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Momento da morte (III)

(Momento da morte I - II - III - IV - V)

 

 

TEMAS CORRELATOS
(Catalepsia) (Céu, inferno e purgatório) (Desencarnação) (Entes queridos desencarnados) (Erraticidade) (Eutanásia) (Fatalidade) (Finados) (Funeral) (Letargia) (Morte) (Morte e desencarnação) (Plano Espiritual) (Pranto) (Sepulcro) (Suicídio) (Sobrevivência) (Vida) (Vida espiritual)
 
LEIA NESSES DEPOIMENTOS
as passagens onde os comunicantes relataram a seus familiares encarnados
O QUE SENTIRAM NO MOMENTO DA MORTE
(Obs. As mortes por SUICÍDIO não constam dos depoimentos abaixo)
  1. Desejava responder às palavras que me eram dirigidas, explicar que as vozes do ambiente me alcançavam os ouvidos, no entanto, do sofrimento passei ao silêncio interior, e do silêncio interior comecei a sentir-me envolvida numa névoa esbranquiçada e espessa, cuja presença de algum modo me sufocava… Em dado instante, um rosto surgiu naquele véu que me vestia todo o corpo… Era a face de alguém, com a sua ternura. (…) A senhora inesperada me falou na bondade de Deus e me recomendou descansar de tudo o que pudesse exprimir preocupação em meu cérebro. Obedeci, maquinalmente, qual se uma onda de amor, partindo dela, me magnetizasse as últimas energias. Então, dormi, dormi entregando-me às doces evocações da prece, que passei a escutar… Sentia-me de novo criança, transferi-me sem esforço para o seu colo… A visitante me retirou devagar, enquanto me via sonolenta, e, desde esse instante, apaguei-me de maneira completa… Aquela suave anestesia que adivinhava estranha aos remédios que me eram aplicados, me asserenou a mente atormentada… Não sei precisar a duração do longo intervalo, mas me recordo de que despertei junto da admirável senhora, sentada rente ao meu leito, à maneira de um anjo a vigiar-me com brandura… Observando-me em condições de alerta, começou a explicar-me o sentido de todas as complicações em que as máquinas nos havia envolvido… E, espantada, vim a saber que era ela a vovó Maria Claudina a me socorrer e acariciar… — Maria Nelize (Hl 7.16-24)

  2. Atirei-me instintivamente naquele mar de águas grossas, e acabei me atrapalhando… Senti que a terra me faltava aos pés e que se abria uma cava enorme, encoberta pelas águas. Desci, inconsciente, por aquele abismo aberto, e mal sabia que o nosso Pedrinho também se jogou naquele mundo líquido, e encontrou outra abertura para baixo, sendo engolido por aquele solo que os de fora não conseguiam ver. Meus últimos pensamentos foram para Deus, para a esposa e para vocês, os filhos que ficavam… Estava sufocado, para pensar com acerto, e meus raciocínios vacilaram, até que não vi ou senti coisa alguma. Somente depois, despertei com a proteção de meus avós, numa casa acolhedora, onde o Pedrinho já se achava à minha espera. — Pedro Souza (Hl 8.2:5-8)

  3. Quase 22 anos para iniciar o trabalho que pretendia fazer, construíram somente o alicerce que me cabia abandonar… Ainda assim, esforcei-me para entender a Lei de Deus que funcionava com tanta exatidão sobre mim, e rendi-me ao Poder Superior. Foi aí, quando a aceitação se me fez plena, é que comecei a liberação do feixe de dores a que me via preso. Tudo se resumiu a um sono inexplicável, do qual despertei com muitas perguntas dos amigos que me cercavam. Queriam saber o que eu fizera do tempo e o que pretendia prosseguir realizando. — Ricardo (Hl 10.9-11)

  4. O meu campo emotivo estava diferente e excessivamente feliz para pensar em verificações. Vi no entanto, o veículo retorcer-se e moer-se, como se tivesse sido transformado, de repente, num brinquedo de monstros. Não sei descrever o que senti. Um misto de espanto e temor se me apoderou de todas as forças, e procurava por mim próprio sem me encontrar, porque tive a impressão de que me haviam arrancado ao corpo físico, assim como se toma a capa de alguém. Eu estava ali e não estava. Sentia-me dentro de uma duplicidade que me apavorava. O mundo de angústia no qual penetrara, não me permitia reconhecer a mim mesmo naquele corpo que as circunstâncias me furtavam. Pensei em Deus. Recordei as preces do tempo de criança, quando uma senhora me apareceu, ali mesmo, dirigindo-me palavras de bênção. Atônito, fiquei a imaginar se ela seria passageira do lado, sem que eu percebesse, quando tomou-me pela mão e me conduziu para o verde que marginava a estrada, apontando-me para o céu estrelado… Que eu me acalmasse e contasse com a Proteção Divina… Não tive tempo para saber se o meu coração estava resignado ou pleno de revolta, diante do imprevisto que me distanciava da existência física, e dormi sem o menor desejo de alhear-me do que se passava. Queria permanecer de pensamento aceso, de modo a compreender o que se passava, no entanto, a força que me governava por dentro de mim, ordenando-me repousar, era mais forte do que o meu propósito de conhecer o acidente de que fora vítima. Isso estava claramente certo em meu íntimo. Um desastre com a presença da morte, quando eu esperava uma criança que nascia… Antes que me rebelasse contra as Leis da Vida, o sono me imobilizou, e de nada mais vim a saber; senão quando acordei sob os cuidados da protetora, que me afirmou ser minha avó Maria Menezes, a resguardar-me. Ruilon (Hl 11.7-16)

  5. Recordo-me de que telefonei a você, prometendo vir para a casa, mas aqueles cochilões ao volante me amedrontavam… Quase ao termo da viagem de serviço, não longe de Goiânia, o sono me furtou a atenção e a máquina deu de nariz num barranco, junto do qual o meu sono de motorista se achou num desmaio total. Reconhecer que não mais poderia voltar ao que fora ou ao que era, foi um suplício para mim. A vovó Maria Abadia me internou em um parque de tratamento, e lutei, quanto pude, contra a ideia da morte. — Thales (Hl 12.7-10)

  6. No dia dois, senti que uma neblina me embaraçava os olhos. Queria ver as pessoas em derredor ou fixar os detalhes do quarto, mas aquela névoa parecia aumentar. Aquilo demorou até dia três, quando, num dado momento, vi um homem de rosto simpático, a remover aquela fumaça branca e sorrir-me. Perguntei sem poder articular qualquer palavra quem era ele e escutei claramente o que ele me dizia: — Então, Keko, você não conhece o seu avô Emílio? Pois é. Fique sabendo que para nós já chega desse negócio de agulhas agarrando a sua pele. Vamos embora. Você tem outra casa e terá as melhoras precisas para alegrar aos seus pais! Aquele rosto era assim convidativo e eu sofria tanto que aceitei os braços dele sem pensar. Ele me carregou, auxiliando-me a deitar a cabeça em seus ombros e tive a impressão de que ele me arrebatara a uma grande porção de panos que, naquela hora, me pareceram transmissores de doença e de aflição, porque nos braços do avô descansei, à feição de um pássaro que voara por muito tempo, com sede e fome de repouso sem achar um ninho que me pudesse resguardar. No regaço quente de carinho daquele homem que me declarava ser meu avô, repousei e peguei num sono que respondia em cansaço. Quando despertei, não somente ele me assistia, mas uma senhora ao meu lado mostrou-me o interesse maternal de quem se propunha a cuidar de mim. — André Max (Idb 1.9-14)

