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Momento da morte (IV)

(Momento da morte I - II - III - IV - V)

 

 

TEMAS CORRELATOS
(Catalepsia) (Céu, inferno e purgatório) (Desencarnação) (Entes queridos desencarnados) (Erraticidade) (Eutanásia) (Fatalidade) (Finados) (Funeral) (Letargia) (Morte) (Morte e desencarnação) (Plano Espiritual) (Pranto) (Sepulcro) (Suicídio) (Sobrevivência) (Vida) (Vida espiritual)
 
LEIA NESSES DEPOIMENTOS
as passagens onde os comunicantes relataram a seus familiares encarnados
O QUE SENTIRAM NO MOMENTO DA MORTE
(Obs. As mortes por SUICÍDIO não constam dos depoimentos abaixo)
  1. Estou recordando, era domingo, conversávamos, quando uma dor aguda, seguida de asfixia invencível, roubou-me todas as energias. Quis falar, conversar ainda… Entretanto, a força que me subjugava era vigorosa demais, e não pude senão silenciar. Num retrospecto que não sei descrever, vi toda a nossa vida em comum, como se um caleidoscópio me fizesse contemplar as nossas experiências… Por fim me vi criança e dormi, mas dormi sob a imposição de um sono que não consegui dominar. Creia que Deus e você eram as ideias que tentava reter comigo; no entanto, tive que me render àquela indução, ao aniquilamento que me invadia de assalto. Quanto tempo gastei nessa luta comigo própria, tentando raciocinar sem qualquer possibilidades de autocontrole, por enquanto não sei dizer… Acordei num quarto de hospital, arejado e reconfortante, ainda na suposição de que me achava em algum recanto de recuperação e repouso a esperá-lo. Entretanto, a querida mãe Joanina, com a mãezinha Vicentina me aparecem quando as indagações me escaldavam a cabeça, e foi com muita dificuldade e muita lágrima que veio a tomada de consciência do ocorrido. — Conceição (Qs 5.2-7)

  2. O problema seria muito penoso se eu ficasse aí no mundo, e devemos render graças a Deus porque tudo se processou em harmonia, com a proteção de Jesus. A princípio, não conseguia falar, mas ouvia as vozes do hospital, sem que as identificasse e registrava o toque dos instrumentos de observação e de exame. Depois, foi o sono cuja duração ainda não concebo; acordei em outra casa de tratamento e a vó Josefina com a tia Clarice estavam ao meu lado. — Josefina (Qs 6.7-9)

  3. Creia que o Waldir tudo fez para que pudéssemos fugir ao caminhão enorme que se abeirava de nós. Acredito que a senhora terá sabido que até mesmo nos retiramos da estrada para o chão que a marginalizava, ignorando a que perigo nos expúnhamos, entretanto, a grande máquina parecia visar-nos. (…) Entendo, como sempre reconheci, que, no trânsito, as falhas de alguém poderiam ser nossas e que ninguém terá conscientemente motivos para condenar alguém, quando acidentes ocorrem, posso dizer-lhes, porém, que todos os movimentos de fuga manobrados por Waldir pareciam seguidos pela máquina enorme, até que fomos esmagados. De momento, não tive muita certeza do que acontecia. Pensava nas crianças. Acredito que cheguei a gritar e a chamar por Deus, mas tudo foi questão de um pedacinho de minuto. Ana Paula, Alessandra e o resto desapareceu de meus olhos. Não mais vi o esposo, porque uma energia esquisita me selou as pálpebras para um sono que não poderia evitar. Foi um sono indescritível, porque me vi, como num pesadelo, arrastada para fora de um turbilhão de destroços e acomodada em grande maca, na ideia de que continuava em meu corpo físico, a caminho de um hospital. Por mais estranho que possa parecer, o meu pesadelo-realidade era feito de impressões e dores condicionadas de um parto prematuro. Achava-me dopada por medicamentos ou forças que até hoje não sei explicar, e senti perfeitamente que uma cesariana se processava. Sentia-me fora do desastre, entre o reconforto de ser mãe novamente e a dor da dúvida sobre o Waldir e sobre as crianças que ficavam na retaguarda. Depois disso, veio o sono de verdade, do qual acordei perplexa, perguntando pelos meus. A criança repousava junto de mim. O aspecto do quarto que me abrigava era idêntico ao de uma enfermaria espaçosa e arejada, que se reservasse apenas para o meu problema. Chorei e implorei pela vinda do Waldir e da senhora, até que alguém se aproximou de mim e falou-me com carinho de toda a extensão da ocorrência, esclarecendo-me que em meu caso a criança em Espírito já se achava perfeitamente formada e que não poderíamos exigir uma eliminação sumária do companheirinho a nascer. O espanto me tomou de todo o coração. Quem me falava era a bisavó Carolina, a quem devo hoje o carinho que devia tão somente à senhora, e os dias se passaram vagarosamente. Estava morta e vivia. Morta para as realizações em que estivera, e viva para o sofrimento que não conseguia dissimular. (…) Melhorei de algum modo ao reencontrar o Waldir e as crianças em outro setor hospitalar, e creio que o restante do que lhe poderia contar o seu coração materno adivinha. (…)  Chamo Júnior o caçula que se me desagarrou do seio aqui na vida espiritual. — Maria das Graças (Qs 6.2:4-23)

  4. É com muita gratidão a Deus que lhes venho dizer que prossigo sempre a mesma, inacessível à morte que se me pretendia impor. Lembro-me de tudo. O sábado amanhecera alegre. Um descanso e um passeio. Achava-me sem qualquer ideia reprovável junto a pessoas amigas, na Exposição, quando descobri o Vinícius a me fitar, com a expressão de doente… Mamãe Marli, se lhes posso pedir alguma cousa além da vida e da felicidade que me proporcionaram, desculpem o nosso amigo e esqueçam o acontecido… Ele não sabia o que estava fazendo. Notei, sem a menor possibilidade de imobilizar-lhe as mãos, que ele apertava o gatilho… O projétil me alcançou à maneira do raio que, na tempestade, ao que suponho, desce sobre uma pessoa claramente despreocupada quanto à agressão da morte. Ouvi os gritos de muitos amigos, as exclamações de lástima que se pronunciavam, entretanto, a minha voz se apagara, gestos não conseguia ensaiar nem de leve e, por dentro de mim, com as lembranças da família querida, estava simplesmente a oração que não sabia articular, mas que partia de mim na forma de sentimentos. Ali mesmo, pedi perdão para mim e para o amigo que me alvejara e que a fé cristã me determinava receber por irmão. Por fim, foi um sono tranquilo a que me rendi sem qualquer resistência. Era um torpor suave, como se eu sonhasse vê-la ao meu lado, a beijar-me os cabelos. Sentia a presença das afeições queridas, entretanto, em minha imaginação, tudo adquirira a moldura de repouso, em que me reconhecia leve, lamentando comigo a ideia de que teria de acordar como de costume. No entanto, não despertei, segundo o hábito de todos os dias. Do sonho, passei a uma inconsciência pesada de que me desvencilhei somente mais tarde, ignorando quanto tempo me custara aquele abandono de mim própria. A lembrança de que fora marcada por um acontecimento que me buscava a memória, pairou dentro de mim, em forma de semiperturbação, até que fixei a reminiscência… A hora de companheirismo, o coração tranquilo de moça a gritar esperança para a vida, e depois o tiro que me ecoou em todas as fibras da alma. Desconhecendo se estaria morta ou viva, pedi socorro a Deus, consciente agora de que me achava refugiada num quarto confortável e claro, como que à espera de enfermeiros e médicos que não apareciam… — Marilene (Qs 9.2-14)

  5. Não foi porque houvesse conduzido o irmão para os estudos que o desastre se verificou. O meu tempo estava marcado. Os meus avós, que me abrigaram com amorosa solicitude, me reconfortaram na hora justa, e venho pedir à mamãe para chorarmos somente de gratidão e de alegria. De começo, a minha surpresa foi muito grande, mas acordando da inconsciência a que fui arrojado, pelo choque, pude revisar com a calma possível a ocorrência e aceitar a realidade de que a Divina Providência faz sempre o melhor, em nosso benefício. — Edilson (Qs 10.6-8)

