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Revista espírita — Ano II — Agosto de 1859 ©

(Édition Française)

 

Mobiliário de além-túmulo

 

  • 1. Aparições:

      Do homem que fumando um grande cachimbo enchia o quarto de fumaça.

      Do Espírito de um homem vivo que portava uma tabaqueira de rapé.

  • 2. Relembrando a teoria das aparições.
  • 3. Objetos nas aparições dos Espíritos: Que são esses objetos?

      Espiritismo, uma ciência de observação e raciocínio.

  • 4. São Luís responde às seguintes perguntas respeito à produção pelos Espíritos dos objetos visíveis nas aparições.

      No relato da Sra. R…, trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?  (1)

      A Sra. R… cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo?  (2)

      Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição?  (3)

      Após uma observação do Sr. Sanson à pergunta n.° 4 Kardec indaga: Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?  (4)

      Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duelo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?  (5)

      Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?  (6)

      Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, joias, etc. Será assim?  (7)

      A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela?  (8)

      Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira? Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar?  (9-10)

      Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais?  (11)

      Suponhamos, então, que quisesse fazer uma substância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?  (12)

      Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes?  (13)

      Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado?  (14)

      Obs. de Allan Kardec ao problema da saciedade pelas substâncias alimentares eventualmente criadas pelos Espíritos.

      Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas?  (15)

      Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade?  (16)

      Perguntas relativas ao poder dos Espíritos para a manipulação dos fluidos.  (17 a 19)

      A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu? Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir?  (20-21)

      É possível que dois Espíritos se reconheçam pela aparência material que possuíam em vida? Como podem os Espíritos reconhecer-se em meio a uma multidão de outros Espíritos, e, sobretudo, como podem fazê-lo quando um deles vai procurar longe, e frequentemente em outros mundos, aqueles que o chamam?  (23-24)

      Desde que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais para fazer todas as coisas, e com suas propriedades dar a elas uma realidade temporária, pode perfeitamente extrair o que lhe seja necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dará a chave do fenômeno da escrita direta?  (25)

      Se a matéria de que se serve o Espírito não tem persistência, como não desaparecem os traços da escrita direta?  (26)

  • 5. Resumo da teoria da formação de objetos pelos Espíritos.

 


 

1. — Extraímos a seguinte passagem de uma carta que um dos correspondentes do Departamento do Jura W enviou à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

“ (…) Como já vos tinha dito, senhor, os Espíritos gostavam da nossa velha habitação. No mês de outubro passado (1858), a senhora Condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nossa mansão, acompanhada do filhinho de oito anos. O menino dormia no mesmo apartamento que a mãe. A fim de que ele e minha filha pudessem prolongar as horas do dia e da conversa, a porta comum que comunicava seus quartos ficava aberta. O garoto não dormia e dizia à sua mãe: “O que a senhora fará com esse homem que está sentado junto à sua cama? Ele fuma um grande cachimbo. W Veja como enche o quarto de fumaça; mandai-o embora; ele sacode as cortinas.” Tal visão durou a noite inteira. A mãe não conseguiu fazer a criança calar e ninguém pôde pregar os olhos. Essa circunstância não surpreendeu a mim nem à minha filha, pois sabemos que há manifestações espíritas. Quanto à mãe, imaginou que o filho sonhava acordado ou se divertia.

“Eis um outro fato pessoal que comigo aconteceu no mesmo aposento, em maio de 1858. É a aparição do Espírito de uma pessoa viva que ficou muito admirada por ter vindo me visitar. Eis as circunstâncias: Eu estava muito doente e há tempos não dormia, quando vi, às dez horas da noite, um amigo da família sentado perto de meu leito. Manifestei-lhe minha surpresa por sua visita àquela hora. Disse-me ele: “Não falai; venho velá-la; não falai; é preciso dormir.” E estendeu a mão sobre a minha cabeça. Abri os olhos várias vezes para saber se ele ainda estava lá, e de cada vez me fazia sinal para os fechar e calar-me. Ele girava uma caixa de rapé W entre os dedos e, de quando em quando, tomava uma pitada, como o fazia costumeiramente. Por fim adormeci e, ao despertar, a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me provaram que no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente acordada, e que aquilo não era um sonho. Quando de fato me visitou pela primeira vez apressei-me em agradecer-lhe. Trazia a mesma caixa de rapé e, ao escutar-me, estampava o mesmo sorriso de bondade que eu notara quando me velava. Como me garantiu não ter vindo, o que aliás não me foi difícil acreditar, porquanto não teria havido nenhum motivo que o impelisse a vir a tal hora passar a noite junto a mim, compreendi que apenas o seu Espírito tinha vindo visitar-me, enquanto seu corpo repousava tranquilamente em sua casa.”  n 