  7. Mãezinha, a visita da provação final do corpo físico chegou a mim quando fitava a relva, meditando na bênção da esperança. A máquina me colheu de súbito, sem que eu pudesse raciocinar. Por minutos, ainda consegui elevar ao Pai Misericordioso as minhas preces de ansiedade, nas quais você e a vovó eram minhas estrelas. O que me acontecia? Ignorava se me afastava de vocês duas, as abençoadas âncoras que me seguravam na Terra, ou se eram vocês que se distanciavam de mim. Sem capacidade para articular novos pensamentos, rendi-me ao torpor que me apagou a memória temporariamente. Despertei sob a proteção do papai Vicente e de minha querida bisavó que me acolheram, qual se eu lhes fosse uma criança. — Cláudia (Idb 2.3-5)

  8. Aliás, a moto não teve culpa, o Marcos não tem qualquer traço de responsabilidade em minha queda e nem eu mesmo posso carregar qualquer complexo de culpabilidade, porque eu não tive outro jeito se não despencar da garupa e estatelar-me no chão. Pelo choque na cabeça, percebi que a situação era grave. Sinceramente, ao sentir-me rodeado de gente, embora no corpo inerte ou imóvel, segundo acredito, experimentei o desejo enorme de voltar para casa, mas era tarde para isso. Senti-me tonto, a me apagar devagarinho e nada mais vi, senão que um sono ao peso de toneladas me caía sobre o pensamento, com o que perdi a noção de mim próprio. Hoje, pergunto a mim mesmo se a morte para todas as pessoas que atravessam o paralelo do silêncio será esse torpor que não nos dá qualquer chance para entender o que se faz de nós em tal momento, mas semelhante indagação fica para depois. Quando acordei, ignorando, como ignoro até hoje, o tempo em que estive à matroca, por dentro de minhas próprias ideias, percebi que alguém me auxiliava. — Dino de Caro (Idb 3.10-14)

  9. Não suponham que estivesse enganado, quando a moléstia se agigantou, atingindo-me até a cabeça. Nos dois dias últimos de meu abatimento, aceitei a ideia da morte, como sendo o único remédio que me poderia suprimir o quadro de sofrimento, no qual me achava gradeado, à maneira de um encarcerado numa gaiola de aflição. Quando comecei a perder a noção de mim mesmo, não sei se pela doença ou se pela influência dos sedativos violentos que me aplicavam, percebi que perdera a oportunidade de qualquer comunicação com os meus familiares queridos. Compreendi tudo e rendi graças a Deus. Desconheço a extensão de tempo no qual estive com a impressão de que me achava por dentro de uma nuvem, uma nuvem que não me permitia coordenar pensamentos. Onde e quando se deu a aparição de que lhes dou notícia, não sei dizer. Sei apenas que, em dado momento, a sombra se abriu, à feição de uma cortina retirada de chofre e vi o rosto de uma senhora a me sorrir e a chamar-me. Aquele convite de uma só palavra “Levante-se!” Ergui-me, com a ideia de que algum enfermeiro me apoiava e me vi frente a frente com a senhora que generosamente me socorria. Com bondade, informou-me: “Sou a sua avó Maria Ilustrina”; então, comovidamente, entreguei-me a ela, qual menino enfermo necessitado de proteção; descansei e dormi, não sei de que modo, e acordei outro. — Heládio (Idb 6.3-8)

  10. Vinha pela estrada muito consciente, e o choque havido foi como se eu estivesse num quadro de guerra… Perdi totalmente a noção de mim mesmo e, quando acordei em outro clima, a senhora pode imaginar, sem que eu diga, tudo aquilo que sucedeu. É tão clara a vida espiritual, que não aceitei de imediato a ideia de que já não conseguiria voltar à nossa casa. — José Tadeu (Idb 7.12-14)

  11. Parei o carro na retaguarda de outros vários que aguardavam o sinal, quando senti que um corpo pesado em demasia prensava o meu Alfa, ao mesmo tempo que aquele impacto me atingia a cabeça com violência. Entontecido, de repente, observei que algo de estranho me espancava a vida intracraneana e compreendi que fora vítima de ruptura de vasos importantes, sem que me fosse permitido falar. Aquela estranha convulsão me apagara o raciocínio. Tentei recorrer à oração, entretanto, a coordenação de meus vocábulos, mesmo no pensamento, se fazia impossível. Como se fora transportado da inconsciência ao sono, vi a mim próprio fora do meu corpo, espantando-me com a dualidade de que o choque me fazia objeto. Naquela atmosfera de penumbra, embora soubesse que o sol claro estaria brilhando por fora de minha sonolência, avistei um homem de olhar compassivo que me estendeu as mãos, esclarecendo: — Lineuzinho, venha conosco; seu avô Aristides também está à sua espera! Tudo aquilo transcorria numa partícula mínima de tempo, quando ouvi barulho de explosão à retaguarda. — Filho, sigamos! — falou o amigo generoso. — Não olhe para trás, porque, de agora em diante, os seus caminhos se desdobram para a frente! Nesse mesmo instante, vi que vovô Aristides igualmente chegava e os dois entrelaçaram as mãos para que eu pudesse dispor de um abrigo para descanso. Procurei ainda exercitar a palavra, a fim de avisar que me achava à espera de meu pai Lineu, quando um torpor irresistível me submeteu a um sono agitado que até hoje não consigo compreender. Aquele sono era um labirinto de pesadelos, no qual observava estampados quadros vivos de minha própria existência. Quis relutar contra o repouso, de modo a definir o que me ocorria; entretanto, o sono se fez mais profundo e perdi, de todo, a noção de mim. Despertei num ambiente agradável em que os dois amigos pareciam aguardar-me a conscientização. — Lineu de Paula (Idb 9.5-16) (Vav 1.5-16) Vide o complemento em (Vav 8.2-11)

  12. Tenho a ideia de que a morte do corpo num carro em movimento deve ser a desencarnação em onda curta, porque para mim tudo se resumiu a um abalo forte na cabeça. Por mais me decidisse a erguer os braços ou articular palavras, toda a tentativa resultou em fracasso, porque um torpor, de anestésicos em massa, me imobilizava de todo… Quis estender algum socorro ao Paulo Francisco, entretanto, o golpe que me atingiu não me proporcionou ensejo a qualquer manifestação. Com o tempo é que despertei em outro lugar com a vovó Leopoldina e com o meu avô Miguel, a me ofertarem auxílio. Agora estou no quase bem. — Miguel Elias (Idb 11.12-15)

  13. Confesso-lhe que, ao acordar, num corpo diferente, mas profundamente ferido, a revolta me tomou o sentimento, porque o Roberto não tinha razão para brincar comigo, a ponto de exercitar a chamada roleta russa, atirando sobre a janela do meu carro e alcançando-me as veias importantes da cabeça, e despojando-me do corpo físico num lago de sangue, que ainda pude ver aos borbulhões, no assombro da hora extrema. Tudo me fazia crer que me recuperaria, se conduzido imediatamente ao médico, mas um torpor estranho me dominou o corpo, a enrijecer-se e procurei na oração algum alívio, mas esse alívio apareceu com a inconsciência. Nada mais vi nem ouvi, desconhecendo até hoje quanto tempo desprendi naquela inércia que me paralisava o cérebro, de modo que eu não conseguia pensar. (…) Acordando, e tomando consciência de mim mesmo, meu primeiro impulso foi aquele de revide, atribuindo ao amigo as piores qualidades. (…) Foi a vovó Angelina que se aproximou de mim e se encarregou de me lavar as ideias infelizes. — Otávio José (Idb 12.4-11)

