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EPM — Estudo e Prática da Mediunidade

PROGRAMA I — MÓDULO DE ESTUDO Nº I
FUNDAMENTAÇÃO ESPÍRITA — INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA MEDIUNIDADE

 

Roteiro 6

 

Fenômenos de emancipação da alma

 

Objetivos específicos: Conceituar fenômeno de emancipação da alma. Diferenciar fenômeno anímico de fenômeno mediúnico.


 

SUBSÍDIOS

 

A Doutrina Espírita nos esclarece a respeito da existência de dois tipos de fenômenos psíquicos, patrimônio do ser humano: os anímicos (de anima, alma) produzidos pelo próprio Espírito encarnado, e os mediúnicos (de médium, meio) — decorrentes da intervenção de Espíritos desencarnados — que utilizam um veículo ou instrumento humano (médium) para se manifestar. (22) Em O Livro dos Espíritos, Kardec denomina os fenômenos anímicos de fenômenos de emancipação da alma, porque, nessa condição o Espírito se revela mais livre, ou independente, do jugo do corpo físico.

 Nos fenômenos anímicos, o Espírito encarnado desprende-se momentaneamente do seu corpo físico e entra em comunicação com outros Espíritos, desencarnados ou encarnados. Durante esse desprendimento — que pode ser mais ou menos duradouro — o Espírito encarnado desprendido ou desdobrado tem consciência das ocorrências desenvolvidas tanto no Plano físico quanto no Plano espiritual podendo participar ativamente delas. (19)

Os fenômenos anímicos podem ser facilmente confundidos com os de natureza mediúnica, por trazerem em si as impressões do medianeiro que os veicula. É oportuno lembrar que, em todo e qualquer fenômeno mediúnico a presença do fator anímico é inevitável, pelo fato de o comunicante espiritual valer-se dos elementos biológicos, psicológicos e culturais do médium, para elaborar e exteriorizar a sua mensagem […]. Espera-se que a interferência anímica não ultrapasse as linhas do admissível, digamos, do suportável […]. (24)

No estudo dos fenômenos psíquicos é importante saber distinguir fenômeno anímico de mistificação mediúnica. A mistificação mediúnica é intencional. Significa dizer que não há um Espírito comunicante, o pseudo-médium simula, conscientemente, uma comunicação mediúnica. Essa condição representa um dos mais sérios entraves encontrados na prática mediúnica, capaz de preocupar e mesmo perturbar a muitos seareiros. (23) Pode haver, no entanto, um Espírito comunicante, mas, devido a inexperiência ou despreparo do médium, este pode interferir na comunicação com suas ideias, mais do que é desejável.

A preponderância do fenômeno anímico está bem caracterizado em duas situações específicas:

a) No início da prática mediúnica, quando os canais mediúnicos estão sendo desobstruídos pelos Espíritos. Nessa situação, o médium principiante encontra barreiras físicas paulatinamente superáveis ao longo do tempo.

b) Nas desarmonias psíquico-emocionais geradas por erros ou crimes que a pessoa cometeu no passado, em outras existências. A pessoa imobiliza grande coeficiente de forças do seu mundo emotivo, em torno de uma experiência in- feliz, a ponto de gerar cristalização mental não superada pelo choque biológico do renascimento, em novo corpo físico. (24) Fixando-se nessas lembranças, passa a comportar-se qual se estivesse ainda no passado, que teima em ressuscitar, agindo como se fosse um espírito que se estivesse comunicando, (26) num estado que simula o sonambulismo. (25)

Devemos, portanto, diferenciar fenômeno anímico propriamente dito, que é a manifestação de uma faculdade psíquica natural e que faz parte das conquistas evolutivas do ser humano, de mistificação do fenômeno mediúnico, de forma intencional, ou da evidenciação de um desequilíbrio psíquico originado em ações cometidas no passado, pela pessoa em questão. Os fenômenos anímicos autênticos, verdadeiros, entendidos como reveladores de uma atividade extracorpórea são variáveis. Estudaremos, a seguir, os mais conhecidos.

 

1. O SONHO

 

O sonho é a lembrança do que o Espírito viu durante o sono. […] (3) A liberdade do Espírito é julgada pelos sonhos.

O Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos. (1)

Quando o corpo repousa, acredita-o, tem o Espírito mais faculdades do que no estado de vigília. Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro. Adquire maior potencialidade e pode pôr-se em comunicação com os demais Espíritos, quer deste mundo, quer do outro. (1) Estando entorpecido o corpo, o Espírito trata de quebrar seus grilhões e de investigar no passado ou no futuro. (2) O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. (2)

Os Espíritos adiantados, quando dormem, vão para junto dos que lhes são iguais ou superiores. Com estes viajam, conversam e se instruem. Trabalham mesmo em obras que se lhes deparam concluídas, quando volvem, morrendo na Terra, ao mundo espiritual. O sonho deles traduz-se por lembranças agradáveis e felizes. (2)

Os Espíritos mais imperfeitos vão, enquanto dormem, ou a mundos inferiores à Terra, onde os chamam velhas afeições, ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. (2) Os seus sonhos são pesados, confusos, atormentados, muitos deles sob a forma de pesadelos.

 

2. SONAMBULISMO

 

O sonambulismo é um estado de independência do Espírito, mais completo do que no sonho, estado em que maior amplitude adquirem suas faculdades. A alma tem então percepções de que não dispõe no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito. No sonambulismo, o Espírito está na posse plena de si mesmo […]. Quando se produzem os fatos do sonambulismo, é que o Espírito, preocupado com uma coisa ou outra, se aplica a uma ação qualquer, para cuja prática necessita de utilizar-se do corpo. Serve-se então deste, como se serve de uma mesa ou de outro objeto material no fenômeno das manifestações físicas, ou mesmo como se utiliza da mão do médium nas comunicações escritas. (9)

Os fenômenos de sonambulismo natural se produzem espontaneamente e independem de qualquer causa exterior conhecida. Mas, em certas pessoas dotadas de especial organização, podem ser provocadas artificialmente, pela ação do agente magnético [hipnose]. O estado que se designa pelo nome de sonambulismo magnético apenas difere do sonambulismo natural em que um é provocado, enquanto o outro é espontâneo. (10) É importante não confundir sonambulismo, natural ou provocado, com mediunidade sonambúlica. No primeiro caso ocorre um fenômeno anímico de emancipação da alma, o Espírito encarnado obra por si mesmo. No segundo caso, os médiuns em estado de sonambulismo, são assistidos por Espíritos. (18)

 

3. TELEPATIA

 

A telepatia ou transmissão do pensamento é um faculdade anímica que ocorre entre as pessoas, independentemente de estarem dormindo ou acordadas. O Espírito comunica-se telepaticamente porque ele não se acha encerrado no corpo como numa caixa; irradia para todos os lados. Segue-se que pode comunicar-se com outros Espíritos, mesmo em estado de vigília, sem bem que mais dificilmente. (4) A telepatia, linguagem inarticulada do pensamento, é uma forma de comunicação que dá causa a que duas pessoas se vejam e compreendem sem precisarem dos sinais ostensivos da linguagem. Poder-se-ia dizer que falam entre si a linguagem dos Espíritos. (5)

 

4. LETARGIA E CATALEPSIA

 

A letargia e a catalepsia derivam do mesmo princípio, que é a perda temporária da sensibilidade e do movimento, por uma causa fisiológica ainda inexplicada. Diferem uma da outra em que, na letargia, a suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte; na catalepsia, fica localizada, podendo atingir uma parte mais ou menos extensa do corpo, de sorte a permitir que a inteligência se manifeste livremente, o que a torna inconfundível com a morte. A letargia é sempre natural; a catalepsia é por vezes magnética. (8)

Alguém que estiver sob um estado letárgico, ou mesmo cataléptico, não consegue ver ou ouvir pelos órgãos físicos. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar-se. (6) Na letargia, o corpo não está morto, porquanto há funções que continuam a executar-se. Sua vitalidade se encontra em estado latente, como na crisálida, porém não aniquilada. Ora, enquanto o corpo vive, o Espírito se lhe acha ligado […]. Desde que o homem aparentemente morto, volve à vida, é que não era completa a morte. (7) A letargia, (*) segundo a Medicina é uma sonolência patológica ou estupor; torpor mental. A letargia pode manifestar-se também no estado de coma profundo, situação em que a pessoa não reage a qualquer estímulo (luminoso, verbal, de dor, de calor etc.). Nota-se que até alguns movimentos involuntários foram comprometidos. A catalepsia (*) é entendida como uma doença cerebral intermitente, caracterizada pela suspensão mais ou menos completa da sensibilidade externa e dos movimentos voluntários, e principalmente, por uma extrema rigidez dos músculos.

