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Momento da morte (II)

(Momento da morte I - II - III - IV - V)

 

 

TEMAS CORRELATOS
(Catalepsia) (Céu, inferno e purgatório) (Desencarnação) (Entes queridos desencarnados) (Erraticidade) (Eutanásia) (Fatalidade) (Finados) (Funeral) (Letargia) (Morte) (Morte e desencarnação) (Plano Espiritual) (Pranto) (Sepulcro) (Suicídio) (Sobrevivência) (Vida) (Vida espiritual)
 
LEIA NESSES DEPOIMENTOS
as passagens onde os comunicantes relataram a seus familiares encarnados
O QUE SENTIRAM NO MOMENTO DA MORTE
(Obs. As mortes por SUICÍDIO não constam dos depoimentos abaixo)
  1. Creia, mãezinha, que não contava com o desenlace. Saímos de automóvel despreocupadamente para alcançar o sítio. (…) De quando a quando, notava que a velocidade era muita (…) Depois, somente ouvi um barulho que ainda percute dentro de mim, sempre que me proponho a rememorar o que aconteceu. Nada senti, nem nada vi. Era um sono o que eu sentia? Não sei. Posso apenas dizer à senhora que acordei em casa do Tio Beni, quando a sua voz me chamava. Mas quem diz que eu poderia responder? — Fernando (Edv 5.18-23)

  2. O choque dos veículos foi quase que uma explosão nos meus ouvidos. Quis reagir, mas não consegui. A hemorragia não era simples, o cérebro cedera, desejei falar à companheira que me seguia, mas o pensamento de improviso se tornou nebuloso e a expressão verbal impossível. Ouvi gritos que se lançaram dentro da noite a terminar; mas depois foi um sono quase suave, sonhava que me via de regresso à casa para festejar o seu dia. Sonhava… Sonhava… até que despertei em nosso próprio ninho doméstico. Suas lágrimas e o choro dos entes queridos caíam sobre o meu corpo físico. Nada mais vi e nem sei quantas horas de anestesia consegui desfrutar. — Charles (Edv 9.1:6-11)

  3. Mas, em certo momento, senti que meu coração bateu no peito como se fosse uma pedra pesada querendo sair de mim. Gritei chamando a senhora, porque tive medo, mas isso foi um momento só… Depois daquela martelada por dentro, a cabeça não soube senão pensar que um sono pesado vinha!… E que sono! Tudo, depois, aos poucos, me pareceu pesadelo… Sonhava que me achava junto de mim querendo, em vão, levantar-me. Sentia frio e desejava acordar, mas não conseguia. Mesmo no pesadelo, lembrei-me da prece. Orei, mamãe, e pedi a Deus me fizesse entender o que havia. Muito depois, penso eu, despertei sonolento em casa, com a senhora a gemer e a gritar por mim. Nossa boa Salette buscava confortá-la, os amigos pronunciavam palavras de consolo e de fé… — Ricardo (Edv 11.1:13-17) (Mqc 1.1:13-17)

  4. Habituara-me com o volante como quem se acostuma a conviver com um animal fiel. Entretanto, querendo mudar o rumo dos meus próprios pensamentos, procurei um cigarro e quando manejava o cinzeiro, não sei ainda porque, manobra imperfeita, o automóvel capotou, atirando-me a distância. Nada mais vi… porque um sonho esquisito me tomou a cabeça, por mais que buscasse reagir gritando por socorro. Então, mãezinha, sem saber quanto tempo gastei para isso, sonhei que amigos me rodeavam. — Rosângela (Edv 15.20-22)

  5.  Pensei em termos de hospital e lembro-me de haver escutado vozes pedindo para que tocassem com urgência para o pronto-socorro… Não sei bem, mas se a memória está acesa… Ouvi as palavras “Santo Amaro”. Depois, foi o silêncio e o sono, até que acordei amparado por vários amigos, especialmente por meu tio Antônio e vovó Tereza, que, afinal, somente depois, reconhecia… — Antônio Cézar (Edv 19.12-13)

  6. Passei a arma ao Dino Boy e fiz de conta que me escondia a fim de aparecer para que ele me atirasse. E assim foi. Uma vela estava acesa e o Juninho puxou o gatilho e nada senti pela frente mas nas costas ouvi um barulho muito grande, caindo em seguida. Estive parado por minutos e escutei as vozes que se faziam ouvir, mas sentia-me estonteado, sem direção, assim que me levantei. Eu não sabia que já me achava fora do corpo, expulso pela força do projétil e não pude evitar o choro que se apossou de mim. Nesse instante, como se tudo fosse natural, vi a vovó Thereza a me estender os braços. Corri para ela, escondendo o rosto em seu vestido, enquanto, com muito carinho, ela me falava de repouso e retirada. Não estava em posição de saber o que eu queria e a vovó Thereza me carregou nos braços e me conduziu, não sei de que modo, para uma casa longe, na qual ela me fez tamponagens para me aliviar as costas que doíam bastante. Supondo que voltaria para a nossa casa no dia seguinte, dormi tranquilamente. — André Luiz (Eea 2.5-10)

  7. A aeromoça ia e vinha de quando em quando, oferecendo brindes para nosso reconforto e irradiando o sorriso com que parecia desejosa de nos tranquilizar. Consultei o horário e pensava na mãezinha Helena a esperar-me na alta madrugada, quando o estrondo nos reuniu a todos na mesma ideia horrível. Num relâmpago de segundo ainda consegui mentalizá-los em companhia do GÊ, mas o raciocínio desapareceu como por encanto. Dores não senti. Creio hoje que nas calamidades imprevistas qual aquela em que me vi, não há tempo para registro de sofrimento pessoal. Se isso aconteceu deve ter sido um pesadelo que o assombro empalideceu. — Olimar (Eea 12.6-8)