  6. O corpo trazia o motor estragado. Corpo jovem; no entanto, me pareceu, quando compreendi a situação com mais clareza, que eu estava usando um instrumento, cujas cordas essenciais jaziam quase que inválidas. (…) Minha transposição de Plano foi rápida. Um desmaio, um sono invencível, um tempo indefinido de quase inconsciência total com pesadelos que se referiam à separação e, depois, o despertar. Despertar molhado de lágrimas porque me foi impossível não chorar com o sofrimento de seu carinho e com as lutas e perguntas de todos de nossa casa e de nossa família. A princípio, julguei houvesse voltado ao hospital para qualquer corrigenda, entretanto, essa ilusão perdurou por tempo estreito. Em meio de enfermeiros e médicos que se mostravam amigos, reconheci a presença da vovó Rachel que parecia desejar substituí-la junto de mim. A vovó explicou-me com doçura as verdades novas a que procurei me adaptar. Naturalmente, a saudade de casa era um espinho cravado na raiz do sorriso de conformação que me via impelido a sustentar; e os dias se passaram. — Roberto Muszkat (Qv 1.7-14) (Vide o depoimento seguinte do mesmo Espírito)

  7. Horas antes, nada previa com relação ao acontecimento significativo que me aguardava. Preparava-me para o descanso depois de haver medicado o trato nasal, quando senti no peito algo semelhante a uma pancada que me alcançou todas as redes nervosas. Tentei falar mas não consegui. Um torpor suave se seguiu ao fenômeno e notei que um sono compulsivo me invadia a cabeça. Percebi, intuitivamente que me deslocava do corpo, embora permanecesse vinculado a ele, quando em meio do esforço para definir o que sentia para a análise de meu próprio raciocínio, ouvi nitidamente sobre mim a voz inesquecível de alguém pronunciando as santas palavras: “Baruch Dayan Emet” e reconheci que a frase não partia dos nossos de casa… Busquei identificar-me com a sublime expressão de louvor, mas o torpor aumentava. O frio nas extremidades me compelia a admitir a presença da liberação física e rendi-me aos desígnios do Eterno, tentando seguir o rumo em que a voz se expressara, qual se me houvesse transformado num pássaro ansioso por saber a direção do meu novo ninho, já que não mantinha mais qualquer dúvida sobre a ocorrência que me separava da moradia corpórea, à maneira do inquilino que se vê expulso da própria habitação, atendendo a influências compulsivas; no entanto, entre aquela voz e eu mesmo estava o desmaio que me consumia o discernimento… Foi quando tomado de estranha sensação de bem-estar, escutei ainda as palavras: “Leshaná Habaá bi-Yerushalayim”. Compreendi que era um adeus e dormi com a tranquilidade de uma criança. Mais tarde, soube que o meu avô Moszek Aron ditara em meu favor aqueles vocábulos santos para que me aquietasse, contando com os imperativos do Mais Alto. Quando acordei, me via num leito alvo com a vovó Rachel velando por mim. — Roberto Muszkat (Qv 2.15-23)

  8. Pai, venho pedir a sua paz. Nada aconteceu de mal. Eu queria ajudar um pouco na ilusão de que já dispunha de força para movimentar o carro. Escorreguei e não vi mais nada, porque dormi. Depois, soube que o senhor e minha mãe estavam muito tristes. Um amigo de coração generoso me conduziu a um lindo parque de repouso. No primeiro dia, estava tão consciente de que estávamos todos juntos, que julguei estar em Bertioga ou em outro local parecido, a fim de esperá-los. — Tiaminho (Hélio Daikuara) (Rea 6.3-5)

  9. Perdoe-me, querida esposa, se ainda tenho lágrimas ao notificar-lhe que caí cumprindo meu dever de cristão, aceitando a pressão que me arrancou do corpo. Dei abrigo a dois companheiros que rogavam socorro na estrada, mal sabendo que instalava comigo aqueles mesmos irmãos que me furtariam a vida. Pedi compaixão para o pai de família que eu era, falei em você e em nossos filhos, e quis colocar-me de joelhos; entretanto deviam ser meus credores que não conseguiam me perdoar alguma falta cometida por mim em algum caminho do passado, que a minha memória ainda não conseguiu revisar. Vi que me abatiam como se eu fosse um animal no matadouro, mas pensei em Deus e aceitei com resignação o golpe que me impunham. Que poder prodigioso exerce a cruz do Cristo sobre nós nas grandes horas da vida, quando a vida se abeira da morte por violência!… Creio hoje que Jesus terá escolhido a morte assim, sob as pancadas da maldade para fortalecer as criaturas que viessem a cair depois dele, em ciladas e golpes da Terra! Quando me entreguei a Ele, Nosso Senhor e Mestre, depondo você e os filhos, por imaginação, nos braços de Quem, quanto Ele, é a nossa salvação e a nossa luz, a paz me penetrou o espírito e adormeci. Depois das surpresas que se seguiram ao meu despertar, concentrei minha vida íntima em você e nos filhos, e pude vê-los, pouco a pouco, adquirindo a conformidade de que necessitávamos. — Francisco (Ree 1.3-9)

  10. A morte não existe como pensamos na Terra. Atravessamos um choque estranho que eu não sei descrever, porque prevalece em nós, pelo menos no que me sucedeu, um sono feito de anestesia e de esquecimento. (…) O acidente me afetou qual uma explosão na qual a gente se perde por algum tempo. Disso nada sei, mas posso assegurar-lhes com os nossos daqui, que não me perdi no acontecimento. Mudei de roupagem, sem mudar a própria identidade. — Lúcio Germano (Ree 2.3-5)

  11. Chegada a hora, revi tudo, tudo o que fora a nossa vida em família, as horas de felicidade que foram sempre uniformes, porquanto em meu coração de esposo e pai só encontrava razões para ser agradecido. A dor, a princípio, foi perceptível para mim… Depois, tudo me pareceu um desmaio de que não conseguia fugir, embora pusesse todo o meu esforço de homem na resistência para ficar… Ficar ainda em sua companhia e trabalhar pela felicidade de trabalhar sempre mais; no entanto, um torpor que não sei definir começou a paralisar-me… Em seguida, foi o sono de que possuía prévio conhecimento em tantas descrições de companheiros desencarnados. A compaixão dos Céus, pelo menos em meu caso, não nos deixa ver os quadros que remanescem da morte, porque nada mais vi senão que despertava em outro ambiente. Era, a meu ver, um outro hospital, em cujo ambiente percebi, de imediato, que já não mais vivia em estrutura da Terra. A luz muito clara no aposento, o ar leve que me alimentava os pulmões e aqueles rostos que me cercavam, estendendo-me auxílio, não me deixavam dúvida. — Ítalo (Ree 3.1:17-21)

  12. Creio que os amigos são partes de nós mesmos. Nosso companheiro, de longe, apenas demonstrando como manejava uma arma, segundo o que deduzi no impacto da ocorrência, mas asseguro-lhes que o resultado com a operação de limpeza não estava de modo algum nos intuitos dele. (…) Caí no solo desamparadamente, quanto a mim mesmo por dentro de mim; no entanto, por mais que levasse as mãos ao peito na tentativa de escapar ao fim do corpo, notei que minhas forças esmoreciam… Meu pai, creio que seja necessário que eu diga que o senhor e minha mãe estavam em meu pensamento… Entendi quanto haveriam de chorar, tanto quanto eu mesmo tombava com lágrimas diante do inevitável… Na cabeça as ideias conflitavam. Aquele anseio de falar sem poder e aquele desejo de sobreviver, os gritos dos amigos que chegavam e as providências de que me via objeto a fim de que uma hospitalização inútil me devolvesse a vida física. Nesse emaranhado de pensamentos que se embatiam uns contra os outros, notei que um sono pesado me cerrava as pálpebras ou que alguém me cerrava as cortinas dos olhos para que eu encontrasse o descanso. Quanto tempo estive assim, no limiar de uma vida diferente da nossa, não sei dizer… Posso informar, no entanto, que acordei com meu avô José Rodrigues e com uma benfeitora de nome Rosa, que vim a saber posteriormente… Ainda assim, embora soubesse de improviso que estava em companhia do vovô que não mais pertencia a existência física, acreditei-me alucinado pela dor da ferida que ressurgia com o meu despertamento… Julgava-me num Instituto de Tratamento, mas, a breves instantes, meu avô carinhosamente me convidava à aceitação da realidade… — Benedito (Ree 9.13-21)

