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Versões da Bíblia

 

I. —  Antigas versões do Antigo Testamento feitas para uso dos judeus — (1) A Septuaginta.  (2) Versões gregas menores. A Hexapla e a Tetrapla de Orígenes.  (3) As Targuns. — II. —  Versões antigas parciais ou completas da Bíblia, destinadas principalmente aos cristãos — (2) Versões latinas (A Vulgata) —  III. —  Versões inglesas —  ANEXO: A versão de Figueiredo em português — Vide também: Traduções da Bíblia em língua portuguesa, na W

 

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TEMAS CORRELATOS
(Antigo testamento) (Apócrifos) (Bíblia) (Cânon) (Harmonia dos Evangelhos) (Novo testamento) (Tabela cronológica)

 

As traduções da Bíblia ou de quaisquer porções dela em línguas vernáculas beneficiam aqueles que não a entendem ou só imperfeitamente no original. As versões são imediatas ou mediatas, de acordo como são feitas diretamente do texto original ou por meio de outras traduções. Há quatro versões imediatas antigas do V. T. que nos chegaram na atualidade: o Septuaginta, o Targuns de Onkelos e Jonathan Ben Uzziel, a Pesito Siríaca com uma porção considerável de seus predecessores, e a Vulgata Latina. Elas tem um valor especial por ter sido feitas antes que o texto hebreu dos Massoretas fosse estabelecido. O Pentateuco Samaritano não é uma versão; é o texto hebreu escrito em Samaritano ou em velhos caracteres hebreus, com várias divergências do texto hebreu dos Massoretas; e a versão Samaritana do Pentateuco é uma tradução deste texto divergente no dialeto Samaritano.

 


I. Antigas versões do Antigo Testamento feitas para uso dos judeus

1. A Septuaginta. — A mais célebre versão grega das Escrituras hebreias e a tradução completa mais antiga delas. Era chamada Septuaginta e comumente designada por LXX., desde que, reputa-se, foram empregados setenta tradutores nela ao tempo de Ptolomeu Filadelfo, 285-247 A. C. Aristóbulo, um sacerdote Judeu que viveu em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu Filometor, 181-146, A. C., e que é mencionado em 2 Mac. 1. 10, é citado por Clemente de Alexandria e Euzébio como declarando, que enquanto porções relacionando a história hebreia tem sido traduzidas previamente para o grego, a lei inteira foi traduzida do hebraico no reinado de Ptolomeu Filadelfo sob a direção de Demétrio Falero. A mesma tradição, porém consideravelmente embelezada, lê-se numa letra supostamente escrita por Aristeas a seu irmão. Esta carta é condenada por acadêmicos modernos como espúria. A mesma história contada por Aristeas é repetida com leves variações por Josefo, que pode ter visto a carta antes dele. Josefo relata que Demétrio Falero, bibliotecário de Ptolomeu Filadelfo, desejou acrescentar aos 200.000 volumes da biblioteca uma cópia dos livros hebreus da lei, e tê-los traduzidos em grego, desde que eram ininteligíveis no original. O rei consentiu, dando a incumbência a Eleazar, sumo sacerdote em Jerusalém, para que setenta e dois intérpretes hábeis e idôneos, seis de cada tribo, fizessem a tradução. Chegaram em Alexandria, levando a lei escrita em letras douradas em livros de pergaminho. Eles foram hospitaleiramente recebidos, e instalados numa tranquila casa na ilha de Faros no porto de Alexandria, tendo transcrito e interpretado a lei em setenta e dois dias (Antig. 12. 2, 1-13; cont. Apion. 2. 4).

