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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Programa II — Filosofia e Ciência Espíritas

 

Roteiro 2

 

Filosofia e Ciência Espíritas

Objetivo:

» Esclarecer o significado, a abrangência e o objeto da filosofia e da ciência espíritas.


 

IDEIAS PRINCIPAIS

  • O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. […] O Espiritismo é uma Ciência que trata da origem e do destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corpóreo. Allan Kardec. O que é o Espiritismo. Preâmbulo.

 


 

SUBSÍDIOS

1. CONCEITOS BÁSICOS

 

1.1 Filosofia

 

Filosofia (do grego, philos = amigo ou amante e sophia = conhecimento ou saber) indica amor pela sabedoria, condição experimentada apenas pelo ser humano. Acredita-se que a palavra foi cunhada pelo filósofo grego Pitágoras (580? 572? a. C. - 500 ou 490 a.C.). Para Platão (428 ou 427 a.C. - 347 a.C.), outro filósofo grego, a filosofia se resume na capacidade que tem o homem de utilizar o saber em benefício próprio. Argumentava, então:

 

De nada serviria possuir a capacidade de transformar pedras em ouro a quem não soubesse utilizar o ouro, de nada serviria uma ciência que tornasse imortal a quem não soubesse utilizar a imortalidade, e assim por diante. É necessária, portanto, uma ciência em que coincidam fazer e saber utilizar o que é feito, e essa ciência é a Filosofia. (1)

 

Em consequência, a Filosofia propicia: 1) a aquisição de conhecimento válido e aplicável a determinada situação ou contexto; 2) o uso do conhecimento em benefício do progresso humano. Para tanto, os estudos filosóficos devem conduzir â reflexão que amplie a visão do mundo, a sabedoria de vida, a concepção racional do universo. Daí a Filosofia ser entendida como “[…] o processo único que ilumina a ignorância e a transforma em relativa sabedoria […].” (2)

 

1.2 Filósofo

 

É alguém que ama o conhecimento; que gosta de estudar, de saber, movido pela consciência da ignorância inerente à condição humana. Pode-se dizer também que é alguém que investiga princípios, fundamentos ou a essência da realidade circundante.

 

1.3 Metafísica

 

Também conhecida como a ciência primeira, é o alicerce da Filosofia, pois estuda os princípios de todas as ciências. Tendo como base a teoria geral do conhecimento (gnosiologia), a metafísica classifica o conhecimento em:

a) Deus (teologia);

b) ser (ontologia);

c) universo (cosmologia);

d) homem (antropologia)

e) valores (axiologia).

A Gnosiologia procura entender a origem, a natureza, o valor e os limites do conhecimento, em função do sujeito cognoscente, ou seja, daquele que conhece o objeto. Por outro lado, a validação do conhecimento é fornecida pela Epistemologia, que se refere ao estudo do conhecimento relativo ao campo de uma pesquisa, em cada ramo da Ciência.

No estudo sobre Deus surge a Teologia que, por definição, significa o “estudo, discurso ou pregação que trate de Deus ou das coisas divinas': Cada religião tem a sua teologia, de acordo com a interpretação dos seus mestres. Os dogmas, os cultos externos e rituais, presentes nas teologias, costumam restringir o conhecimento religioso. A Ontologia trata de questões relacionadas ao Espírito e à sua evolução. A Cosmologia estuda o mundo e o Universo. A Antropologia é o estudo sistemático dos conhecimentos que se têm a respeito do homem, do ponto de vista de raça, herança biológica, características culturais e étnicas. A Axiologia abrange as concepções sobre os valores, estética, ética e moral.

2. DIVISÃO DA FILOSOFIA

 

Quanto à natureza, o conhecimento filosófico pode ser espiritualista ou materialista. No primeiro caso, admite-se a existência de Deus, das potências universais, e da alma. No segundo, a filosofia materialista admite que o pensamento, a emoção e os sentimentos são reações físico-químicas do sistema nervoso. Sustenta que a existência da matéria é o único fato real porque, fundamentalmente, todas as coisas são compostas de matéria e todos os fenômenos são o resultado de interações materiais.