  13. Naquela noite que nos ficaria na memória por vesperal de um adeus que sabíamos para suposta separação, não consegui a bênção do sono, ainda mesmo que os coquetéis tranquilizantes do hospital me fossem doados, generosamente. O Espírito velava sobre todas as contingências do veículo em desgaste. Pela madrugada, uma neblina leve e suave me circundou e a se destacarem nela, a face do nosso venerado Dr. Bezerra e a face sorridente de meu pai Artur. Entendi que me acenavam chamando-me à partida e consagrando a você os meus últimos pensamentos deslanchei do corpo cansado para a viagem. Amparado por aqueles amigos queridos, um torpor invencível veio a mim e descansei ignorando de que modo as minhas energias esmoreceram. Voltando a mim, porém, como que me familiarizara com o novo ambiente. Consegui reaver o comando do corpo espiritual e depois de breves dias sobre o meu despertar, recebia a visita de amigos de nossas reuniões da prece no lar e de companheiros outros que me encorajaram. — Nelson (Res 2.23-26)

  14. Como foi? Impossível descrever o momento em que o grito de Mary me feriu os ouvidos. Depois foi a queda do carro. Lutei para controlar o volante, mas todo o meu esforço foi infrutífero. A ribanceira estava renteando com os pneus. E naquele desabamento do veículo, notei que, por dentro de mim, as dificuldades se ampliavam. O desejo de socorrer a companheira era muito grande, entretanto, notava que o meu corpo parecia um instrumento, cujas cordas se arrebentavam. Pensei na oração, mas concluí que o meu tempo estava esgotado. Procurei minhas forças; sem encontrá-las. Lembro-me dos primeiros socorros. Ouvia vozes, mas não conseguia entendê-las. Os meus conflitos continuavam. A cabeça estava anulada porque não sentia a noção de rumo. Não sei se me demorei naquele pobre corpo contundido e estragado por muitas horas. Mantinha somente a vaga ideia de que estava sendo assistido. Minha canseira era grande e a lembrança dos pais queridos, da irmã e da Mary me dominava. Chegou o momento em que a ansiedade mais profunda me tocou o coração. Os olhos se cobriram de uma névoa espessa e lobriguei o vulto de uma senhora que me abraçava e me convidava a segui-la. Digo que lobriguei o vulto porque não dispunha de recursos para vê-la, de todo. O meu estado de angústia era grande demais para vacilar ante qualquer medida de auxílio. A senhora me enlaçou, qual se eu fosse uma criança e dormi. Julgo que o meu esforço fora muito grande, embora os meus minutos fossem tão curtos e caí num torpor que não compreendi. Mais tarde soube que eu estava sob a assistência de uma bisavó querida. Não me retornei tão depressa, como se poderá pensar. Prossegui inconsciente e depois de muitas horas pude acordar. A derrapagem estava em meu cérebro e Mary a partilhar-me daquela aflição se faziam vivas em meu pensamento. Acordei, na certeza de que estava deixando um pesadelo para trás, no entanto, conquanto as minhas cordas vocais estivessem adormecidas impedindo-me qualquer diálogo, escutei um enfermeiro que veio em meu socorro esclarecer-me que eu perdera o corpo físico. Encontrava-me num aposento arejado e amplo e conservava a convicção de que me achava num instituto de tratamento para acidentados. — Adelmo (Res 7.3-14)

  15. Ignoro até hoje de onde partiu o projétil que me abateu. Lembro-me de que o Waltinho me apanhou chorando nos braços, diante do grupo que se condensava em torno de nós e nada mais vi, e nem senti, senão que me via dominado pela fome de repousar. Queria dormir e o meu próprio corpo encontrou meios de se aquietar sem que eu viesse a movimentar qualquer outro tipo de providência. Em seguida a esse descanso na inconsciência de mim mesmo, acordei ao lado de alguém que velava o meu sono. Esse alguém era a vovó Elzidia que me disse ser minha mãe também. — Gilson (Res 9.3-6)

  16. Para esclarecimento, especialmente à nossa Zilda, comuniquem a ela que estive consciente, embora plenamente anulado, até o Hospital São Caetano. Quando me vi cercado por médicos e enfermeiros, um homem chegou, de leve, até onde me achava estirado e se aproximou de meus ouvidos, dizendo-me: “Filho, não tenha medo! Jesus não nos abandona. Não se aflija com a agressão de que foi vítima! Descanse o seu pensamento que a dor esfacela e pense na Bondade de Deus! Entregue a esposa e os filhos à Misericórdia Divina e repouse…” Quem me falava assim no tom que não posso esquecer? Ele respondeu-me: “Estamos juntos. Sou o seu pai Mário que volta a você para transportá-lo comigo!” Ao ouvir aquelas palavras as lágrimas me brotaram dos olhos e procurei a tranquilidade na oração última. Então, senti que, enquanto ali se preocupavam com o meu corpo ensanguentado pelo tiro que me alcançara, meu pai ali estava comigo auxiliando-me a confiar em Deus. Uma bênção de paz me desceu ao coração e entreguei-me aos braços de meu pai, que se fazia acompanhado de outros amigos. Retiraram-me do corpo devagarinho, como se para ele houvesse voltado a ser criança. Colocou-me de pé e abraçou-me como se eu estivesse nos dias da primeira infância e, tão pacificado me vi, que entrei num sono calmante para mim naquela hora incompreensível. Em seguida, carregando-me nos próprios braços, notei que deixávamos o Hospital e nos puséramos a caminho. Chegamos, seguidos pelos amigos que lhe partilhavam aquele maravilhoso transporte e fui internado numa clínica de grande tamanho, numa paisagem que não era mais a nossa. Ali, com a passagem de algumas horas, meu pai informou-me quanto a minha nova situação. — Cláudio Giannelli (Res 11.7-15)

  17. Comovo-me ao recordar a despedida tríplice. Quando caímos nas águas da grande piscina, o Osmar, o Jair e eu estávamos sendo conduzidos pelos Desígnios do Senhor a resgatar o passado que nos incomodava. Nada posso detalhar quanto ao fim do corpo de que nos desvencilhamos, como quem se vê na contingência de trocar a veste estragada e de reajuste impossível. O sono compulsivo que nos empolgou os três foi algo inexplicável, do qual voltamos à forma da consciência dias após o estranho desenlace. Estávamos os três alarmados e infelizes no hospital a que fomos transportados, quando duas senhoras se destacaram dos serviços de enfermagem para nos endereçarem a palavra… No fundo, queríamos apenas regressar à casa e retornar ao cotidiano, porque aquele debate com as águas fora para nós, naquele despertar, uma espécie de brincadeira de mau gosto, na qual supúnhamos haver desmaiado… Aquele Instituto devia ser uma casa de pronto socorro como tantas… Entretanto, as duas senhoras se declararam nossas avós Maria Justina e Angélica, e nos informaram, com naturalidade e sem qualquer inflexão de voz agressiva, que havíamos voltado ao Lar, ao Grande Lar de nossa família na Vida Espiritual. — José Fortunato (Rtc 1.3-10)

  18. Estava muito lúcido e atento a fim de observar o que vinha a ser a última hora do corpo. Entretanto, nos derradeiros trâmites do meu processo de liberação, reconheci-me um tanto modificado. Minha visão alterou-se. Pensava com hesitação. A incerteza me dominava. Em dado momento, vi-me quase devolvido à condição de criança. Sentia-me no colo da mamãe Albina, e a vó Mariquinha estava perto. Conversavam comigo, mas eu trazia o pensamento em vocês e nada escutava. Queria chamar por você e pelo Airton, e ultimar recomendações, mas a voz estava calada por dentro de mim. Só a atenção me obedecia. Então imaginei que sonhava. Não era homem para me entregar a qualquer fantasia. Ignorava que me achava entre duas vidas a lutarem por dentro de mim, uma com a outra. A visão da mãe Albina me impelia para o Mundo Espiritual, mas as vozes das crianças, embora de longe, me chamavam para a Terra. Por fim, cessou a luta e rendi-me sem condições. O corpo abatido não mais me serviria. Era preciso saber agradecer-lhe quanto me havia doado em tantos anos abençoados de serviço e atender aos apelos novos. Como se fosse impressionado por uma paisagem, em cuja realidade não acreditava, vi amigos chegando… (…) Eles se davam as mãos em torno de mim, como se expressassem desse modo o abraço que me transmitiam. Um suave calor me revigorou as energias e vi o nosso respeitável Bezerra de Menezes ao lado do nosso Batuíra, que penetrando a roda fraternal, me tocavam no corpo com gentileza, qual se me cortassem algo na pele insensível. Aquela formação de amigos entrou em prece, feita em voz alta e, tocado por uma alegria misturada de dor, ergui-me do corpo, como quem se levantava do leito com recursos suficientes para saudar os circunstantes. Bezerra de Menezes, com a bondade paternal que lhe conhecemos, tocou de leve em meus ombros e disse sorrindo: “Juca, você está livre”. — Juca Andrade (Rtc 3.19-28)

