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Momento da morte (I)

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TEMAS CORRELATOS
(Catalepsia) (Céu, inferno e purgatório) (Desencarnação) (Entes queridos desencarnados) (Erraticidade) (Eutanásia) (Fatalidade) (Finados) (Funeral) (Letargia) (Morte) (Morte e desencarnação) (Plano Espiritual) (Pranto) (Sepulcro) (Suicídio) (Sobrevivência) (Vida) (Vida espiritual)
 
LEIA NESSES DEPOIMENTOS
as passagens onde os comunicantes relataram a seus familiares encarnados
O QUE SENTIRAM NO MOMENTO DA MORTE
(Obs. As mortes por SUICÍDIO não constam dos depoimentos abaixo)
  1. Minhas recordações estão seguras. Adormeci, depois das preces habituais, com a intuição de que algo extraordinário estava para acontecer. Antes, havia falado aos pais queridos de minha fase de desligamento natural de todas as questões que me pudessem prender à existência física. Aquilo não era uma fantasia de menino religioso. Lá dentro — dentro de meu íntimo chegara a certeza de que o meu tempo na estância terrestre estava a escoar-se. O coração me contava toda a ocorrência próxima e não me enganei. Dormi, como de hábito, e me senti num sonho de alta beleza. Sentia-me leve, respirando certo ar puro a que não me achava habituado, no cotidiano.  (…) Não me situava num sonho. Identificava-me por dentro de uma realidade a que não me competia resistir. Apesar de tanto socorro, no entanto, ao cientificar-me de que a minha própria desencarnação se completara, um abatimento difícil de explicar me dominou todas as forças. — Carlos Eduardo (Ads 3.10-22)

  2. Digo a você que, após o choque, não foi fácil para mim o despertar do sono que me imobilizou todas as forças. Caí na rua, de corpo descontrolado e, em momentos rápidos, a memória me fugia, qual se fora minhas energias a se me afastarem do corpo. Quanto tempo decorreu nesse intervalo, não sei, por enquanto, dizer. Via-me anestesiado e inerte, mas, por dentro de mim, tudo era um pesadelo que não sei descrever. Até que enfim, acordei, sob a proteção de meu pai José Gomes, num quarto agradável de hospital ou Casa de Repouso. — Carlos Gomes (Ads 4.14-16)

  3. Tudo seguia bem, mas na volta à casa, fui vítima do acidente, com o qual ninguém conta. O choque violento me insensibilizou os centros de força. Aquela batida ficou para mim incompreensível, porque um torpor invencível me dominou. Não senti dor alguma. Somente ao despertar, é que me senti estranhamente chocada, e experimentando uma terrível dor de cabeça. Acreditei que me achava num ambiente hospitalar para socorro de emergência, mas em vão pedi a presença dos meus. — Dadinha (Ads 8.8-12

  4. Querida companheira, a nossa união não terminou naquele acontecimento difícil da estrada Osório-Tramandaí. Podes crer que refletia no futuro de nosso querido Leonardo, o filhinho que Deus nos concedeu semanas antes, quando fui compelido ao torpor em que me reconheci, de repente, desmembrado do veículo físico de que me utilizava, para ser o homem repleto de esperança e otimismo que sempre fui. Amparado no recanto espiritual de nosso sempre lembrado instrutor Angel Aguarod Torrero, restabeleci-me do choque e da mágoa compreensível a que me vi relegado. — Leonardo (Ads 10.3-5)

  5. Conversávamos com alegria. Depois, num desses choques que ninguém espera, notei que me via apagado, com alguns sinais de juízo na cabeça, repentinamente desorientado. (…) nada do corpo me obedeceu. (…) Nada consegui, senão entregar-me (…) Depois é que vi o vovô Franklin a me chamar. A princípio julguei que estava acordado em casa, mas, (…) com muita alegria vim a saber que perdera o corpo e envergava outro. — Lucinho (Ads 11.4-9)

  6. A falar com franqueza, não sei quem foi o companheiro infeliz que sacou da arma contra mim… (…) Ele ou eles apenas apagaram meu corpo, mas não a minha alma. O sono para mim foi ligeiro. Acordei depois de algumas horas com a mãezinha Ana Rosa que fazia de mim criança outra vez com seus afagos! — Mário (Ads 12.13-15)

  7. Quando o carro estranho me atirou a moto para os ares, num relâmpago de tempo, imaginei mil assuntos (…) tudo passou diante de mim, como se eu pudesse misturar tanto expediente num só, a certeza de que perderia o corpo… Dor não senti. Creio que o assombro nos acidentes que nos estragam a roupa física, com marcas irreversíveis, nos embota a sensibilidade. A ordem era aquietar-me e dormir sem querer… De nada mais me lembro senão do salto inesperado e compulsório… O despertar foi outro problema, porque se não senti dores a princípio, acordava num corpo em tudo semelhante àquele que perdera e sofria… Aqui me dizem que os remanescentes da desencarnação divergem de pessoa para pessoa. O que sei é que me supus hospitalizado em Brasília ou em Goiânia. — Mauro (Ads 13.5-12)

