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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Programa II — Filosofia e Ciência Espíritas


Roteiro 24


Comunicabilidade dos Espíritos

Objetivos:

» Identificar os principais critérios da prática mediúnica na casa espírita.

» Analisar alguns estudos científicos relacionados à prática mediúnica.



IDEIAS PRINCIPAIS

  • As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos. Introdução VI.

  • A manifestação dos Espíritos se dá […] sob a influência de certas pessoas, dotadas, para isso, de um poder especial, as quais se designam pelo nome de médiuns, isto é, meios ou intermediários entre os Espíritos e os homens [encarnados]. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos. Introdução IV

  • As vivências tidas como mediúnicas são descritas na maioria das civilizações e têm um grande impacto sobre a sociedade. Apesar de ser um tema pouco estudado atualmente, já foi objeto de intensas investigações por alguns dos fundadores da moderna psicologia e psiquiatria. […] Esses pesquisadores chegaram a três conclusões distintas. Janet W e Freud W associaram mediunidade com psicopatologia e a uma origem exclusiva no inconsciente pessoal. Jung W e James W aceitavam a possibilidade de um caráter não patológico e uma origem no inconsciente pessoal, mas sem excluírem em definitivo a real atuação de um espírito desencarnado. Por fim, Myers W associou a mediunidade a um desenvolvimento superior da personalidade e tendo como causa um misto entre o inconsciente, a telepatia e ação de espíritos desencarnados. Alexander Almeida e Francisco Neto Lotufo: A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental . Tese de doutorado em psiquiatria. Universidade de São Paulo, 2004.



 

SUBSÍDIOS


A comunicabilidade dos desencarnados com os encarnados ocorre como consequência natural da influência exercida por eles. Segundo a Doutrina Espírita, essa comunicação acontece, basicamente, em duas situações: a) quando a pessoa está dormindo, sendo que as lembranças das atividades realizadas no mundo espiritual, inclusive o encontro com Espíritos, encarnados e desencarnados, são registradas na forma de sonho; b) por meio de um médium, indivíduo que serve de intermediário entre os dois Planos da vida, sendo capaz de transmitir mensagens dos desencarnados. Ambas as possibilidades são bem conhecidas no meio espírita, mas a prática mediúnica é mais corriqueira nas casas espíritas.

Assim, é possível identificar alguns princípios que governam as leis de intercâmbio espiritual, que não devem ser ignoradas pelo estudioso espírita.

  • […] As comunicações dos Espíritos com os homens são ocultas ou ostensivas. As ocultas ocorrem pela influência boa ou má que exercem sobre nós, à nossa revelia. Cabe ao nosso julgamento discernir as boas das más inspirações […]. (1)

  • […] As comunicações ostensivas se dão por meio da escrita, da palavra ou de outras manifestações materiais, na maioria das vezes pelos médiuns que lhes servem de instrumento […]. (1)

  • A manifestação dos Espíritos ocorre “[…] sob a influência de certas pessoas, dotadas, para isso, de um poder especial, as quais se designam pelo nome de médiuns, isto é, meios ou intermediários entre os Espíritos e os homens [encarnados]” […] (2)

  • Há […] médiuns de todas as idades, de ambos os sexos e em todos os graus de desenvolvimento intelectual. Essa faculdade, entretanto, se desenvolve pelo exercício. (2)

  • Os Espíritos se manifestam espontaneamente ou por evocação […]. (1)

  • […] Podemos evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros, como os das personagens mais ilustres, seja qual for a época em que tenham vivido; os de nossos parentes, de nossos amigos ou inimigos, e deles obter, por meio de comunicações escritas ou verbais, conselhos, informações sobre a sua situação no além-túmulo, seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações que lhes sejam permitidas fazer-nos […]. (1)

  • Os Espíritos são atraídos em razão de sua simpatia pela natureza moral do meio que os evoca […]. (1)

  • […] Os Espíritos Superiores se comprazem nas reuniões sérias, onde predominam o amor do bem e o desejo sincero de instruir-se e melhorar-se. A presença deles afasta os Espíritos inferiores que, ao contrário, encontram livre acesso e podem agir com toda liberdade entre pessoas frívolas ou guiadas apenas pela curiosidade, e por toda parte onde encontrem maus instintos. Longe de se obterem bons conselhos, ou informações úteis, deles só se devem esperar futilidades, mentiras, gracejos de mau gosto, ou mistificações, pois muitas vezes tomam nomes venerados, a fim de melhor induzirem ao erro […]. (1)

No século XIX, à época de Kardec, e no início do século XX era comum a manifestação dos Espíritos por evocação. Passado esse período, com a sistematização da prática mediúnica e melhor conhecimento dos postulados espíritas, praticamente não há mais evocação de Espíritos nas reuniões mediúnicas, permitindo-se que os Espíritos se manifestem de forma espontânea, segundo planificação elaborada e desenvolvida pelos orientadores espirituais.