 

Estes antigos relatórios da origem da Septuaginta têm grande valor, ainda que não possamos colocar absoluta confiança nos detalhes, pois as declarações relativamente ao âmbito do trabalho são dificilmente interpretadas. Há, no entanto, concordância comum que a Septuaginta originou-se no Egito, que o Pentateuco foi traduzido em grego no tempo de Ptolomeu Filadelfo, que os outros livros seguiram-no gradualmente, e que o trabalho inteiro foi completado em 150 A. C. Existe uma referência que uma versão grega da lei, dos profetas, e dos outros livros foram feitos por Jesus, filho de Siraque, já em 132 A. C. (Ecclus. prólogo). É possível que o trabalho foi revisado no período dos Macabeus. A versão é trabalho de muitos tradutores, como pode ser visto nas diferenças do estilo e método, com diferenças de qualidade em várias partes; ele também é muito corrompido. A tradução do Pentateuco, exceto porções poéticas (Gen. 49; Deut. 32, 33), é a melhor parte do trabalho, e em geral está bem executado, embora não literalmente. A tradução dos Provérbios e Job dão mostras de um bom estilo grego, mas indica pouca familiaridade com o hebraico e manipula o original arbitrariamente. A tradução dos Provérbios é baseada num texto hebreu que variou consideravelmente do presente texto Massorético. O sentido geral dos Salmos é reproduzido razoavelmente bem. O Eclesiastes foi deixado obnóxio. A tradução dos profetas é desigual em qualidade; a de Amós e Ezequiel é tolerável, mas a de Isaías está bastante inferior. A versão de Jeremias foi feita possivelmente de uma forma diferente do texto hebreu Massorético. De todos os livros do V. T., Daniel é o mais pobremente traduzido, tanto que os primeiros cristãos, desde o tempo de Ireneu e Hipólito, substituíram-no pela versão de Teodócio.

 

Cristo e seus apóstolos usaram a Septuaginta frequentemente. Citando o V. T. às vezes eles citavam a Septuaginta literalmente, ou com mudanças verbais sem importância: de outras vezes, eles aparentemente traduziam o hebraico original. Há aproximadamente 350 citações do V. T. nos Evangelhos, nos Atos, e nas epístolas, e só aproximadamente cinquenta diferem substancialmente da versão grega. O eunuco etíope que Filipe encontrou lia a Septuaginta (At 8.30-33).

 

Foram feitas três revisões principais na Septuaginta. Uma foi emitida em A. D. 236 e as outras antes de A. D. 311. Elas eram a de Orígenes na Palestina, de Luciano na Ásia Menor e em Constantinopla, e a de Hesíquios no Egito. O manuscrito Vaticano da Septuaginta é reconhecido por exibir relativamente o texto mais puro e mais original, e dele provavelmente descenderam os textos da Septuaginta que Orígenes usou na quinta coluna da sua Hexapha. A revisão de Luciano foi editada em parte por Lagarde e por Oesterley. Luciano era um presbítero de Antioquia, e morreu martirizado na Nicomédia em A. D. 311 ou 312. Emitiu um texto revisado da Septuaginta baseado numa comparação do texto grego comum com o texto hebreu, que prova ter sido um bom texto, mas diferente daquele dos Massoretas. Hesíquios era bispo no Egito, e sofreu o martírio em A. D. 310 ou 311; seu texto foi perdido; mas acredita-se que um códice, conhecido como Q, preservado na biblioteca do Vaticano, e contendo os Profetas, seja destes livros.

 

2. Versões gregas menores. — Depois da destruição de Jerusalém em. A. D. 70, a Septuaginta perdeu favor entre os judeus, parcialmente por causa do uso bem sucedido dela pelos cristãos no estabelecimento das reivindicações de Jesus, e em parte porque eles descobriram que em seu estilo faltava elegância. Consequentemente três traduções dos livros canônicos do V. T. foram feitas por judeus no segundo século. 1. A tradução feita por Aquila, um prosélito do Judaísmo nativo do Ponto. Viveu no tempo do imperador Adriano, e dedicou-se a fazer uma versão literal das Escrituras hebreias para confrontá-la com uso da Septuaginta feita pelos cristãos no avanço de suas doutrinas. Era tão literal que frequentemente resultava ser ininteligível aos leitores que não dominavam o hebreu como também o grego. 2. A revisão da Septuaginta por Teodócio, um prosélito Judeu de Éfeso de acordo com Ireneu, e de acordo com Euzébio um Ebionita, que acreditava no Messianismo, mas não na divindade do Cristo. Viveu antes de A. D. 160, porque ele é mencionado por Justino Mártir. Em sua revisão da Septuaginta ele usou a tradução de Aquila e o original hebreu. 3. A elegante, mas perifrástica, tradução feita por Símaco, um Samaritano Ebionita.