  8. Ignorava que me achava nessa despedida estranha em que se dorme num lugar e se acorda em outro e que a pessoa deixa o corpo em que morava, assim como a lagarta se descarta do casulo para ser outro ser, embora continue com a mesma identidade. A princípio, compreenderão que foi aquele desmaio de que ninguém se livra, quando se vê sob a sentença de despejo da forma em uso. Um sono terrível. Sono de muitos tranquilizantes condensados. Lutei por não me apagar, mas tudo inútil. Não sei o que sucedeu depois. Essa história da morte parece mágica de bruxas invisíveis. Digo isso, porque uma névoa estranha nos envolve de tal maneira que é impossível reagir. Afinal despertei no recanto que me pareceu casa de saúde ou qualquer instituto congênere. — Serginho (Ads 15.4-8)

  9. Se me lembro da ocorrência infeliz? Recordo-a sim. Um projétil que se desviou do alvo me alcançou quando eu não esperava (…) Cai à maneira de um animal abatido por experiente caçador, e não vi mais nada. O tumulto se fez muito grande. O carro passava veloz. Disse-não-disse, e meu pensamento interessado na escuta vacilou e por fim apagou-se inteiramente. Quando me reconheci na fase final de minha existência, quis rezar mas era tarde. A cabeça rodopiava e um torpor invencível me situou num desmaio que até hoje não pude compreender. Do intervalo que se fez por dentro de mim próprio, nada sei. O sono e o silêncio me tomaram os sentidos por inteiro. Impossibilitado para medir o tempo, creio que despendi muitas horas ou muitos dias para poder despertar. — Mário Roberto (Aes 2.4-10)

  10. Em certo momento, eu que nada via senão as figuras de minha própria imaginação, enxerguei um rosto com um sorriso semelhante ao seu. A sensação de paz que me tomou o íntimo precedeu um sono pesado e suave que me separou dos nervos doloridos.  Ignorava que isso fosse a morte do corpo, no entanto, não era outra coisa aquele doce entorpecimento que me propiciava descanso. Nada mais registrei senão que acordara em lugar diferente do nosso. O ambiente era balsamizante, sugerindo-me tranquilidade e alegria. — Liane (Aes 3.13,14)

  11. Não sei porque mas, desde o momento em que ouvi tiros e que um dos projéteis me alcançou, quando voltava de uma festinha de amigos, quis ardentemente falar-lhes. (…) No entanto, ali me achava a sós, sob a noite, como se devesse aprender que o Céu é o Templo da Natureza acordando-nos para os deveres mais simples da vida… Isso aconteceu por minutos, até que passei do sono de superfície ao sono profundo, no qual se me apagaram todas as recordações. O que sucedeu realmente, ainda não sei. Lembro-me apenas de que fui alvejado e caíra num desmaio de que não consegui me desvencilhar. Mas, despertando, encontrei a simpática figura de mulher que me determinou chamá-la por vovó Ana e que me vem tratando com muito amor! — Marcos (Aes 5.3-11)

  12. Em certo trecho da pista [de motocross], um pequeno entrave nos obrigou ao grande salto do qual me vi projetado no chão. Tentei reerguer-me, porém, não consegui… Creio que algum vaso importante se me rompera no cérebro, porque notei que a minha cabeça pendia desgovernada em meus impulsos de retorno à verticalidade natural. Sem que me conscientizasse da significação daqueles instantes aceitei o torpor que me invadiu… Nada mais vi, nem senti, até que despertei num aposento calmo e confortável. Uma senhora velava junto de mim. — João (Aes 7.11-13)

  13. Primeiro, foi o pesadelo trançado em sofrimentos sem nome. Senti o coração parar no peito, ao modo de um motor que se apaga em plena marcha do carro. Quis reagir, recalcitrar, mas onde a energia para isso? Minhas faculdades esmoreceram gradativamente e, por fim, o torpor no cérebro me venceu totalmente. Ainda assim, o fato não desapareceu de maneira assim tão rápida. Registrei o calor das mãos que me carregavam e uma esperança ainda me bailou na imaginação. Estaria eu catalogado entre as vítimas da catalepsia? (…) Poderia eu ser um deles. No entanto, a minha ilusão se desfez ao reconhecer que já não me achava pensando com a minha cabeça de rapaz afastada do conhecimento comum das coisas. Via meu próprio corpo e me espantei com semelhante dualidade. (…) O assombro, no entanto, me desorientava, porque não sentira qualquer dor, a não ser uma espécie de estalo surdo na caixa torácica. — Alex (Aes 8.7-15)

  14. Escutei um médico sensibilizado a dizer para outro que as minhas possibilidades de sobrevivência haviam terminado… Realmente, procurei movimentar as pálpebras e não consegui. Tentei levantar algum dedo das mãos, entretanto, isso também não me foi possível. (…) De pensamento firme na atenção, notei que uma névoa me envolvia todo o corpo. Não mais ouvi alguém e nem senti mais qualquer dor. Do seio daquele lençol, fluído e movente se destacou um rosto com expressão de bondade e entendimento. Depois daquela face amiga, duas mãos me acariciaram e eu, então, dormi… Só mais tarde vim a saber que o vovô Prudente me viera buscar para o novo lugar de saúde, em que despertei, crendo que seria objeto de tratamento cirúrgico especial, num Instituto da Terra mesmo… — Adilson (Aes 11.18-26)