  19. Confesso que me achava muito feliz, quando fomos incorporados em grupo, reverenciar a nossa Mãe Espiritual na praia que me pareceu um lago imenso e repleto de luz, naquela hora em que iniciávamos as nossas preces. Alguma coisa me interrompeu a tranquilidade. Levei a mão ao peito como se quisesse prender o meu coração que pulsava desordenado. Pensei comigo mesmo que era a beleza espiritual dos cânticos e das orações que me induzia àquela empolgação, mas alongando o olhar para as águas, não mais vi a sua presença e nem os amigos que nos cercavam. O mar parecia uma praça em que deslizava muita gente numa espécie de trânsito que eu não conhecia. Quis chamá-la para ver, mas notei que uma senhora ao meu lado me abraçava maternalmente e eu, que já perdera a convivência da mamãe Dilma, para ter outra mãe na sua dedicação de avó, que se nos fez mãe querida, acreditei que outra mãe estava surgindo para mim. A senhora me estendeu os braços e não resisti ao encantamento daquele sorriso que me convidava à calma e à confiança. Numa fração de segundo, caí sem forças e, de imediato, notei que o coração parara de súbito… Não mais conseguia levantar-me, ou comandar os movimentos próprios.  Aquela outra mãe me disse, com bondade e tolerância: — Para você, meu filho, chegou o descanso para tarefas novas… Não compreendi o que escutara, e porque nada mais me restava senão obedecer, entreguei-me àquele regaço maternal que, aos meus olhos espantados, devia ser um colo do Céu. Acomodei-me rente àquele coração repleto de carinho e dormi profundamente. Penso, mamãe Benedita, que não preciso dizer que despertei sob a proteção da vovó Cândida que me buscara, generosamente. — Ubiratan (Rtc 5.4-10)

  20. As minhas condições se agravavam, e, não apenas o meu pai me ocupava o campo da mente, outros antigos companheiros de Uberaba me apareciam como que a insistirem para que me decidisse para a viagem. (…) Tudo prosseguia nesse descontrole dolorido, quando vi o Armel Miranda, o amigo, junto do qual me abalancei a pedir a Deus me libertasse do corpo imprestável. (…)  Louvei a Deus pela presença daqueles nobres amigos do Centro Allan Kardec, que me servia de escola e ponto, junto ao refazimento de forças de que me sentia necessitado, e dormi à feição da criança que recebesse o brinquedo de minha própria libertação, perante a ocorrência impropriamente considerada como sendo a morte. A querida mamãe Zulmira amparava-me a cabeça e, assim, esperei ansiosamente o instante de me desinstalar do corpo esquelético que me retinha. Ouvi as suas preces em meu favor e rendi graças a Jesus. As nossas reuniões, ainda que não as frequentasse de todo, me haviam habilitado de algum modo para a Grande Mudança e me vi, pela primeira vez, separado do veículo que me transportara no mundo por tantos anos. — Francisco Rosa (Rtc 6.11-17)

  21. Lembro-me de tua dor silenciosa quando, decerto, a autoridade médica te falou pela primeira vez na doença que me estragaria o sangue, até deformá-lo inteiramente. (…) Não me lembro de haver escutado a palavra “leucemia” de teus lábios, porque sabias trazer-me sempre o remédio da esperança. Mas as injeções foram adquirindo a expressão de espinhos dolorosos e entendi, por fim, que me apagava, ao modo de uma vela que vacila com a brisa leve até consumir-se de todo. (…) Era para mim uma dor sem limites aquela de notar-te a angústia sem a possibilidade de consolar-te… Um dia veio com mais aflição no peito… Observei que uma nuvem me envolvia, e então passei às orações sem voz. Pedi a Deus que desse o que fosse justo e parece que comecei a dormir contra a vontade. Do meio da neblina destacou-se um rosto com um sorriso e ouvi a voz que me dizia: — Agora, meu filho, vamos ao repouso. Vem aos braços da vovó Nair… A emoção me tomou o íntimo e creio que lágrimas me banharam a face. Eram fortes os braços que me tomaram e aquele regaço acolhedor, que me fazia pensar em teu carinho, me asserenou o coração. Descansei, dormindo, para despertar muito depois num lar novo, do qual regresso para tranquilizar-te e desejar-te, extensivamente a meu pai e aos irmãos, toda a felicidade no tamanho possível que a felicidade possa ter. — Luís Alberto (Rtc 8.5-14)

  22. Quando me vi sob o fogo da arma disparada, caí num torvelinho de ideias desencontradas. (…) Lutei para não dormir naquela hora difícil, ansiando prosseguir no comando de meu corpo, mas todo o esforço se fazia inútil… Por fim, entrei num desmaio como se meus pensamentos fossem uma vela acesa que se apagava de repente… Quis pensar em reagir, mas no fundo de meu coração, qual se alguém me quisesse refletindo em Jesus nos momentos que me precediam o repouso, me falava uma voz que parecia vir de mim mesmo: “— Filho, pense em Jesus; perdão para nós todos, ódio nunca”… A voz me mostrava a ideia com tanta doçura que rapidamente me esqueci de que fora atacado… Refleti em Jesus e senti que adormecia com uma bênção. Só muito depois vim a saber que essa voz vinha da vovó Zilda, que não me desejava odiando a ninguém… Dormi profundamente e não tive qualquer contato com a realidade de tudo, quanto se seguia aquela agressão, porque hoje creio que a misericórdia de Deus estabelece uma lei de repouso para os que se transferem de uma vida para outra, mormente eu, me reportando ao meu caso, porquanto caía sem qualquer preparação. Quanto tempo perdurou aquele torpor imprevisto não sei. Lembro-me de haver acordado num aposento de hospital, que me fazia supor numa internação em algum pronto socorro da Terra mesmo. — Edison Roberto (Rtc 9.7-14)

  23. Examinávamos juntos a arma e cuidadosamente passei a sobraçá-la, de maneira a instalá-la em lugar adequado quando o projétil se desprendeu do instrumento alcançando-me de modo tal no tocante à morte do corpo. Senti um estremecimento e escutei o grito do companheiro; entretanto, num momento o silêncio me envolveu. Até hoje pergunto a mim mesmo pelo processo através do qual me apaguei, de uma vez. Tudo em mim por fora e por dentro foi aquele torpor de que não voltei tão depressa. Acordei, mais tarde, sob os cuidados de bisavós queridos que me guardaram como se cuida de um bebê nascente, tal qual o carinho com que me defenderam e resguardaram, despertando-me com cautela do marasmo em que caíra a fim de saber que eu era seu em outra parte da vida. — Marcos (Rtc 10.1:5-8)

  24. Estávamos ambas em movimentação irrepreensível no trânsito e admirava a perícia da querida irmã ao descartar-se dos veículos que nos cercavam, quando a batida me alvejou de repente. Creio que não pensei em mim, tanto quanto na irmã querida que sempre me protegeu carinhosamente. Meu desejo de expressar-lhe o meu apoio, caso estivesse ferida, era grande; no entanto, uma força compulsiva me dobrava a cabeça e não consegui manejar o meu corpo como ansiava fazer. Escutei vozes que manifestavam espanto ou pediam providências, mas, dentro de mim o pensamento era uma lâmpada que se apagava, sem que eu pudesse fazer algo para impedir aquela cessação de vida mental que me afligia. Caí num sono compulsivo qual se alguém me houvesse imposto elevada carga de sedativos e não soube mais coisa alguma acerca de mim própria, até que, naturalmente espantada, despertei sob as atenções de uma senhora que me convidava a nomeá-la por vovó Cândida. — Silvana (Rtc 11.1:3-6)