A Hexapla. Orígenes organizou o texto hebreu e quatro versões diferentes em seis colunas paralelas para propósitos de comparação. Na primeira coluna ele pôs o texto hebreu, na segunda o hebreu escrito em letras gregas, na terceira a versão de Aquila, na quarta aquela de Símaco, na quinta a Septuaginta, na sexta a revisão feita por Teodócio. Este seu trabalho em seis colunas tem o nome de Hexapla. Na coluna dedicada à Septuaginta ele marcou com obelo [traço agudo] as palavras que não estavam em seu texto hebreu. Ele emendou o texto grego provendo-o de palavras que lhe faltavam, mas existentes no hebraico; indicando-as por asteriscos. Adaptou  a ortografia de nomes próprios ao hebreu.

A Tetrapla. — Orígenes preparou uma edição menor contendo somente as últimas quatro colunas, e doravante chamou-a Tetrapla. Estes dois trabalhos foram guardados por Panfilo, discípulo de Orígenes, na biblioteca fundada por ele em Cesareia na Palestina. Foram consultados por Jerônimo no quarto século, e existiam ainda no século sexto. Pensa-se que eles foram destruídos quando os maometanos tomaram a cidade em A. D. 638. Os fragmentos da grande obra de Orígenes são conservados nas citações feitas pelos pais da Igreja. A coluna da Septuaginta foi publicada separadamente por Panfilo e Euzébio; e foi traduzida para o siríaco por Paulo, bispo de Tella, em A. D. 617-18. Orígenes adotou um método infeliz quando adaptou o texto da Septuaginta ao texto hebreu de sua época; desde que o grande desiderato dos acadêmicos é o texto grego oriundo das mãos dos tradutores, porque aquele texto lançaria luz no texto hebreu utilizado por eles. Além do mais, os obelos e asteriscos, que Orígenes usou, eram frequentemente omitidos ou empregados negligentemente pelos copistas, de modo que as adições que ele fez à Septuaginta e as porções da Septuaginta que ele não achou no seu texto hebreu não mais puderam ser descobertas.

 

3. As Targuns. — Quando os judeus voltaram do exílio babilônico o hebraico de seus antepassados deixou ser sua fala costumeira, o Aramaico e o Caldaico miscigenado, tomaram seu lugar. Então tornou-se necessário que durante a leitura pública das Escrituras o leitor ou seu assistente traduzissem instantaneamente as passagens que as pessoas não poderiam entender. O costume de explicar palavras obscuras e frases à leitura pública estava em voga no tempo de Esdras (Ne 8.8); o evento citado é uma evidência de que as palavras lidas eram traduzidas; mas isto pode parecer um exagero, dependendo da resposta à questão se os hebreus adotaram um idioma estrangeiro durante o exílio. A targum oral — isto é, a interpretação ou tradução — que tornou-se necessário; era a princípio uma simples paráfrase em Aramaico; mas eventualmente tornou-se elaborada  a fim de firmá-la como uma tradução e  fazer dela uma interpretação autorizada, sendo registrada escrituralmente. Estes escritos Targuns são uma valiosa ajuda para determinar como o texto era lido nas sinagogas antigas e para descobrir o significado que os judeus davam às passagens difíceis. As principais Targuns são as de Onkelos sobre o Pentateuco e a Targum de Jônatas ben Uzziel sobre os profetas. De acordo com o Talmude, Onkelos era amigo de Gamaliel e um aluno da mesma categoria de Paulo, e portanto viveu aproximadamente em A. D. 70. Sua Targum então prédataria o começo do segundo século; mas geralmente é considerada como uma produção posterior, talvez já do segundo século. É bastante literal. A Targum de Jônatas ben Uzziel, por outro lado, é perifrástica; e é de data posterior. As Targuns da Hagiografia datam do décimo primeiro século [Hagiógrafo: Diz-se dos livros do V. T. menos o Pentateuco e os Profetas].