 

2. — Os fatos de aparição são tão numerosos que seria impossível registrar todos aqueles que são do nosso conhecimento ou que foram obtidos de fontes perfeitamente autênticas. Aliás, hoje que os fatos estão explicados, e que nos damos conta exatamente da maneira por que são produzidos, sabemos que pertencem às leis da Natureza e, portanto, nada têm de maravilhoso. Como já demos a sua teoria completa [Teoria das manifestações físicas], apenas a recordaremos, em poucas palavras, para a desejável compreensão do que se segue.

Além do envoltório corporal, exterior, sabemos que o Espírito possui um outro, semimaterial, a que chamamos perispírito. A morte nada mais é do que a destruição do primeiro. Em seu estado errante o Espírito conserva o perispírito, que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós em seu estado normal. Os Espíritos povoam o espaço e, se num determinado momento, o véu que no-los oculta fosse levantado, veríamos uma imensa população agitar-se à nossa volta e percorrer os ares. Temo-los constantemente ao nosso lado, observando-nos e, muitas vezes, associando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, conforme o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; muitas vezes eles se nos mostram sob a aparência que tinham em vida, e não são poucas as pessoas que, rebuscando as lembranças, não se recordem de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é bastante familiar: a do vapor que, quando muito rarefeito, é completamente invisível. Um primeiro grau de condensação o torna nebuloso; cada vez mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Algo semelhante se opera pela vontade dos Espíritos na substância do perispírito; como já dissemos, pretendemos estabelecer apenas uma comparação, e não uma assimilação. Servimo-nos do exemplo do vapor para mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, não se devendo concluir, por isso, que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra. Opera-se na sua contextura uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, podendo dar-lhe, até certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos.

Sabemos que os corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de outro corpo igualmente transparente, mas não sabemos bem como fazem os Espíritos para tornar visível o seu corpo etéreo. A maior parte deles não chega mesmo a dar-se conta disso, embora, pelos exemplos citados, compreendamos a sua possibilidade física, o que é suficiente para tirar do fenômeno aquilo que, à primeira vista, poderia parecer sobrenatural. Pode, pois, o Espírito operar, quer por simples modificação íntima, quer assimilando uma porção de fluido estranho que altera momentaneamente o aspecto de seu perispírito. É mesmo esta última hipótese que ressalta das explicações que nos têm sido dadas e que relatamos ao tratar do assunto (maio, junho e dezembro). [Teoria das manifestações físicas e Aparições]

 

3. — Até aí não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, no entanto, que eles se apresentam com vestimentas cujo aspecto mudam à vontade; muitas vezes até possuem certos acessórios de toalete, joias, etc. Nas duas aparições que citamos no início, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra possuía uma caixa de rapé e tomava pitadas; e notai bem o fato de que este Espírito pertencia a uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que ficara em sua casa. O que significaria essa caixa de rapé, esse cachimbo, essas vestimentas e essas joias? Teriam os objetos materiais terrenos uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos? Eis aí um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até então inexplicadas; e é essa tabaqueira que nos põe no caminho, não apenas desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos logo em seguida.

