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Apocalipse


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Revelação [um desvendar]. É derivado do latim revelatio, desvendando; consequentemente revelar, expor à vista, e, metaforicamente, desvendar à mente uma verdade anteriormente desconhecida. Gr. Apokalypsis; Apocalipse no vernáculo.

No V. T. o substantivo revelação não é encontrado; mas o verbo revelar é utilizado no sentido de desvendar segredos (e.g. Pv 11.13) é então a revelação divina do seu devenir ao homem (e.g. Dt 29.29; Is 22.14; Dn 2.19, 22, 28; Am 3.7). Em o N. T. essa palavra é utilizada para expressar a revelação dada por Deus ou pelo Cristo ou pelo Espírito de Verdade relativamente às coisas divinas anteriormente desconhecidas (e.g. Rm 16.25; 1 Co 14.26; 2 Co 12.1; Gl 1.12; Ap 1.1) ou de deveres expressamente requeridos (Gl 2.2), e também para a manifestação ou aparição de pessoas ou fatos anteriormente velados (e.g. Rm 2.5; 1 Pe 1.13). Em teologia revelação significa a comunicação, por Deus, da verdade ao homem, e é normalmente aplicada às comunicações que foram obtidas por agentes sobrenaturais. (Vide: Sobrenatural)


A Revelação de S. João, o Divino, é o último livro do N. T., também chamado pelos gregos, o Apocalipse. Foi-lhe dado esse nome porque, como declaram suas palavras de abertura, é um descobrimento do futuro, e, portanto, preeminentemente uma revelação. Seu autor descreve-o como uma comunicação relativamente às “coisas que devem brevemente acontecer,” que Deus deu a Jesus Cristo, e que o Cristo enviou-as por meio do seu anjo a seu servo João, para serem comunicadas à Igreja (Ap 1.1-3). O trabalho é endereçado às sete igrejas da província romana da Ásia: Éfeso Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia (4, 11), o número sete foi selecionado provavelmente porque, como número sagrado, significa integralidade,  perfeição, indicando assim que o livro foi realmente dirigido à igreja inteira. O autor denomina-se, como à maneira dos profetas hebreus (cp Is 1.1; Jl 1.1, Am 1.1, etc.), simplesmente João (Apoc. 1.1, 4, 9; 22.8), e relata que as visões do livro foram por ele recebidas quando achava-se preso na ilha de Patmos “por causa da palavra de Deus, e pelo testemunho de Jesus” (1.9). Patmos está além da costa sudoeste da Ásia Menor, e João havia sido banido pra lá porque ele era cristão; apontando um período de perseguição pelo governo romano. A visão de abertura era do Cristo exaltado, que é representado num retrato simbólico como ficando no meio de sete candelabros dourados que representam as sete igrejas (10-20). Cristo dá ao vidente as mensagens para as sete igrejas, e depois da qual segue uma sucessão de outras visões. A revelação parece ter sido dada no dia do Senhor (10), o qual entendemos indubitavelmente ser o primeiro dia da semana. As visões descritas são de caráter altamente simbólico. Muitas linguagens figuradas foram tomadas dos profetas do V. T., especialmente de Daniel e Ezequiel, e o significado não pode ser entendido como constante referência a eles.


Examinando o livro mais acuradamente vemos que depois da introdução (1.1-3) e da saudação (4-8), ele consiste de sete divisões principais, estendendo-se até 22.7, depois das quais o livro encerra-se com um epílogo (8-21). Estas divisões constituem de fato sete visões, ou série de visões, que normalmente são subdivididos em sete partes. Cada série abre com uma visão, que apresenta sumariamente a ideia da série, e que então é seguido, na maioria das vezes, por uma representação correspondente de seus elementos. Estas visões provavelmente não devem ser entendidas como representando acontecimentos históricos sucessivos na ordem do tempo, mas como retratos simbólicos de certas verdades religiosas ou princípios que deveriam ser compreendidos pela igreja. Seu conteúdo tem por objetivo confortar a igreja e adverti-la quanto aos conflitos da época preparando-a para o segundo advento do seu Senhor (1.7,8; 22.7,10, 17,20). As sete séries de visões, que a análise do livro nos mostra, são as seguintes:


1. A visão do Cristo glorificado em meio à sua igreja, seguido por sete mensagens às sete igrejas da Ásia (1.9 a 3.22). Aqui o pensamento principal era a instrução, advertindo e encorajando a igreja em sua condição presente.