 


II. Versões antigas parciais ou completas da Bíblia, destinadas principalmente aos cristãos

 

1. Versões Siríacas. — (1) A antiga versão siríaca do N. T. é representada pelos evangelhos descobertos pela Sra. Lewis no convento de S. Catarina no monte Sinai em 1892, e pelos fragmentos a eles relacionados encontrados por Cureton num convento sírio no deserto de Nitriã em 1841-43. (2)A Pesito. O termo Pesito quer dizer vulgar, simples. O Antigo Testamento transcrito diretamente do hebraico, foi  provavelmente preparado para o uso sobretudo de prosélitos judeus. Foi feito já no primeiro século. O Novo Testamento é uma revisão da antiga versão Siríaca para aproximá-la ao máximo do texto grego e melhorar sua dicção e estilo. A Pesito parece ter estado em circulação no segundo século. Por causa de sua elegância foi frequentemente chamada a rainha das versões. (3) A Versão Filoxena do N. T., é assim chamada porque foi traduzida em A. D. 508 por Filoxeno, bispo de Hierápolis, na Ásia Menor. (4) A Versão de Jerusalém ou Siríaca palestina do N. T. é ainda pouco conhecida, mas promete ser de valor crítico.

 

2. Versões latinas. — (1) A antiga versão latina ou norte-africana. Pelo fim do segundo século uma versão latina das Escrituras estava em circulação na África do norte. Foi usada por Tertuliano, que morreu em A. D. 220, e por Cipriano e Agostinho. O Antigo Testamento não foi traduzido diretamente do hebraico, mas baseado na versão grega. (2) A Ítala ou Versão italiana. S. Agostinho testifica que uma tradução do N. T. foi feita por alguém que tinha suficiente conhecimento do grego. A versão norte-africana da Bíblia era de linguagem provinciana e ofensiva aos ouvidos do latim falado pelos romanos da capital. No quarto século, portanto, houve uma revisão do texto, que, pelo fato de ter sido feita na Itália, foi chamada Ítala. (3) A Vulgata. A versão italiana sofreu outra revisão, resultando unicamente num texto confuso; até que em A. D. 383 um patriarca cristão, Jerônimo ou Hieronymus A. D. 329 ou 331 a 420, o mais instruído acadêmico da época e um homem pio de elevada moral, a pedido de Damaso, bispo de Roma, empreendeu uma revisão do Novo Testamento latino. Os evangelhos eram comparados com o grego original, foram retirados as interpolações, e os erros grosseiros foram corrigidos. Ele também fez duas revisões da antiga versão latina dos Salmos comparando-os com a Septuaginta; são conhecidas como as versões Romanas e Galicanas dos Salmos, porque foram introduzidas em Roma e na Gália respectivamente. Jerônimo então idealizou uma revisão inteira do V. T. Em 387 quando ele passou a residir num mosteiro em Belém, começou e completou uma revisão baseada no texto da Hexapla de Orígenes; mas por fim fez uma versão diretamente do hebraico, com referências constantes às versões gregas em especial à de Símaco. Como Jerônimo em sua mocidade havia estudado hebreu, depois de sua transferência para Belém ele retomou os estudos com a ajuda de professores judeus. Samuel e Reis, prefaciado pelo famoso Prologus galleatus que faz um relato do cânon hebreu, foram lançados em 392, e o trabalho inteiro foi completado em 405. Sua própria geração aborreceu-lhe em lugar de ficarem gratos por tão importante serviço prestado; e o eminente padre, cujo temperamento não era dos melhores,  respondeu exprimindo o desdém que sentia, penalizado pela ignorância descarada e agressiva. Com o passar do tempo, seu trabalho, que não foi feito para uma geração, mas para a eternidade, foi cada vez mais apreciado. A Vulgata tornou-se a Bíblia de toda igreja ocidental na Idade Média, e não obstante as traduções em vernáculo, permanece ainda a Bíblia da igreja católica romana. Uma revisão do texto foi feito por Alcuíno, por instância de Carlos Magno, aproximadamente em 802. A Vulgata Latina foi o primeiro livro impresso tendo sido laçado em 1455, em seguida à invenção da tipografia. Em 8 de abril de 1546, o Concílio de Trento emitiu um decreto que expressava seu desejo por uma nova revisão. Os acadêmicos foram morosos no empreendimento, até que um pontífice de vontade férrea, Sixtus V., ultimou o trabalho e até tomou parte pessoalmente em sua realização. A revisão foi publicada em 1590. Uma diferente foi lançada sob os auspícios do papa Clemente VIII em 1592 [Desta versão o padre Antônio Pereira de Figueiredo serviu-se para vertê-la em português e é a que acompanha sua Bíblia bilíngue presente nesta compilação; edições eletrônicas semelhantes estão sendo publicadas na www., e poderão ser consultadas, vide: Biblia Sacra juxta Vulgatam Clementinam, e outras versões antigas listadas no Sacred Bible.org] Era uma melhora na edição Sixtina, sem todavia deixá-la obsoleta. Ambas as edições ainda permanecem em uso. O texto Clementino do Antigo Testamento da Vulgata, com as várias leituras do códice Amiatinus, foi editado por Heyse e Tischendorf; e do Novo Testamento da Vulgata de acordo com o códice Amiatinus por Tischendorf é que uma grande parte da linguagem técnica usada em teologia é derivada. Por exemplo, sacramento, justificação, e santificação são simplesmente as formas vernáculas de sacramentum, justificatio, e sanctificatio, que ocorrem na Vulgata. [A Vulgata original teve uma revisão recente feita pelo Vaticano denominada Nova Vulgata]

