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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Religião à luz do Espiritismo

TOMO II — ENSINOS E PARÁBOLAS DE JESUS — PARTE I
Módulo IV — Aprendendo com as curas

 

Roteiro 1

 

O paralítico de Cafarnaum

 

Objetivo: Explicar a cura do paralítico de Cafarnaum (Mc 2:3-12), à luz da Doutrina Espírita.


 

IDEIAS PRINCIPAIS

  • O paralítico de Cafarnaum […] era um Espírito em expiação. Num corpo entrevado, resgatava os erros do passado. O sofrimento resignado lhe abrira o coração para o amor e despertara-lhe o desejo de viver nobremente. E por fim, desenvolveu em seu íntimo a fé na bondade divina. Eliseu Rigonatti: O Evangelho dos humildes. Cap. 9.

  • A afirmação de Jesus, “filho, perdoados estão os teus pecados”, (Mc 2:5) indica o término da expiação do doente, em decorrência da manifestação da lei de causa é efeito.

 


 

SUBSÍDIOS

 

1. Texto evangélico

  • E vieram ter com ele, conduzindo um paralítico, trazido por quatro. E, não podendo aproximar se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados. E estavam ali assentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seu coração, dizendo: Por que diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Por que arrazoais sobre estas coisas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralitico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer-lhe: Levanta-te, e toma o teu leito, e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, e toma o teu leito, e vai para tua casa. E levantou-se e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos. Marcos, 2:3-12.

Relata-nos o Evangelho de Marcos a curiosa decisão do paralítico que, localizando a casa em que se achava o Senhor, plenamente sitiada pela multidão, longe de perder a oportunidade, amparou-se no auxílio de amigos, deixando-se resvalar por um buraco, levado a efeito no telhado, de maneira a beneficiar-se no contato do Salvador, aproveitando fervorosamente o ensejo divino. (12)

 

A leitura atenta do relato de Marcos nos revela alguns ensinamentos que merecem ser destacados: a) o desejo de ser curado acalentado pelo paralítico; b) o dedicado apoio dos quatro amigos; c) as dificuldades que o doente e os seus amigos tiveram que enfrentar; d) a bênção da cura realizada por Jesus; e) a oportuna lição que o Mestre forneceu aos escribas em resposta à crítica que deles recebera.

A época de Jesus as curas tinham um caráter religioso ou mágico, devido ao pouco desenvolvimento da Ciência. Evoluindo esta, afastou-se radical­mente da religião por considerar as suas práticas supersticiosas. Nos dias atuais, porém, sabemos que o apoio espiritual está sendo, aos poucos, aceito pela Ciência e, em “[…] sua luta contra a doença, a medicina utiliza os mais variados procedimentos e sistemas para a recuperação da saúde e restauração do equilíbrio de um organismo doente”. (8)

Neste sentido, assinala o Espírito Bezerra de Menezes:

 

Raia uma madrugada nova em que a Ciência e a religião dão-se as mãos em benefício da criatura humana. Amanhece dia novo para a sociedade terrestre, cansada de sofrer, voltando-se para Jesus Cristo, o modelo e guia da humanidade, a fim de transformar o mundo de provas e de expiações em um planeta de regeneração. Já não é possível, postergar o surgimento desses gloriosos dias, porque o Consolador que Jesus prometeu encontra-se na Terra para arrancar, pelas raízes, os fatores que levam ao desespero e à alucinação, não apenas para enxugar as lágrimas que os olhos vertem, senão para extirpar as causas das problemáticas aflitivas da criatura humana. (5)

 

As curas realizadas por Jesus têm como base a sua poderosa vontade, suas elevadíssimas energias magnéticas e o grande amor demonstrado pelos sofredores e desvalidos de todos os tempos.