  14. Papai, naquele dia de setembro, nada aconselhava que fosse ao médico. Fiz meus exercícios na véspera, revisei lições e prometi aos companheiros um forte ensaio. Apenas uma dor de cabeça muito ligeira me dava a ideia de algum comprimido que pudesse me restituir toda a força. A queda do corpo foi rápida. Quis controlar-me mas não pude. Alguma coisa estava diferente em meu cérebro. Tentei estudar a mim mesmo, pois parecia estar caindo num choque de encontro a um muro desconhecido…  Ouvi os companheiros de bola gritando por mim… Alguém se ajoelhava, procurando meu corpo para massagens, no entanto, escutava os chamamentos de carinho e sentia várias mãos em meu peito, mas a voz morrera na garganta e chorei… Chorei passando a um sono que me pareceu vir de uma injeção de anestésicos. Então dormi muito, mas sonhei que fui ao encontro da nossa casa e do nosso caro Dr. Marins, caminhando livre, mas desorientado pela praia do Embaré e ao longo de outras praias, como se eu fosse feito de um material muito leve e flutuante, a transferir-me de um lugar para outro conforme a minha própria vontade. Em seguida, apaguei-me e nada senti senão repouso sem nenhuma recordação. Mais tarde, vim a saber por meu avô e por antigo e querido professor padre, que conheci no Colégio Santista e reencontrei aqui, que me achava de pensamento liberto, num estado diferente que as definições do mundo ainda não podem apreender. — Carlos Alberto (Tato) (Jna 2.1:9-15)

  15. Esqueçam o que sucedeu, ninguém me prejudicou, ninguém teve culpa. Mal sabia eu que um passeio domingueiro era o fim da resistência física. O coração parou, ao modo de um motor, de que não se descobre imediatamente o defeito. Sou eu quem deu tanto trabalho aos amigos. Notei quando me chamavam, quando me abraçavam, massageavam e me faziam quase respirar sem conseguir. Agradeço por tudo. Depois foi o sono, um sono profundo, do qual acordei para chorar com o pranto de meus pais e de meus afetos mais queridos. — Jair Presente (Jna 3.1:8-11)

  16. Era de tarde (…) quando me dirigi para o escritório onde a surpresa me aguardava… O resto não preciso recontar. Lembro-me, porém, de que ao cair, desarmado qual me achava, entrei de repente num sono difícil de explicar. O sono parecia vir de uma força desconhecida, como se alguém me aplicasse pesada carga de sedativos. Sonhei — este é o termo pelo qual posso designar o que se passou comigo — sonhei que seguia para nossa casa e que não me achava distante da residência do Dr. Jaques Souto e pensei de mim para comigo em pedir-lhe tutela para a minha causa, pois, apesar da atmosfera anuviada de sonho em que me via, estava consciente de que fora agredido… Meus pensamentos vagueavam descontrolados, quando acordei de improviso… Achava-me ao seu lado, na casa de tratamento para onde me haviam conduzido o corpo e ESCUTEI os seus pensamentos em prece, rogando a Deus me fortalecesse e perdoasse aquele companheiro que se fizera instrumento de nossas atribulações. Compreendi com a força de sua fé que fora retirado da presença da vida física, de vez que, embora, algo entontecido, reconheci que ninguém no recinto dava conta de minha presença. Recordei, de imediato, as suas conversações e os seus ensinamentos. A lembrança de mamãe e da esposa passou a me doer no coração. Só então registrei o sofrimento do corpo que ainda se ligava comigo por fios de vida que não sei classificar. Aquele anseio de retomar-me na forma inerte me compelia a experimentar um largo complexo de inquietações… Detive-me, no entanto, na prece e copiando os seus gestos de pai, também eu roguei a Jesus me fortificasse e desculpasse o amigo que se deixara levar pela impulsividade negativa, quando entre nós só existiam amizade e confiança em comum. Foi então que realmente dormi. Dormi pesadamente, por tempo que não sei enumerar e despertei atordoado ainda no regaço de alguém que me lembrava a mamãe em meus tempos de menino. Eram aquelas mãos, a me acariciarem como se voltasse a ser novamente criança… Chorei num misto de reconforto e de aflição, mas aquela voz boa e mansa me aconselhou a lembrar que Jesus igualmente fora sacrificado fora do ambiente doméstico se Ele realmente possuíra algum. Pedia-me rezar, acalmar-me. Só aí num transporte de alegria repleta de pranto, reconheci que a santa enfermeira que me amparava era a minha avó Benedita Freire. Em breves momentos o tio Olegário se me fez visível e, desde aí, começou a minha recuperação. — José Wilson de Campos (Jpv)



  17. A liberação do corpo físico é um grande momento! A lucidez me presidia os pensamentos e, como se me visse favorecida por um prodígio com o qual não contava, através de tênue claridade interior, via os nossos familiares a me aguardarem felizes! Orei pedindo a Deus a bênção da coragem e vi-me desatada do corpo que me prendia. A minha mãe Inácia me beijava e me pediu ver a luz da casa!… O cativeiro terminara, o cativeiro das sombras e então consegui anotar o esplendor que se irradiava de todos os objetos. Horas passaram e via a luz dominando a Terra! O sol me pareceu um lampadário de Deus fulgurando no Espaço infinito e contemplando a Terra, movimentei-me extasiada e observei que a luz de Deus inundava todas as forças da Natureza! As flores se me figuravam focos iluminados destilando bendita claridade em torno do solo que os sustentava e descobri ou redescobri a luz no ar que respirava, nos blocos residenciais que surgiam diante de mim, ao modo de monumentos radiantes, nos quais a existência de milhares de pessoas resplandecia, sem que as criaturas humanas, em pleno mar de luzes ignorassem quanto ignorei por tanto tempo, que a irradiação do Céu, a repartir-se em cores variadas, nos servia de alimento! (…) Deus de bondade, como vivera durante tantos janeiros numa nave repleta de vibrações luminosas e não soubera até então. Minha mãe Inácia, que me tutelava os passos, me abraçou e aconchegou-me ao colo qual se eu houvesse voltado a ser criança e me pediu pensar em repouso. Bastou isso e dormi tranquilamente, na suposição de que voltaria para perto do João e dos meus filhos!… No entanto, dias transcorreram uns sobre os outros, até que, em certa manhã, despertei para novo deslumbramento. — Carolina Caetano (Lar 4.4-14)

  18. Passei ao banheiro para a revisão da roupa, quando me senti subitamente sem forças. Não consegui movimentar-me, nem falar. Algo se desarticulara por dentro de mim, sufocando-me o pensamento. E caí, sem meios de me proteger contra qualquer obstáculo e um escuro se me fez na cabeça. Mais nada. O que aconteceu nos momentos que se seguiram somente depois me foi mostrado pelo vovô e por outros amigos. Ainda não sei quantos dias estive naquela ausência de mim próprio. Sono, apenas sono absoluto. Creio que me aplicaram alimentos enquanto me achava naquela inconsciência difícil de descrever. Voltei a mim mesmo, devagar. Primeiramente, pareceu-me sonhar num entendimento tarjado de neblina grossa. Observava que mãos amigas me socorriam, com massagens e até mesmo com injeções de substância curativa e nutriente. Até que despertei. As perguntas eram minhas. Os petitórios foram meus. Não me admitia morto. A vida estava comigo, com o mesmo calor de sempre. O raciocínio funcionava na base do discernimento. Foi o vovô Abrahão quem me elucidou, pouco a pouco. — Ivan (Lar 5.6-17)

  19. Os meus sofrimentos chegaram ao ápice, quando vi a senhora que me estendia os braços acompanhada de outros amigos. Ela me falou de maneira perfeitamente audível para mim, para relaxar o corpo atormentado quanto pudesse, porque chegara o momento de me desligar do veículo já imprestável e, francamente, procurei relaxar-me e ela, num abraço de mãe, me retirou, aconselhando-me dormir. Caí num torpor muito grande e só depois de alguns dias vim a saber que a nossa Fanti, a querida noiva, estava ali mesmo desencarnada, em tratamento de recuperação. Mãezinha Nádia, creio que me habituara a ser forte para enfrentar qualquer emergência no ar, entretanto, ali chorei à maneira de criança ferida, pois reconheci para logo que a permanência na vida cessara para mim. — Sidney (Lar 6.9-12)