 

(*) Dicionário Médico BLAKISTON. Edição Andrei. São Paulo.

 

5. ÊXTASE

 

O êxtase é o estado em que a independência da alma, com relação ao corpo, se manifesta de modo mais sensível e se torna, de certa forma, palpável. No sonho e no sonambulismo, o Espírito anda em giro pelos mundos terrestres. No êxtase, penetra em um mundo desconhecido, o dos Espíritos etéreos, com os quais entra em comunicação, sem que, todavia, lhe seja lícito ultrapassar certos limites, porque, se os transpusesse totalmente, se partiriam os laços que o prendem ao corpo. Cerca-o então resplendente e desusado fulgor, inebriam-no harmonias que na Terra se desconhecem, indefinível bem-estar o invade […]. No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somente, pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente por um fio […]. (12)

 

6. BICORPOREIDADE

 

Na bicorporeidade, o Espírito afasta-se do corpo, tornando-se visível e tangível. Enquanto isso, o corpo permanece adormecido, vivendo a vida orgânica. (14)

Isolado do corpo, o Espírito de um vivo [encarnado] pode, como o de um morto, mostrar-se com todas as aparências da realidade. Demais […] pode adquirir momentânea tangibilidade. Este fenômeno, conhecido pelo nome de bicorporeidade, foi que deu azo às histórias de homens duplos, isto é, de indivíduos cuja aparição simultânea em dois lugares diferentes se chegou a comprovar. (15) Antônio de Pádua, padre português canonizado pela igreja católica, e Eurípedes Barsanulfo, espírita mineiro de Sacramento, são dois grandes exemplos de Espíritos que, quando encarnados, possuíam, em grau de elevado desenvolvimento, esse tipo de fenômeno anímico.

 

7. DUPLA VISTA OU SEGUNDA VISTA

 

É […] a faculdade graças à qual quem a possui vê, ouve, e sente além dos limites dos sentidos humanos. Percebe o que existe até onde estende a alma a sua ação. Vê, por assim dizer, através da vista ordinária e como por uma espécie de miragem. No momento em que o fenômeno da segunda vista se produz, o estado físico do indivíduo se acha sensivelmente modificado. O olhar apresenta alguma coisa de vago. Ele olha sem ver. Toda a sua fisionomia reflete uma como exaltação. Nota-se que os órgãos visuais se conservam alheios ao fenômeno, pelo fato de a visão persistir malgrado à oclusão dos olhos. (13)

 

8. TRANSFIGURAÇÃO

 

O fenômeno da transfiguração consiste na mudança do aspecto de um corpo vivo. (16) A transfiguração, em casos, pode originar-se de uma simples contração muscular, capaz de dar à fisionomia expressão muito diferente da habitual, ao ponto de tornar quase irreconhecível a pessoa. (17) A mais bela transfiguração de que temos notícia foi, sem dúvida, a de Jesus, no Tabor, ocorrida em presença dos apóstolos Pedro, Tiago e João. (Mateus, 17:1-9) Segundo o texto evangélico, no momento da transfiguração, o rosto de Jesus resplandeceu como o sol, suas vestes se tornaram brancas como a neve. (Mateus, 17:1-9) (21)

Concluindo, os fenômenos anímicos são tão importantes quanto os mediúnicos, uma vez que ambos fazem parte da estrutura psíquica da espécie humana. Se é certo afirmar que todo fenômeno mediúnico tem o seu componente anímico, é igualmente correto dizer que os fenômenos anímicos são secundados por ação mediúnica. É difícil, para não dizer impossível, estabelecer limites onde começa um e onde termina o outro. Devemos estar atentos para não dificultar ou, até mesmo inviabilizar a prática mediúnica, temerosos das mistificações ou do conteúdo anímico das mensagens mediúnicas. O médium bem-intencionado aprende, com estudo e perseverança, a interferir menos nas comunicações que veicula.