 

3. Versões cópticas do N. T. — Elas aparecem principalmente em dois dialetos, Menfítico e Tebaico. A versão Menfítica deveria datar do fim do segundo século. É fiel em sua maior parte, e conserva o melhor texto corrente entre os pais de Alexandria, livre das corrupções que prevaleceram no segundo século. Acredita-se que a versão Tebaica tenha vindo posteriormente, e é menos fiel ao original.

 

4. A versão Etíope da Bíblia foi feita nalgum tempo que medeia o quarto e o sexto séculos A. D. É o mais antigo documento, como também a base de toda a literatura Etíope. Seus tradutores não eram homens instruídos, nem inteiramente familiarizados com o grego, mas a interpretação é fiel e preservou peculiaridades. Algumas porções do Antigo Testamento não foram traduzidas diretamente do hebraico, mas da versão grega, e é portanto valiosa ajuda em determinar o texto da Septuaginta.

 

5. A versão Gótica foi feita na última metade do quarto século por Ulfilas, bispo dos Góticos Ocidentais. Traduziu a Bíblia inteira exceto os livros de Samuel e Reis, que o bispo omitiu, porque pensou que seria perigoso colocá-los, com seu espírito bélico e oposição pela idolatria, nas mãos dos góticos. Nesta versão existe a maior parte do N. T., mas pouco do V. T. A tradução é fiel e hábil.

 

6. As versões Arábicas existentes são antigas, e de nenhuma importância crítica.

 


III Versões Inglesas

 

1. Primeiras versões inglesas. — Nos tempos anglo-saxônicos porções da Escritura, especialmente os Salmos, os dez mandamentos, e porções dos evangelhos, foram traduzidos na língua vernácula. Depois do idioma ter sido modificado pela conquista normanda, várias porções da Escritura, especialmente os evangelhos, foram vertidos à linguagem da nação. Mas nenhum esforço adicional foi feito para traduzir a Bíblia toda.