  20. O nosso carro, de fato, parecia estar com alguma velocidade excedente, mas o Mauro era, aos nossos olhos, um condutor seguro. Em certo momento, cheguei a observar com a minha alegria de rapaz, que nossa máquina dava sinais de febre alta. Não se passaram muitos instantes e tive a queda fatal, sendo atirado à distância. A cabeça bateu com tanta força de encontro a um corpo sólido que não tive dúvidas quanto à gravidade do que nos ocorrera. Conquanto quisesse olhar para os amigos e verificar-lhes a situação, um estranho torpor me imobilizou. Quis movimentar os lábios e as mãos, entretanto, não me pareceram aptos a obedecer aos impulsos da vontade e da mente. Eu era eu mesmo, no tumulto que se fazia em torno de mim, no entanto, a força que me ligava às funções do corpo se me figurava cortada. A inércia tomou conta de mim, embora por dentro estivesse mantendo o desejo de me comunicar com o papai Laurentino, para dar-lhe ciência do acontecido. Amigos que não identifiquei me seguravam e me recomendavam despertar-me, mas como responder ao que me solicitavam? A boca estava imóvel e as mãos surgiam hirtas. Desejei tanto enviar-lhe algum recado, duas poucas palavras que fossem, entretanto, minhas forças me abandonaram rapidamente. (…) Reconheci-me no resto de minhas energias e não me enganava. Um sono inexplicável se apossou de mim e não pude fugir daquela intimação ao repouso compulsório. Quando acordei, ignorando o tempo que despendera no contratempo inesperado, vi ao meu lado uma senhora que parecia interessada em me auxiliar. (…) Foi então que fiquei sabendo que se tratava de minha avó Clotilde a me dispensar proteção. — Fernando (Lar 8.10-24)

  21. Estávamos sóbrios, calados. Quem poderá saber o que aparecerá no minuto próximo? Um toque de carreta pesada e despencamos para baixo. (…) A ideia de Deus relampagueou-me no cérebro. Deus que me dera a vida poderia retomá-la quando quisesse. Esse gesto interior da paciência me pacificou a alma e orei com um calor de fé para mim até então desconhecido… Vi-me fora do corpo habitual, qual se eu fosse uma ervilha humana repentinamente expulsa do revestimento natural… Fitava o meu corpo e me sentia num corpo igual àquele que os instantes daquela estranha experiência já me haviam separado. Minhas percepções, entretanto, estavam modificadas. Tentei assegurar-me do local onde fora esbarrar, mas em vão tentei alinhavar impressões que não chegava a reunir. Ouvi vozes. Alguém que soube por Lika, mais tarde, ser um amigo que ela nomeou por tio Wiltzman repetia as palavras do Salmo 23, com a fidelidade de quem estivesse com a Bíblia nas mãos: “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará. Deitar-me-á em verdes pastagens…” A bela invocação continuou e asserenei-me. Incapaz de definir o que se passava, lobriguei a presença de alguém que me abraçava. Quem era? (…) Centralizei todas as minhas energias e, embora imperfeitamente, qual se meus olhos não pudessem responder às exigências da visão, notei que me achava à frente daquele inesquecível amigo que muitas vezes chamei por tio Giuseppe Amatto. (…) Ignoro os mecanismos postos por ele em ação, em meu favor, porque suave anestesia me percorreu todo o corpo e entrei num sono ou desmaio, do qual somente despertei dias depois. — Giuseppe Mateus (Lar 10.25-39)

  22. Essas vozes, clamando por socorro, estão registradas, podem ser ouvidas, foram arquivadas e estudadas e admito que bastará isso para que os nossos amigos e familiares do mundo venham a saber quanto nos custou em sofrimento a queda do avião, que não mais conseguia se manter nas estradas aéreas. Que nos poupem a repetição do choro e dos gritos de dor das nossas irmãs que se nos faziam companheiras de viagem… Todo esse coro de lágrimas e preces ainda soa dentro de mim… Por mais que buscássemos suprimento à sustentação da máquina, semelhante suprimento de recursos era impossível nas condições em que nos achávamos e o choque brutal foi amenizado pela assistência do pessoal de serviço nas ambulâncias da Providência Divina que nos esperavam, sem que os homens, nossos irmãos, se dessem conta de semelhante auxílio. Quando notei que mãos vigorosas me erguiam do chão, restituindo-me o pensamento a fim de compreender toda a extensão do acidente de que fôramos vítimas, entendi que o socorro espiritual é muito maior do que poderíamos imaginar enquanto na Terra. Fomos hospitalizados fraternalmente em recantos socorristas, sediados na Terra mesmo e, gradativamente, retornamos à própria personalidade, cada qual de nós com determinada soma de preocupações, conforme os laços e os muitos que deixamos na retaguarda. — José Luiz (Lar 11.3-7)

  23. Não sei contar detalhes. As vítimas de acidente são as que mais ignoram o doloroso acontecimento de que foram protagonistas. A queda no desmaio de que me reconheci possuído foi inevitável. Aquilo não pode ser sono, deve ser um estado enfermiço, qual acontece com o Espírito na vida fetal. Sei unicamente que acordei num dia ensolarado com a presença de uma senhora que se me deu a conhecer por bisavó, a quem fiquei devendo cuidados que nunca resgatarei. — Ricardo Romano (Lar 12.4-7)

  24. Compreendi, por fim, que eu não nascera num corpo capaz de terçar armas contra a doença quase fulminativa que avançava. Então, mãezinha Wilma, entreguei-me a Deus, chorando embora, mas ocultando-lhe as minhas lágrimas que não tinham razão de ser. Não me competia combater com os desígnios de Deus que me impunham a libertação da vida física e por isso, o meu desagrado era absolutamente impróprio e inoportuno. A febre, a aflição, aquela impaciência contida, o medo do desconhecido me dominavam quando ouvi a voz da criatura maravilhosa que se me dá a conhecer por minha bisavó, a convidar-me ao descanso… (…) A voz, porém, insistia comigo referindo-se ao repouso e por fim, incapacitado para a resistência, aceitei a sugestão e supus dormir tranquilamente; mas aquele sono não era a calma do corpo dolorido e sim uma outra serenidade que eu desconhecia. Um torpor inarredável me tomou a forma habitual e sonhei que uns braços repletos de amor me protegiam para a retirada… Quanto tempo estive nessa hibernação para mim indefinível não sei dizer, no entanto, voltei a mim e encontrei ao meu lado a senhora cuja presença vislumbrara no leito e de quem só registrara a voz inesquecível. Gradativamente fui conscientizado de que deixara o corpo doente e tomara posse do meu veículo de manifestação, esse mesmo que na Terra, nos sustenta o instrumento físico sem que venhamos a perceber. — Marco Antônio (Lar 12.4-7)

  25. Tenho os derradeiros movimentos do carro na memória. Pobre Leila! Dirigia cautelosamente, sem qualquer sinal de nervosismo ou de aflição, mas surgiu um instante em que o veículo passou a retratar por fora alguma perturbação que o desfigurava por dentro, e, sem que a nossa amiga pudesse controlá-lo, diante de nossa ansiedade, rodopiou sobre si mesmo e atirou-nos para longe. Nada mais vi no momento da crise, porque me apaguei inteiramente. Depois, creio que muito depois, é que despertei sentindo dores fortes em toda a região intracraniana e imaginei que fora colhido por algum refúgio de pronto socorro a fim de sanar os resultados do acidente. (…) Recebi tratamento, à maneira de qualquer acidentado, numa internação de hospital, e, quando me senti livre dos sofrimentos periféricos que me aturdiam, pude visitar a nossa casa e abraçar os nossos entes queridos. — Argemiro (Nec 2.10-16)