 

Como em outros casos, a um impulso de sua vontade poderosíssima, a que se mesclava grande piedade pelo sofrimento daquele homem, as disfunções orgânicas que lhe causavam a paralisia desapareceram por completo, podendo ele levantar-se de pronto e sair caminhando com desenvoltura, sem que subsistissem quaisquer resquícios da doença que até então o retinha preso no leito. (6)

 

2. Interpretação do texto evangélico

  • E vieram ter com ele, conduzindo um paralítico, trazido por quatro. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava e fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. (Mc 2:3,4).

No passado como no presente, continuam chegando até Jesus os doentes do corpo e da alma, dele recebendo o amparo para que possam suportar ou solucionar os tormentos que lhes marcam a existência.

 

O paralítico era um Espírito em expiação. Num corpo entrevado, resgatava os erros do passado. O sofrimento resignado lhe abrira o coração para o amor e despertara-lhe o desejo de viver nobremente. E por fim desenvolveu em seu íntimo a fé na bondade divina. (9)

 

A frase: “E vieram ter com ele conduzindo um paralítico, trazido por quatro”, destaca a ação caridosa de quatro amigos que, superando todos os obstáculos, chegam até Jesus. Ainda hoje, sabemos da existência de pessoas que, imbuídas de amor e solidariedade, continuam “conduzindo” ao Mestre os portadores de doenças, algumas tão graves que, à semelhança do paralítico de Cafarnaum, não podem sair em busca de auxílio, por si mesmos.

O texto evangélico mostra também que a vida na Terra se caracteriza pela presença de sofredores, de um lado, e de benfeitores, em número reduzido, de outro. Estes benfeitores, representados pelos quatro trabalhadores anônimos, formam uma pequena equipe, unindo esforços para que os obstáculos sejam vencidos, segundo os princípios da lei de cooperação. Trabalham em uníssono, sem medir sacrifícios, garantindo equilíbrio e atendimento aos que se encontram sob o jugo da dor e do desajuste, carentes de tratamento.

A expressão “e vieram ter com ele” revela que o título de benfeitor é concedido apenas aos que vivem na órbita do Cristo, que sabem conduzir os que sofrem até ele, encaminhando-os na direção do bem verdadeiro. Nem todas as pessoas conseguem, pelos próprios recursos, caminhar diretamente até o Cristo. Contam, então, com a boa vontade e a dedicação de amigos que por elas intercedem junto ao Senhor.

 

Há enfermidades que permitem a seus portadores buscar auxílio necessário por si mesmos, outras, no entanto, devido ao agravamento do estado inicial, só podem ser superadas com o auxílio de outrem. (7)

 

Entretanto, independentemente do tipo de enfermidade, o processo de cura só se concretiza com a devida superação dos obstáculos, simbolizada na palavra “multidão” existente nesta frase: “E não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão.”

Não são poucas as dificuldades que a luta renovadora oferece. Às vezes, os obstáculos se revelam como sendo intransponíveis, em razão dos bloqueios que impomos a nós mesmos quando, na busca do equilíbrio, devemos nos ajustar aos lances da cooperação fraterna ou à orientação das medidas terapêuticas. Com perseverança e confiança no amor do Cristo conseguiremos, porém, superar a “multidão” de dificuldades que surge no nosso caminho.

Existe grande distância entre a mentalidade paralisada, nos processos de reajustes e o auxílio operante do Mestre. É importante considerar que esta situação (mente paralisada versus auxílio operante) se conjuga perfeitamente, não só no plano das relações interpessoais como no íntimo de cada um. Isto acontece porque as viciações geradas pelas experiências infelizes do passado, imprimem um padrão comportamental que desencoraja o esforço de se obter a cura que, muitas vezes, deve ocorrer na forma de decisões ousadas e significativas. Na conquista deste objetivo, não se pode prescindir da vontade que alimenta pensamentos, palavras e ações edificantes, por meio dos quais angariamos forças para superar obstáculos.

O texto do evangelista Marcos informa que os amigos do paralítico não se deixaram abater quando, conduzindo o doente até Jesus, depararam com a multidão de pessoas. Usando da criatividade, abriram um buraco no telhado por onde baixaram o leito em que jazia o doente.