  25. O servidor da justiça não deve temer, nem tremer. Por isso mesmo, porque não me seria possível alterar os autos de um processo que se formara na base da realidade, tive o prêmio dos projéteis que me surpreenderam na rua. (…) Não desejo rememorar o acontecimento fulminativo que me retirou do corpo. Foi um verdadeiro despojamento qual se me visse sob ordens determinativas para mudança de casa. Não consegui pensar. O corpo caiu de vez, à maneira de tronco arrasado por lâmina oculta. E adormeci sem querer, sonhando que voltava para casa. Beijava nosso filho e abraçava a você com a ênfase de quem superara um assalto; mas, em seguida ao sonho de superfície, desci a um desmaio de profundidade do qual despertei, após uma parcela de tempo que ainda não sei precisar, despertando em companhia de bisavós queridos. — Manoel (Rtc 12.3-8)

  26. O meu desprendimento, meus filhos, não foi violento e doloroso. A princípio, senti como se algo se separasse de mim mesmo. Queria dirigir a todos a minha palavra, mas os órgãos não correspondiam ao meu grande desejo. Via-os a todos cercando-me de carinho e de imenso conforto. Escutava as orações que partiam do coração dos meus, implorando ao Céu a minha saúde ou o meu descanso! Ah, que desejo ardente o de comunicar-lhes a minha impressão, a estranheza que me causava a atitude de todos, mas os meus braços se haviam gelado, a minha língua se entorpecera, a minha boca estava hirta! Tive receio no limiar do túmulo e na expectativa da eterna separação chorei longamente, mas as minhas lágrimas eu as sentia como um pranto interior, como se em vez de deslizarem-se-me pelas faces fossem alagar o meu coração. Experimentando esse complexo de emoções, que eu não poderia classificar ou definir, fui tomado de inexplicável amnésia. E ainda hoje sinto uma desmemorização parcial, que não me permite lembrar os detalhes dos acontecimentos e das coisas. Caí, então, numa espécie de sonolência ou letargo e hoje presumo que semelhantes impressões físicas de minha parte são filhas do abalo que me causou o desprendimento. Parece-me que há também um trabalho além-túmulo para a reorganização das células do nosso organismo espiritual. Afigura-se-nos, aos recém-desencarnados, que somos recém-nascidos de um mundo novo e, aos poucos, aflora em nosso íntimo a recordação do passado, com as suas lembranças e as suas realidades. — Prof. Arthur Joviano (Neio Lúcio) (Slz 2.8-12)

  27. Quando recebi o impacto da notícia do fogo, o tumulto fora da sala não era pequeno. O propósito de fazer com que o trabalho rendesse, habitualmente, nos isolava dos ruídos exteriores. E o tempo de preservação possível havia passado. Atendi automaticamente ao impulso que nascia nos outros companheiros — descer à pressa. E fizemos isso. Elevadores não mais podiam aguardar-nos. A força elétrica sofrera a queda compreensível.  Esforcei-me por atingir algum meio para a descida, mas isso se fazia impraticável. Com alguns poucos que me podiam ouvir, subimos apressadamente para os cimos do prédio. A esperança nos helicópteros estava em nossa cabeça, mas era muito difícil abraçar tantos para o regresso à rua com recursos tão poucos. Entendi tudo e orei. Orei como nunca, lembrando toda a vida num momento só, porque os minutos de expectativa eram para nós um prolongado instante de expectativa sempre menor. Tudo atravessei com a prece no coração. E posso dizer a você, mãezinha querida, que um brando torpor me invadiu pouco a pouco… O calor era demasiado para que fosse sentido por nós, especialmente por mim com minudências de registro. Compreendi que não estávamos à beira de uma libertação para o mundo e sim na margem da Vida Espiritual que devíamos aceitar com fé em Deus. E aceitei. Os Amigos Espirituais, destacando-se meu avô Álvaro, comigo durante todo o tempo, não me deixaram assinalar quaisquer violências, naturais numa ocasião como aquela, da parte daqueles que nos removiam do caminho em que se acreditavam no rumo da volta que não mais se verificaria. Lembrando nossas preces e nossas conversações em casa, procurei esquecer as frases de desespero que se pronunciavam em torno de mim. Essa atitude de prece e de aceitação me auxiliou e me colocou em posição de ser socorrida. Mais tarde com algumas horas de liberação do corpo, é que despertei ao seu lado. Aquele amigo certo que hoje sei nele o meu avô e benfeitor de todos os dias, estava a postos, reconfortando-me… Estava em meu próprio leito, refazendo energias, e por ele fui informada de que a ilusão de estar no corpo, precisava ser esquecida. — Volquimar (Ss 1.1:7-17)

  28. E por falar em morte, os quadros do incêndio já estão longe. Passaram. O nosso admirável Joelma para nós agora funcionou como um templo em que nos transformamos para as leis de Deus. Não creiam que o sofrimento para mim fosse muito. A princípio, o tumulto, o desejo natural de escapar à provação, a luta pela sobrevivência sem agressões à frente dos companheiros e colegas que experimentavam como nós o desequilíbrio nos conflitos inesperados… Depois, foi a tosse, o cérebro toldado, como se houvesse sorvido uma bebida forte e, em seguida, um sono com pesadelos… Os pesadelos das telas em derredor que vocês podem imaginar como tenham sido… Posso dizer a você, mamãe, que pensávamos em helicópteros que nos retirassem das partes altas do edifício e com espanto, quando acordei ainda estremunhado, fui transportado para um aparelho semelhante, junto de outros amigos. Era assim tão perfeita a situação do salvamento que fui alojado num hospital, como se estivéssemos num hospital da cidade para recuperação, antes do regresso à nossa casa. — Wilson (Ss 6.17-20)

  29. O momento inesperado, conquanto inevitável, chegou, e não pude mais fitar o seu rosto ou tatear as suas mãos. Uma névoa branquicenta me envolveu de todo e, com assombro, vi a fisionomia de Paulo Sérgio crescido a sorrir e com ele o nosso Cavalcanti, o genro amigo que sempre acolhemos por filho no coração… Depois, a névoa se desfez e notei a presença de vários amigos. O Dr. Dias da Cruz, que conhecia através de retratos, me ofereceu generosamente a mão, informando-me que eu atravessara a grande barreira… — Ramiro Viana (Tea 3.11-14)



  30. Vi que me conduziam ao hospital para o fim do corpo. Nem tinha dúvida. Mas, só via você, aflita, cansada, com a pressão alta. Não sei se consegui falar, mas creio que pedi, na sala de operações, para que tivessem cuidado, a fim de que não fosse informada de repente, quanto ao desastre, explicando que a sua saúde não era resistente como eu queria… Ignoro se conversei, porque a hora grave não permitia pensar e comandar meus sentidos ao mesmo tempo. Lembro-me só que uma sensação de sono me absorveu e dormi… Quando acordei, estava em nossa casa, mas a bênção da fé me reconfortava! O conhecimento da verdade me suprimia a ilusão. Nossa confiança em Jesus estava funcionando… Ainda assim, a dor de sentir a sua dor era forte demais e cambaleei, como se um novo desmaio me tomasse a cabeça. Então, fui afastado para o tratamento preciso. — Amaro (Tea 11.8,9)



  31. Saí quase às pressas, ignorando que o meu encontro dessa vez não seria com a tarefa, e sim com o término da oportunidade que me fora concedida. Subi tão naturalmente ao lugar de observação que em meu pensamento não havia sinal de qualquer nuvem. A queda foi uma surpresa que me anestesiou de repente a cabeça. Dizer o que se passou, por enquanto, é impossível. (…) Depois daquele sono pesado, que perdurou por tempo que ainda não posso imaginar, despertei ao lado da nova tutora que me ensinou a chamá-la por vovó Helena, e a vida prossegue. — Elcio (Tvt 1.4-7)