  15. …quando o tiro explodiu e o projétil me alcançou. Detive-me por momentos, no esforço de me levantar da queda de forças que me quebrantou o ânimo, no entanto, era impossível erguer-me (…)  aos poucos, como que se fez noite para meus olhos, quando estávamos em pleno dia. Em seguida a isso, minhas energias esmoreceram de todo. Por fim, o sono, um torpor implacável que me invadiu todo o corpo, a ponto de não conseguir mover um dedo. Depois, o esquecimento. A memória fugira. Impraticável qualquer esforço para readquirir o domínio da mente agora abatida e desfalecente. Ignoro quanto tempo estive assim, nesse crepúsculo interior, qual se fosse compelido a hibernar de modo incompreensível para mim. Chegou, porém, o instante em que despertei vagarosamente. Tive a ideia de que um sopro revitalizador me percorria o corpo, da cabeça aos pés. Do projétil nada me restava senão leve dor no local ferido. — Osmar (Aes 12.5-13)

  16. O carro desgovernado nos sacudiu com tremenda violência e, embora me dispusesse a ser útil às companheiras e aos amigos de cujos nomes não me recordo, senti que meu crânio recebera uma pancada, deixando-me completamente desorientada. Não só desorientada. Vi-me inconsciente com absoluta incapacidade para estender qualquer auxílio aos que me compartilhavam da companhia. Escutei os gritos da Daniela e da companheira, mas, a esse tempo, um pesado torpor se me impusera à cabeça, qual se eu recebesse algum processo de anestesia sobre os meus próprios pensamentos. (…) Perdi toda a noção de minha própria identidade. E fui apanhada para seguir numa ambulância a caminho do hospital. Entretanto, de hospitalização não tenho a mínima lembrança. Acordei, acredito que muito depois do acidente, velada por duas religiosas, sendo que uma delas, a que se deu a conhecer por Irmã Ana, tem sido para mim uma enfermeira maternal. — Ana Luiza (Aof 1.14-17)

  17. A moto foi violentamente atirada ao longe, deixando-me estatelado no chão. Tive a ideia de que a minha cabeça se quebrara de todo e aquela angústia concentrada era em mim um terrível mal-estar. Quis pedir socorro em voz alta, mas as minhas forças esmoreceram. Compreendi que minha queda era uma sucessão de forças negativas compelindo-me a pensar que o fim chegara para o meu corpo como que triturado por dentro. Notei que o socorro aparecia e que já não me achava tão só, mas o apoio mesmo veio a mim na voz doce e encorajadora da vovó Maria Rosa, que me pedia calma e paciência. Apanhou-me como se recolhesse um trapo, tamanho era o sofrimento que eu sentia. (…) Em seguida, retirou-me do corpo estragado qual se me retirasse uma veste do corpo e pediu-me calma e conformação. (…) Não deixou que eu visse meu corpo estirado no chão e afastou-se comigo, conduzindo-me em seu colo. — André Rogério (Aof 2.3-12)

  18. Tive a ideia de que a velocidade do avião era tamanha que o contato indescritível do aparelho com a dureza da terra imprimia um estranho movimento a nós todos e a tudo o que nos cercava.  Explico-me assim porque a ligeireza daquele engenho enorme passou a comandar-nos, atirando-nos à distância e nada mais vi senão a queda ao longe, na qual me senti esfacelada, a princípio, para depois reconstituir-me. Ouvia vozes de criaturas beneméritas a pedir-nos calma e fé na Divina Providência e sem que me fosse possível retirar um dedo sob o controle de minha própria vontade, fui deposta em maca tipo banguê no interior da qual entrei num sono longo, do qual despertei num aposento-enfermaria de grandes proporções. — Rosana Maria (Aof 6.10-12)

  19. Toquei para determinada direção, mas outro veículo nos acertou em cheio. Desejei socorrer o Oldack, mas nada consegui. Não sei quanto tempo perdurou aquela minha situação de sono enfermiço, recolhendo as mais estranhas sensações. Queria manter-me aceso, mas nada consegui. Um sono profundo, traçado de sonhos em que tudo me vinha à memória, desde os meus primeiros dias de criança, empolgou-me totalmente. Não tive outra saída, senão cair num torpor esquisito, no qual, se falei alguma coisa, foi claramente sem pensar. Depois de um tempo (que julgo longo) acordei numa tarde agradável. — Wellington (Avm 8.5-8)

  20. Notava as mãos que me tomavam o pulso e escutei as palavras abençoadas dos que pediam a Deus por mim. Estava, porém, tão cansada que a ideia da morte não mais me surpreendeu. Vi que uma nuvem esbranquiçada se formava sobre a minha cabeça e aos poucos essa névoa invadiu o leito. Tudo desapareceu do recinto, mas outros quadros apareceram. — Solange (Avm 9.16-19)

  21. Como apaguei não saberia explicar; antes de tudo foi uma sombra grossa que me cobria a razão e depois um espécie de sonoterapia compulsória. Não tenho discernimento ainda para fixar o tempo em que me vi nesse estado. — Lilian (Avm 12.7,8)

  22. Não dispunha de forças senão para uns restos de pensamentos que dediquei à oração, pedindo a proteção de Deus. Tive a ideia que minha vida era uma vela acesa que se apagava devagarinho, sem que me fosse possível reavivar a chama. Refleti nos pais queridos, em nossos Arnaldo e Antero Júnior mas tudo se me abateu na memória qual se me visse num sonho, sem acreditar na realidade. Dormi pesadamente e creio que muito tempo depois acordei na casa de apoio espiritual que me pareceu um pouso de emergência para acidentados. — Carlos Alberto dos Santos Dias (Cda 2.1:7-9)