A tese animista é respeitável. Partiu de investigadores conscienciosos e sinceros, e nasceu para coibir os prováveis abusos da imaginação; entretanto, vem sendo usada cruelmente pela maioria dos nossos colaboradores encarnados, que fazem dela um órgão inquisitorial, quando deveriam aproveitá-la como elemento educativo, na ação fraterna. Milhares de companheiros fogem trabalho, amedrontados, recuam ante os percalços as iniciação mediúnica, porque o animismo se converteu em Cérbero. Afirmações sérias e edificantes, tornadas em opressivo sistema, impedem a passagem dos candidatos ao serviço pela gradação natural do aprendizado e da aplicação. Reclama-se deles precisão absoluta, olvidando-se lições elementares da natureza. Recolhidos ao castelo teórico, inúmeros amigos nossos, em se reunindo para o elevado serviço de intercâmbio com a nossa esfera, não aceitam comumente os servidores, que hão de crescer e a aperfeiçoar-se com o tempo e com o esforço. (27)

Os fenômenos mediúnicos em suas múltiplas apresentações, no início dos grupos humanos, mostraram sua origem, praticamente, como resultado de ampliações anímicas. Os pensamentos, os sonhos, as lucubrações em face dos acontecimentos externos foram propiciando verdadeiras expansões de consciência, como que procurando sintonizar com o mundo espiritual. […] Com a evolução da humanidade, os fenômenos mediúnicos se foram alargando e tornando-se mais consistentes; isto é, os fenômenos mediúnicos, bastante misturados com as fontes anímicas do mais sensíveis, se foram tornando mais independentes e cada vez mais apurados […]. Assim, o médium, com o tempo, saberá perfeitamente avaliar, em suas mais íntimas sensações, as oscilações entre os fenômenos anímicos e os mediúnicos […]. (21)

 


 

GLOSSÁRIO

Cérbero — Guarda severo, intratável (expressão familiar); Cerberus: cão de três cabeças que, segundo a mitologia latina, guardava a porta do inferno. W

Estupor — Estado de consciência ou de sensibilidade parcial, acompanhada por pronunciada diminuição dos movimentos espontâneos. Mutismo sem perda da percepção sensorial. W

Histeria — Neurose resultante da repressão de conflitos emocionais da consciência. Caracteriza-se por um comportamento imaturo, dependente, impulsivo e que visa a chamar a atenção ou a provocar piedade, ou estima, impelido por uma ânsia extrema de afeto. W

Mórbido — Patológico. Diz respeito às doenças ou ao que é anormal, insalubre. W

Torpor — Anestesia local ou parcial com dormência; deficiência da sensação. W

 


Referências Bibliográficas:

1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ríbeiro. 84. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. Questão 401, p. 221.

2. Idem, ibidem - Questão 402, p. 222.

3. Idem, ibidem - Questão 402, p. 223.

4. Idem, ibidem - Questão 420, p. 229.

5. Idem, ibidem - Questão 421, p. 230.

6. Idem, ibidem - Questão 422, p. 230.

7. Idem, ibidem - Questão 423, p. 230.

8. Idem, ibidem - Questão 424, p. 231.

9. Idem, ibidem - Questão 425, p. 231.

10. Idem, ibidem - Questão 455, p. 239.

11. Idem, ibidem - p. 239. [Obs. Não existe nesse Roteiro a referência nº 11]

12. Idem, ibidem - p. 243.

13. Idem, ibidem - p. 244.

14. Idem - O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 73. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Segunda Parte. Cap. 7. Itens 114 a 118, p. 152-156.

15. Idem, ibidem - Item 119, p. 156-157.

16. Idem, ibidem - Item 122, p. 159-160.

17. Idem, ibidem - Item 123, p. 160-161.

18. Idem - Cap. XVI, item 190, p. 234.

19. Idem - Cap. XIX, item 223, perguntas 1 a 5, p. 268-270.

20. PERALVA, Martins. Mediunidade e Evolução. 8. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2000,. Cap. 13 (Escolhos da mediunidade), item: Animismo, p. 55-56.

21. SANTOS, Jorge Andréa. Lastro Espiritual nos Fatos Científicos. Petrópolis, [RJ]: Espiritualista F. V. Lorenz, p. 125 (Forças anímicas e mediúnicas).

22. SCHUTEL, Cairbar. Médiuns e Mediunidade. 8. ed. Matão, SP: O Clarim, p. 103 (Fenômenos anímicos e espíritas).

23. TEIXEIRA, José Raul. Correnteza de Luz. Pelo Espírito Camilo. Niterói, RJ: FRÁTER, 1991, p. 99 (Mediunidade e animismo).

24. Idem, ibidem - p. 100.

25. XAVIER, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 31. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Cap. 22, (Emersão no passado), p. 246-247.

26. Idem, ibidem - p. 247.

27. Idem - No Mundo Maior. Pelo Espírito André Luiz. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. Cap. (Mediunidade), p. 150.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.