Extraindo o espírito da letra, podemos afirmar que em todo processo de auxílio encontraremos, de forma natural uma “multidão” de desafios. Entretanto, se existir sinceridade de propósitos, saberemos superar as dificuldades, identificando medidas alternativas. Outro ponto que merece comentário diz respeito à solução, encontrada pelos quatro amigos, para conduzirem o paralítico até onde Jesus se encontrava.

Fica evidente que para socorrer os necessitados devemos elevar o nosso padrão vibratório, afim de que sentimentos inferiores (decepção, ansiedade, angústia etc.) não invalidem as nossas ações. “Subir ao telhado” significa manter-se em sintonia elevada com os benfeitores que se encontram em Planos superiores. O buraco no telhado pode indicar uma brecha que foi aberta nos condicionamentos mentais do doente, necessária para conduzi-lo, definitivamente, a Jesus.

Esta abertura mental (no “telhado”), libera concepções cristalizadas e assegura o encontro com o Mestre, cognominado de “a luz do mundo”. Percebemos, assim, que a firme vontade do paralítico encontrou ressonância na louvável disposição dos seus amigos.

A sabedoria dos ensinos do Cristo mostra que em todo processo de cura ocorre, primeiramente, uma subida. No caso do paralítico, esta subida foi facilitada pelo auxílio dos seus quatro amigos. Quer isto dizer que é preciso o Espírito oferecer condições (vontade firme) para se libertar do seu passado de erro, claramente evidenciado na paralisia, resultante da manifestação da lei de causa e efeito.

Há, no versículo quatro, a informação de “baixaram o leito em que jazia o paralítico”. Fica claro que o trabalho dos benfeitores foi o de elevar o padrão vibratório do doente, mas como este não possuía recursos espirituais suficientes para se manter num plano de vibrações elevadas, prenderam-no ao leito e, cercando-o de cuidados, puderam levá-lo aos pés do Mestre.

O paralítico, por sua vez, posicionado no piso evolutivo que lhe era próprio, mas mantido sob assistência espiritual superior, consegue assimilar, com equilíbrio, o auxílio que lhe chega.

Vemos, então, que a renovação mental, com base nos enunciados da Boa Nova e da Doutrina Espírita, é a chave capaz de abrir esta passagem superior, de que nos fala Marcos, para que ocorra nossa “descida” no plano da cura definitiva. Subindo, captamos as vibrações do Alto, conquistáveis e aplicáveis quando se “desce” aos campos operacionais das lutas cotidianas.

 

A fim de que o operário de Jesus funcione como expressão de claridade na vida, é indispensável que se eleve ao monte de exemplificação, apesar das dificuldades da subida angustiosa, apresentando-se a todos na categoria da construção cristã. (10)

  • E Jesus, vendo-lhes a fé, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados (Mc 2:5).

Jesus atendeu o paralítico, fundamentando-se na fé revelada por este e na dos seus intercessores, manifestada em atos de coragem e de abnegação. A fé do enfermo e dos cooperadores, tendo como base a misericórdia divina, culminou em concessão de nova oportunidade para a superação de débitos contraídos em existências pretéritas. Assim, a expressão: “disse ao paralítico”, atravessa os séculos e chega ao presente, nos fazendo ponderar a respeito da força do magnetismo do Cristo que, agindo com amor e sabedoria, concede nova oportunidade àquele companheiro.