  8. Você e os filhos queridos eram meu ponto nevrálgico para me agarrar apaixonadamente à vida física, mas quando o corpo não me tolerou mais, rendendo-se à suprema exaustão, notei que duas senhoras me auxiliavam como se eu lhes fosse uma criança querida. O coração parara no peito e vi uma nuvem esbranquiçada a envolver-me. Reconhecia-me ainda deitado e sem forças para mover sequer um dedo, quando vi aqueles semblantes que me sorriam… Acenavam-me convidando ao esforço para reerguer-me… (…) Bastou isso e me vi em posição vertical num corpo que era em tudo semelhante ao meu, porém, mais leve e mais ágil. — Roberto Medeiros (Eea 13.13-19) (Idb 13.13-19)

  9. Não sabia o que fosse noite ou dia, porque tudo permanecia obscuro à minha visão. Achava-me sob espessa neblina que não me oferecia ensejo de intercâmbio com aqueles que mais amo. Na manhã de 21 de agosto passado, notei que a nuvem que me cobria de todo se abria num lance estreito e, por semelhante abertura, vi a face da vovó Juliana, que me acenava, com carinho. Assinalei uma alegria profunda no coração, porque não me sentia tão só, naquele estado avançado de quase libertação do veículo físico e, depois de muitas tentativas para o intercâmbio com a vovó Juliana, observei que me deslocava no leito, tornando-me mais leve… Ouvia as vozes discretas, as considerações aflitivas do papai e roguei a Jesus nos consolasse a todos, porque a minha hora havia chegado. — Rosângela Maria (Eea 14.11-13)

  10. Impossível evitar o choque, nada sei daquele momento difícil, é como se uma pancada só nos anulasse a cabeça. Quis gritar pelo Maurício e pelo Luiz, mas a voz não saía da garganta, minhas energias esmoreciam devagar, ao modo de uma lâmpada que se apaga lentamente sem possibilidade de reavivar, num pesadelo a prender-me qual se me visse no fundo de um grande poço. Não sei como se improvisou esse quadro na mente conturbada. Tive a ideia de que a pancada sofrida houvesse me atirado para aquele recanto escuro. Vendo muito acima de mim a abertura para a saída como quem enxerga do bojo de um túnel a luz brilhante lá fora. Onde a coragem para subir? Nada sabia do que estava acontecendo, os pensamentos se entrechocavam em meu cérebro, até que dormi. Ignoro até hoje como me retiraram desse estranho lugar. Quanto tempo estive entregue à inconsciência, ainda não sei dizer, até que despertei. O ambiente era novo, tudo mudado, notei pessoas rondando o leito. — Valdir (Eea 15.7-12)

  11. Tudo, mamãe, foi muito rápido. Um choque difícil de descrever e, depois aquela ideia de que o desmaio era natural e inevitável, um sono agitado por pesadelos, porque a gente não se despede do corpo, sem desatar muitos laços e nem se desliga com muita facilidade do ambiente querido em que se nos desenvolveu a experiência familiar. Quando acordei, porém, escutava seus apelos, suas perguntas, suas aflições e suas lágrimas, em forma de palavras e sons que me ecoavam por dentro do coração. — Yolanda (Enl 1.9-11)

  12. Quando o choque dos veículos me abateu, senti-me num sono profundo e só acordei quando ouvi que me chamaram em casa, com muitas lamentações. A princípio, nada compreendi. Parecia-me num sonho-pesadelo, mas o amparo do vovô Manoel que me acolheu carinhosamente era para mim um socorro que não sabia como receber. Não conhecia as pessoas no começo de meu novo caminho, pois tive a ideia de me achar num hospital do mundo, no entanto, aos poucos, meu avó Manoel e a vovó Gabriela me esclareceram. — João Jorge (Enl 2.7-9)

  13. Creiam, no entanto, que a dor mesmo, a dor dos acidentes terrestres, como a imaginamos, não sentimos. Um choque como se uma dinamite rebentasse sobre nós, e depois do choque com o anseio inútil de me levantar, um torpor que não sei descrever. Depois de algum tempo, que igualmente não sei calcular, chegaram pessoas. Meu avô Izaltino e meu avô Militão se mostraram para mim, dando-se a conhecer. — Tereza Cristina (Enl 3.15-17)

  14. Que família conseguiria perder dois filhos de uma só vez e ficar imperturbável? Compreendi, querido papai, no justo momento do carro arremessado sobre nós… (…) O sono veio rápido, um sono de injeção maciça quando a pessoa se vê obrigada a entregar-se sem qualquer resistência. Depois, nada mais vi senão que despertava com meu avô Acylino e com um amigo que me lembra parte de seu nome Luiz Pereira. Tia Raquel Bailão me disse que Fausto e eu fôramos transportados para uma Escola-Hospital ligada à Mossâmedes, informando que estávamos sob a proteção de Santa Damiana da Cunha. — Acylino (Enl 4.7-16)

  15. O carro não se arrancou, porque, na verdade, era mais uma decolagem. Quase voamos, entretanto, veio o insucesso, a queda foi violenta. Não esperava que pudesse acontecer o que vimos. Quis gritar e dominar a situação, no entanto, fiquei imóvel, sem meios de falar o que acontecia. Lutei comigo mesmo, ouvi as vozes de todos os que se aproximavam desejando iniciar o socorro, mas, por fim, foi um sono ou semisono, porque nem dormia, nem deixava de perceber o que se passava em derredor. Depois, veio um sono grande a que me entreguei vencido. Não passou muito tempo, e vi que estava em nossa casa. Era domingo à noite, quando me vi assim, como quem melhora depressa. Chamei por todos, entretanto, compreendo hoje porque ninguém me respondeu. — Izídio (Enl 15.12-16)