3. O CONHECIMENTO CIENTÍFICO

 

Ciência, do latim scientia, é o conhecimento que inclui, necessariamente, “[…] em qualquer forma ou medida, uma garantia da própria validade ou de grau máximo de certeza.” (3) Em sentido amplo, a Ciência contempla o conhecimento sistemático, teórico ou prático. É o conhecimento que

 

aspira a objetividade, investiga metodicamente os fatos e os fenômenos procurando suas estruturas universais e necessárias, colocando uns em relação com os outros, de modo que é possível buscar as leis gerais que regem o funcionamento desses fenômenos. Ciência é um sistema ordenado e coerente de conhecimentos que estabelecem relações causais, abertos a mudanças, sobre a natureza, a sociedade e o pensamento, a verdade dos quais é construída racionalmente e corrigida por novas elaborações precisadas no decorrer da prática social. Seu objetivo consiste em estudar detidamente os objetos mais experimentados e prever novos fatos. (4)

 

Em sentido restrito, Ciência é a forma de adquirir conhecimento pelo estudo racional e pela utilização do método científico. O método científico apoia-se na validade, e tem como princípios gerais:

a) Demonstração - provas ou evidências universais que nada têm a ver com opinião ou palpite. Segundo Platão, “as opiniões não terão grande valor enquanto alguém não conseguir atá-las com um raciocínio causal.” (3)

b) Descrição - diz-se da interpretação de um fato, acontecimento ou fenômeno. Para o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) a interpretação descritiva “consiste em conduzir os homens diante de fatos particulares e das suas ordens.” (5) Em geral, a descrição contém uma análise e uma síntese.

c) Corrigibilidade - também conhecida como Sistema de Autocorreção, indica que não existem verdades absolutas, mas relativas, capazes de ampliar os horizontes da Ciência, à medida que o homem adquire mais esclarecimentos.

Por este princípio,

 

admite-se a falibilidade do conhecimento humano, pois nenhum conhecimento é “infalível”, absoluto ou eterno. A ciência se autocorrige na medida em que enfrenta “obstáculos epistemológicos” (o paradigma científico existente num dado momento histórico já não é mais suficiente para explicar a realidade) e realiza a “ruptura epistemológica” (substituição de uma teoria científica pela outra); na medida em que descobre novos fatos e inventa novas formas ou instrumentos de investigação.” (4)

4. A CIÊNCIA ESPÍRITA

 

A Ciência Espírita, palavra cunhada por Allan Kardec, fundamenta-se nos aspectos filosóficos e científicos desenvolvidos pelo Espiritismo ou de Doutrina Espírita, transmitidos por uma plêiade de Espíritos Superiores, como esclarece o Codificador: (6)

 

Para coisas novas precisamos de palavras novas; assim o exige a clareza da linguagem, para evitarmos a confusão inerente ao sentido múltiplo dos mesmos termos. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm acepção bem definida […]. Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que acredite ter em si alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras espiritual, espiritualismo, empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e Espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, têm a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, reservando ao vocábulo espiritualismo a sua acepção própria. Diremos, pois, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas ou, se quiserem, os espiritistas.

 

Seguindo essa ordem de ideias, analisa Herculano Pires no livro Ciência espírita e suas implicações terapêuticas, de sua autoria: (7)

 

A Revelação Espiritual veio pelo Espírito da Verdade, mas a Ciência Espírita (revelação humana) foi obra de Kardec. Ele mesmo proclamou essa distinção e se entregou de corpo e alma ao trabalho científico, sacrificial e único de elaboração da Ciência Admirável, que Descartes percebeu por antecipação em seus famosos sonhos premonitórios. […] Graças à sua visão genial, o solitário da Rua dos Mártires W conseguiu despertar os maiores cientistas do tempo para a realidade dos fenômenos espíritas, hoje estrategicamente chamados paranormais. Fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas como entidade científica e não religiosa. Dedicou-se a pesquisas exaustivas e fundou a Revista Espírita para divulgação ampla e sistemática dos resultados dessas pesquisas. Sua coragem serviu de amparo e estímulo aos cientistas que, surpreendidos pela realidade dos fenômenos, fizeram os primeiros rasgos na cortina de trevas que cercava as mais imponentes instituições científicas. […] Kardec rompera definitivamente as barreiras dos pressupostos para firmar em bases lógicas e experimentais os princípios da Ciência Admirável dos sonhos de Descartes e das previsões de Francis Bacon. A metodologia científica, minuciosa e mesquinha, desdobrou-se no campo do paranormal e aprofundou-se na pesquisa do inteligível com audácia platônica.