 

Muitas pessoas confessam a necessidade do Cristo, mas frequentemente alegam obstáculos que lhes impedem a sublime aproximação […]. Todavia, para que nos sintamos na vizinhança do Mestre, como legítimos interessados em seus benefícios imortais, faz-se imprescindível estender a capacidade, dilatar os recursos próprios e marchar ao encontro d’Ele, sob a luz da fé viva. (11)

 

A afirmação de Jesus ao paralítico: “Filho, perdoados estão os teus pecados…” expressa que ele, o Cristo, estava ciente do novo estado de alma do enfermo. “Filho” é expressão carinhosa aplicada ao homem renovado pelas provações, mas capaz de refletir os ensinamentos de Jesus nas suas ações e exemplificações no bem. Sabe este que pela sua atividade no bem, pode provocar efetiva mudança de comportamento, desvinculando-se dos fulcros de sofrimento que o mantém prisioneiro na esteira das vibrações cármicas. Neste sentido, o perdão só pode ser decretado quando se conhece a extensão das causas e dos efeitos, dos agravantes e dos atenuantes que marcam o processo evolutivo de cada pessoa. A este respeito, informam os Espíritos superiores que o perdão é medida de inteligência e bom senso que nos desoneram de vinculações complexas e indesejáveis.

Allan Kardec nos dá uma explicação clara do significado das palavras do Cristo “perdoados estão os teus pecados”.

 

Por meio da pluralidade das existências, ele [o Espiritismo] ensina que os males e aflições da vida são muitas vezes expiações do passado, bem como que sofremos na vida presente as consequências das faltas que cometemos em existência anterior e, assim, até que tenhamos pago a dívida de nossas imperfeições, pois que as existências são solidárias umas com as outras. Se, portanto, a enfermidade daquele homem era uma expiação do mal que ele praticara, o dizer-lhe Jesus: Teus pecados te são redimidos equivalia a dizer-lhe: pagaste a tua dívida; a fé que agora possuis elidiu a causa da tua enfermidade; conseguintemente, mereces ficar livre dela. (3)

  • E estavam ali assentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seu coração, dizendo: Por que diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? (Mc 2:6,7)

Quem se dedica ao esforço de superação das próprias imperfeições, se defronta com as reações voltadas contra os propósitos de melhoria. Tais reações caracterizam os interesses imediatistas, as tradições ou o apego, simbolizadas nos “escribas assentados”, citados no texto.

Sabemos que não é fácil desativar tais elementos, muitos dos quais já fixaram moradia em nossa mente, ao longo dos séculos. Acrescentamos que as manifestações de desânimo, de rebeldia e de resistência às mudanças também nos mantém acomodados, realizando observações interesseiras ou fomentando intolerâncias. Esse estado de acomodação representa outra forma de imobilidade, além da física, observada no paralítico. Os outros, os “escribas assentados”, ainda que parcialmente imobilizados pela vida que levavam ou pelas aquisições que possuíam, poderiam ainda fazer escolhas mais acertadas, abrindo o templo da alma a uma melhor compreensão da vida, pelo culto do bem e do amor, favorecido pelo trabalho regenerador.

Vemos, de um lado, Jesus conclamando a criatura ao serviço de melhoria espiritual, do outro, as insinuações da própria inferioridade moral plantadas e arraigadas no psiquismo, expressas no “arrazoavam entre si”. A discussão era uma tentativa de abafar os propósitos de edificação espiritual que o Cristo lhes disponibilizava naquele momento. Este raciocínio se confirma na seguinte indagação, proferida pelos escribas: “Por que diz este assim blasfêmias?” Incapazes de atentar para os mais elevados valores espirituais, adotam atitudes próprias de Espíritos cristalizados em ideias, atitudes e convenções mundanas, desprezando a mais bela expressão do amor que, misericordiosamente, lhes oferecia o Cristo.

Ignorando tal bênção, faz-se logo presente, em consequência, a pressão do homem velho, inconformado e desinformado, mas que se insurge contra a legitimidade dos valores nobres, perguntando: “Quem pode perdoar pecados, senão Deus?” Esta indagação revela que os escribas estavam fechados ao entendimento espiritual. Na verdade, é justo admitir, as perguntas proferidas por eles podem também ser indicativas de dúvidas.