  26. Reajusto o que disse e desejo falar-lhes que o barco cedeu sobre as águas e as águas que tínhamos a ideia de estar dominando acabaram por dominar a mim e ao Tadeu, que perdemos as forças. De momento, lembro-me do Luizinho e do Murilo a chamar-nos com aflição. Queridos e bons amigos, como devem ter sofrido por nossa causa. Desejava, de minha parte responder a eles, mas me reconheci tonto e sem iniciativa… Sem que eu conseguisse julgar os movimentos que fazia inconscientemente me perdi num sono violento, como se alguém me houvesse ministrado um anestésico irresistível… Não vi mais detalhe algum. Despertei num lugar de tratamento sobre vasta mesa, na qual um homem, compreensivelmente um médico para mim, me aplicava certas massagens, qual se me obrigasse a uma ginástica incômoda que não conseguia entender. Mais tarde, fui informado que se tratava do médico Dr. Urbano de Brito, que me auxiliava na volta ao meu estado natural de consciência… — Francisco Eduardo (Nec 5.6-10)

  27. Em verdade, querida esposa, eu queria ter continuado a viver. Não supunha que os braços de amigos que estimamos tanto se erguessem contra mim, a ponto de furtar-me a existência. Nos primeiros instantes, a dor do inesperado me dominou a vida íntima; você e os nossos filhinhos me povoavam os últimos pensamentos. Chorei à maneira da criança que inutilmente roga pelo regaço materno, mas uma doce sensação de calma me envolveu de todo… E dormi, conquanto me esforçasse por sustentar-me vigilante e atento, quanto se me fizesse possível. Ansiava reagir contra aquele torpor que me paralisara os movimentos, no entanto, creio que a perda de minhas forças acentuava o desmaio em que me vi arrasado, de um instante para outro… Quis rezar, pensar em Deus, suplicar proteção em nosso benefício, contudo, os meus pensamentos me pareciam pássaros a fugir da gaiola de minha própria cabeça… O sono foi profundo… Depois, sem que me fosse permitido perceber quanto tempo gastara em semelhante inconsciência, despertei num quarto de hospital. — Geraldo (Nec 6.4-11)

  28. O acidente foi aquele tumulto de morte. Um ranger de ferros a se retorcerem e eu assombrado sem a possibilidade de ensaiar qualquer providência, porque me vi parado e inerte, embora o anseio de me locomover. (…) Adivinhei num pensamento relampagueante que a morte me abraçava com uma força irremediável e fiquei com a visão do Rafael e da Gabriela na imaginação prestes a desaparecer, segundo julgava. Não sei se dormi, sei que me vi apagado e inútil. Pensei que não seria possível largar a vida sem qualquer ideia de proteção, quando vi uma jovem ao meu lado, procurando acalmar-me. Não identifiquei, no entanto, ela se deu pressa em podar-me qualquer receio e me disse que era a Eda, a querida irmã que nos deixara tão cedo e da qual somente possuía vagas referências dos pais queridos. — Hélio (Nec 8.2-7)

  29. Não foi um afogamento que me afastou do corpo. O coração parou repentinamente, lembrando-me um relógio do qual a corda ficou esquecida. Colapso aparece também na gente jovem, e porque a gente jovem não pensa em coronárias doentes, o desenlace de que me vi objeto se transformou para nós todos num acontecimento infeliz de praia. As águas, porém, não tomaram a mínima interferência em meu caso, caí sem forças para não mais erguer-me, senão em outro lugar muito diferente, depois de breve travessia de um pesadelo em que me sabia inconsciente. — José Esmelcerei (Nec 9.5-7)

  30. No começo, o estrondo das máquinas me envolveu a cabeça e ignoro quantos dias estive numa espécie de sono no qual não conseguia mover-me, no entanto, ouvia tudo o que se falava junto de mim. (…) Tempo enorme estive assim, como quem caíra em algum despenhadeiro de que não podia me afastar, até que um momento veio em que, através de uma nuvem ou de alguma neblina que me pareceu uma nuvem, vi um rosto risonho, irradiando uma paz que me acalmava. (…) Mamãe, a lembrança de casa me dominou e chorei. Estava entre duas forças, uma que me prendia, outra que me libertava…. (…) Dormi nos braços protetores da vó Deolinda, à maneira de um passarinho que houvesse sofrido muito, depois de apedrejado, e encontrava, de novo, o ninho em que poderia repousar… Despertei não sei após quanto tempo, e não foi difícil para mim conversar com o avô Romualdo, com a vovó Deolinda e com o irmão José Edgard que eu não conhecia. — Marcel (Nec 11.2-11)

  31. Mamãe, eu não sofri com o toque do carro que bateu contra nós. Tive um desmaio e, por muito que eu quisesse permanecer acordada, uma força maior do que os meus impulsos me fez cair. Assim penso, porque ouvi muita gente falando ao mesmo tempo, sem que eu pudesse entender o que se dizia, até que o desmaio se fez desmaio mesmo e perdi a noção do que estivesse acontecendo. Quando despertei, não sei como, tudo estava diferente. Uma senhora me conservava no colo, qual se eu fosse uma criança dela mesma. Essa protetora, pois logo senti que ela me defendia e guardava de encontro ao peito, me comunicou ser a vovó Carmela, cujos traços trazia eu na lembrança pelo que se dizia em nossa casa. — Paula (Nec 14.4-7)

  32. Os companheiros e eu brincávamos com a bola e pedi em voz alta para que o almoço me esperasse. De repente, lembro-me com segurança, fomos surpreendidos pelo clarão de um relâmpago e com o clarão surgiu um chicote de fogo que nos fulminou os quatro. Onde o tempo para raciocinar? Impossível. Se houve tumulto ou gritaria, de nada me recordo, porque tombei inconsciente. Ignoro quanto tempo despendi naquela queda de força com absoluta impossibilidade de manejar meus próprios pensamentos… Sei que me debati, entre a penumbra e a luz, entre a alucinação e a consciência de mim mesmo, por vários dias. Senti-me sob tratamento hospitalar, qual se fosse um asilado comum em casa de emergência. Muitos amigos apareceram, mas não reconheci nenhum, até que um deles me rogou atenção para identificá-lo por vovô Ângelo e, desde então, encontrei um ponto de referência para reconhecer-me, ao modo de um viajante perdido que surpreende uma estaca, através da qual consegue fazer a revisão do próprio caminho. — Paulo Augusto (Nec 15.3-9)

  33. Limpava a arma, com despreocupações, supondo que não houvesse qualquer remanescente nos mecanismos em minhas mãos. Em dado instante, alonguei o braço para ver se a arma estava legalmente limpa, quando, sem querer, detonei a bala única que restava ali, sem que eu soubesse. O tiro escapou sem que de minha parte conseguisse sanar as consequências. Caí, apesar do meu propósito de permanecer atento aos curativos que, decerto, me seriam administrados. Ouvi vozes e gritos abafados, tentando responder, mas, a minha boca jazia selada por uma força que não compreendi. Procurei sustentar o cérebro aceso, a fim de prestar as informações necessárias, no entanto, aquilo foi um achatamento de minha personalidade. Achava-me acordado, observando o que se passou, contudo, a minha força se esgotava rapidamente. A lesão repentina que sofrera no crânio, como que me tomava todas as energias. Era como se meu corpo naquela hora estivesse concentrado na cabeça, sem que me fosse possível externar qualquer impressão. (…) Entrei num sono invencível e perdi-me nas considerações inacabadas que tentava formular… O resto não sei. Não sofri dor alguma porque, onde o impacto do sofrimento é pesado demais, a dor desaparece… (…) Depois, foi a inconsciência, com uma espécie de ocultação de meu próprio ser. Quanto tempo estive assim, nem exatamente vivo, nem suficientemente morto, ainda ignoro. Sei que despertei num aposento simples e arejado, com a cabeça dolorida. Julguei-me num local de tratamento para acidentados… — Dialma Coltro Filho (Nh 1.6-19)