Importa destacar também que, atualmente, a mediunidade predominante é a de efeitos inteligentes, em vez de efeitos físicos, usual no passado. Da mesma forma, com o estabelecimento do intercâmbio mediúnico de forma regular nas casas espíritas, sobretudo com as orientações fornecidas pelo Espírito André Luiz, a mediunidade é exercitada de forma simples e sem misticismos, entendida como mais um instrumento de melhoria espiritual disponibilizado por Deus.

1. CONSIDERAÇÕES CIENTÍFICAS RELACIONADAS À COMUNICABILIDADE DOS ESPÍRITOS


Há poucos estudos científicos atuais sobre a mediunidade. Contudo, o assunto já começa a despertar atenção, sobretudo na área da psiquiatria, onde ainda é estudado em comum com as psicopatias relacionadas às dissociações mentais, mesmo que o médium se revele pessoa equilibrada.

Em psiquiatria, dissociação mental significa “ruptura dos processos normais do raciocínio com relação à consciência […].” (3) Entretanto, a alteração do estado de consciência pelo transe mediúnico, ou pela percepção extrassensorial de Espíritos ou da realidade extrafísica é entendida, ainda, como anomalia psíquica. Esta visão distorcida, de a mediunidade ser sinônimo de perturbação mental, está se modificando com o surgimento de pesquisas e estudos científicos sérios, publicados em revistas especializadas.

No âmbito deste Roteiro destacamos dois estudos sérios, excelentes publicações realizadas por psiquiatras brasileiros: um é a tese de doutorado do médico Alexander Moreira de Almeida, denominada Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas, apresentada no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo-USP. Outro é um artigo de revisão, intitulado A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental, de autoria conjunta deste psiquiatra (Alexander Almeida) e do professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, Francisco Latufo Neto.

Em sua tese de doutorado Alexander destaca os objetivos do seu trabalho: “Definir o perfil sócio demográfico e a saúde mental em médiuns espíritas, bem como a fenomenologia e o histórico de suas experiências mediúnicas.” (4) Assim, foram analisados 115 médiuns, selecionados aleatoriamente nos centros espíritas em São Paulo, capital. Os resultados da pesquisa podem ser assim resumidos: (4)

  • 76,5% dos médiuns eram mulheres, espíritas em média há 16 anos, sendo que entre estas a maioria possuía formação escolar superior. A mediunidade predominante foi a psicofonia (entre 72%), seguida da vidência (63%).

  • Os médiuns diferiam das características usualmente encontradas nos portadores de transtornos de identidade dissociativa ou distúrbios classificáveis como desordens mentais.

  • Os principais sinais do surgimento da mediunidade foram relatados como sintomas isolados, ocorridos na infância ou no início da vida adulta, marcados por quadros de oscilação do humor admitidos, sobretudo, durante o curso de formação de médiuns (cursos de estudo da mediunidade).

  • Os pródromos da mediunidade de psicofonia foram identificados como: sensação de presença de alguém junto ao médium, sintomas físicos diversos, sentimentos e sensações estranhas, reconhecidos como não sendo de outra pessoa, mas manifestados nos médiuns. Posteriormente, numa fase mais adiantada da percepção, os médiuns estudados revelaram sentir uma pressão na garganta, e, espontaneamente, começaram a verbalizar um discurso não planejado.

  • A intuição foi caracterizada pelo surgimento repentino de pensamentos ou imagens na mente não reconhecidos como próprios.

  • A vidência e a audiência se caracterizaram, respectivamente, pela percepção de imagens ou vozes no espaço psíquico interno (na mente), ou externamente, com o surgimento abrupto de imagens e vozes.