Acreditamos que a presença de Jesus no templo, acompanhado da multidão, e os esforços do paralítico e dos seus abençoados intercessores, causaram algum impacto naqueles cultores das leis moisaicas, caso contrário eles não teriam proferido as perguntas. É oportuno observar que, da mesma forma que o doente se apoiou nos amigos para colocá-lo no caminho da cura, os escribas se apoiaram, mutuamente, para neutralizar o esforço de mudança suscitado pelas palavras do Cristo, preferindo continuar presos à interpretação literal dos ensinamentos da Lei de Moisés.

De certa forma, esta atitude encontra respaldo no tipo de trabalho executado pelos escribas.

 

Nome dado, a princípio, aos secretários dos reis de Judá e a certos intendentes dos exércitos judeus. Mais tarde, foi aplicado especialmente aos doutores que ensinavam a lei de Moisés e as interpretavam para o povo. Faziam causa comum com os fariseus, de cujos princípios partilhavam, bem como da antipatia que aqueles votavam aos inovadores. Daí o envolvê-los Jesus nas reprovações que lançava aos fariseus. (1)

  • E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Por que arrazoais sobre estas coisas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer-lhe: levanta-te, e toma o teu leito, e anda? (Mc 2:8,9)

Apesar da ressonância que as palavras de Jesus “amar a Deus e ao próximo como a si mesmo” provocam em nossa consciência, preferimos, em geral, o “arrazoado” das palavras vãs que abordam os problemas da lei e das tradições, e que nos mantém desinteressados de conquistas subli­mes. Jesus, o Mestre por excelência, lê com clareza o pensamento dos escribas, daí ter-lhes perguntado: “Por que arrazoais estas coisas em vossos corações?”

Este tipo de indagação pode, perfeitamente, nos ser encaminhada nos dias atuais. Se encorajados pelas tarefas de superação das próprias imperfeições — representadas nas expressivas oportunidades de melhoria espiritual — permitimos que longos diálogos e deduções interfiram na tarefa, revelamos, na verdade, que ainda nos encontramos presos a conceitos errôneos e a pontos-de-vista, capazes de estiolarem as mais puras e esperançosas sementes de renovação.

O desconhecimento dos mecanismos que regem a manifestação da lei de causa e efeito, por parte dos escribas, permitiu que Jesus lhes perguntasse: “Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer-lhe: levanta-te e toma o teu leito e anda?”

Sabemos que a cura foi efetivada porque Jesus percebeu que o tempo de expiação da doença tinha chegado ao fim. “Estão perdoados os teus pecados” indica também que as causas geradoras da paralisia deixavam de existir, a partir daquele momento, e que a expiação chegava ao seu término. As verdades espíritas nos orientam que nada acontece por acaso e que um axioma governa nossa existência: todo efeito tem uma causa geradora.

 

Ora, ao efeito precede sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Por outro lado, não podendo Deus punir alguém pelo bem que fez, nem pelo mal que não fez, se somos punidos, é que fizemos o mal; se esse mal não o fizemos na presente vida, tê-lo-emos feito noutra. É uma alternativa a que ninguém pode fugir e em que a lógica decide de que parte se acha a justiça de Deus. O homem, pois, nem sempre é punido, ou punido completamente, na sua existência atual; mas não escapa nunca às consequências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea; se ele não expiar hoje, expiará amanhã, ao passo que aquele que sofre está expiando o seu passado. O infortúnio que, à primeira vista, parece imerecido tem a sua razão de ser, e aquele que se em encontra em sofrimento pode sempre dizer: perdoa-me, Senhor, porque pequei. (2)

 

O espírita sabe, pois, que o seu comportamento será sempre atestado pelas ações que desenvolve e, de modo mais autêntico, pelos esforços que emprega no sentido de domar as suas más inclinações. Exercitando a lógica (razão) e o bom senso, fundamentados na fé raciocinada, verificamos que os ensinos de Jesus nos conduzem a questionamentos sobre o nosso próprio comportamento.