  16. Mamãe, quando as queimaduras ficaram profundas, eu não lembrava com segurança o que havia acontecido. Lembro-me que papai estava assustado, querendo colocar a gente fora de perigo, mas isso para seu filho não seria possível. Mas no hospital, eu queria ver o papai me tratando, sem saber que ele também estava lutando com os braços feridos. Não sei contar como foi aquela aflição toda de ver que todos perto de mim mostravam rosto triste, até que, num certo momento, que não sei precisar, senti-me aliviado, quase tranquilo. As feridas das queimaduras ainda doíam, mas eu estava diferente. Eu estava num colo de mãe, tão acolhedor, e me via embalado muito suavemente e com tanto carinho, que eu pensei ter obtido alta e estava em nossa casa, em seu colo. Chamei por você, mamãe, com aquela confiança de todo dia, mas o semblante de alguém que não era a senhora, se abeirou de meu rosto e uns lábios de bondade parecendo com os seus me beijaram. “Não tenha medo, meu filho, sou a vovó Alexandrina em lugar de sua mãe.” Escutei essas palavras sem o menor receio e sem qualquer ideia de morte, e havia lutado tanto com o corpo antigo que me entreguei, de novo, ao descanso. — Maurício Xavier (Enl 19.7,8)

  17. Não sei se consegui rezar, embora minha intenção incluísse semelhante dever. Sei apenas que apoiados no veículo que submergiu, sentimo-nos ambos sufocados, sem qualquer possibilidade de reação… Até aí, conto o que nos sucedeu… Depois foi a exaustão e com a exaustão um sono invencível. Quanto tempo estive nesse estado de inconsciência, não consigo imaginar… Um momento surgiu em que me apossei do próprio raciocínio. Achava-me fatigado, respirando dificilmente qual se estivesse sob o domínio de um edema desconhecido para mim. Tanta vida me assinalava o pensamento que era impossível crer na morte. A ideia de um posto de emergência para socorro imediato me veio à cabeça, mas isso se desfez quando a senhora de semblante suave, que me velava junto ao leito alvo, se confessou a mim, afirmando-me ser a vovó Ernestina, enquanto que outra criatura amiga me aplicava remédios e balsamizantes e esclarecia que me achava diante de nossa Ana, zeladora e parenta do coração, a quem devo tanto… A percepção de que me achava em outra vida não foi para mim uma tempestade de revolta, mas foi um aguaceiro de lágrimas. — Nélson (Eq 12.14-20)

  18. Efetivamente me achava na intimidade do quartel, mas procurava limpar a arma com excesso de atenção que passou a desatenção. Buscava lustrar o instrumento em minhas mãos, quando no silêncio do gabinete alguma coisa explodiu. O projétil escapou, sem que eu percebesse, da arma que me caíra das mãos num movimento impensado de minha parte e a bala recocheteada me alcançou à esquerda, na base do crânio. O choque foi indescritível. Entretanto, essas horas que devem ser de redenção para nossa alma, mas que se nos mostram terríveis, ante a experiência no mundo físico, me impuseram estranha inércia. Apaguei, sem gritar. De momento, compreendi tudo. No entanto, era tarde para registrar qualquer esclarecimento: um torpor invencível me estirou na horizontal, ao que suponho, porque a inconsciência me tomou inteiramente. Em verdade, acordei com o assombro de quem se recompõe, depois de se haver suposto extinto para sempre, mas a breves minutos, vim a saber da realidade, entre aflições e lágrimas que não conseguia evitar. — Sidney (Eq 13.1:4-8)

  19. A doença; pouco a pouco, me estragou as peças da embalagem que me retinha na Terra física, mas, por dentro de mim mesmo, estava o anseio de retorno aos braços dos meus. Quando o grande sono apareceu para mim, tive a ideia de que sonhava com a morte, e foi a morte mesmo que me pilotava. Acordei não sei como, depois de haver repousado, ignorando por quanto tempo, e as lágrimas vieram marcar a minha nova situação. — Felipe (Evo 2.5-7)

  20. Mamãe, foi muito difícil conseguir paciência a fim de suportar a imobilidade que me entorpeceu devagar. No íntimo, tentava fazer algo que significasse socorro à companheira, mas os braços estavam parados e não encontrava em mim qualquer recurso para mobilizar-me. Por fim, aquela parada geral de tudo. As mãos inertes, a boca hirta, os ouvidos silenciosos, os olhos ensombrados e o cérebro anestesiado por estranha força. Foi assim que parti, ignorando o que fosse qualquer iniciativa para arredar-me do local em que os veículos se haviam chocado… Depois de tempo grande que não medi, acordei ao lado de meu pai que me sossegou o espírito para logo atormentado de indagações. — José Roberto (Evo 3.1:4-7)

  21. Conversávamos animadamente e não vimos que íamos cair de parafuso nas pedras que calçam as águas do Lambari. A queda foi violenta e nenhum de nós dispôs de tempo para pensar. Nem vimos contato com a água e nem sentimos dor alguma. Tudo foi um momento de freio na pedra. O que apareceu depois não foi para vermos. Afirmo o que tenha sido o que experimentei. As únicas palavras que me servem para definição aproximada do que desejo explicar é que tombei num pesadelo do qual me demorei a sair… Tinha ideia de que a nossa Variant teria tomado a forma de um avião despencando ribanceira abaixo, ao encontro daquela muralha deitada no chão, e de que tudo estava escuro em torno de nós. Lutava para acordar, mas sem recursos para isso. Queria tocar os companheiros, cuja respiração pressentia perto de mim, entretanto achava-me num pesadelo e quem se vê numa situação dessas, não pensa em braços sem possuí-los… Nessa condição estive até que um sono me entorpeceu a cabeça… Não mais consegui raciocínio para comandar a mim próprio. Entreguei-me àquela força estranha que me apagava de todo. Depois, foi o acordar… Estávamos os quatro companheiros hospitalizados num instituto para nós desconhecido. — Orlando Sebastião (Evo 5.1:4-12)