  23. Desculpe a companheira pelas impaciências e gemidos… Felizmente, quando me coloquei na aceitação total dos desígnios de Deus, adormeci à feição da criança que se refugia no regaço da mãe… E não me enganara. Despertei sob a ternura da mamãe que me conservara entre os braços e me pedia coragem e paciência… A princípio, não compreendi bem se sonhava ou se me achava em alguma ilusão que não conseguia repelir. Minha fraqueza era muito grande. Deixei-me ficar onde estava, sem opor resistência. — Carmen (Cda 3.10-14)

  24. Estava pensando em férias, sem qualquer sombra nas ideias, quando o choque me surpreendeu… Ao cair, por alguns minutos, estive sem ação, um tanto baratinado, entretanto, em seguida, vi e ouvi quanto se fazia comigo e em torno de mim. (…) Quando as minhas dificuldades se faziam maiores, naquele conflito entre admitir ou não a mudança que eu pressentia, via uma senhora de rosto simpático ao meu lado, a dizer-me que devia aceitar os desígnios de Deus e aceitar as mãos que ela me estendia… Incapaz de sustentar a luta em que me via, compreendi que o meu problema não dispunha de outro caminho para se deslocar de minha inquietação. A senhora me solicitou chamá-la por vó Francisca e amparado por ela que orava, em meu favor, adormeci… Desse sono profundo é que despertei desconhecendo quanto tempo estive naquela inércia de sonho… — Eduardo Ruiz (Cda 4.1:6-14)

  25. A moto saltou sobre um obstáculo com tamanho ímpeto que me vi atirada no chão. Não tive tempo para pensar. O choque me prensou a cabeça, qual se o meu cérebro se convulsionasse na destruição de si mesmo… Escutei os chamados do esposo que tentava me reanimar, no entanto, um sono invencível me dominou todas as energias. Nada mais soube senão que acordei num aposento espaçoso e reconfortante, no regaço de alguém que supus fosse você… — Egle (Cda 5.1:6-8)

  26. Creiam que eu estava cantando, quando o choque na cabeça me fez parar, até mesmo por dentro de mim. (…) Aquele desmaio que me absorveu foi inevitável. Um sono terrível, uma espécie de morte que afinal reconheci que era o sono da morte mesma. Acordei, não sei quando, porque ignoro a quantidade das horas que passaram entre o choque e o meu despertar e supunha que me situava em nossa casa. — Marco Antônio (Cda 7.1:4-8)

  27. Mãezinha e meu pai, eu fiz tudo para levantar o corpo, mas eu creio que o choque me alterou a circulação. (…) Erguer-me não pude, falar muito menos, tive apenas a sensação de que caía num sono contra minha própria vontade. (…) Caí, sem querer, num sono violento no qual me pareceu estar num poço muito profundo, à espera de que me libertassem, conquanto não me fosse possível gritar por socorro. Por fim, sonhei, como num pesadelo, que me carregavam para o hospital (…) Senti o cheiro de remédios e escutei o ruído de instrumentos como se penetrando em meu cérebro. O sonho era demorado, um sonho em forma de pesadelo, daqueles que a gente quer acordar sem poder mas, depois veio um sono silencioso, como se tudo houvesse acabado, o mundo e eu. Despertei não sei quando até hoje, e me senti à vontade, pedindo pela presença de meu pai para conversar. — Manoel Francisco (Cda 11.7-18)

  28. … Tremi quando o Volks bateu no Corcel, atirando-me fora, em movimento da queda irremediável. Ouvi as palavras do nosso Wanderley tentando socorrer-me, entretanto, passei por um sono rápido, e, mais auxiliado por amigos da Vida Maior, do que seria lícito esperar num instante daqueles, vi-me fora do corpo, quando me conduziram para o hospital. Creia que não senti dor alguma, embora a preocupação por você e pela família fosse em mim um quadro de aflição maior do que qualquer sofrimento físico que devesse experimentar. Ainda assim, não conseguia mover-me. Estava apático, inabilitado a esforço que me levasse a menor manifestação, mas os conhecimentos adquiridos me velaram na hora. Com eles, mantive o pensamento em oração, rogando, mas rogando ardentemente para que Deus me concedesse o privilégio de não dormir sem encontrá-la. As ocorrências de que me vi objeto ainda são muito estranhas para mim, a fim de que eu possa entrar em detalhes, no entanto, abracei você logo que me foi possível semelhante alívio… — Lúcio Lincoln de Paiva (Cg Anexo2.16-21)

  29. Seguíamos respirando o ar puro da estrada, conversando com as crianças, quando fomos colhidos pelo peso irresistível de ferro e fogo que nos consumiu a existência física em rápidos minutos. Creiam vocês que não houve lugar para a dor, porque as aflições reunidas numa só invasão de assombro e sofrimento, nos deixou desorientados. Tivemos instantes de lucidez, fora da vestimenta corpórea, no entanto, a Providência Divina jamais nos abandona. Lá mesmo, ante a visão do campo aberto, uma equipe de enfermeiros nos aguardava. Aquilo nos fez pensar em preparação. — Laura (Cnt 1.6-9)

  30. Mãezinha, compreendi tudo. Muitos disseram até que desertei do caminho, que não suportei a pressão da caldeira em que tantas vezes resumi a experiência humana, mas você e eu sabemos que o coração se me rebentou no peito, talvez sob o peso de meus complexos emotivos sempre mais amplos e sempre mais constringentes. Veio um torpor de tal maneira irresistível sobre mim que não me furtei ao encanto daquele convite ao repouso que de modo algum, poderia supor fosse definitivo para a vestimenta de células físicas que usara por mais de vinte anos. — Carlos Alexandre (Cnt 2.4,5)