O Espiritismo nos estimula responder: “que”, “porque”, “qual”, “quem”, “onde” etc., necessários à análise, comparação e comprovação dos fatos. Sendo assim, a ideia da reen­carnação explica como e porque o enfermo adquiriu a paralisia, e como fazer para dela se libertar. Não é a reencarnação o ensejo de reconstrução do passado delituoso, um verdadeiro perdão de Deus? Entregar-se ao trabalho, dedicar-se ao próximo, amar e compreender, não tangem a mente como auspicioso ensejo de liquidação dos débitos escabrosos, acumulados no decorrer dos séculos?

Perdoando os pecados cometidos pelo paralítico ou, simplesmente, dizendo-lhe: “Levanta-te, e toma o teu leito, e anda”, Jesus nos faz lembrar questões relativas ao livre-arbítrio, à lei de causa e efeito, ao arrependimento, às provas e expiações, à reencarnação, ao trabalho de melhoria espiritual, às manifestações de solidariedade, à misericórdia e à reparação de faltas cometidas, dentre outras.

A expressão imperativa: “Levanta-te” está carregada de grande magnetismo e determinação. A partir daquele momento não existe mais um paralítico e, sim, um Espírito que deve adotar nova atitude, dispor-se ao labor, não esquecendo, no entanto, de que carrega consigo resíduos ou reflexos de uma experiência menos feliz, vivida anteriormente.

A palavra “leito”, inserida na interrogação “e toma o teu leito, e anda?”, revelam que é importante transportarmos, com humildade, as experiências vivenciadas e as lições aprendidas, até que esse “leito” não seja mais necessário à nossa vida.

  • Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, e toma o teu leito, e vai para tua casa. E levantou-se e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos. (Mc 2:10-12)

Recordemos que, antes de o enfermo ser colocado à frente de Jesus, ele se encontrava “paralítico” “deitado”, preso num leito. Agora, porém, após a cura operada pelo Mestre, a situação é outra: ve­mos o beneficiário “andando”, isto é, empreendendo a caminhada em direção ao seu glorioso porvir. Vemos, também, a manifestação de um dos mais sublimes mecanismos de reparação da justiça divina: o perdão. A paralisia simboliza, ao mesmo tempo, o autoperdão (expiação aceita e a busca para remediá-la) e perdão de Deus (chance de reparação de erros em nova experiência reencarnatória). O perdão e a misericórdia divinos, em sua sublimidade, não tiram da criatura o mérito da própria reabilitação, mas se revelam como fator de aprendizado, os quais, registrados na memória do Espírito, servirão de base para as suas novas conquistas evolutivas.

“Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados”, é uma frase que determina a importância de estarmos conscientes (“para que saibais”) de ser o Cristo o guia e modelo da Humanidade terrestre.

 

Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava. (4)

 

Conhecedor das deficiências do homem, o Mestre visita o “orbe de sombras”, e, descendo de sua culminância espiritual, sem medir esforços e sacrifícios, aporta no campo do aprendizado terrestre para que “saibamos” a extensão da grandeza e da misericórdia do Criador. Como construtor e diretor do Planeta, identificado como “Filho do Homem”, ele nos revela a Lei de Amor. Mostra, também, que como guia e modelo o “Filho do Homem” é o que está à frente, imagem representativa da espécie humana do futuro, cujo conhecimento e identificação com o Pai será atingida e sentida pela Humanidade.

É digna de nota a frase: “a ti te digo: Levanta-te”. A despeito desta citação evangélica revelar um comando de ordem pessoal dirigido, na ocasião, ao paralítico, ela também nos atinge.

Jesus se dirigiu, diretamente, ao paralítico falando: “a ti te digo”, firmando o propósito de conduzi-lo a um processo de análise mais profunda e que, perpassando os séculos, são captados pelos nossos olhos e ouvidos.