 

2. Bíblia de Wycliffe e Purvey. — Desta Bíblia há duas versões: a primeira apareceu entre 1382 e 1383, e a segunda em 1388. A primeira era robusta e concisa, mas numa linguagem dura, seu autor principal foi Wycliffe; a segunda, mais refinada, proveio principalmente de Purvey, porque Wycliffe, que havia nascido em 1324, morreu em 31 de dezembro de 1384. A versão mais conhecida é a de Purvey. Podemos notar a diferença nas duas traduções comparando-as por  exemplo na passagem de Gen. 1. 1 [Obs. as passagens citadas estão num dialeto inglês de difícil tradução, por isso foram omitidas]. Ambas versões foram feitas da Vulgata Latina. De qualquer forma, a versão de Wycliffe foi a primeira interpretação das Escrituras no inglês moderno, e ajudaram moldar a linguagem; também exerceu grande influência na vida nacional; mas só circulou em cópias manuscritas, sendo impressa só em 1848.

 

3. A Bíblia de William Tyndale. — Mais ou menos em 1526 apareceu uma tradução estrangeira do N. T. vertida do original grego pelo reformador William Tyndale, que havia partido da Inglaterra, sua terra natal, para escapar à perseguição. Foi publicada em Worms, e provavelmente originou-se duma edição grega de Erasmo de 1519, embora a edição de 1522 tenha sido consultada. Tyndale traduziu-a diretamente do grego, usando a versão alemã de Lutero do N. T. e a Vulgata como ajuda. Seu trabalho gerou grande oposição dos principais dignitários da igreja então dominante, entretanto muitas pessoas comuns receberam-na alegremente. O livro era pronunciadamente cheio de erros hediondos, e foi queimado na cruz paulina. Em 1530, e novamente em 1534, ele publicou uma tradução do Pentateuco, e em 1531 do livro de Jonas. Eles foram feitos diretamente do original hebreu, usando como auxílio a versão Luterana e a Vulgata. Em 1534 uma nova edição do seu N. T. foi editado em Antuérpia. Há evidências que ele traduziu outras porções do V. T. além dessas já mencionadas, provavelmente até o final das Crônicas com vários livros proféticos; mas ele não viveu para publicá-los. Foi preso em Antuérpia no 23º ou 24º dia do mês de maio de 1535, onde tinha se estabelecido permanentemente, e em 6 de outubro de 1536, foi primeiramente estrangulado e depois queimado como um herético. Mas seu trabalho permaneceu. Fixou o padrão inglês de tradução da Bíblia, e sua dicção e estilo ainda vive na versão inglesa e emprestam-lhe seu encanto literário e seu caráter.

4. Bíblia de Coverdale. — Esta obra foi publicada em 1535, sem nenhuma menção ao nome do impressor  e ao local onde foi editada. Provavelmente essa honra coube a Zurique, mas pode ter sido Frankfurt ou Colônia. Foi a primeira Bíblia inglesa completa emitida pela imprensa. O N. T. e a maior parte do V. T. são praticamente os mesmos de Tyndale. Só a porção de Job até Malaquias foi traduzida independentemente por Miles Coverdale, e ele não usou o hebraico original, mas uma Bíblia sueca impressa em alemão em Zurique em 1527-29. Ele descreve o livro como “uma tradução autônoma do alemão e latim para o Inglês”. A versão de Coverdale dos Salmos, praticamente inalterado, é ainda usada pela Igreja Anglicana em seu Livro de Oração Comum.

 

5. Bíblia de  Mateus. — Acredita-se que Thomas Matthew tenha sido só o pseudônimo de John Rogers, sucessor de Tyndale como capelão dos negociantes ingleses em Antuérpia, e primeiro mártir na perseguição sob Mary Tudor. Em 1537 ele imprimiu uma edição da Bíblia, talvez em Antuérpia. Contém as traduções de Tyndale em sua última forma. Para os livros não traduzidos por Tyndale, tirou o texto da versão de Coverdale. Fez anotações arrojadas, era ainda a primeira Bíblia licenciada por autoridade pública.