  31. O choque das máquinas me deixou desacordado e de nada mais fiquei sabendo, senão que um dia, creio que depois de muitos outros dias, despertei entre amigos que me fitavam com simpatia. — Christian (Cnt 4.8)

  32. Quando o corpo estranho me alcançou, imaginei que houvesse sido vítima de uma pedrada de cujo peso não consegui me desvencilhar. (…) Quis levantar-me e observar o que se passava, no entanto, não tive mais qualquer noção de mim mesmo. Um torpor muito grande me absorveu e não consegui espaço no pensamento para recordar e reconhecer com nitidez o que eu ansiava recompor na imaginação. (…) Pouco a pouco um sono compulsivo me dominou e até hoje não sei dizer quanto tempo durou aquele estado de sonambulismo que eu não previa. Acordei num aposento de hospital e julguei que fora vítima de algum acidente. — Nelson (Cnt 8.4-8)

  33. … em me reconhecendo estatelado no chão. Não consegui verificar qualquer problema posterior ao atrito das ferragens que me estragaram a moto; porque em meu cérebro sentia-me incapaz de qualquer iniciativa para certificar-me quanto ao acontecimento. Lembrei as preces que minha mãe Assumpta me ensinara na infância e, muito embora minha fé insegura, cedi ao sono que me venceu totalmente. Via-me como num sonho infeliz e sofria na penumbra mental a que me recolhera sem querer. Por fim, desci as escadarias simbólicas do sono profundo e perdi-me na inconsciência. Papai Wilson e querida mãezinha, foi muito grande a minha surpresa quando despertei junto de duas senhoras que interpretei por enfermeiras da casa de saúde e socorro em que, decerto, me haviam internado. — Adilson (Cor 7.3-8)

  34. Quando esbarrei no elevado e compreendi a extensão do choque, (…) não tive dúvidas quanto à hemorragia interna. Por dentro de mim as emoções e os pensamentos se entrechocavam, qual se me visse em meio de vasta corredeira de águas profundas. (…) as águas da catarata que me esbravejava na intimidade do crânio, eram um redemoinho ensurdecedor para mim. A princípio, ouvia as pessoas ao meu lado, mas depois foi um sono provocado e repentino a que não conseguia escapar. (…) até que o sono a que me referi me tomou inteiramente. Quanto tempo gastei naquele repouso compulsório, não posso ainda saber. Desejo informar ao papai que o meu avô Trita me havia conduzido para lugar distante. Soube depois que ele estava com enfermeiros daqui para me balsamizarem as dores do choque. — Luiz Augusto (Cv 5.13-19)

  35. A queda do carro num lugar profundo me desorientou completamente. Por muito que procurasse salvar a mim mesmo, qualquer movimento era como que uma sentença a ferir-me de tal modo que a noção de mim se foi como se desmaiasse. O que passou depois, não mais sei. Penso que Deus cria em nossa vida intracraniana certos nervos de misericórdia que fazem com que nos apaguemos na hora dos grandes sofrimentos. Seria sono o que senti? Não sei. (…) vi alguém me tomar ao colo, carinhosamente. Aquela voz forte e amiga não me enganava, era meu pai Jovelino a pedir-me coragem e fé. Abracei-me a ele, como se me fizesse menino outra vez, e chorei começando a sentir o desmaio a que me referi. Sonhei com você, mamãe, dando ordens para que me buscassem, ouvia suas exclamações lacrimosas, e enxergava a Carmem no sonho, até que tudo desapareceu. Acordei mais tarde num hospital em que o ar puro me impressionava. — Urueno (Cv 10.11-21)