  22. Naquela hora em que o movimento súbito de máquinas nos envolveu, se me achasse sozinha, não me afligiria tanto. (…) Mas o netinho era um tesouro em minhas mãos. Era a vida que começava e que eu devia defender. Penso que adormeci agarrando-me a ele, na ânsia de livrá-lo. O resto não posso saber, porque a misericórdia de Deus nos amansa o senso de consciência na hora grave da liberação do corpo físico, assim como acontece conosco se alguém no mundo nos administra um anestésico de alto poder. A não ser aquele pavor no coração da mulher que se vê obrigada a salvar um filho ou um neto, sem poder, à frente do inevitável nada mais sofri. Entrei numa espécie de sono, no qual vivi toda a minha existência, desde a infância, como se estivesse divagando num sonho… Quando acordei, ao me reconhecer sem o Cleison, gritei por socorro e chorei, como podem vocês imaginar… — Auzenita (Evo 6.4-8)

  23. Quando menos esperava, eis que a máquina gigante nos colheu em sentido direto. Minhas ideias se voltaram imediatamente para a mamãe e para a vovó Julieta, no intuito de defendê-las para em seguida confabular com a nossa Elisa e com a nossa Sâmadar. Contudo, meus esforços foram vãos, já não dispunha de meios para externar qualquer palavra e só Deus sabe com que aflição fui subjugado pela inércia que me entorpecia, de repente. Num lance veloz de tempo revi toda a minha vida curta de rapaz e em seguida me arrojei num sono pesado de que só despertaria dias depois, a fim de me conscientizar quanto ao total da verdade, ciente de que me achava em uma organização hospitalar. — Nestor (Evo 8.1:11-14)

  24. Um leve movimento da máquina e o choque apareceu, inevitável. (…) Em mim o acontecimento adquiriu as proporções de uma bomba que me alcançasse, arrasando-nos. Experimentei por dentro de mim aquela ansiedade de socorrer os viajores amigos, ou melhor, os companheiros que me faziam presença, mas nem de muito leve, consegui atuar com o meu intento. A sensação de desmaio, de estranha fuga de mim próprio, me fazia tombar sem qualquer iniciativa. Creio que benfeitores nos aguardavam na paisagem, à maneira de amigos, em ambulâncias nos aeroportos, quando o perigo se faz mais grave; no entanto, isso é raciocínio que somente acolhi depois de acordar devidamente hospitalizado num Pronto-socorro da Vida Espiritual. — Ivan (Evo 9.9-14)

  25. O golpe foi grave demais e creiam que quando o choque se verificou eu não tive a menor ideia de sofrimento. Senti um desejo enorme de falar, que uma sensação de esmorecimento abafava. E nessa sonolência caí numa espécie de letargia em que passei a sonhar com as realidades que estavam acontecendo. Quanto tempo gastei nisso eu não sei. Lembro-me somente de que, ao retornar ao meu próprio discernimento, não mais me achava na estrada de Guaíra e sim num leito amplo em que me acreditei internado para tratamento de qualquer estrago havido no corpo. — Klecius (Evo 10.3-6)

  26. Em nosso apuro, não esperávamos que a carreta nos colhesse, e, por isso devo dizer que fomos surpreendidos com aquele rolo compressor a esmagar-nos sem qualquer outro recurso de evitar o acidente infeliz. Creio que nenhum de nós saberá contar o que foi aquele amasso de ferragem, sufocando-nos e retalhando-nos o corpo. Falando a verdade, não sei se pela emoção ou pelo susto, não sentimos dor alguma. Lembro-me de que saltamos do corpo, tão de improviso, que a cena me lembrou o amendoim quando salta da casca. Vimo-nos todos de pé, ao lado de pessoas que pareciam nos esperar. Estávamos, porém, tontos e inseguros. O Romêro me fitou espantado, como quem queria explicações que eu mesmo não sabia dar. A hora não admitia saudações ou cortesias, porque a nossa cabeça rodopiava. Fomos então carregados para uma ambulância de grande tamanho, mas o ambiente estava diferente. As pessoas que nos aguardavam, ao que parece, sabiam que nós todos íamos tombar ali mesmo, porque nos abraçaram qual se fôssemos crianças, e seguiram conosco, à pressa, na direção da ambulância. Um senhor recomendava-nos que não olhássemos para trás. Ele pusera o Português nos braços fortes, e as senhoras presentes guardaram a cada um de nós no próprio colo, apressadamente. Assim que a ambulância deu partida, caímos todos num sono esquisito, como se tivéssemos recebido injeções de sedativos fortes. E dormimos. Quando acordei, pois fui eu a despertar antes de todos na enfermaria, em que ficamos segregados, vim a saber que o homem que carregara o Português se chamava Sandoval, e fiquei sabendo que era o Dr. Sandoval de Sá. — Rodrigo (Evs 2.6-17)

  27. Quando me vi horizontalizado, justamente quando vinha para um estágio temporário com a família, no Brasil, para em seguida regressar à América, onde a irmã Vera Lúcia me aguardava, eis que um projétil me rouba a vida física. A princípio, senti muita revolta no coração, mas, sem pronunciar palavra, quando as minhas últimas energias entravam em exaustão, na penumbra a que me reconhecia atirado, vi que uma senhora se abeirava de mim, impelindo-me a descansar. Era a vovó Clotildes, nas afirmações dela própria, aconchegando-me ao peito, qual se eu lhe fosse novamente uma criança. Não resisti à diminuição de minha resistência e dormi um sono pesado, do qual não despertei senão depois de alguns dias. — Júlio (Evs 11.5-11)