  • A psicofonia só acontecia, em geral, no centro espírita, mas as demais modalidades mediúnicas ocorriam tanto dentro como fora dos centros espíritas.

A conclusão do trabalho revela que os


[…] médiuns estudados evidenciaram alto nível sócio educacional, baixa prevalência de transtornos psiquiátricos menores e razoável adequação social. A mediunidade provavelmente se constitui numa vivência diferente do transtorno de identidade dissociativa. A maioria teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e estas, atualmente, se caracterizam por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia. (4)


Esse tipo de estudo representa um avanço científico, pois, além de permitir que a medicina e ciências relacionadas conheçam melhor a mediunidade e os médiuns, evita a ocorrência de diagnósticos precipitados e equivocados, uma vez que, ao contrário do que se pensava no passado, sabe-se hoje que as boas práticas religiosas ou espirituais são favorecedoras da saúde mental. Dessa forma, podemos dizer que está ocorrendo uma união entre a Religião e a Ciência, “[…] as duas alavancas da inteligência humana […]” (5), nas palavras de Allan Kardec, que complementa, assim, o seu pensamento:


Uma revela as leis do mundo material e a outra, as do mundo moral. Ambas, porém, tendo o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. […] A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias provém apenas de uma observação defeituosa e de um excesso de exclusivismo de um lado e de outro. Daí um conflito que deu origem à incredulidade e à intolerância. (5)


Entendemos, porém, “[…] que ainda há um longo caminho a ser percorrido, a fim de que se estabeleça a definitiva união entre as duas partes. Entretanto, vemos com redobrado otimismo as inúmeras publicações científicas relacionadas à temática saúde e religião, ou saúde e espiritualidade, surgidas em diferentes partes do mundo, e desenvolvidas por competentes autoridades, nas academias e institutos de ciência espalhados no planeta.” (6)


Jeff Levin , professor e epidemiologista estadunidense, é uma referência no assunto, não só pela importância c confiabilidade de suas pesquisas, mas pela repercussão obtida nas comunidades leigas e científicas, a ponto de seus trabalhos científicos serem objeto de matéria de capa de revistas de abrangência mundial (Time, Reader’s Digest e Macclean’s), ou transformados em destacados artigos, publicados em periódicos de renome como Newsweck, USA Today e The New York Times. Em seu livro Deus, fé e saúde , publicado entre nós pela editora Pensamento-Cultrix, ele explora com segurança e sensibilidade a conexão espiritualidade-cura. (6)


O outro artigo científico (A mediunidade vista par alguns pioneiras da área mental) apresenta relatos históricos sobre o conceito de dissociação mental relacionadas à comunicabilidade dos Espíritos.

Os autores, Almeida e Lotufo, assim se expressam: (7)


As vivências tidas como mediúnicas são descritas na maioria das civilizações e têm um grande impacto sobre a sociedade. Apesar de ser um tema pouco estudado atualmente, já foi objeto de intensas investigações por alguns dos fundadores da moderna psicologia e psiquiatria. Foi revisado o material produzido por Janet, W James, W Myers, W Freud W e Jung W a respeito da mediunidade, com ênfase em dois aspectos: suas causas e relações com psicopatologia. Esses pesquisadores chegaram a três conclusões distintas. Janet e Freud associaram mediunidade com psicopatologia e a uma origem exclusiva no inconsciente pessoal. Jung e James aceitavam a possibilidade de um caráter não-patológico e uma origem no inconsciente pessoal, mas sem excluírem em definitivo a real atuação de um Espírito desencarnado. Por fim, Myers associou a mediunidade a um desenvolvimento superior da personalidade e tendo como causa um misto entre o inconsciente, a telepatia e ação de Espíritos desencarnados. Como conclusão, é apontada a necessidade de se conhecer os estudos já realizados para dar continuidade nessas investigações em busca de um paradigma realmente científico sobre a mediunidade. (7)


Os estudiosos do passado, citados no referido artigo, trouxeram contribuições médicas e/ou psicológicas referentes à comunicabilidade dos Espíritos, ainda que tal possibilidade tenha sido rotulada de doença ou psicopatia. Entretanto, mesmo considerando este enfoque, o da enfermidade mental, parece-nos proveitoso destacar algumas ideias dos pesquisadores citados no artigo de Almeida e Lotufo para que se tenha uma visão abrangente do desenvolvimento do assunto, desde o século XIX até o atual.