  32.  Não sei até hoje por que manobras o aparelho nos desobedeceu. Vi nos olhos do instrutor Denizard aquela expressão de espanto que me contagiava, mas isso não durou muito tempo. A queda era verdadeira e a perda do corpo não menos certa. Creiam, porém, que as nossas conversações e preces me ajudaram no momento X. Entendi que o meu raciocínio sofrera um baque indescritível e que os pensamentos me escorriam da cabeça para fora, assim como quando o sangue escapa das veias num processo hemorrágico. Meus últimos pensamentos, porém, naquela hora de mudança, foram para Deus, pedindo a Ele, nosso Pai Celeste os fortificasse, que desse aos meus pais e irmãos queridos, compreensão e conformidade. Mas vocês, queridos pais, reconhecem como dói no coração aquela expressão “nunca mais”. Eu sabia que esse “nunca mais” se referia ao corpo e não a mim, o Espírito imortal que sobreviveria ao desastre, mas, ainda assim, o gosto de adeus é por demais amargo para que a gente o sinta sem chorar… Chorei, dentro de uma imobilidade que eu não saberia descrever, e, em seguida, notei que mãos de enfermagem me anestesiavam. Era o sono, o sono da bênção, porque, entre a morte do corpo e o renascimento na Vida Espiritual, Deus colocou um desmaio providencial. Quando acordei, me vi sem qualquer ligação com o nosso amigo Denizard e com a nossa gente amiga de Votuporanga. — Carlos Alberto Andrade (Vdl 1.1:7-15)

  33. Nunca esperei vir para cá de maneira quase fulminativa. Digo isto, embora o processo das coronárias estivesse presente, quase como um laço desatado que não desistisse de tomar a posição de nó cego. Mas resistia. Afastava a ideia da morte, como se recusa um veneno. Não que tivesse medo. Você e os filhos queridos e tantos outros familiares queridos me seguravam. Veio, porém, o instante infalível, inarredável. Creia que fiz força. Procurei avidamente o remédio salvador, preocupei-me, no entanto, as energias esmoreceram. Dormi, compulsoriamente, como se houvesse desacordado com certa martelada por dentro do peito. Não tenho outra imagem para figurar as minhas recordações, que reconheço confusas. O sono foi pesado, com pesadelos, de vez que desejava retornar ao corpo, sem conseguir. No íntimo, tinha receio de saber a realidade, até que, em dado momento, me vi fora do leito ou do refúgio que me parecia um recanto de paz em que descansava. Amedrontado, dei-me pressa em sair. Era noite. Recordei que atravessávamos a véspera de sábado, com muito desejo de fazer um programinha com as crianças. Chamei por você e pelos nossos e como ninguém me respondesse, procurei a rua porque o peito doía muito. Dirigi-me à Santa Casa, queria auxílio, e não encontrando o alívio necessário, voltei à via pública; no entanto, quando me encaminhei para outros postos socorristas, ao ladear o antigo lugar da Casa de Saúde do Dr. Barbieri, encontrei a irmã Elvira e outra Benfeitora, que depois vim a saber que é a irmã Carolina, que me recebeu por avó, lembrando minha mãe. Era natural que eu estremecesse. Mas a Doutrina da Imortalidade estava comigo e compreendi tudo. Mesmo assim, a dor de perder-lhes a companhia me fez cambalear. Outros amigos nos abordaram e fui recolhido. Tenho encontrado o tratamento que só poderia obter em nossa própria casa. — Lidaí (Vdl 2.9-17)

  34. Sou eu sim que volto, e volto para repetir quanto amo a você e aos nossos filhos. Querida, o sono, se o descanso inicial do corpo foi sono, passou rápido. Ali mesmo, no Servidor, pensava no nada, no fim de tudo, com as pálpebras cerradas, na última ocorrência da respiração… Entretanto, justamente ali, quando o transe era mais fulminativo e mais rápido, vi meu pai e o nosso amigo, Padre Euclides. A infância, a mocidade, o lar e as orações do lar, represavam com força no meu mundo de memórias e, à feição da criança que se vê agasalhada na proteção paterna, repousei daquela tremenda luta orgânica que nós dois conhecemos. — Cícero (Vdl 3.6-10)

  35. Orava no silêncio, sem palavras e sem quaisquer manifestações exteriores, qual se me visse obrigado a satisfazer invencível compulsão… A verdade é que no dia seguinte, veio o sono de que mantinha prévio conhecimento, através de comunicações de companheiros desencarnados… Um sono pesado em que as lembranças do passado me renasciam na memória. (…) Tudo o que se referia aos dias de paz e dificuldade, os acontecimentos pequeninos e as grandes ocorrências que se desenrolavam em meu pensamento, como num sonho que, por fim, assumiu a forma de pesadelo, porquanto queria agitadamente retomar o corpo, sem conseguir… Vozes amigas me recomendavam paciência e descanso… Procurei obedecer e dormi de verdade, porque as imagens evocadas se esvaíram na neblina em que se me afundava o entendimento e, quando acordei, me vi entre os amigos e os familiares da nossa cidade, no Centro do Professorado Paulista. Vi meu corpo com segurança e fiz força para não me espantar, criando problemas. — Domingos (Vdl 4.9-14)

  36. Quando o veículo deslizou desgovernado, com grande susto para mim, não mais tive ideia de tempo. A ideia se esvaiu na cabeça, a tonteira cresceu, caí num abatimento que não sei contar como foi e ainda ouvi muitas vozes… Depois, foi um sono pesado do qual despertei, muito depois. Narrar o que senti é impossível. Se mamãe puder falar o que sentiu em matéria de sofrimento e se meu pai conseguir descrever o que experimentou em aflição, decerto estarão qual me ocorre! Sem palavras e sem qualquer outro meio de expressão. Perguntei por todos, especialmente por vocês, e pelos irmãos; no entanto, minha avó Coleta e meu avô Arthur estavam ali, com médicos a me atenderem. Não conseguia movimentar-me e nem gritar como desejava porque a cabeça doía muito, mas pouco a pouco, entendi tudo… — Carlos Alberto de Toledo (Ven 2.1:12-16)

  37. Caí no solo batendo a cabeça em alguma coisa que me pareceu um empeço de pedra e aço e perdi a noção de mim mesmo. Foi quando me vi nos braços de uma senhora que me disse, depois, ser vovó Thereza, mas eu não tive recursos para demorar-me acordado. Um sono profundo me tomou de todo e não sei quanto tempo gastei nessas férias de leito e rede. Despertando, pareceu-me vê-la e a ver todos de casa em verdadeiro pânico por minha causa. A minha vovó Thereza me explicou que eu estava retratando por dentro de mim aquilo que se achava muito longe. — Luiz Adamo (Ven 4.1:9-11)

  38. Precisei sair novamente, e, de passagem pela praia, quando admirava a criação de Deus nos quadros da Natureza, fixando o pensamento entre o céu, a terra e as águas, algo sucedeu por dentro de mim, dando-me a ideia de que o coração parara de repente, à feição do relógio ao qual faltasse a corda precisa. Caí ali na paisagem solitária e linda, sem receio e sem qualquer ideia definida de que me achava no término do tempo marcado para o corpo. A hora da maré alta me buscou o corpo inerme, e o resto o senhor e a minha mãe já sabem. Acordei no Mosteiro para onde me conduziram o corpo sem vida, e assisti com emoção aos rituais de despedida. Refleti na volta impraticável à nossa casa para que o meu instrumento gasto encontrasse o repouso na terra abençoada em que nascera, mas a direção do Mosteiro me honrava com o acolhimento, ali mesmo em São Paulo, e ainda consegui ver a mãezinha Ilda, que orava e chorava, pedindo para mim o amparo de Deus. Era tudo aquilo um instante de emoção intensa, e minhas lágrimas também se desataram no agradecimento a Nosso Senhor Jesus-Cristo pela concessão que me faziam. No próprio Mosteiro, atravessei longa convalescença, até certificar-me de que o órgão da vida se me restabelecera, e, presentemente, continuo em serviço na própria instituição, com estudos especiais sobre a ação do pensamento religioso nas diretrizes que lhe cabe tomar, ante as imposições naturais da ciência. Não sei a que fim chegaremos dentro das minuciosas análises a que nos dedicamos, no entanto, aguardo o melhor para as obras da fé. (…) De qualquer modo, as vantagens do ecumenismo nos abre a vida mental para novas realizações em matéria de fé unificada, com liberdade de interpretação para os diversos movimentos do Cristianismo, e, considerando o alto volume de almas interessadas em renovação íntima, sem perda do sistema de adoração e confiança em Deus, o mínimo passo que consigamos dar em nossos empreendimentos, se reveste de essencial importância para a Cristandade. — Irmão Celestino (Vi 8.10-20)