  28. Depois do choque, nada mais via, senão uma névoa grossa sobre a minha cabeça. Ainda assim, queridos pais, não queria ter deixado a fazenda, sem pedir proteção para o animal que não teve culpa alguma. Quando procurei expressar o que desejava, a voz já se extinguira na garganta. Ignoro que sensações de pesadelo me tomavam naquela hora de solenes realidades para mim. Ansiava gritar, dizer alguma coisa que os tranquilizasse, mas nada consegui. Dormi a contra-gosto, por longas horas, cujo número desconheço. Quando acordei, experimentava a maior estranheza; admiti que estivesse internado em alguma clínica de repouso, mas depressa me desiludi, porque foi a vovó Alexandrina quem se aproximou de mim. — Pedro Alexandre (Evs 14.5-10)

  29. Seguia despreocupada com a melhor atenção no trânsito, quando a máquina mais pesada me abalroou e o carro não conseguiu suportar aquele toque indesejável. (…) Vi-me, de momento para outro, atirada de encontro àquelas peças frias que, em me amassando todo o corpo, ao que percebi, me abriam fontes de sangue nas hemorragias internas. (…) Embora aflita e atormentada com a perspectiva da morte, num pequeno espaço mental que me restava à lucidez, formulei uma prece, rogando o socorro de Deus. (…) Meus olhos estavam pesados e por mais me esforçasse, não conseguia cerrar as pálpebras. Nesse instante, em que minhas esperanças já se achavam longe de mim, um torpor que não sei descrever me dominou as forças que me restavam e desmaiei, até hoje não sei se de sofrimento ou de horror, porque as ideias contraditórias me esfogueavam a cabeça. Não poderia resistir à convulsão que de mim se apossara (…) Caí numa inconsciência pesada e somente acordei, ignorando até hoje, depois de quantas horas ou de quantos dias, num aposento arejado e reconfortante que me firmou a suposição de estar em alguma internação de emergência, na Terra mesmo… — Valéria (Evs 16.3-11)

  30. A viagem seguia o compasso da Anchieta, entre paradas de trânsito e marchas rápidas para ganho de tempo, quando, ao movimentar-me, caí num impacto de forças que não sei descrever. Quis reagir, gritar por socorro, mas tive a impressão de que um suave anestésico me entorpecia as forças mentais. O pensamento escorria do cérebro, como se fora sangue a derramar-se de outros campos do corpo… Sensação estranha de esvaziamento, compelindo-me a desfalecer, sem recursos de resistência. E dormi. Pelo menos, foi esta a convicção que me ficou na memória ao despertar… — Shabi (Fiv 2.1:7-11)

  31. Vocês sabem que o fenômeno me ocorreu num banho fajuto em Assis. Quando caí desgovernado na água mansa, começou a tal gritaria dos que ficam vestidos. Logo após aquela difícil sucção do boca-a-boca, a que me submeteram, me vi cambaleante, fora da pouca vestimenta que me cobria e meio desbaratinado quis voltar à casa do tio Osmany, imaginando que escapara daquela ameaça de morrer quando, em verdade, já me achava em outra. Tive receio dos companheiros que prosseguiam chamando por mim e reconhecendo-me vivo, julguei estivessem todos eles tantãs, amedrontados com o risco que eu vencera, em minha suposição. O negócio era pirandelar e corri ignorando para onde. Não conservava muita noção de rumo, porque a cuca parecia fundir-se com tantos pensamentos desencontrados. Quando me vi numa praça ou num espaço aberto que me pareceu a Praça Arlindo Luz, surpreendi a presença do vovô Armando a tocar-me os ombros: “Oi, Paulo Henrique, você já não está por aí”. Aquelas palavras do vovô, de cuja presença amorosa me lembrava perfeitamente, me alarmaram. Ao fitá-lo, recordei que ele nos deixara em 1976 e compreendi que estava à frente de um morto. Meu choque foi tamanho que desmaiei nos braços dele para um torpor que se ampliou até que me perdesse numa soneira de amargar. O resto já contei. — Paulo Henrique (Fr 5.12-15)

  32. Percebi que me achava diante de manobra difícil, entretanto, era preciso movimentar-me. Tudo seguia com meu pensamento erguido ao apêndice de minha própria atenção, quando senti um golpe na cabeça, uma luz ao mesmo tempo, forte demais, me envolveu a visão e perdi-me num descontrole que não sei descrever. Esforçava-me para reter a memória, falar, explicar-me, no entanto, minhas forças esmoreceram. Não se me fez possível qualquer impulso de retomada do próprio corpo, de vez que um sono estranho se apoderou de mim, sentia-me anestesiado, inconsciente, uma espécie de amnésia, possuía todas as faculdades mentais. Sentia-me vivo e inerte, inconsciente e insensibilizado. Se me perguntassem o próprio nome, não saberia responder, mesmo porque ignorava de que maneira conseguiria descerrar os meus lábios, estava em mim eu mesmo, sem possibilidade de coordenar quaisquer lembranças. Um tipo de hipnose que ignorava mantinha sobre mim pesada influência até que o desmaio total (pelo menos é como classifico o estado mental em que entrei) me apagou todas as observações e resistência, era um sono de compulsão de que não conseguia desvencilhar-me. Quantas horas ou dias perdurou semelhante situação não sei dizer — até um instante surgiu no qual me pareceu sair das profundezas de mim mesmo. Tive a impressão de repousar no fundo de um poço enorme, com alguém a chamar por mim tentando alçar-me para cima. O entendimento de que o nome da pessoa que se repetia era eu próprio, vinha aos poucos do mais íntimo do meu ser — gradativamente despendendo muita força consegui responder — foi então que despertei — não me achava em poço algum e sim num leito muito alvo, com o tio João à minha frente. — Álvaro (Fr 7.5-12)

