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1 — “Dom Ramon, tenho fome e a noite me apavora!…”
Ante o pobre a chorar, Dom Ramon diz, mordente:
— “Não abro meu solar à penúria insolente,
Nem dou pão a ninguém!… Malandro, caia fora!…”
2 O fidalgo era assim orgulhoso e inclemente…
Um dia, a Morte veio e lhe faz ver a hora.
Dom Ramon esperneia, acusa, grita, chora,
Mas a Morte o carrega em funeral luzente…
3 Acordando, no Além, nas trevas da avareza,
Pede provas de fel, quer vida de pobreza,
Sem privilégio algum dos recursos de outrora!…
4 Renasce e, certa noite, em triste cor de cera,
Grita, junto ao solar que já lhe pertencera:
— “Socorro!… Tenho fome e a noite me apavora!…”
Valentim Magalhães
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