  39. Aqueles dois companheiros no carro não seriam os executadores das Leis de Deus? O carro era meu instrumento de trabalho, a riqueza do pai de família, simples e feliz, que sempre fui. Naturalmente, quando me senti despojado da máquina que valia tanto e que me ajudava a sustentar a família, quis reagir, reclamar… Hoje, não tenho memória para dizer os detalhes da ocorrência, mas lembro-me de que um golpe me retirou qualquer faculdade de reação. Orei, reclamando vocês todos, esposa querida e filhos meus! Sabia, porém, que havia soado a hora, a hora que ninguém espera e sempre chega… Tentei pedir clemência e dizer que entregava tudo, mas me poupassem a vida, no entanto, a voz não saía mais. Notei que mãos vigorosas me deitavam numa plantação que me oferecia repouso. (…) Adormeci pensando na família, e procurando esquecer qualquer sentimento que me azedasse as ideias. (…) A princípio, fui conduzido para um hospital, em que o amigo espiritual Dr. Leocádio me prestou imensos serviços. Não sei se vocês se recordam de que minha família, em minha infância, se referia ao Padre Vítor, de Três Pontas, como sendo um benfeitor. Pois, ao lado de meu pai, ele foi também para mim um amigão e um benfeitor, cuja dedicação assinalo. — João Reis (Vi 9.13-26)

  40. Compreendi, quase que de imediato, que o coração se me fizera um motor com defeitos irreparáveis e não me enganei quando despertei longe de sua presença. Surpreendido, assombrado mesmo, perguntei por você e por nosso querido Segundinho, quando meu entendimento tornou a mim próprio. Uma senhora de gestos benignos velava por mim e explicou-me, sem alarme, que eu fora transferido para uma vida nova, porque o coração não me assegurava recursos de permanência em nossa casa. Minha cabeça fervia de perguntas. Maria das Graças era o nome da benfeitora que me protegia. Lembrei-me dos avós de nossas recordações. Se era assim — raciocinei — a verdade é que atravessara a sombra da morte do corpo, como quem fora embalado pelo carinho daquela protetora, cuja brandura me fazia lembrar a mamãe e você própria. — Mário Sérgio (Vi 13.3-7)

  41. Perdoem-me se lhes dei tanto trabalho com a queda [no fosso] que me cortou o fio da existência no corpo físico. O choque foi muito grande e, conquanto me desse a ideia de que me achava sem sentidos, pela incapacidade de me movimentar, tive, ainda em meu favor, alguns minutos para pensar. (…) Não consegui, porém, mobilizar o meu corpo como desejava, e então, chorando à feição de uma criança acidentada, entrei num desmaio, que somente depois vim a saber que se tratava da desencarnação. Isso, no entanto, quando já me achava em casa, quando despertei com a cabeça mergulhada num círculo enorme de perturbações. Não me sentia muito lúcido, quando uma senhora se abeirou de mim e me perguntou se não a conhecia… Respondi negativamente, entretanto, com indizível bondade, ela me recomendou chamá-la por avó Maria Fernandes, enquanto um senhor me surgiu à frente, informando-me que ele viera colaborar em meu auxílio, em nome do Dr. Bezerra de Menezes. Recordei as conversações de meu pai e agradeci. (…) A senhora me afagou com muito carinho, alegando que eu precisava descansar, e, sentindo-me tão menino como no tempo em que me acomodava em seu colo, dormi profundamente, amparado por aquela criatura dedicada e afetuosa, que se dizia minha avó. Despertei em outro local, onde fui tratado convenientemente, porque ainda registrava muita dor na cabeça. — Paulo (Vi 16.5-15)

  42. Quando o Mário e eu vimos a carreta pesada, no caminho que nos cabia transpor, retiramo-nos discretamente para longe da pista, não somente por nós, mas também por nossas companheirinhas. Aconteceu o imprevisto. Um carro desgovernado, talvez buscando distância da carreta referida, se precipitou sobre nós, estabelecendo o salseiro em que o companheiro e eu encontramos a desencarnação. Tentei, de minha parte, estender os braços na direção de nossas jovens companheiras, mas não mais possuía qualquer migalha de força. Compreendi que tudo para mim estava terminando, de vez que nem da voz dispunha para qualquer observação. Pensei em Deus, voltei às orações dos dias de criança e, sem querer, dormi pesadamente. Acordei, mais tarde, incapaz de precisar o tempo gasto naquela ausência de mim próprio e reconheci que uma senhora velava por mim num aposento diverso do nosso. Voltar a mim mesmo foi um processo lento de recuperação de minhas faculdades que não sei descrever. Entretanto, aos poucos, pude reaver a minha capacidade de conversar. Perguntei quanto quis, porque a benfeitora que me protegia, com a melhor paciência, me recomendava chamá-la por avó Maria Nazária e fiquei sabendo, em minúcias, de todos os lances do acidente em que me vi de corpo trocado, embora estivesse informado por minha avó de que aquele corpo não era novo e, sim, o meu corpo de sempre, que usufruíra no Plano Físico, um engenho de tecidos carnais para chumbar-me à escola das experiências terrestres por tempo determinado. Indaguei do amigo Mário e fui esclarecido de que ele se reconstituía em outro ambiente e soube também que as nossas companheiras haviam ficado ilesas, o que me proporcionou grande satisfação, porque muito me doeria sabê-las em condições iguais às minhas. — José Demathê (Vis 2.5-12)

  43. Cheguei ao apartamento vago, tomado de inexprimível alegria, entretanto, sem qualquer instrução prévia, procurei o banho restaurativo, antes de entrar em contato com o novo ambiente, mas, inexperiente e desinformado, abri a sós o bico do gás, que se derramou envolvente e caí desacordado no próprio banheiro em que me achava… Aquilo, porém, não era sono, foi a desencarnação que me desligou prontamente do corpo físico.  Minhas fantasias de rapaz terminavam em tragédia, porque a morte não estava absolutamente em minhas cogitações. Somente mais tarde vim a saber, por meu avô Belarmino e por minha avó Maria Júlia, que por muitas horas o chuveiro bafejava com água farta o meu veículo inerme. — Celso (Vis 3.6-9)

  44. Não sei o que lhes dizer. Apenas concordarão comigo que a ocorrência que me desmontou da Vida Física não era o que eu esperava. O meu avô Rodolfo me assistiu no despertar aqui, em novo campo de experiência, no qual ainda me reconheço abatido e sem muita coragem para recomeçar. Do que me sucedeu, não consigo rememorar minudências. É muito difícil pensar com um cérebro que observo completamente novo, aquilo que nos marcou o cérebro-vestimenta em que julgávamos estivesse o centro da própria vida. Quero tão somente anotar, para nosso reconforto, que a morte do corpo é uma espécie de dona da bola. A bola somos nós e somos chutados por ela, conforme lhe dê na telha. (…) Ditadura e poder discricionário é com essa dama que se fantasia na imaginação e ninguém vê, porque, parece que ela não precisa de nosso voto ou de nosso veto para agir como quiser, quando se trate de arrancar-nos para o que chamamos por outra vida. — Sérgio Tadeu (Vis 4.2-7)