  33. Seria Guarulhos o casario à nossa frente? Penso que sim. O choque veio tão rápido que ainda ignoro como descrevê-lo. Uma bomba que explodisse sobre nós não seria diferente. Meu primeiro e último pensamento naquele instante inesquecível foi justamente o de verificar o que acontecia à companheira, entretanto, a inércia me absorvera. Não sei explicar que abatimento foi aquele que se apossou de mim. Um sono de agulha fortemente encharcada de anestésicos violentos me tomou a cabeça. Imagino que a Bondade de Deus cria a inconsciência para essas horas de separação do corpo físico, tanto quanto, ao que me parece, nos faz dormir, igualmente quando nos cabe nascer num berço do mundo. Quando acordei foram as lágrimas gritantes dos meus que, de algum modo, me compeliam a despertar. — Sérgio Luiz (Fr 8.8-13)

  34. Quando o veículo foi abalroado, notei que um choque me fazia adormecer de repente. Como saí do lugar em que estávamos, ainda ignoro, mas acordei junto de uma senhora assim tão carinhosa e tão compreensiva, qual a senhora e vovó. — Andréa (Fr 9.4,5)

  35. Só me lembro do sábado, dia 6, quando me preparava com muita alegria para cumprir meus votos no Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Lembro-me de que estava em oração ao lado do nosso amigo senhor José, quando senti uma pancada na cabeça. Não pude me sustentar de pé, recordo que me carregaram para um hospital e guardo de memória um peso, de muita dor na cabeça. Mais nada, senão que dormi, graças a Deus, pensando nas orações. Acordei num lugar de muito repouso e dois amigos me disseram ser o vovô Manoel e o meu bisavô Frederico. — João Carlos (Fr 16.3-6)

  36. Mamãe, quero dizer à senhora e ao papai que o vento naquele dia, 6 de junho, era de um poder fulminante; tentei frear a máquina ou acomodá-la em outro sítio, mas a força do furacão era dessas que arrancam árvores centenárias pela raiz. Seguia calmo pela estrada de Ubatuba, pensando em distração nas férias, quando a calamidade desabou. Parecia que eu e a máquina estávamos sendo sugados por um vulcão aéreo. Seria impossível sobreviver no corpo, de vez que senti a cabeça quase a quebrar-se. Não dormi, nem desmaiei de arranco, pois fiquei como que paralisado na forma física, sem conseguir movimentar um dedo. Nada via, mas ouvia todos os rumores em derredor de mim. Meu cérebro, ainda verde, se recusava a entregar-se; no íntimo, eu rezava e pedia a Deus que me desse vida para chegar em nossa casa e tratar-me como se fazia preciso. (…) Acontece, mãezinha, que outras mãos me afagaram e um sono profundo me tomou todas as energias. Era um pesadelo em que me via regressando para casa, a ouvir-lhe os gritos de dor. Tudo me parecia nebuloso, incompreensível. Assim estive por muito tempo. Imaginem a senhora e meu pai, que ainda esperei pela vinda da vovó Ana para despertar. — Marco (Fr 17.8-16)

  37. Vi-me no último dia, creio que a dezessete de julho, há mais de dois anos passados, carregada de um estabelecimento para outro. Julguei que voltava para casa e acomodei-me como pude. Dormi compreendendo que anestésicos me haviam sido ministrados por médicos que não conhecia, mas despertei com as preces e lágrimas de mamãe e do papai, do irmão e dos outros amigos, supondo estivesse de regresso do nosso pouso doméstico, entretanto, estava um sacerdote amigo ao meu lado. Conhecia-o por retratos. Era um padre moreno e de cabelos prateados que me falava como se fosse meu pai. Explicou-me a verdadeira situação. Chorei, mas chorei muito. Era o Padre Vitor, Francisco de Paula Vitor. — Rosângela (Fr 18.1:7-9)

  38. Quando papai se esforçou para que me expressasse ou dialogasse com mais ânimo, notei que esmorecia. Minhas sensações por dentro de mim estavam intactas. Ouvia tudo o que se falava em derredor de meu leito. Reconheci que me transportavam para socorro no rumo do amparo hospitalar, no entanto, a pouco e pouco, entrei num sono profundo de que não podia me desvencilhar. Quanto tempo estive assim, não sei ainda. Minha memória abrange apenas a metade das horas claras do dia, naquela quinta-feira de luta… O resto ainda não sei, a não ser que acordei numa sala de tratamento com a cabeça enfaixada. Chamei por meu pai, por minha mãe, pedi o apoio de alguém que me esclarecesse sobre as ocorrências de que não tinha consciência, mas um enfermeiro me advertiu que fora cirurgiado por um médico, o doutor Mário Gatti. Lembrei-me de que esse benfeitor já não era da Terra e asserenei-me quanto pude. — Gabriel (Ga 1.13-16)

  39. Tomara os meus encargos no plantão com segurança e comecei a limpar as unhas com a ponta da arma; inadvertidamente, embora apoiasse essa mesma arma na mureta existente no local, meus dedos se movimentaram sem que a minha consciência tomasse sentido exato dessa operação, quase que mecânica para mim, e detonei sem querer o projétil que me alcançou a base do tórax, impondo-me a desencarnação instantânea. Creiam os pais queridos que não mais controlei qualquer ação de meu veículo físico e, conquanto, por alguns momentos rápidos, intentasse falar sem poder, um sono pesado me selou a vida intracraniana e ignoro se dormi, ou se desapareci de mim próprio por tempo que ainda não sei precisar. Despertando em organização de socorro, cheguei a pensar que me achasse no Hospital Santo André, em Santa Rosa, talvez conduzido pela família, mas foi o meu avô José Teixeira quem me chamou à realidade, que tive de aceitar a contragosto. — Paulo Eduardo (Gep 2.10-12)