 

6. Bíblia do Taverneiro. — Foi publicada no ano 1539, e destinava-se confrontar a influência da Bíblia de Mateus, e especialmente da sua ousadia nas notas explanatórias.

 

7. A Grande Bíblia; também denominada Bíblia de Cranmer. — Foi-lhe dado este prenome por causa do seu tamanho, suas páginas impressas mediam 13.1/4 por 7.1/2 polegadas, e o segundo nome adveio do fato de Cranmer haver-lhe escrito a introdução. Foi um empreendimento de Coverdale por sugestão de Cromwell, tinha como objetivo principal a revisão do texto da Bíblia de Mateus, e apareceu em 1539-41. Calorosamente recebida, teve sete edições logo esgotadas.

 

8. A Bíblia de Genebra. — Esta revisão foi feita por três exilados, Whittingham, Gilby, e Sampson, que se refugiaram em Genebra durante a perseguição de Mary Tudor. Era uma revisão de Tyndale, cotejando-a com a Grande Bíblia. Da ocorrência da palavra calções no final do sétimo versículo em Gen. 3 [em Figueiredo cintas], onde  subsequentemente na Versão Autorizada está escrito aventais, ela é às vezes chamada a Bíblia de Calções. O N. T. apareceu em 1557, e a Bíblia inteira em 1560. Estas duas edições foram as primeiras traduções inglesas que se utilizaram  da divisão em versículos. Os tradutores aproveitaram-se da ajuda fornecida pelos melhores acadêmicos bíblicos da época, e ela é propriamente a mais erudita das primeiras versões inglesas. Era um volume in quarto, um pequeno manual. Foi bem recebida entre as pessoas comuns, especialmente essas com tendências puritanas, e por setenta e cinco anos foi a Bíblia usual. Era provida de notas com bons e úteis comentários ao longo de linhas práticas, expositivas e doutrinais, e foi a primeira Bíblia impressa na Escócia.

 

9. A Bíblia dos Bispos. — A popularidade da Bíblia de Genebra não era aceitável aos bispos, e em 1568 editaram a sua própria. Utilizaram-se da divisão dos capítulos em versículos que existia na versão de Genebra. Em 1571 o Sínodo pronunciou-se a seu favor, ordenando que enviassem cópias dela para todas as igrejas. Era baseada principalmente na Grande Bíblia, entretanto utilizou-se de algumas variações da versão de Genebra.

 

10. A Bíblia de Rheirns e Douay. — Esta é a versão católica romana das Escrituras em inglês. Foi feita da Vulgata, e o N. T. foi publicado em Rheims em 1582, o V. T. em Douay em 1609-10. Contém um comentário altamente controverso. Sua linguagem calcada num estilo mais latino que inglês tornou de uso corrente muitas palavras originadas do latim, e não poucas encontram-se na Versão Autorizada, tal como impenitente; propiciação, remissão.

 

11. A Versão Autorizada. — A proposta para se fazer esta versão veio, aparentemente, num impulso momentâneo ao Dr. Reinolds, ou Reynolds, presidente do Colégio Corpus Christi de Oxford, durante uma discussão entre os Anglicanos e Puritanos na Hampton Cort Conference, nos dias 14, 16, e 18 de janeiro de 1604. O rei Tiago I (King James), cujo interesse pela teologia é bem conhecido, agradou-se pela proposta, e em 10 de fevereiro de 1604, mandou, entre outras coisas, “que se fizesse uma tradução da Bíblia inteira, tão fiel quanto possível ao hebreu original e ao grego; e que se iniciasse a impressão, sem qualquer notas marginais, e para ser usada somente em todas as igrejas da Inglaterra por ocasião do culto divino.” O rei designou cinquenta e quatro tradutores, mas só quarenta e sete tomaram parte no trabalho. Foram formadas seis companhias, duas das quais encontravam-se em Westminster, duas em Oxford, e duas em Cambridge. O trabalho foi editado em 1611, com uma efusiva dedicação ao rei Tiago. Não era uma nova tradução, mas uma revisão acadêmica de uma boa versão. Cativou a todos cristãos de língua inglesa, e é a tradução atualmente de uso comum.