Se alguns críticos ainda nos censuram pelo fato de estarmos avançando muito na teoria, responderemos que não vemos razão alguma para nos manter na retaguarda quando encontramos uma oportunidade para avançar. Se ainda estão se distraindo com as mesas girantes, sem saber por que giram, não é motivo para nos determos no caminho. O Espiritismo, sem dúvida, é uma ciência de observação, mas talvez ainda seja mais uma ciência de raciocínio; e o raciocínio é o único meio de fazê-lo progredir e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente por que não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso, fazendo-o entrar nas leis gerais da Natureza. Eis por que vemos diariamente pessoas que nunca viram e creram, simplesmente porque compreenderam, enquanto outras viram e não creem, porque não compreendem. Fazendo entrar o Espiritismo no caminho do raciocínio, nós o tornamos aceitável para aqueles que querem conhecer o porquê e o como de todas as coisas; e o número destes é grande neste século, pois a crença cega já não faz parte dos costumes. Ora, se não tivéssemos senão indicado a rota já teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta nova ciência, objeto de nossos constantes estudos. Mas voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que apresentamos, relativamente ao Espiritismo, foram dadas pelos Espíritos, muitas vezes contrariando as nossas próprias ideias, como aconteceu no caso presente, provando que as respostas não eram o reflexo de nosso pensamento. Mas a maneira de obter-se uma solução não é coisa de somenos importância. Sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para a obtermos; nem sempre as respostas são suficientemente explícitas; é necessário desenvolver o assunto com certa precaução, chegar ao fim gradativamente e por um encadeamento de deduções, que exigem um trabalho prévio. Em princípio, a maneira de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não devem ser negligenciadas e que agradam aos Espíritos sérios, porque veem nisso um sério objetivo.

 

4. — Eis a conversa que tivemos com o Espírito de São Luís, a propósito da tabaqueira, com vistas à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível. (Sociedade, 24 de junho de 1859):

 

1. No relato da Sra. R…, trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?

Resp. – Uma aparência, produzida para o garoto.

 

2. A Sra. R… cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo?

Resp. – Não.

 

3. Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição?

Resp. – Sempre aparência. Era para que a circunstância fosse notada, como realmente foi, e não tomassem a aparição por uma alucinação devida ao estado de saúde da vidente. O Espírito queria que a senhora em questão acreditasse na realidade da sua presença e, para isso, tomou todas as aparências da realidade.

 

4. Dizes que é uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.

 

(O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida no espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas se fosse projetada sobre uma chapa do daguerreótipo  n  deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica).

 

A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa. Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?

Resp. – Certamente. É com o auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.

 

Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixava ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material.

Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos. Interpretando-as de acordo com as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambiguidade. É essa uma observação que os Espíritos constantemente nos fazem. Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa.

 

5. Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duelo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?

 

Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou,  porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos.

 

Resp. – Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.

 

6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?

Resp. – Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?

 

7. Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, joias, etc. Será assim?

Resp. – Mas, evidentemente.

 

8. A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela?

Resp. – Teria.

 

9. Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira?

Resp. – Sim. [Atenção às questões n.° 2, 3, 8, 9, 10, 11 e 22]

 

10. Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar?

Resp. – Sem dúvida.

 

11. Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais?

Resp. – Se o quiser. Baseado neste princípio foi que respondi afirmativamente às perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, ação que estais longe de suspeitar, como eu disse há pouco.

 

12. Suponhamos, então, que quisesse fazer uma substância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?

Resp. – Teria podido, mas não faria, por não lhe ser isso permitido

.

 

13. Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes?

Resp. – Já, muitas vezes.

 

Observação – Encontramos um fato semelhante, acompanhado de interessante explicação teórica, no artigo que damos a seguir, sob o título Um Espírito serviçal.

 

14. Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado?

Resp. – Ficaria, sim; mas, não procureis tanto para achar o que é tão fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço onde viveis. Não sabeis que o ar contém vapores d'água? Condensai-os e os fareis voltar ao estado normal. Privai-as de calor e eis que essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido e bem sólido; e, assim, muitas outras substâncias de que os químicos tirarão maravilhas ainda mais espantosas. Simplesmente, o Espírito dispõe de instrumentos mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus.

 

Observação – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode produzir a saciedade uma substância cuja existência e propriedades são meramente temporárias e, de certo modo, convencionais? O que se dá é que essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade que resulta da plenitude. Desde que uma substância dessa natureza pode atuar sobre a economia [o organismo] e modificar um estado mórbido, também pode, perfeitamente, atuar sobre o estômago e produzir a impressão da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmacêuticos e inventores de reconstituintes que não se encham de zelos, nem creiam que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo, toda gente se alimentaria e curaria a preço baratíssimo.