  45. O Márcio sentia que se amontoavam obstáculos à frente e, num instante em que se viu em apuros para governar a máquina, vi que ele pisou no acelerador, um tanto nervoso e diferente, e o resultado é o que não precisamos recordar minuciosamente. Estávamos ambos à frente e fomos os primeiros e depois vim a saber que fomos os únicos a ser colhidos ou defrontados pelo poste que, de certa forma, nos esmagou de maneira irremediável. Compreenderá o seu coração materno que fiz quanto possível para socorrê-lo e para não me enfraquecer. De nada mais tomei conhecimento, pois me via reduzida a um trapo de criatura sem qualquer recurso para me preservar ou me defender… Percebi que o melhor para mim seria entregar-me àquela inconsciência que me invadia a cabeça e à insensibilidade que me tomava o corpo de assalto e rendi-me à intimação daquele sofrimento com a minha confiança em Deus. Não sei como classificar o fenômeno que me envolvia mas, para simplificar, digo-lhe que dormi e conformei-me. Não tive tempo de pensar nos pais queridos e nos queridos irmãos, por que fora conduzida, de inesperado, à triste situação dos que se sentem claramente despojados de tudo quanto supõem possuir. Desconheço a conta dos meus dias de descanso ou de inércia enfermiça. Não sei bem, mas acordei num dia claro, guardando o meu coração escuro e magoado pela incerteza que me acorrentava espiritualmente a uma dor, cuja força não supusera existir. Aproximou-se de mim a generosa protetora que me disse ser nossa parenta e chamar-se Maria Nazária. Ela se inclinou, abraçou e beijou-me no leito em que me achava prostrada, entendendo decerto que eu não dispunha de qualquer energia para movimentar-me. Minha voz jazia como que escondida na garganta, mas a audição continuava firme. Ouvi-lhe as palavras de bênçãos e comovi-me quando me chamou por “neta do coração”. Ela compreendeu que a palavra ainda não me fora restituída e não insistiu em dialogar comigo. Apenas me solicitou calma e repouso, e acentuou que chegaria a ocasião de conversarmos livremente. Este dia apareceu quando meus órgãos vocais me pareceram reconstituídos e, só então, tive as informações desejadas acerca do acidente de que fôramos os frágeis protagonistas. Perguntei por Márcio e a vó Maria Nazária me esclareceu que ele se encontrava num Instituto Evangélico para tratamento das sequelas que lhe ficaram intensas quanto ao desastre havido. — Nerci (Vis 5.13-24)

  46. O choque das máquinas foi violento. Vínhamos pela estrada afora admirando o verde das margens, na estrada que o carro seguia com os melhores movimentos. (…) Tudo foi um mínimo de tempo. Não sei se os freios ficaram desobedientes. O que percebi é que o nosso veículo não tinha mais tempo para se distanciar da máquina pesada que nos colheu. Foi um tremendo conflito provocando atenção. De início me senti quebrada em todas as forças de meu corpo, mas você sabe que o instinto de mãe não hesita perante um filho necessitado. Quis abeirar-me do filho ali perto, necessitado de minha assistência, mas onde os recursos para mobilizar as mãos paradas e a boca imóvel? Apenas meus olhos ainda viviam. Busquei cerrá-los para entregar-me à oração e ainda encontrei energias para isso. Pedi a Deus nos socorresse, já que estávamos à frente do inevitável. Uma sensação de tristeza misturada de esperança me comandava os sentimentos. Repeti em pensamento todas as preces de que a memória ainda conseguia mentalizar e dormi, refletindo na extensão do acidente em casa. Diogo, você e seus irmãos estavam em minhas lembranças que mergulhavam na inconsciência à maneira de barcos se afundando em águas profundas e, adormeci, pedindo a Deus nos valesse e nos acudisse da melhor forma possível. A projetada viagem para Marília se interrompera de vez, porque reconheci que seu irmão não conseguiria sobreviver. A minha luta para a rendição aos Desígnios de Deus não foi pequena. Depois veio o esquecimento. Mãos benditas transportaram a mim e a meu filho para um recanto de paz, em que o repouso cobria as minhas inquietações. Tive o conforto de receber o carinho da mãezinha Custódia e encontrei um amigo em meu sogro, que se me revelou à feição de um pai cuidadoso e amigo. Você compreende, o nosso querido José Cláudio não conseguiria escapar a uma recaída nos distúrbios mentais que atravessara e foi internado em Instituto adequado ao tratamento de que necessitava. Posso vê-lo e visitá-lo, no entanto, não posso apagar de vez as aflições maternas que ainda me invadem o coração. — Tereza (Vis 7.5-17)

  47. Apraz-me trazer-lhes as minhas notícias para que se esclareçam quanto ao acontecimento que me retirou da Vida Física. Não sofri as asfixias do afogamento, porque, ao começar a minha incursão nas águas, o coração se me destrambelhou no corpo e quando caí no mergulho, aparentemente voluntário, desci sem qualquer reação para o fundo das águas, à feição de uma carga pesada que não conseguiria retornar à superfície. Caí com todo o meu peso, porque o Espírito se desligou para logo do corpo, atendendo ao apoio da bisavó Jurcelina, que fez questão de me acompanhar no processo de minha liberação do veículo físico. Tão somente por isso é que meu pobre corpo não boiou nas águas, porque mergulhei ao modo de objeto pesado, ante a ausência de mim mesmo, na condição de Espírito, que, sob a caridosa colaboração de minha bisavó, foi guindado com o auxílio de enfermeiros seguros para o lugar que lhe serve de residência onde me encontro até agora, refazendo forças. — Marcelo (Vis 8.3-6)

  48. Tanto a dizer depois do desastre que nos surpreendeu por dolorosa provação. Sinceramente, na condição de protagonista da ocorrência, nada sei porque a amnésia me obscureceu totalmente os raciocínios. Nada pude fazer senão entregar-me aos fatos que se verificaram acima de nossa vontade. Não tive cérebro, senão para uma ligeira oração, na qual rogava o amparo de Jesus. Depois, mais nada. Acordei na Boa Esperança, respirando o ar puro que me alcançava os pulmões. Quis gritar de felicidade, supondo-me segura e restabelecida, depois de algum tratamento que me haveria escapado à observação, mas duas senhoras se abeiraram de mim e me pediram reserva e silêncio. Uma delas me recomendou chamá-la por vovó Maria e a outra me solicitou identificá-la por irmã Juliana e partiram para o diálogo em que me reconheci desencarnada, na condição de pessoa ausente de qualquer serviço de identificação na experiência física. — Márcia Regina (Vis 9.4-9)

  49. O choque foi muito grande, porque me vi atirado fora, à feição de alguém que fosse pisoteado por um potro bravo e não sei de que modo conservava a cabeça intacta nos ombros. (…) Uma explosão que me arremessasse para longe, cegando-me a visão e conturbando-me o cérebro, não me causaria tanto espanto mesclado de aflição. Tempo não tive para qualquer raciocínio, mas percebi, no auge de meu assombro, que era o próprio pai Sérgio a me tomar nos braços, de maneira a conduzir-me para o socorro preciso. Sentia-lhe o calor das mãos, o hálito de bondade e os braços a me resguardarem de encontro ao peito, enquanto vozes anônimas se faziam ouvir opinando, gritando e proferindo exclamações que registrava sem captar-lhes o sentido… Aquele apoio imprevisto me reconfortava. Quis falar, no entanto, era isso impossível. Uma força que não consigo explicar me imobilizava de todo, embora o meu querido protetor me mostrasse a própria ternura nos batimentos acelerados do coração… Desejei revelar a minha capacidade de movimento; se fiz algum, isso aconteceu à revelia de meu conhecimento, porque, naqueles instantes finais do corpo físico, eu me reconhecia de modo indefinível… Apenas minha cabeça me parecia viver e, assim mesmo, na condição de uma chama a se extinguir…  Entreguei-me, de todo, à ideia de que o pai amigo velava por mim, enquanto me apagava, e a convicção de que me achava sob proteção segura me asserenava o íntimo atribulado. Por um momento só, pensei na mãezinha, no amigo Sr. Aguiar que me aguardaria no Iate, mas isso foi uma ideia relampagueante que me entregou, para logo, a um torpor estranho que admiti fosse um sono temporário. Dormi, quase calmamente, se posso dizer que o carinho do pai a transportar-me era o maior fator de possível equilíbrio que eu conseguisse demonstrar… O sono me pareceu uma descida a diversos degraus de inconsciência, porque ainda hoje, procurando recapitular aqueles minutos inesquecíveis, ignoro todas as particularidades do fenômeno de que me via objeto, sem a mínima ideia das horas ou dias que despendi naquela ausência de mim mesmo; despertei num aposento amplo, retomando gradativamente a memória… — Djalma (Vmc 1.9-21)

  50. Perdoem-me todos se aconteceu o inesperado. Quando o choque havido na máquina se abateu sobre mim, inutilmente procurei pelo cunhado, porque minha capacidade de movimentação estava morta. Um desmaio compulsório me tomou as energias e só despertei muito tempo depois, ao lado da vovó Fortunata e da vovó Judith que tentavam me consolar. A noção imediata de que havia perdido o corpo físico estava acesa dentro de mim. Sentia-me num corpo igual ao meu, como se trouxesse um xerox de minha forma física, na intimidade de mim mesmo. — Evaldo (Vmc 2.3-5)
  51.  

    (Momento da morte I - II - III - IV - V)