 

12. A Versão Revisada. — Tornou-se necessária uma revisão da Versão Autorizada porque no curso de mais de dois séculos e meio novos manuscritos e cuidadosos estudos de textos corrompidos foram descobertos no Testamento grego que tinha sido usado para a versão inglesa, e um texto superior tinha surgido. Os estudos acadêmicos do grego e do hebraico também haviam feito grandes progressos durante esse período. Em fevereiro de 1870 a Comissão da Província de Canterbury idealizou não uma nova tradução, mas uma revisão nova da versão consagrada. Duas companhias foram formadas para o propósito, uma para cada Testamento; a do V. T. consistiu em vinte e sete membros e a do N. T. no princípio também era de vinte e sete membros, mas na maior parte do tempo de vinte e quatro; dois terços dos quais pertenciam à igreja Anglicana. Duas companhias de acadêmicos da América cooperaram, quatorze para o V. T. e treze para o N. T., representando as diferentes igrejas protestantes. O trabalho começou no dia 22 de junho de 1870. O Novo Testamento levou dez anos e meio, e foi publicado em maio de 1881. A revisão do V. T. começou em 30 de junho de 1870, e se completou em quatorze anos, a 20 de junho de 1884. A Versão Revisada Americana é a Versão Revisada de 1881 e 1884 recentemente editada, o N. T. no ano de 1900, e o V. T. em 1901. A edição Americana incorpora no texto as leituras e interpretações preferidas pelos dois comitês Americanos, adiciona referências para passagens paralelas e ilustrativas, fornece um título coerente para indicar os temas na página, remove os números dos versículos da margem para o texto, substitui o nome Jeová para Senhor e Deus, onde quer que seja encontrado no original, e aumenta o número de mudanças feitas por causa do eufemismo. A Revisada é inferior à Versão Autorizada em felicidade de expressão, suas sentenças são menos aperfeiçoadas em seu ritmo e cadência; mas como um trabalho de ciência é uma grande melhoria à V. A., especialmente nas partes poéticas e proféticas do V. T. e nas epístolas do N. T. onde o verdadeiro significado ficou claro. A ortografia dos nomes próprios foi muito melhorada. — (Dicionário da Bíblia de John D. Davis©

 


 

ANEXO

 

A versão de Figueiredo em português  n 

 

O padre Antônio Pereira de Figueiredo, 1725-1797, da congregação do Oratório, deputado da real Mesa Censória, sócio da Academia Real das Ciências, um dos maiores latinistas de seu tempo, escritor elegante e primoroso, traduziu a Bíblia da Vulgata Clementina, saindo à luz o Novo Testamento em 1778, em seis volumes. O Antigo Testamento veio seguidamente em 17 volumes, entre 1783 e 1790. A edição de 1819 em sete volumes é considerada o padrão, havendo sido retocada na tradução e notas. É o texto autorizado pela Igreja Romana. Em 1821, a Sociedade Bíblica Britânica publicou o texto de Figueiredo em um só volume. Na edição de 1828 suprimiram-se os livros apócrifos, e um exemplar enviado em 1842 pela alfândega de Angra do Heroísmo, Açores, ao governo português, foi examinado pelo arcebispo D. Francisco de S. Luís, posteriormente cardeal Saraiva, que deu parecer favorável ao livro.

 


[1] O texto em anexo nesse artigo inexiste nos originais do Dicionário da Bíblia de J. D. Davis, mas encontra-se incluso na versão brasileira traduzida pelo Rev. J. R. Carvalho Braga, transcrevemo-lo da 6º edição da Casa Publicadora Batista (1978). Rua Silva Vale, 781. Rio de Janeiro. Fone: (021) 2104-0044 atual JUERP.