 2. A visão de Deus presidindo aos destinos do universo e sendo adorado por toda criação, e do glorificado redentor e Cordeiro de Deus, que segura em sua mão o livro selado dos decretos divinos (4 e 5), seguido pelo quebrar dos selos em sete visões, nas quais se revelam os propósitos divinos do advento do Cristo até a consumação do último julgamento (6.1 a 8.1). Entre o sexto e o sétimo selo é introduzido um episódio que mostra a segurança do povo de Deus no julgamento que acontece ao mundo (7).


 3. A visão das trombetas (8.2 a 11.19). Abre com a visão de um anjo oferecendo as orações dos santos a Deus (8.2-6). Então cada trombeta é seguida por uma visão de destruição do mundo pecaminoso, concluindo novamente com o último julgamento. Entre a sexta e a sétima trombeta é introduzido outra vez um episódio descritivo da preservação testemunhada à igreja (10.1 a 11.14). Aqui a ideia principal parece ser que, em resposta às orações dos santos para com Deus reivindicando sua verdade, são-lhes mostradas as desolações que acontecem ao mundo pecaminoso entre as quais eles devem dar seu testemunho.


4. A visão da igreja sob a figura de uma mulher, dando à luz o Cristo, contra quem o dragão, ou Satanás, empreende guerra (12), seguida pelas visões das bestas que Satã usará como seus agentes (13), da igreja militante (14.1-5), e dos avançados estágios das conquistas do Cristo (6-20). A isto pode-se chamar a visão do conflito.


5. A visão dos pequenos frascos, ou tigelas, contendo as últimas pragas, ou julgamentos de Deus (15 e 16). A visão de abertura (15) retrata o triunfo dos santos, enquanto as sete tigelas representam o julgamento septiforme de Deus num mundo mau (16).


6. A visão da cidade rameira, Babilônia (17), seguida pela vitória do Cristo sobre ela, e sobre seus inimigos a ela associados, acabando uma vez mais no último julgamento (18.1 a 20.15). Entre a sexta e a sétima cena deste triunfo é introduzido um episódio (20.1-10), que provavelmente descreve a completa segurança e libertação espiritual que o Cristo reserva a seu povo ao longo de todo o período da prolongada batalha. Alguns acadêmicos, no entanto, colocam a divisão entre a sexta e a sétima série de visões em em 19.11.


7. A visão da igreja ideal, a noiva do Cristo, ou nova Jerusalém (21.1-8), seguida por uma descrição de sua glória (21.9 a 22.7).


Estudantes, críticos e devotos estão de acordo em que o livro da Revelação ou Apocalipse como está  tem unidade, e uma unidade que facilmente é reconhecida. A unidade estrutural é aparente em sua estrutura com sete grupos de normalmente sete episódios e numa semelhança geral gramatical e linguística. O autor do livro do Apocalipse era um cristão judeu, com uma nobre perspectiva universalista, completamente familiarizado com o conteúdo do Velho Testamento e com suas formas literárias, capaz de moldar profecias características de Daniel e Ezequiel em sua própria visão do conflito e glória final de igreja (Veja Daniel e Ezequiel). Seu nome era João (1.1, 4, 9; 22.8.). Que ele era João, o apóstolo, tem sido a tradição constante da igreja de tempos antigos; claramente declarado por Justino Mártir na metade do segundo século e por Melito e Ireneu na mesma época. É confirmado também por uma comparação do livro com o Evangelho e a Primeira Epístola de João, todos os três livros têm em comum muitas ideias doutrinais e grandes peculiaridades idiomáticas. O Apocalipse, realmente, é menos suavemente escrito que o Evangelho ou as Epístolas; mas isto é em parte por causa de seu assunto, que levou o autor a empregar expressões incomuns em suas descrições, e em parte porque tinha de repetir e combinar o linguajar dos antigos profetas. Alguns acadêmicos em tempos antigos e modernos, (como Dionísio de Alexandria A. D. 247-265) realmente contestam que a Revelação e o Evangelho não poderiam ter sido escritos pela mesma pessoa. Mas o exame, como também a tradição firme da igreja, crê inverossímil e desnecessária essa hipótese de dupla autoria.