  36. Minha agonia não foi prolongada, apesar da moléstia física que me prostrou o organismo combalido na luta, por muitos dias. Sacerdote católico que fui, em minha derradeira existência, tive a felicidade de conservar integérrimos os meus sentimentos de fé, até o supremo minuto. A princípio, experimentei a paralisia parcial dos meus órgãos, que se sentiam avassalados por uma onda de frio, e os meus padecimentos corporais localizavam-se em diversos pontos orgânicos, recrudescendo assustadoramente. Afigurava-se-me que todas as glândulas, mormente, as sudoríferas, trabalhavam com  excesso para eliminar algo de intoxicante e destruidor que se apossava dos meus centros de força. Minha vontade dominadora enviava as suas últimas mensagens ao sistema nervoso e a fé, nesses martirizantes segundos, constituiu para mim uma alavanca prodigiosa de amparo e controle. Sentia que todas as minhas vísceras, todos os meus nervos desenvolviam uma atividade exortante para que não se apagasse a derradeira centelha de vida que os mantinha coesos, evitando, assim, a fuga da minh’alma. Notei, porém, que uma nuvem esbranquiçada ia-se formando ao meu lado, justaposta ao meu corpo e quando orava fervorosamente via aumentar-se, com fragmentos da mesma matéria fluídica que me era desconhecida e que se me afigurava composta de infinitésimos átomos luminosos, distendendo-se aqueles fragmentos fantásticos que os meus olhos divisavam estupefatos, sem poder articular mais um vocábulo. Sentindo a glote coberta de intumescências, experimentei-me na posse de uma visão e audição extraordinárias, como se me encontrasse dentro de outra vida, perdurando esse estado com intermitências. Senti, porém, que se passava em mim algo superordinário. Uma sensação intraduzível de sofrimento me subjugava. Todavia, simultaneamente, afigurava-se-me que muitas mãos pousavam sobre a minha epiderme, como se me submetessem a operações mesméricas. Adormeci numa noite sem visões e sem sonhos. Passada, porém, uma fração de tempo que não me é possível precisar, acordei-me sobre um leito alvíssimo, como se fora obrigado a repousar em uma cama higiênica de hospital. Rajadas de ar puro sutilíssimo inundavam o meu aposento, onde eu experimentava um inexprimível bem-estar. Curado? Como se operara o milagre? Sentia-me restabelecido, com a minha saúde integral, com serenidade invejável, aliada a uma ótima disposição para a vida e para a atividade. Onde estariam os meus familiares que não se abeiravam do meu leito para me felicitar pela obtenção de tão preciosa dádiva divina? Chamei-os, nominalmente, empolgado pelo júbilo que fazia vibrar todas as fibras de minh’alma. Eis que se me apresentou alguém, trajado como se fosse um médico vulgar, e aconselhou-me repouso absoluto e absoluta serenidade de ânimo. Inquiri-o sobre os seus miraculosos processos de tratamento. Todavia, o interpelado, alçando a destra para o Alto, respondeu com paciência e brandura: “Tende calma. Não estais sendo tratado segundo a nosologia clássica.” Prescreveu-me conselhos morais e salatures advertências. Aí permaneci ainda por algum tempo e tive oportunidade de notar, com admiração justificável, a atuação da minha vontade sobre todos os elementos que me cercavam. Recordo-me firmemente do meu crucifixo de prata pendido constantemente sobre a minha cabeceira e eis que no local de minha preferência, atendendo ao meu desejo veemente, apareceu-me esse objeto de estima. Tomei-o, admirado, em minhas mãos, apalpando-lhe os contornos e inquirindo se não era vítima de um fenômeno alucinatório e, como inúmeros fatos semelhantes ocorreram, eles me obrigavam a meditar sobre a influência do meu pensamento nos fluidos e matérias circunstantes. Pouco a pouco, entidades zelosas e protetoras encaminharam-me para o conhecimento do meu próprio “eu” no post-mortem, até que cheguei a compreender esta transformação da existência corporal como uma bênção divina. Pude então gozar de afetos ilibados que jamais deixara sob o pó do esquecimento, revendo seres bem-amados e almas queridas. — Padre Amaro (Emmanuel) (Dco 1)

  37. Lembro-me com clareza de tudo. A nossa estimada Palmira do Jair estava conosco e eu tomava a sua mão para beijá-la e falar da saudade que começava a sentir. Notei que o estômago estava muito vazio e falei com você que eu aceitaria algum caldo quente que me retirasse da sensação de fome. Você foi à cozinha e preparou o alimento leve que eu desejava. (…) Tomei o líquido quente que você me trouxe e ainda ofereci a você o resto para que nós duas fôssemos as únicas pessoas trocando os corações naquela hora. Em seguida, falei que você havia feito uma delícia e novamente tomei sua mão entre as minhas, exclamando: “Ô saudade! Que saudade!…” Era a saudade de você que começou a me tomar a alma toda, quando vi minha mãe [desencarnada] chegar em companhia de Madalena, irmã de Maria Anselma, que trazia nas mãos um retrato de Jesus, que me pareceu gravado em pontos de luz. Acompanhando mamãe e Madalena, estava Cidália [irmã] e um grupo de crianças, que me encantava. Acreditei que o alimento me induzia a um sono leve e entreguei-me ao respeito e à admiração pelo quadro que Madalena me mostrava. Não sabia se estava acordada ou sonhando… Mamãe me recomendou: “— Luiza, levante-se para receber o retrato de Jesus das mãos de nossa amiga”. “— Não posso!”, respondi mais com o pensamento que com as palavras. “Não tenho forças!…” “— Pode sim”, acrescentou minha mãe: “Esforce-se e saia da cama!…” Creio que os meus movimentos para atender foram apenas mentais. Compreendi que devia aceitar o pedido de mamãe mais por educação que por gosto próprio e depois de alguns momentos me vi fora do corpo desgastado e abatido (…) “— Mamãe, o que significa isso? Eu não pedi e nem quero nada com o Além! E esses meninos…” Não terminei a frase. Uma jovem vestida em azul se aproximou de nós e com muito cuidado examinou um fio de substância prateada que saía de minha cabeça, e sem que eu pudesse me livrar do espanto que me assaltara cortou o fio depois de examinar cautelosamente o que estava fazendo, e eu então me senti num desmaio que não sei explicar… — Luiza Xavier (Ddt 73)

  38. Reconhecia-me forte num corpo sempre menos ágil, até o que o 21 de Abril, tão marcado em nossa felicidade familiar, me desvendou com a realidade tudo aquilo que, em mim, não passava de impressão dominante. Compreendi que o sono terminal era diferente dos outros. Uma espécie de desmaio gradativo, no qual me distanciava de tudo o que mantinha na conta de mim mesmo. Uma estranha noção de dever cumprido, de tempo rematado, me possuía por dentro e entreguei-me àquela sensação de repouso total que me exonerava da obrigação de continuar… Tudo isso, porém, ocorria espontaneamente, sem que a minha vontade partilhasse dessa ou daquela decisão. Do que me sucedeu durante aquele afastamento compulsório, nada guardei de memória; mantinha a certeza de que seguiria para diante sem o corpo enfraquecido para não voltar, senão em Espírito, e foi exatamente o que aconteceu. Despertei num aposento varado de ar puro e respirei aliviado… — Luiz Ricardo (De 3.11-16)