  34. Afinal, acolhia-me em seu amor, a fim de deixar o corpo que trazia o coração prestes a parar. Abraçando-a, tive a ideia de que poderia entregar-me ao colapso que me sondava, antes de chegar em casa. Sentia-me aflito, como se algum poder invisível me sufocasse. Ao abraçar você um suave calor me reanimou de improviso, e consegui descansar. Naquele instante não pude saber que eu estava sob o domínio da desencarnação. Deitei-me com o seu carinho a envolver-me e senti que na intimidade do peito, o órgão da vida parara de bater. Repeti preces que sempre nos foram queridas e, sem esforço, comecei a ver Protetores que sempre conseguia vislumbrar, junto do nosso amigo Guedes, em nossas tarefas espirituais. Davam-me passes, falavam palavras de conforto, das quais somente escutava alguns fragmentos e, alguns deles me colocavam as mãos na cabeça, aliviando-me quanto às dores que eu registrava e, em seguida vi por cima de todos nós uma luz que parecia descer do teto sobre mim. Essa luz me tomou o corpo todo e aos poucos me levantei. Vendo-me de pé, fitei o meu corpo inerte e escutei as suas súplicas ardentes para que o seu velho ficasse. Eram muitos os companheiros que compartilhavam de nossas reuniões, a me sorrirem, até que um deles me convidou a segui-los para a recuperação de que estava necessitando. — Dialma Coltro (Nh 2.2-10)

  35. Tudo passou tão depressa que não sei como recordar o sucedido. O carro descontrolado e a certeza de que bateria em algum corpo sólido… Esforcei-me por sair do perigo e saí violentamente pela porta, entretanto, o movimento era intenso e, incapaz de equilibrar-me, caí para trás, sentindo que o meu crânio fora lesado pela quantidade de sangue que se desenvolveu de imediato, trazendo-me tal esgotamento que entendi a situação. Não conseguiria descartar-me do acidente, sem que a paralisação de todos os meus movimentos fosse evitada. Os desconhecidos que me rodeavam lamentavam o meu desconforto, outros queriam ver o veículo e se puseram a examiná-lo, até que os agentes da polícia do trânsito chegassem e me anotassem a posição de imobilidade e falaram em morte, o que realmente me assustou. Quis reagir, explicar que eu estava vivo, que decerto as escoriações deviam estar vertendo muito sangue, mas, não consegui. Uma inesperada fraqueza me assaltou e perdi o controle de mim próprio. Eu devia estar muito quebrado e ferido, porque não pude articular palavra. Então, senti que mãos amigas me carregavam e me puseram dentro de outro carro, sem que eu pudesse saber, de momento, que era uma ambulância. Notei vagamente que o carro se pusera em movimento e que me transportavam para algum lugar. Notei que uma senhora estava comigo naquele veículo e me falou palavras de consolo e esperança: — Você não está só — disse ela em harmonioso italiano. E continuou: — Angelo, meu filho, aceite com fé em Deus a provação desta hora. Sou uma de suas bisavós e quero pedir-lhe confiança e paciência. Você está no corpo físico e, ao mesmo tempo, fora dele… Não se alarme com o que lhe digo, porque estaremos juntos com outros corações de nossa família. Você está cansado e precisa repousar. Durma. Pode dormir sem medo… Você será transportado, durante o sono, para o lugar de nossa moradia. Durma… Durma! (…) Dormi pensando que eu ainda teria chance de ir até a nossa casa para abraçá-la e abraçar o papai Aniello e os irmãos Giovani e André, mas acordei numa outra paisagem. Não mais me senti dentro do carro e, sim numa casa acolhedora cercada por um bonito “giardino”. — Angelo (Nh 4.2-16)

  36. Foi um parafuso em forma de batida na terra, que até hoje não saberia explicar. Demandava eu a cidade em busca de clientes para o meu campo de trabalho, e toda a instrumentação estava legal. Não sei porque motivos, o aparelho começou a falhar de repente, até que mais se assemelhava a um potro desgovernado que a minha inquietação não conseguia manter no equilíbrio necessário. A explosão foi um relâmpago que me apagou de improviso. Detalhes não tenho. Sei, no entanto, que abuso ou imperícia não foram a causa do desastre. Previra tudo o que a minha atenção poderia fazer, a benefício de uma viagem segura. Enfim, querida mãezinha, quando despertei daquele sono compulsório a que me vi subitamente atrelado, vi-me à frente de familiares queridos que me prepararam gradativamente, a fim de receber a verdade. Minhas impressões iniciais foram as do acidentado que agradece a hospitalização de que se vê objeto. Trazia o corpo equimosado, com muitas dores nos olhos, sem recursos para enxergar de modo correto. Percebia unicamente a presença da luz, mas não identificava contornos de pessoas e coisas. Mas a vovó Anna e a vovó Aurora se incumbiram da tarefa de enfermeiras hábeis e atenciosas, resguardando-me contra choques desnecessários. Tão somente com o passar dos dias é que vim a conhecer a realidade. — Paulo Fernando (Nh 8.5-12)

  37. Vínhamos em marcha ativa, na Marginal, conversando sobre os fatos comuns da vida, quando o veículo deu uma forte guinada para fora da pista e ouvi apenas os gritos do Caio e da Vanina que estavam conosco, e  esbarrei de cabeça inteira num poste ou numa pedra,  não sei bem. Senti que o acidente me marcara para morrer e com aflição desejei inutilmente falar aos companheiros de passeio, no intuito de evitar-lhes um choque tão violento como aquele que experimentara, mas qualquer manifestação de minha parte se me fazia impossível. Numa faísca de tempo, lembrei-me dos pais queridos e das irmãs que confiavam tanto em mim, no entanto, era uma lembrança de último instante, porque o meu raciocínio se apagou, como se meu crânio fosse uma lâmpada repentinamente queimada. (…) Sentia-me ainda sensível ao tato e notei que duas  mãos me tocavam os cabelos. Quisera que a minha  audição estivesse perfeita, mas mesmo descontrolado como a percebia, ouvi as palavras: “Meu filho, nós  estamos com você.” Quem seria? De momento, não pude aperceber o sentido da voz suave que pronunciou aquelas palavras. (…) As mãos de que tivera íntimas notícias através do tato, voltaram a me acariciar a cabeça dolorida e, em seguida, fui abençoado com um sono profundo do qual despertei numa outra paisagem, que com algumas horas percebi se tratar de uma Casa de Saúde. Creio que foram dois os dias em que continuei apático e quase imóvel, entretanto, no terceiro dia, pela primeira vez naquela situação, vi com meus próprios olhos que uma senhora de face paciente e calma, que percebeu o meu despertamento, falou com serenidade e carinho, que me achava ali sob os cuidados de minha bisa Adelina e digo bisa porque foi ela própria que assim se identificou. — Marcelo (Nh 11.5-12)

  38. Quando o carro em movimento me tocou a peça quase parada, recordo o salto obrigatório em que me vi despejado, quase em voo cego, ignorando onde bateria meu corpo. Uma pancada de cabeça me tonteou!… Quis raciocinar ou falar, mas não consegui. Tive a ideia de que um barulho imenso me tomava a sede do pensamento, e não conseguia reunir ideias para essa ou aquela resolução. (…) Senti que me recolhiam e que me transportavam para lugar que não dispunha de visão para reconhecer.  (…) Percebi que a Dídi nos acompanhava, e que estávamos reunidos num carro que somente depois vim a saber tratar-se da ambulância, em que descansei num sono realmente de morte. (…) O torpor em que me vi prostrado se transformou num desmaio que atingiu a própria inconsciência. Quando acordei, me achava num lar acolhedor e, a meu lado, alguém me falava com a doçura da vozinha… O receio da morte estava em mim, qual se não houvesse, de minha parte, atravessado a passagem estranha… Essa criatura que vim a reconhecer — a vó Bernardina — me explicava com bondade e prudência tudo o que me sucedera. — Bernardino (Nim 1.8-23)

