 165 - comentário, p. 166.

2. Idem - Questão 358, p. 268.

3. Idem - Questão 359, p. 268.

4. XAVIER, Francisco Cândido. Ceifa de luz. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 16, p. 70.

5. Idem - Religião dos Espíritos. Pelo Espírito Emmanuel. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Item: doenças escolhidas, p. 233 e 235.

6. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Op. Cit., questão 199, p. 184.

7. Idem - O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Cap. V, item 21, p. 131-133.

8.  Idem, ibidem, Item 16, p. 123-124.

9. Idem - O Livro dos Espíritos. Op. Cit., questão 946, p. 573.

10. Idem, ibidem, Questão 948, p. 574.

11. Idem, ibidem, Questão 957, p. 578-579.

12. Idem, ibidem, Questão 957-comentário, p. 579.

13. XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Op. Cit. Item: Suicídio, p. 181.

14. Idem, ibidem, p. 181-183.

15. XAVIER, Francisco Cândido. Vozes do grande além. Diversos Espíritos, 5 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. (Mensagem “Alcoólatra” do Espírito Joaquim Dias), p. 121-122.

16. Idem - Cap. 40 (Mensagem “Suicídio e obsessão” do Espírito Hilda), p. 163-166.

17. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Op. Cit. Cap. V, item 28, p. 144-145.

18. XAVIER, Francisco Cândido. Religião dos Espíritos. Op. Cit. Item: sofrimento e eutanásia, 87-89.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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