  39. Um sopro de esperança nos aqueceu por dentro, durante alguns instantes e o piloto julgou que a praia nos ofereceria refúgio, mas ao invés de descer, caímos sobre as águas… (…) A água marinha encharcada de areia penetrava-nos os pulmões e quando me vi totalmente esmagado, nada sabendo de meu irmão e dos companheiros que nos guardavam a viagem, quando no auge do meu desespero íntimo, vi que uma senhora caminhava naturalmente sobre as águas e, ao abraçar-me, solicitou-me concentrar na fé em Deus e me disse: “Meu filho, você está conosco. Sou a sua avó Ai, que venho retirá-lo da areia. Seu avô Tsunezaemon retirará seu irmão. Haverá socorro para vocês todos. O piloto e o co-piloto serão resguardados.” — Celso Maeda (De 5.18-23)

  40. Eu estava com muita sede e vendo a piscina com tanta fartura de água, estirei-me na beira, na esperança de conseguir beber água com a minha própria boca. No esforço que fazia, o corpo pesou muito e caiu na água de ponta-cabeça. Queria gritar, mas não consegui. Debati-me até que me apanhassem; no entanto, não conhecia mais ninguém. Uma senhora se aproximou de mim e falou-me em descanso. Pensei que me achava em presença de gente nossa de casa e deixei-me conduzir pela senhora que me seguiu até os exames, e depois me disse que eu me molhara e precisava trocar de roupa. Carregou-me com os cuidados semelhantes aos da vovó e conduziu-me à casa diferente da nossa. Ali trocou-me de roupa, deu-me um remédio para aliviar o cansaço que eu sentia e então, sem poder falar como desejava, dormi um sono longo, cuja duração não consigo explicar. Quando acordei, ela me disse que poderia chamá-la por vovó Carolina e apresentou-me a outra vó, cujo nome é Maria Hylda. — Renato (De 7.1:6-11)

  41. Corria sem pensar em velocidade, quando esbarrei na trazeira da máquina pesada que me arrasou com a pancada das engrenagens. Foi quando vi que estava entrando numa espécie de exaustão inarredável. Da exaustão ao torpor completo, não gastei mais do que alguns momentos, até que não mais pude movimentar um dedo sequer. (…) Não sei explicar ainda por que me sentia dois ao mesmo tempo. Eu continuava pensando nas dificuldades mas agarrado a outro “eu” que jazia inanimado à minha frente. Minha situação se complicava cada vez mais, quando alguém me apareceu. Era a vovó Maria Aurélia, que me tomou nos braços, separando-me do corpo que passara à cor de cera, tanta era a quantidade de forças que perdera. Então, recolhido ao colo da vovó Maria Aurélia, que reconheci sem dificuldade, sobretudo rememorando os nossos retratos de família, rendi-me ao cansaço e dormi. Foi um sono de pedra, tão grande foi o desligamento de tudo o que me poderia tomar a atenção. Estive assim, por muitos dias, e despertei, estremunhado, sem possibilidades para sustentar o mínimo diálogo. — Fábio (De 15.9-17)

  42. Quando aquele peso avançou para nós, estávamos claramente desprevenidos; Serginho e eu não tivemos tempo para qualquer opção. (…) naquele apagar das luzes, por dentro das ideias; enderecei aos pais queridos os meus anseios mais íntimos. Queria dialogar, mesmo a supor à frente dos dois, como num exercício mental positivo; no entanto um sono de hipnose desconhecido me absorveu de todo. Quis, num derradeiro esforço, erguer-me para saber do companheiro, mas o corpo era agora uma engrenagem que não me respondia com qualquer reação. Fiz força, reuni todas as minhas energias no intuito de recuperar as minhas faculdades de manifestação; entretanto, notei que mãos suaves, tão suaves quanto as da mamãe, me afagavam o rosto e me cerravam os olhos. Ouvi como num cântico de embalar, quando a gente é ainda criança, uma prece que me recordava os dias de aprender de mãos postas. Aceitei a oração por bênção do Céu e me rendi ao repouso ou inércia obrigatória de que me via objeto. Compreendia que o acidente me arrasara; contudo, a certeza de que estava a despedir-me do corpo não estava ainda em mim. Quanto tempo dormi naquela sonoterapia de compulsão, não sei dizer. Despertei num instituto de paz e refazimento, que me proporcionou a ideia de algum hospital de Ribeirão. — René (Ea 1.1:5-15)

  43. Quanto ao avião, fiz o que pude para impedir-lhe a queda. (…) Quando me vi aturdido e em seguida inerte, muito embora a turvação dos sentidos que me caracterizava, notei que alguém me recolhia nos braços. Vim a saber depois que eram vovó Joana e o vovô Francisco que me socorreram. Vários dias atravessei à maneira da lagarta quando, involuntariamente, se imobiliza no casulo, mas acordei finalmente em meio de gente boa e compreensiva que me estendeu os braços para meu reconforto e renovação. — Rui (Ea 5.15-17)