Pierre Janet (1859-1947) W, em trabalho apresentado na Universidade de Sorbonne, na França, fornece informações sobre as dissociações mentais ou do inconsciente.


Janet, que teve formação em psicologia e psiquiatria, apesar de pouco conhecido atualmente, é amplamente reconhecido como o fundador das modernas visões sobre dissociação. […] Seu trabalho mais importante intitula-se L’Automatisme Psychologique” - Google Books, uma tese defendida em 1889 na Sorbonne (Janet, 1889). […] É de se notar a relevância que a investigação de diversos tipos de experiências mediúnicas teve nesses esforços iniciais de se entender o inconsciente e a dissociação. O estudo da mediunidade e do espiritismo ocupa quase todo o capítulo destinado ao estudo das “desagregações psicológicas”, pois buscou perscrutá-las a partir de sujeitos que as apresentavam em seu roais alto grau (médiuns). Apesar de considerar o Espiritismo “uma das mais curiosas superstições de nossa época”, afirmou ser este o precursor da psicologia experimental, assim como a astronomia e a química começaram através da astrologia e da alquimia. Janet defendia a importância de se estudar a mediunidade, pois nos permite “observações psicológicas muito interessantes e refinadas que são longe de inúteis para os observadores de nossos dias.” (8)


O equívoco de Janet foi generalizar como “desagregação psíquica”, ou doenças mentais, casos de alucinações (por drogas, doenças ou obsessões espirituais), de sonambulismo, de outras manifestações mediúnicas e subjugações espirituais. Para ele o “[…] médium seria quase sempre um nevropata, quando não francamente um histérico, e a faculdade mediúnica dependeria de um estado mórbido particular que poderia originar a histeria e a alienação.” (8)


William James (1842-1910) W “além de ter sido um eminente filósofo pragmático, fundou, na Universidade de Harvard, o primeiro laboratório americano de psicologia […]”. (9) É considerado um dos cinco psicólogos mais importantes de todos os tempos. (9) Como estudioso, não negava a comunicabilidade dos Espíritos, traçando diferença entre doença mental e manifestação mediúnica.


Entre as diversas áreas de investigação a que se dedicou está a religião (que resultou em seu famoso livro “As variedades da experiência religiosa” - Google Books ) e a então chamada psychical research (pesquisa psíquica). […] Defendeu um “empirismo radical”, em que um verdadeiro pesquisador, mesmo perante fenômenos considerados absurdos e inabordáveis, precisa enfrentá-los, pensá-los e correlacioná-los. […] A investigação da mediunidade recebeu especial desta que, tendo realizado, por mais de duas décadas, pesquisas com uma das mais renomadas médiuns do século XIX, Leonora Piper W (James,1886, p. 95; 1890, p. 102.). Em 1909, publicou um substancioso relato da suposta manifestação mediúnica de um falecido pesquisador psíquico (Richard Hodgson ) através da médium. […] Considerava a possessão mediúnica uma forma natural e especial de personalidade alternativa em pessoas muitas vezes sem nenhum outro sinal óbvio de problemas mentais. Também dizia que a predisposição para tais vivências não seria algo incomum […]. O autor asseverava que a investigação do transe mediúnico é uma tarefa árdua, pois seria um fenômeno excessivamente complexo em que muitos fatores concomitantes estariam envolvidos […]. Entre as possíveis explicações para os fenômenos mediúnicos estariam a fraude, a dissociação com uma tendência a personificar uma outra personalidade e a influência de um Espírito desencarnado […]. (9)


Frederic W. H. Myers (1843-1901) W não teve formação médica ou psicológica. Era professor de literatura clássica na Universidade de Cambridge, Reino Unido. Entretanto apresentou diferentes contribuiç8es à psicologia, sobretudo no que diz respeito ao estudo do inconsciente, por ele denominado de self subliminal. É considerado o primeiro autor a introduzir os trabalhos de Freud ao público britânico, em 1893. (9) A despeito de considerar que a maior parte das manifestações mediúnicas provinham do próprio médium, vindas do seu self subliminal, admitiu que certos conhecimentos revelados pelo sensitivo extrapolavam as ideias que defendia.