  40. Como foi a minha queda, não sei contar. Lembro-me apenas de que experimentei uma ausência esquisita de mim mesmo. Coordenar os pensamentos, não era fácil. Por isso me entreguei aos cuidados de quantos me dedicavam atenção… Vi-me no hospital, com relâmpagos de lucidez… Creio que não tive dores, porque a minha preocupação de saber o que se passava em casa era grande demais, para que fosse incomodado por qualquer espécie de sofrimento físico. Escutava, de quando em quando, palavras sussurradas junto de mim. Enfermagem atenta me observava as alterações do corpo; no entanto, estava na condição de uma pessoa que perdera a faculdade de se governar e expressar a própria vontade. As transformações do corpo se ampliaram até que ouvi alguém dizer que estávamos às vésperas do Ano Novo! (…) Mas o dia passava, até que uma névoa se condensou junto de mim. Que seria? Ignorava o que fosse e não sabia de que modo se formava aquela nuvem esbranquiçada e crescente… Num dado momento, um rosto surgiu daquele monte de neblina. Era o rosto de uma senhora a sorrir-me. Sem conseguir articular qualquer palavra, em pensamento, roguei a ela me dissesse quem era… Mais alguns instantes, e ela me falou, com serenidade e alegria: — Ricardo, sou a sua avó Dinda! venho buscar você para o nosso lar!.. — Ricardo (Gep 4.1:7-15)

  41. Por que estranhasse em voz alta aquela violência toda, o tiro partiu de um deles, alcançando-me um vaso importante ao longo da garganta e atravessando-me uma das vértebras, varando tecido delicado da medula. Num relance, compreendi tudo, enquanto os assaltantes fugiram depressa, naturalmente receando represálias por parte de amigos que, de imediato, nos chegaram. Quis falar a Jane e fazer algumas recomendações, porque não me enganava quanto ao meu estado orgânico, mas foi impossível. Conduzido ao socorro, ainda pude notar o olhar de comiseração dos médicos e amigos; no entanto, o meu pensamento esmoreceu no cérebro e dormi pesadamente no chamado torpor da morte. Não sei precisar o tempo gasto no desmaio em que eu era visitado por pesadelos e mais pesadelos, quando despertei num lugar aprazível, cercado de árvores que o vento leve ensinava a cantar, qual se eu voltasse a ser criança embalada para o descanso. — Antônio (Gep 7.2-7)

  42. A moto caiu por inteiro atirando-me a cabeça ao piso de cimento, e de nada mais soube senão que um torpor invencível me tomou os pensamentos e por mais desejasse levantar-me para tomar a minha posição normal, isso não mais me foi possível, e por segundos, à maneira de relâmpagos derradeiros na memória, revi a família na imaginação super-excitada. Depois da queda, veio aquele branco, no qual não sei se adormeci ou se desmaiei. Acordei, depois de muito tempo, creio eu, durante o qual estive inerte e incapaz de qualquer discernimento. Muito aos poucos, senti-me no corpo, à maneira de alguém que regressa vagarosamente à própria casa, e não consegui expressar-me, de pronto. Notei que os meus olhos se retomavam nas órbitas e que, em minha boca, a língua ensaiava movimentos que me demorei a coordenar. Um homem velava comigo e cheguei a reconhecê-lo, antes que a fala me voltasse ao campo da manifestação. Era o vovô Manoel que me passava a mão sobre a cabeça, como se quisesse restituir-me às ideias claras e exatas. — Carlos Alberto Gonçalez (Gep 9.5-9)

  43. A doença havia apagado a minha capacidade de resistência e como que me resignei, embora sem me conformar à exigência externa que eu não compreendia… Exigência de me afastar do corpo fatigado e enfraquecido, como se fosse uma pessoa expulsa da própria casa. Não pude mais. Chegou um momento, em que me vi cercado por irmãos franciscanos, pois eram eles, aos meus olhos, enfermeiros novos, que me assistiam. Um deles colocou uma das mãos sobre a minha cabeça e adormeci. Passei por um tempo de esquecimento que não entendi até hoje. Parece que andei anestesiado por vários dias. Quando acordei estava num aposento amplo com o meu avô Armando, a minha avó e a minha tia, estendendo-me os braços a falarem frases de bênção e boas vindas. — Luiz Paulo (Gep 11.8-11)

  44. Estávamos despreocupados e trocando impressões com segurança e sobriedade, quando um choque tremendo nos estonteou a cabeça… Tive a ideia de estender algum socorro ao amigo, no entanto, as minhas possibilidades de movimento estavam extintas. A visão se extinguira e mal conseguira ouvir exclamações aqui e ali, que não podia precisar quanto a procedência de que se originavam em nosso favor. Sinceramente não me restou qualquer faixa de tempo para me dedicar à oração. O impacto de forças sobre mim era constrangedor, em excesso, para que eu pudesse destacar alguns momentos a qualquer comiseração, que não fosse o instinto de autodefesa que ainda me restava. Perdoe-me se foi assim mas não posso faltar à lealdade para comigo mesma. Penso que o desmaio compulsório em semelhante situação é acontecimento de qualquer pessoa que se veja nas circunstâncias em que eu me reconheci. Apaguei-me por dentro de mim própria, e sei apenas que acordei num aposento arejado e confortável, supondo-me hospitalizada na Terra mesmo. — Maria Cecília (Gep 12.4-9)