  39. Papai Luiz e mãezinha Dinar, chegou o bendito momento. Estou aqui com a paz dentro da qual saí de aula para encontrar uma provação que não me atingiu. Quando me vi assustada diante de pessoas desconhecidas que me falavam palavras que não guardei, senti um sono difícil de explicar. Sabia que fora arrebatada dos meus e que me via à frente de uma situação cruel, mas aquele torpor seguiu aumentando… Num certo instante, alguém me assustou e nesse choque uma força maior do que a minha me tomou a cabeça e me fez dormir. Se estava hipnotizada, não sei. Um sonho tranquilo me invadiu a memória, e rogo não me considerem pessoa espancada ou ferida, porque se passei por isso, não fiquei sabendo… Despertei com uma senhora de faces bondosas ao lado de uma jovem que me pareceu professora de grande beleza. Ainda sob o susto que era tudo o que me ficara na lembrança, perguntei por você, papai, e indaguei por mãezinha, querendo abraçá-los, tranquilizando-os, mas a senhora me disse ser a minha avó Sebastiana, e a moça me comunicou chamar-se Maria Inilda… Em seguida me disseram que eu não conseguiria regressar ao lar com o corpo que havia sido meu… A moça me explicou que eu teria vestimentas muito melhores e esclareceu que meu corpo estava todo estragado, incapaz de servir-me. — Eliete (Nim 3.1:1-9)

  40. Foi tudo tão rápido que, hoje, rearticulando as minhas lembranças, fico imaginando que a morte física no caso de sua filha, teve o aspecto de uma execução. Com isto, não estou de modo algum menoscabando os desígnios da Vida Superior. Quero somente fixar em nossa memória a convicção de que estamos sob a direção de Deus, ainda que tenhamos a ideia de que nos achamos numa diretriz propriamente nossa. Posso afirmar-lhe que não senti qualquer dor no choque que me pareceu imobilizar a memória. Sem querer, entrei numa espécie de sono compulsivo, de que não pude escapar. Sonhava com a realidade para depois reconhecer que a realidade não era sonho. Sentia-lhe o corpo ferido em meu corpo diferente e as dificuldades de meu pai Máximo, a fim de se desvencilhar das dores que adquirira. Pensava em Marcelo e tudo se me afirmava dentro de uma nebulosa, cuja duração ignoro como precisar. Quando tomei posse de mim mesma, notei que alguém me despertava para o conhecimento da nova situação. Era a vovó Brasilina a preparar-me. — Fátima (Nim 4.1:4-11)

  41. O grande pássaro de metais caiu arremessando-nos a todos de uma vez na liberação compulsória da experiência física. Concentrei todas as minhas reservas de energia mental para não dormir ou desmaiar, entretanto, semelhante esforço não me valeu por ensejo de observação mais minuciosa do fenômeno que nos arrasava a família. Numa fração de tempo que não pude e nem posso ainda precisar, vi-me fora do corpo, à maneira de noz quando salta do invólucro natural que a retém e, conquanto cambaleasse de espanto e sofrimento, reconheci que não estávamos a sós. A mamãe Antonieta e a Lucy estavam amparadas por senhoras amigas, e o Robertinho, a Luciana e o Waldomiro Neto se achavam sob a assistência de enfermeiros diligentes. Quis conhecer os benfeitores que nos estendiam socorro, mas, como se a certeza de que não nos achávamos abandonados me rematasse as resistências, entrei por minha vez num torpor de que não consigo atualizar a duração. Mais tarde, ainda ignoro depois de quantos dias, despertei numa instituição que a princípio me forneceu a ilusão de que havíamos sido salvos do acidente doloroso, mas não se passou muito tempo, para que me visse esclarecido. Havíamos todos deixado a moradia física, de uma só vez. — José Roberto (Nim 7.6-12)

  42. Cair sob o desequilíbrio de um veículo, sem que me fosse possível prever a extensão da luta na qual penetrava sem querer, foi uma calamidade, a princípio, porque um torpor invencível me dominou as energias e, por mais me propusesse ansiosamente a socorrer a nossa querida Mônica, a verdade é que uma força gigantesca me apagava qualquer impulso de resistência. Quanto tempo gastei naquela inércia indefinível, ainda não sei dizer. Acordei na posição de que fora conduzido a algum recanto de emergência, na cidade, no entanto, quanto via era agora estranho demais para que me supusesse num ambiente familiar. O seu carinho compreenderá que, por muitas horas, voltei a ser o menino exigente da infância. Queria, à força, que os meus viessem a mim, reclamava contra tudo e todos, quando uma senhora se colocou à minha frente. Falou-me com bondade, conquanto não me visse em condições de reconhecê-la. Ela propriamente se identificou, declarando-me ser a vovó Onofra que me desejava paz e refazimento. — Wander (Nim 11.3-8)

  43. Sei que era 3 de agosto por informes daqui. Naqueles momentos últimos, a mente parecia dormir numa atitude crepuscular. Achava-me como que num portão entre dois mundos. Ouvia sem falar. Compreendia sem a menor possibilidade de esclarecer. Isso aconteceu, até que um sono bom me acolheu de todo. Creio que não me contaram aí toda a extensão do acidente, pois apenas aqui, vou sabendo minúcias, pouco a pouco. Despertando, julguei me tivessem arrancado à Casa de Saúde para o lar de Nelise. Chamei por mamãe, primeiro; gritei por meu pai; no entanto, uma senhora simpática se adiantou para tranquilizar-me com um beijo. — “Você não pode lembrar-me, meu filho” — disse com imensa ternura —, “mas carreguei seu pai nos braços e sou sua avó Amélia.” As lágrimas me vieram do coração ao rosto. Entendi tudo, num relance. No íntimo, eu sabia que outra vida palpita e brilha, por dentro e por fora da vida terrestre. Não era o conhecimento religioso que me fazia assim, nessa forma de saber sem haver aprendido. Era a intuição, a certeza de que Deus é a Luz do Universo. — José Luiz (Pa 1.16-23)

  44. Do que passou, no meu desprendimento do corpo cansado de preocupações e medicamentos: Um torpor muito grande me dominou e perdi a consciência de mim própria, durante horas, cujo número não estou, por enquanto, habilitada a dizer. Despertei-me num aposento espaçoso e acolhedor, e a enfermeira que me atendeu era a nossa Maria Amélia, uma revelação viva de paciência e tolerância. Não acreditava que tudo de novo que caiu-me sob os olhos fosse uma paragem diferente, tamanha a similitude com os nossos pertences domésticos no mundo. Eu teria sido transferida de uma Instituição para outra. E somente, pouco a pouco, percebi que me achava num ambiente diverso do nosso. — Juraci (Pa 5.1:8-11)