  44. Desde o instante em que certa máquina pesada nos bateu sobre o carro, sinto uma certa nebulosidade no pensamento. Conversávamos, o companheiro e eu tranquilamente, na serra, quando o inesperado sucedeu… Seria difícil para mim esclarecer pormenores. Quis, por todos os meios, socorrer ao Nelson, mas não consegui. Minhas forças esmoreceram depressa, e o único movimento que ainda podia fazer era o movimento de pensar em Deus e em nossa casa. Foi nesse desejo de orar em voz alta e de voltar para a nossa casa que adormeci. Não sei ainda avaliar a duração do sono em que me vi mergulhado. Lembro-me apenas de haver sonhado com os seus sofrimentos e com as lutas que eu deixara sem querer. Mãezinha, acordei fatigado e, abrindo os olhos, fui surpreendido com a presença de uma senhora calma e simpática que sorria para mim. Buscando certamente afastar-me de qualquer interpelação indébita, revelou-se para mim como sendo a avó Alexandrina. — Reginaldo (Ea 8.2-6)

  45. Tudo foi tão rápido, uma leve dor de cabeça com uma indisposição que pedia repouso, só isso. (…) Quando nos separamos, levei a mão no peito e notei que a dor crescia por dentro de mim, a ponto de entontecer-me. Via-me só, mas não me notava aflito ou desesperado; estava confiante. A verdade é que dormi involuntariamente, e quando retornei à própria consciência, reconheci-me em lugar que não era o nosso. Inutilmente chamei por alguém que a buscasse, até que uma senhora irradiando bondade penetrou o aposento em que me achava e me disse que era a vovó Lindaura. Ouvi a revelação que não esperava. Compreendi que a morte do corpo é uma espécie de sono da noite, do qual se desperta pela manhã. — Carlos Alberto dos Santos Costa (Ea 11.3-13)

  46. Mamãe, eu sei que muitas versões apareceram para justificar a minha liberação da vida física (…) Acontece que eu trazia sem perceber, na sensibilidade que era muita, as coronárias doentes, e as coronárias não resistiram à emoção que me tomou de assalto, ao ver que o carro me arrastava para as águas do rio. O motor do peito silenciou de repente e, em meio da turvação de sentidos em que me vi, encontrei a presença da vovó Chamma que me pedia orar e repousar, duas atitudes que se me faziam impraticáveis. Ela, porém, deve ter atendido por mim a essas obrigações, porque um torpor estranho me acalmou de estalo e não mais me senti perdido nas águas de que não conseguira escapar pela impossibilidade total de assumir qualquer movimento contrário ao abatimento que me invadiu corpo e alma… Acordar do sono a que me entreguei por influência da bondade de minha avó, foi uma surpresa que não conseguiria expor com palavras. — Antônio Jabur (Ea 14.7-11)

  47. Além do choque, me reconheci, de imediato, envergonhado diante de mim próprio, de vez que, a meu ver, aquilo não podia e nem devia acontecer. Não tive porém qualquer faixa de tempo para me entregar a reflexões. Por dentro da cabeça foi aquela moleza que não esperava. Ainda mesmo que desejasse movimentar-me ou falar, não era possível porque o desmaio me envolveu e nada mais consegui marcar, no ponto de minhas próprias observações. Quando acordei, foi aquele tumulto. Exigi providências, gritei e me transformei numa fera de agressividade, porquanto acreditava que me haviam internado em alguma casa de Dois Córregos, para tratamento. — Sílvio Romero (Eac 2.1:7-9)

  48. O barulho enorme e o choque generalizado me abateram de uma vez. Sei apenas que caí e nada mais. Quando despertei no hospital a que me conduziram, julguei que o corpo unicamente recebera alguns estragos e escoriações mas, pouco a pouco, vim a compreender com o auxílio do Doutor Bezerra e de meu avô Luiz que o corpo danificado em caminho é que era a roupa servida de que me cabia esquecer. — Cláudio Luiz (Eac 3.1:3,4)

  49. Desde aquele momento em que o choque de veículos me apagou a memória, principiou vida nova para mim. Dormir foi o resultado daquele choque de que não conseguiria me desvencilhar. Um sono profundo, que assumia a forma de insensibilidade após uma carga violenta de sedativos. Nada mais vi, depois daqueles minutos estranhos, até que o despertar veio a mim, à feição de sol da manhã num rosto de criança. — Jayme (Eac 4.1:4-6)

  50. Não sei porque escolhemos o horário do embarque, porque dispúnhamos de outras chances. Pois foi justamente no avião designado por forças que nos levaram em nome da Sabedoria Divina, aquele em que nos instalamos para a despedida inesperada. (…) A Sônia conversava alegremente. Não me lembro mais de que passeio tratávamos por antecipação quando aconteceu o indescritível. Creio que ninguém se entregou, senão àquele pesado silêncio no qual entramos, compreendendo que estávamos sendo chamadas para o desconhecido. Acreditem que não senti dor alguma, a não ser aquele choque talvez destinado a cobrir o nosso sofrimento, com a impressão de que havíamos chegado aos derradeiros limites da existência. (…) O assombro foi grande, de tal modo, que suprimiu em nós qualquer ideia de queda e de aflição. A fuga do corpo — pois somente assim consigo definir a liberação do veículo físico que nos retinha — foi imperceptível para nós. (…) A ideia de aniquilamento integral esteve comigo por instante e arrojei-me num torpor que superou, a meu ver, todas as imagens que eu fazia a respeito de ausências e desmaios, quando a mente se vê desorientada por fatores que se perdem na própria inconsciência. Acordei, juntamente das companheiras de viagem num aposento simples e confortável no qual uma senhora de semblante carinhoso e belo nos sorria. — Jane (Eac 5.1:6-15)
  51.  

    (Momento da morte I - II - III - IV - V)