  45. Na terça feira, se me lembro bem, pedi o seu consentimento para deixar o hospital, significando sair do corpo doente. Recordo a sua expressão de tristeza, mas agradeço a compreensão com que o seu carinho pediu a Deus nos socorresse. Depois daquela sua aprovação sem palavras, que não era concordância e sim sofrimento, que a gente não sabe explicar, notei que uma brisa leve me acalmava… O sono veio devagar qual se eu fosse a sua criança desarvorada por muito tempo que recebera permissão para dormir; dormir sem picadas de injeções e sem aplicação de sondas, dormir simplesmente… Nada mais vi, senão em forma de sonho. Parecia vê-la chorar sem que eu pudesse aliviá-la e rezei com veemência rogando a paz de Jesus para nós todos. Aí entrei num sono de sedativos, profundo e sem o menor traço de sonho ou pesadelo. Quando acordei, um quarto novo me abrigava. Achava-me leve, sem dor… O sol invadia o recinto e me reconheci tão melhor que a chamei em voz alta. Uma senhora, junto a mim, beijava-me com o jeito de sua ternura e do carinho da vovó Dulce, e me disse com bondade para não recear e acrescentava que eu fora transferida de residência. — Túlia Maura (Gep 18.7-12)

  46. Com esses pensamentos vi que o caminhão se aproximava, acreditando o motorista, por certo, que tomaríamos diferente rumo, entretanto o choque de ambos os veículos foi fatal. A princípio ainda escutei vozes em torno de mim, mas admito que a hemorragia interna me dominou a cabeça e de nada mais soube, como se um grande branco se fizesse em meu cérebro. Depois de algumas horas, acordei ao lado da senhora que se me fizera enfermeira voluntária. “Chame-me por Vó Gertrudes”, disse ela, e ao notar-lhe o sorriso de bondade me senti mais seguro. — Antônio João (Gep 20.8-10)

  47. Seguia a viagem de férias com o íntimo ensolarado de alegria. Nada me toldava o pensamento. Creio que um obstáculo que não reconheci me compeliu ao capotamento. Quis gritar por meu pai, rogar socorro, despertar algumas pessoas nas adjacências para que alguma providência me amparasse; entretanto, do cérebro não mais recebi forças para fazer sinais, como sejam a palavra, o grito, a súplica, o berro de dor… Minhas energias se apagaram numa parcela mínima de tempo e nada mais registrei. Tive a ideia vaga de quem sonha, fora da realidade, ao ver que populares e desconhecidos me cercaram. Nada mais. O desmaio foi compulsivo, suave e aterrador ao mesmo tempo. Suave, porque o sofrimento do corpo, um tanto amassado, se me aliviou de repente; e aterrador, porque intuitivamente sabia que estava entrando no domínio do desconhecido, sem qualquer luz que me clareasse no labirinto. Mais nada. Admito que horas longas se passaram, até que acordei vagarosamente num aposento que não me era familiar. — Luiz Roberto (Gep 21.1:8-13)

  48. Ainda me reconheço vacilante, quanto ao restabelecimento das próprias forças, mas me sinto reconfortado ao trazer-lhe as novas de minha situação. A vovó Rosa me acolheu nos braços, quando me vi despejado do corpo, na força silenciosa e invencível de uma longa parada cardíaca. A princípio, tudo em seu filho era medo e indecisão. Cheguei a fechar os olhos para não ver quem me estendia os braços com tamanha bondade, mas o sono me absorveu. Não era preciso haver cerrado as portas da visão, porque, por dentro de mim, a própria mente como que apagara. Creia que os meus últimos pensamentos foram para Deus, para o seu coração de mãe, para a nossa Maria Helena e para os filhos queridos. Tudo, porém, naquela hora se desfez no campo do esquecimento repentino, que me tomou a cabeça. Acordando em seguida, compreendi sem dificuldade o meu novo posicionamento. — Adilson (Hl 1.1:2-7)

  49. Os companheiros julgaram que estivesse na posição de afogado, e ainda ouvi a palavra de um deles, falando em respiração boca-a-boca, entretanto, digo a você que o motor do peito parou, justamente quando as águas me cobriram no mergulho a que me entreguei para verificar os efeitos de nosso trabalho. De começo, experimentei uma forte asfixia, sem tragar qualquer gota d’água, e depois veio sobre mim um sono invencível. Lutei contra esse torpor que me assaltava, mas não adiantou. Era como se meu corpo parado fosse uma lâmpada repentinamente queimada. A eletricidade da vida continuava comigo, mas estava descontrolado e sonolento. Quando despertei, fiquei ciente de que me achava muito longe de Santa Rosa, de sua companhia e de nosso filhinho, de cuja presença sempre sentia tanta falta, quando fora de casa. — José Benedito (Hl 4.5-7)

  50. Até hoje não consigo alinhar minudências. Aliás, é contado frequentemente, por aqui, em minha vida nova, que as vítimas de acidentes de automóveis e aviões nunca se conscientizam de pormenores dos desastres que as surpreendem, de vez que, estando no bojo dos aparelhos, a gente não dispõe de muitas possibilidades para revisões do assunto. Naquele instante, senti-me no dever de me levantar para as tarefas de socorro em auxílio de alguém, pois ouvia os gritos e as petições dos companheiros de viagem. Entretanto, uma força irresistível se apoderou de mim, como se me sufocasse, inibindo-me as palavras. O corpo esmorecera. Não sei, foi um sono de tranquilizante maciço. Comecei a ouvir cada vez mais longe as vozes dos companheiros, até que muito a contragosto, adormeci totalmente. Anestesia da brava. Somente acordei, não sei depois de quanto tempo, a pedir socorro… Reconhecia-me de corpo íntegro, e acreditei que não estivesse a muita distância de casa, mas a vovó Luíza se encarregou de vir ao meu encontro, dialogando comigo. A ideia da morte não é flor de nossos jardins, por muito que se sofra, e quando a benfeitora me disse que me conformasse com o acontecido, entreguei-me em crises de lágrimas, que não conseguiria frustrar. — Luciene (Hl 5.5-11)
  51.  

    (Momento da morte I - II - III - IV - V)