  45. Saíra com a Márcia para alguns momentos de refazimento e diálogo, e quando a carreta nos atirou para fora da pista, senti que minha coluna se quebrava, tão violento foi o golpe do carro em luta sobre minha garganta. Imaginei que devia prestar o socorro necessário à nossa estimada Márcia; entretanto, o meu raciocínio rodopiou e me vi incapaz de qualquer movimento a fim de amparar a companheira. O turbilhão de ideias que me acudiram ao cérebro apossou-se totalmente de mim. Quis gritar, pedir assistência; no entanto, algo me desligara do corpo inerte. Percebi a chegada de pessoas que se propunham a auxiliar-nos, ouvi os gemidos de Márcia e, no íntimo, chorei, lamentando aquela imobilidade dos meus recursos de manifestação. Notei que me transportavam para alguma parte que soube depois ser o hospital, onde o meu coração parou de bater. (…) Ouvi as palavras de amigos asseverando que o fim chegara para o meu corpo e deixei-me tomar por um anseio indefinível. Intimamente, notava todas as minhas faculdades ativas, muito embora nada pudesse dizer com os lábios hirtos. Vivia profundamente por dentro de mim; entretanto, reconhecia-me cego, sem conseguir explicar a mim próprio aquele arrasamento de meu próprio ser. Vagamente, mas com certeza, notei que me separavam de mim mesmo. Onde alguém que me pudesse esclarecer, quanto àquela dualidade que me atribulava e destruía? Apenas mais tarde, vim a saber que o meu corpo físico fora transportado para outro lugar, mas eu mesmo permanecia ainda no leito do hospital, à espera do socorro que me parecia tardar. Depois de alguns minutos, que me pareceram longos demais, senti que alguém se sentara a meu lado e me afagava a cabeça dolorida com mãos carinhosas, que me faziam lembrar as suas, quando a sua dedicação me sabia doente. Aquelas mãos falavam de entendimento a respeito da minha aflitiva situação. — Quem me socorre? — indaguei no pensamento atormentado. Mas a pessoa que me trazia o bálsamo do alívio através de suas mãos leves e carinhosas, respondeu de maneira que ouvi distintamente as suas primeiras palavras: — Kalil, pois você não é o filho de Therezinha? Sou a sua avó Emília, talvez muito distante no tempo para que você me reconheça. Talvez registrando a minha ansiedade, a querida benfeitora continuou: — Vim buscá-lo para que você possa dormir. Não sei se as minhas lágrimas de reconforto e gratidão me saltavam dos olhos ou se ficavam concentradas por dentro de mim. A comoção me invadiu de novas sensações de paz e calor, que me davam a ideia de que me reanimaria. A senhora que me amparava me pedia para dormir, dormir… Tomou-me o corpo sobre o colo, qual se fosse a mamãe e me aconchegava, de tal modo ao próprio peito, que a sonolência não demorou a transformar-se em sono profundo… Depois de tudo isso, despertei, não sei depois de quantos dias, num aposento em que consegui respirar como queria. Respirar, respirar… Tentei abrir os olhos com receio de que não reagissem, mas, como num prodígio de Deus, a visão se me fazia presente. Via a benfeitora que me buscara, ao meu lado, à feição de um anjo convertido em enfermeira que me guardasse. A voz não veio tão depressa. Comecei por fazer movimentos labiais, rememorando palavras que ficavam mudas em minha boca. Médicos vieram em meu auxílio e depois de aplicações, que acredito sejam de magnetismo curativo, me devolveram vida e vibrações às cordas vocais. — Kalil José (Pa 6.1:5-23)

  46. Lembro-me, vagamente, de que o almoço nos esperava e a minha felicidade era tão grande que me senti, repentinamente, transtornado. O coração me pareceu imobilizado. Creio que deixei transparecer para meu cunhado aquele aborrecimento súbito, porque não conseguia mover-me. Ele me chamou em voz alta, enquanto a Vânia buscava álcool para me umedecer os pulsos, assim acreditei, mas o coração, no peito, se me figurava um motor repentinamente imobilizado, sem possibilidades de conserto imediato. Alguém disse: “— O Aluísio está morrendo…” Escutei estas palavras com espanto, porque embora não conseguisse falar, estava pensando com acerto. O Carlos, no mesmo instante, foi retirado da sala em que nos achávamos e ouvi vozes aflitas anunciando que meu cunhado estava no fim. Mensageiros, recados, telefonemas e pedidos eram expedidos com urgência, mas a verdade é que ambos estávamos destinados à mesma renovação. Ciente de que o cunhado estava, igualmente, passando pelo mesmo fenômeno que me assombrava, não mais tive forças para sustentar-me em posição certa, e somente não cai no piso do recinto porque mãos de pessoas amigas seguraram-me o corpo inerme. A luta foi muito grande, dentro de meu cérebro, até que me veio a impressão de que eu tombara no desconhecido. Não sei se foi desmaio ou sono compulsivo. Sei apenas que, nos últimos lampejos de lucidez, vi uma senhora que chegava para me socorrer. Não tive dificuldade para identificá-la. Era a querida mãe Maria Moreira, que se abeirou de meu corpo e me recolheu, como em outro tempo, quando na meninice me via estatelado no chão. Junto dela, compareciam enfermeiros que me carregaram e nada mais vi. Acordar daquela inconsciência foi outro prodígio que não compreendi. Queria que a nossa Laudelina estivesse comigo e com muito custo pude retomar a voz para saber de mãe Maria Moreira o que vinha ser tudo aquilo. Soube, com evidentes expressões de medo e de incredulidade que o coração do Carlos e o meu haviam parado à feição de dois relógios, em cujo bojo a corda não mais funcionasse. O resto, minha filha, você pode entender, sem que eu tenha necessidade de entrar em pormenores. — Aluísio Maciel (Pa 7.3-11)

  47. Não imaginem que eu poderia ter evitado o que sucedeu. Não foi descuido, foi o coração que falhou… Quando me aproximei da água, senti que minhas forças esmoreciam… Depois caí como num sono… Onde estive ainda não sei. É muito pouco o tempo de minha renovação… Sei apenas que acordei num quarto muito limpo de hospital e com os enfermeiros alguém cuidava de mim, como se fosse a senhora mesmo… — Alberto (Pcx 7.12-15)

  48. A princípio, confesso que a minha impressão foi indescritível. Compreendi que o fim chegara, quando o impacto do caminhão sobre nós como que nos reduzira a farrapos de carne sanguinolenta. Vi tudo, qual se poderosa força me conservasse em vigília. O medo apossou-se de mim e orei — orei como a senhora pode imaginar, esmagado de angústia e gritando de dor. Pensei na senhora, no papai, em todos os nossos entes amados, sem esquecer a nossa querida Cristina. Entretanto, minha primeira ideia foi tentar agir em auxílio ao Diógenes, mas debalde. Ele, Ademar e Carlinhos, eles todos jaziam inertes. Alguém aproximou-se de mim. Era a vovó Maria Philomena que eu não conhecia. Recebeu-me nos braços e disse-me que o vovô Rosin estava em preces para nós. Não entendia nada do que ouvia, mas aceitei-lhe os braços carinhosos, com a certeza de que ela vinha por bênção de Jesus, em nosso socorro.  Em seguida, outros amigos espirituais chegaram às pressas. O próprio Dom Romualdo de Seixas comandava as providências iniciais e vi que ele e os outros nos davam passes que compreendi como sendo um bálsamo para nós. Não sei o que Diógenes, Carlinhos e Ademar terão sentido de pronto, mas quanto a mim, conquanto ligado ao corpo abatido, senti sono e repousei… Despertando na Casa de Saúde Espiritual, onde a senhora nos viu, procurei por Diógenes e pelos outros… Gradativamente, com o correr dos dias, fui sendo atendido e revi os três, um a um… — Dráusio (Pcx 15.9-15)

  49. Quando vi que nós todos afundávamos no rio sem esperança na terra, apareceu em mim a esperança da grande vida e entreguei-me à vontade de Deus, conformado. Notei que companheiros me agarravam como a me pedirem socorro para voltar à tona, no entanto, mamãe, embora não pudesse falar, eu pensava… Pensava que Deus não dá pedras aos filhos que pedem pão, (Mt) que a Providência Divina só faz o bem… Recordei as conversações do papai e o carinho da senhora e fiz, no fundo da alma, a prece derradeira do corpo… Não havia tempo para chorar. Senti-me sufocado, mas pouco a pouco, notei que mãos amigas me davam passes de leve e dormi. Não tenho noção do acidente como desejaria, mas estou informado de que saberei tudo quando estiver mais sereno. — William (Pcx 23.5-9) (Vna 1.5-9)

  50. O choque não dá para contar minudências. Sei apenas que depois de longo desmaio, o Augusto e eu acordamos num hospital que nos pareceu alguma casa de tratamento da Grande São Paulo… Tudo se mostrava diferente, mas acreditávamos ainda na continuação da nossa própria existência física. Sentíamo-nos feridos ou gravemente escoriados e o corpo, a princípio, nos pareceu tão igual àquele de que nos havíamos retirado sem perceber, que foi com muita surpresa que recebemos a visita da Tia Luíza, que me disse querer minha mãe, qual se lhe fosse filha e que, por isso, nos considerava por netos da alma. A realidade nos chocou rudemente, mas não havia meio de escapar ao reconhecimento da nova situação. — Mival (Qs 4.6-10)
  51.  

    (Momento da morte I - II - III - IV - V)