A autoridade do Mestre se evidencia na sua palavra e no exemplo. Esta é a fórmula que devemos aplicar em todo processo de melhoria espiritual. Quando Jesus determina: “toma o teu leito, e vai para tua casa”, expressa orientação segura, como se ele dissesse ao doente: “aproveita o instrumento de expiação que a reencarnação concedeu, aqui simbolicamente representado pelo leito, e continua no teu progresso espiritual (“vai para casa”).”

Ao final do relato da história do paralítico de Cafarnaum, o evangelista Marcos registra: “E, levantou-se, e, tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos”.

Há dois fatos que merecem ser destacados: o primeiro diz respeito à cura do paralítico, manifestada nas afirmativas “levantou-se”, “tomando logo o leito” e “saiu em presença de todos”. O segundo está relacionado à “admiração” que a cura provocou aos circunstantes. A atitude do enfermo que, após ouvir Jesus, levantou-se, pegou o leito e saiu, revela o processo educativo estabelecido pela evolução: quando o aprendizado é efetivo (ouvir Jesus) existe a indicação de que a lição (expiação ou provação) não só foi aprendida como também impul­sionou a pessoa a partir para novas conquistas (“levantou-se”). A postura do enfermo de Cafarnaum mostra, igualmente, que Jesus o deixou livre para agir por si mesmo, conferindo-lhe a disposição de caminhar e conduzir, consigo, o instrumento de provação (“o leito”), onde se recolhera por algum tempo.

A “admiração” de todos indica que, de certa forma, a multidão que cercava Jesus aprendeu alguma coisa. O ensino verdadeiro sempre provoca este tipo de reação. Entretanto, o nível de aprendizado é variável: em uns causará apenas a admiração, propriamente dita, em outros provocará reflexão e noutros, finalmente, resultará em transformação espiritual. De qualquer forma, porém, a lição fundamentada no bem deixa marcas eternas, e, por provocar “admiração” se transforma em um exemplo (“nunca tal vimos”) que poderá ser seguido por todos, no momento oportuno.

 

 

 

 

ORIENTAÇÕES AO MONITOR: Pedir aos os participantes que se reúnam em grupos, realizem o exercício indicado em seguida, e, em plenária, promovam um debate relacionado ás conclusões do trabalho em grupo.

 

EXERCÍCIO

  • Analisar o papel dos quatro amigos no processo de cura do paralítico, assim como a fé por este demonstrada.

  • Explicar, à luz do entendimento espírita, o que significam estas palavras de Jesus: “Filho, perdoados estão os teus pecados.”

  • Responder à pergunta, justificando-a: Por que Jesus “tem na Terra poder para perdoar pecados”?

  • Extrair do texto novas lições e reflexões.

 


Referências:

1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Introdução, item: Escribas, p. 37.

2. Idem - Cap. 5, item 6, p. 101-102.

3. Idem - A gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 48. ed. Rio de janeiro: FEB, 2005. Cap. 15, item 15, p. 318.

4. Idem - O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005, questão 25, p. 308.

5. ASSOCIAÇÃO MÉDICO-ESPÍRITA DE MINAS GERAIS. Das patologias aos transtornos mentais. 1. ed. Belo-Horizonte: INEDE. Prefácio, p. 11.

6. CALLIGARIS, Rodolfo. Páginas de espiritismo cristão. 5. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001, cap. 47 (O paralítico de Cafarnaum), p. 151.

7. FAJARDO, Cláudio. Jesus terapeuta. EDIAME. Belo Horizonte: 2002, cap. 9 (Cura de um paralítico), p. 227.

8. MARTIN CLARET. A essência das terapias. l. ed. São Paulo: Martin Claret, 2002. Item: Terapêutica, p. 10.

9. RIGONATTI, Eliseu. O Evangelho dos humildes. 15.ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2003, cap. 9 (O paralítico de Cafarnaum), p. 72.

10. XAVIER. Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 76 (Edificações), p. 168.

11. Idem - Cap. 118 (O paralítico), p. 251.

12. Idem, ibidem - p. 251-252.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.