Foi feito um esforço para traçar a fonte do Apocalipse na mitologia babilônica, especialmente os capítulos 12 e 13 e passagens relacionadas. Até aqui a investigação: 1. Ignorou o significado claro destes capítulos, que sem dúvida retratam a igreja sendo oposta pelo poder espiritual de Satanás (Apoc. 12.3-17; ver o versículo 9), pelos poderes do mundo unido e servil a Satanás (13.1-10), e com prodígios, como Elias, fazendo descer fogo do céu sobre a terra à vista dos homens, vestindo roupa de peles de ovelha e talvez personificando o Cordeiro (13.11-77). 2. Omitiu o simbolismo inerente à natureza, que fala independentemente aos poetas de todas as raças. 3. Supôs detalhes nos mitos babilônicos onde não há nenhuma evidência arqueológica. 4. Não conseguiu ver que para o autor a fonte suficiente e imediata da inspiração era a Escritura hebraica como contida em Gen. 3 e Dn. 7. (Veja Daniel), enquanto a imagem e pensamento de Jer 51.1-12 emprestam uma funda coloração adicional para o cap. 17.


Relativamente à data do Apocalipse, foram firmadas duas opiniões principais. Uma designa-o para o primeiro ou segundo ano imediatamente antes da queda de Jerusalém em A. D. 70, isto é, depois da  inesperada perseguição dos cristãos por Nero, e supõe-se que os terrores da queda de Jerusalém, combinado com os da perseguição Neriana forneceram muitas das figuras lúridas usadas pelo vidente. A maioria dos críticos racionalistas também aceitam relativamente esta data, e não veem absolutamente no Apocalipse uma profecia inspirada, mas só um vaticínio humano sugerido pelas calamidades da época. Mas a opinião tradicional, pela voz de Ireneu, em A. D. 175-200, já designava o Apocalipse para o final do reinado de Domiciano, A. D. 96. É forte o testemunho de que João teria sido preso em Patmos por Domiciano, e retornado a Éfeso depois da morte do tirano. É improvável que tão específica e unânime tradição deva ser equivocada. As condições das sete igrejas igualmente acomodam-se melhor com a segunda data do que com a primeira; o estilo não exige que o Apocalipse preceda o Evangelho, nem a maioria das razões para a data anterior satisfazem aos que acreditam na inspiração do livro.


As interpretações do Apocalipse têm sido inumeráveis. Quatro classes gerais de interpretação podem, todavia, ser destacadas. (1) A interpretação pretérita, que considera o trabalho como uma descrição do que acontecia quando o livro foi escrito. Esta visão destrói seu caráter profético, e deve certamente ser rejeitada. (2) A interpretação futurista, que vê nas predições do livro eventos que ainda devam ser cumpridos. A dificuldade desta visão está em que toda profecia, e esta aqui em particular, está intimamente ligada à situação da igreja e do profeta que a recebeu. (3) A interpretação histórico-profética, que vê nas visões uma descrição sucessiva dos acontecimentos da história cristã. A dificuldade com esta interpretação é que poucos expositores concordam em seus detalhes, e negligenciam o caráter contemporâneo das sete séries de visões. (4) A interpretação simbólica espiritual, que considera as visões como retratos figurativos de certas verdades ou princípios, destinadas a encontrar seu lugar na história da igreja; a contemplação dessas representações pictóricas tem por fim encorajar e confortar os seguidores do Cristo até que ele venha novamente em glória para o julgamento. Ainda que nenhum expositor possa sentir-se seguro que entendeu o significado de todo o conteúdo do Apocalipse, o último método de interpretação tem a vantagem de dirigir a atenção dos leitores a certas verdades de grande valia sob a forma de alegorias, tornando, deste modo, bastante útil o mais misterioso livro da Escritura. G. T. P. (Suplementou). — (Dicionário da Bíblia de John D. Davis©


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