Em 1882 Myers afirmava que o “Self consciente” (ou o Self supraliminal, como ele preferia) não representava toda a mente. Existiria “uma consciência mais abrangente, mais profunda, cujo potencial permanece em sua maior parte latente”. Utilizou a palavra subliminal para designar “tudo que ocorre sob o limiar ordinário, fora da consciência habitual”. Haveria continuamente toda uma vida psíquica com pensamentos, sensações e emoções que “raramente emerge na corrente supraliminal da consciência, com a qual nós habitualmente nos identificarmos.” […] Os conteúdos subliminais que atingem a consciência supraliminal frequentemente são qualitativamente diferentes de qualquer elemento de nossa vida supraliminal, inclusive faculdades das quais não há conhecimento prévio. Tais habilidades envolveriam uma grande ampliação de nossas faculdades mentais, incluindo as inspirações dos gênios, telepatia, clarividência e mesmo a comunicação com os mortos. (10)

Sigmund Freud (1856-1939) W, médico austríaco, considerado o pai da psicanálise, desenvolveu especial interesse pela feitiçaria, possessões e fenômenos afins. (11) A interpretação que deu para tais fenômenos reflete a influência das ideias de Jean-Martin Charcot (1825-1893) W, cientista e psiquiatra francês, que podem ser assim resumidas:


“Diversos autores, e dentre eles Charcot é o principal, identificaram, como sabemos, manifestações de histeria nos retratos de possessão e êxtase […]. Os estados de possessão correspondem às nossas neuroses, para cuja explicação mais uma vez recorremos aos poderes psíquicos. Aos nossos olhos, os demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos instintuais que foram repudiados e reprimidos. Nós simplesmente eliminamos a projeção dessas entidades mentais para o mundo externo, projeção esta que a Idade Média fazia; em vez disso, encaramo-las como tendo surgido na vida interna do paciente, onde têm sua morada.” (11)


Para Freud as manifestações mediúnicas eram produto da mente dos chamados médiuns. Não haveria manifestação de Espíritos desencarnados, propriamente ditos.

Carl Gustav Jung (1875-1961) W revelou interesse pela mediunidade em sua dissertação, publicada em 1902, para obtenção do diploma de medicina, assim intitulada: Sobre a Psicologia e a Patologia dos Fenômenos Chamados Ocultos [“On the Psychology and Pathology of So-Called Occult Phenomena”]. “Para realizá-la, Jung investigou entre 1899 e 1900, S. W, uma prima de 15 anos que era tida como médium, mas que ele concluiu tratar-se de uma histérica, um caso de “sonambulismo com carga hereditária”.” (12)


Seguindo a linha de Janet (com quem Jung estudou por um semestre em 1902), considerou que o suposto espírito comunicante era, na realidade, uma personalidade subconsciente que se manifestaria através de uma série de automatismos como a escrita automática (que atualmente chamaríamos de psicografia) e as alucinações. […] Haveria uma desagregação de complexos psíquicos que se manifestariam como individualidades, cuja existência depende de sugestões do ambiente e de certa predisposição do médium. A individualização da subconsciência teria enorme influência sugestiva sobre a formação de novos e posteriores automatismos. Como afirma o autor: “É desse modo que podemos considerar, em nosso caso, o surgimento das personalidades inconscientes.” (13)


O estudo realizado pelos cientistas do passado, cujas repercussões são francamente visíveis no presente, revela um fator primordial: “[…] o tema mediunidade já recebeu séria atenção de alguns dos principais autores da área mental, que não chegaram a uma posição comum. Podemos, didaticamente, separar suas conclusões em três grupos:” (14)

  • Janet e Freud: as experiências mediúnicas são patologias e fruto exclusivo da atividade do inconsciente do médium; não há a participação de qualquer faculdade paranormal.

  • James e Jung: a mediunidade não é necessariamente uma patologia, teria origem no inconsciente do médium, mas não excluíram a possibilidade de uma origem paranormal, inclusive com a efetiva comunicação de um Espírito desencarnado. Reforçam a necessidade de maiores estudos.

  • Myers: a mediunidade pode ser evidência de um desenvolvimento superior da personalidade, e suas manifestações teriam origem em um misto de fontes (inconsciente pessoal, telepatia e comunicação de Espíritos desencarnados).