 

15. Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas?

Resp. – Pela mesma razão.

 

16. Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade?

Resp. – Isso poderia dar-se, mas não acontece. Está fora das leis.

 

17. Têm todos os Espíritos, no mesmo grau, esse poder?

Resp. – Não, não!

 

18. Quais são os que têm mais particularmente esse poder?

Resp. – Aqueles a quem Deus concede, quando isso é útil.

 

19. A elevação do Espírito tem alguma utilidade?

Resp. – Por certo; quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder; mas isso ainda depende das circunstâncias: Espíritos inferiores também podem ter esse poder.

 

20. A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu?

Resp. – Ele o exerce frequentemente, mesmo sem o saber.

 

21. Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir?

Resp. – Certamente, embora muitas vezes ele próprio o ignore. Então, outro o exerce por ele, mau grado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem espirituosa. [v. as perguntas 43 e 44 no artigo: O zuavo de Magenta]

 

Observação – Encontramos uma comparação desta faculdade na de certos animais – o peixe-elétrico, por exemplo  n  – que emite eletricidade sem saber o que faz, nem como isso se dá e, menos ainda, sem conhecer o mecanismo que a põe em ação. Frequentemente nós mesmos não produzimos certos efeitos por atos espontâneos, dos quais não nos damos conta? – Parece-nos, portanto, muito natural que o Espírito possa agir nesta circunstância por uma espécie de instinto. Ele produz por sua vontade, sem saber como, assim como andamos sem calcular as forças que estão em jogo.

 

22. Nos dois casos citados pela Sra. R…, compreendemos que um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma caixa de rapé, para ferir os olhos de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se o Espírito poderia pensar que possuía esses objetos, caso não tivesse chegado a fazê-la ver, criando, assim, uma ilusão para si mesmo.

Resp. – Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque tem perfeita consciência de sua condição. Outro tanto não se dá com os Espíritos inferiores.

 

Observação – Tal era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação está relatada em nosso número de março de 1858 e que ainda se julgava coberta de diamantes.

 

23. É possível que dois Espíritos se reconheçam pela aparência material que possuíam em vida?

Resp. – Não é por esse meio que eles se reconhecem, porque não tomarão essa aparência um para o outro. Entretanto, se em certas circunstâncias se acharem em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?

 

24. Como podem os Espíritos reconhecer-se em meio a uma multidão de outros Espíritos, e, sobretudo, como podem fazê-lo quando um deles vai procurar longe, e frequentemente em outros mundos, aqueles que o chamam?

Resp. – Isto é um problema cuja solução demandaria muito tempo; é preciso esperar. Não estais suficientemente adiantados. Contentai-vos, no momento, com a certeza de que assim o é, pois tendes provas suficientes.

 

25. Desde que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais para fazer todas as coisas, e com suas propriedades dar a elas uma realidade temporária, pode perfeitamente extrair o que lhe seja necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dará a chave do fenômeno da escrita direta?

Resp. – Finalmente compreendestes.

 

26. Se a matéria de que se serve o Espírito não tem persistência, como não desaparecem os traços da escrita direta?

Resp. – Não julgueis ao pé da letra; desde o início eu não disse jamais; tratava-se de um objeto material volumoso; aqui são sinais grafados que convém conservar e são conservados.

 

5. — A teoria acima pode ser resumida desta maneira: o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos necessários para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas vivas, podem apresentar todas as aparências da realidade, isto é, tornarem-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação; porém, não criação, considerando que, do nada, o Espírito nada pode tirar.  n 

 


[1] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VII – item 116.

 

[2] [No original “torpille”, Torpedo — Família de peixes Torpedinidae que inclui entre outros o Torpedo fuscomaculata e o Torpedo sinuspersici. Vide também: Organe électrique de la torpille] (Links externos)

 

[3] N. do T.: Vide O Livro dor Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VIII.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.