A despeito de a comunicabilidade dos Espíritos desencarnados ocorrer desde a mais remota Antiguidade e fazer parte de relatos de diferentes fontes bibliográficas, filosófica, científica, religiosa e laica, deve-se oferecer um tempo à Ciência para que ocorra a compreensão de que a mediunidade e a comunicabilidade dos Espíritos sejam vistas como mecanismos naturais das leis da vida.

Não resta dúvida que a situação atual é bem melhor do que a do passado, sobretudo quando lembramos o sofrimento a que inúmeros médiuns foram submetidos, perecendo nas fogueiras inquisitoriais ou mantidos em manicômios. A psiquiatria moderna já conta com a disciplina “estudos de problemas espirituais e religiosos”, que procura diferenciar patologia mental, propriamente dita, das chamadas faculdades de percepção extrassensorial. A obsessão espiritual, inclusive passou recentemente a ser oficialmente aceita pela Medicina como possessão e estado de transe, que é um item do CID-Código Internacional de DoençasW

O CID 10, item F.44.3 define o estado de transe e possessão como: perda transitória da identidade com manutenção de consciência. Assim, o transe mediúnico já não é considerado doença mental, propriamente dita; Neste aspecto, a alucinação é sintoma que pode surgir tanto nos transtornos mentais como na interferência de um obsessor.

Os médiuns do presente, pelo menos em termos da Medicina, já não são classificados como endemoniados, feiticeiros ou bruxos. Tal fato, por si só, já representa um avanço, fazendo-nos vislumbrar um futuro mais feliz em que os desencarnados possam comunicar-se livremente com os encarnados, tal como acontece hoje o intercâmbio entre indivíduos de diferentes partes do Planeta, no mesmo plano de vida, via internet.


ORIENTAÇÕES AO MONITOR


1. Com base nas orientações prestadas na reunião anterior, apresentar à turma os participantes dos três grupos que irão desenvolver o estudo do Roteiro, utilizando a técnica de Seminário de Grupos Diferentes, assim especificada:

  • Primeiro Grupo: apresenta, em até dez minutos, um esquema dos conteúdos desenvolvidos no Roteiro, fazendo breves explicações.

  • Segundo Grupo: destaca as ideias gerais das duas pesquisas realizadas pelos psiquiatras brasileiros, citados no Roteiro, cujos conteúdos completos foram baixados da internet (veja referências quatro e oito). Utiliza-se 20 minutos para o relato sintético dos dois artigos (10 minutos para cada expositor).

  • Terceiro Grupo: correlaciona as ideias dos expositores dos dois grupos anteriores com o pensamento espírita, citado no Roteiro e/ou pesquisado em outras fontes. O tempo destinado à realização desta atividade é de 15 minutos.

2. Concluída a apresentação dos grupos, promover um amplo debate do assunto, envolvendo todos os integrantes da reunião.

3. Apresentar, ao final, um julgamento e uma síntese do que foi estudado e discutido.



REFERÊNCIAS

1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Introdução VI, p. 40.

2. Idem: Introdução IV, p. 33.

3. THOMAS, Clayton (coordenador). Dicionário médico enciclopédico taber. [Taber’s Cyclopedic Medical Dictionary - Google Books by Clarence Wilbur Taber] W . Tradução Fernando Gomes do Nascimento. 1ª ed. São Paulo: Manole, 2000, p. 520.

4. ALMEIDA, Alexander M. Fenomenologia das experiências mediúnicas, perfil e psicopatologia de médiuns espíritas. Tese apresentada ao Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Ciências. São Paulo: USP, 2004, p. X. Este artigo encontra-se disponível no site: http://www.hoje.org.br/site/arq/artigos/20050318-es-draa-teseMedCompl.pdf

5. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Capítulo 1, item 8, p. 60.

6. MOURA, Marta Antunes. Saúde e espiritualidade. Reformador. Rio de Janeiro: FEB, fevereiro de 2010. Ano 128. N.º 2.171, p. 26.

7. ALMEIDA, Alexander M. e LOTUFO, Francisco Neto. A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental. (Mediumship Seen by Some Pioneers of Mental Health). Rev. Psiq. Clin. 31 (3); 132-141, 2004, p. 132. Este artigo encontra-se disponível no site: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol31/n3/pdf/132.pdf

8. Idem: p. 133-134.

9. Idem: p. 135.

10. Idem: P. 136.

11. Idem: p. 137.

12. Idem: p. 137-138.

13. Idem: p. 138.

14. Idem: p. 139.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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