 

As seguintes citações do Codificador indicam por que o Espiritismo pode ser considerado, ao mesmo tempo, filosofia e ciência:

 

1. O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem de tais relações. […] O Espiritismo é uma ciência que trata da origem e do destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corpóreo. (8)

2. O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele no-lo mostra não mais como coisa sobrenatural, mas, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da Natureza, como a fonte de uma multidão de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso mesmo, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. […] (9)

3. […] A ciência espírita compreende duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral, outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes. Aquele que observou apenas a primeira está na posição de quem só conhece a Física pelas experiências recreativas, sem haver penetrado o âmago da ciência. A verdadeira Doutrina Espírita está no ensino que os Espíritos deram, e os conhecimentos que esse ensino comporta são muito graves para serem adquiridos de outro modo que não seja por um estudo perseverante, feito no silêncio e no recolhimento; somente nessa condição se pode observar um número infinito de fatos e particularidades que escapam ao observador superficial e permitem firmar uma opinião. […] (10)

4. Seria formar ideia muito falsa do Espiritismo quem julgasse que ele haure suas forças na prática das manifestações materiais e que, impedindo-se tais manifestações, é possível minar-lhe a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso. […] (11)

 

A partir dessas colocações foi possível analisar os fatos espíritas sob o rigor da metodologia científica e dos princípios filosóficos. Foi como agiram inúmeros cientistas do passado — como William Crookes, apenas para citar o nome de um deles. Entretanto, o objeto da Ciência e do Espiritismo são distintos.

 

O Espiritismo entra nesse processo histórico dentro de uma característica sui generis, ou seja, enquanto a ciência propicia a revolução material, o Espiritismo deve propiciar a revolução moral. É que Espiritismo e Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge antes do tempo. (Kardec, 1975, p. 21) (12)

 

Um ponto que jamais deve ser esquecido pelos espíritas é o seguinte: Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba de onde vem, para onde vai e por que está na Terra: um chamamento aos verdadeiros princípios da lei de Deus e consolação pela fé e pela esperança. (13)

 

ORIENTAÇÕES AO MONITOR

 

1. Fazer uma apresentação dos conceitos de filosofia, filósofo, metafísica, ciência, indicando a divisão da filosofia e as principais características do conhecimento filosófico e científico.

2. Orientar a turma para, em seguida, realizar estas atividades:

  • Leitura silenciosa e individual do item quatro (A Ciência Espírita), deste Roteiro de Estudo.

  • Formação de quatro minigrupos para analisar as ideias de Allan Kardec (referências 08 a 11), que tratam do caráter filosófico e científico do Espiritismo.

  • Elaboração de resumo para ser apresentado em plenário.

3. Comentar a respeito dos relatos dos grupos, prestando esclarecimentos complementares, se necessário.

4. Apresentar uma síntese que esclareça o significado, a abrangência e o objeto da filosofia e ciência espíritas.

 

OBSERVAÇÃO: ao final da aula, pedir aos participantes que respondam, em casa, o questionário que consta do anexo do próximo Roteiro, o de número três, cujo tema é Revelação Religiosa.

 


REFERÊNCIAS

1. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia - Google Books. Tradução de Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 442.

2. MARCOS, Manoel Pelicas, S. A filosofia espírita e seus temas. 2. ed. São Paulo: FEESP, 1993, p. 17.

3. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Op. Cit., p. 136.

4. Análise da problemática geral do conhecimento. Disponível em: http://arquivos.unama.br

5. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Op. Cit., p. 138.

6. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2010. Introdução I, p. 23-24.

7. PIRES, Herculano. Ciência espírita e suas implicações terapêuticas. Item: O desenvolvimento científico. Disponível em: www.autoresespiritasclassicos.com

  ou http://www.autoresespiritasclassicos.com/Autores%20Espiritas%20Classicos%20%20Diversos/Herculano%20Pires/Nova%20pasta%20(8)/Herculano%20Pires%20%20-%20A%20Ci%C3%AAncia%20Esp%C3%ADrita.html [v. http://www.herculanopires.org.br/livros/cienciaespirita]

8. KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Preâmbulo, p. 11.

9. Idem - O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 1ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2008. Cap. 1, item 5, p. 59.

10. Idem - O Livro dos Espíritos. Op. Cit. Introdução XVII, p. 66.

11. Idem ibidem - Conclusão. Item VI, p. 631.

12. Ciência e Espiritismo. Disponível em: http://www.ceismael.com.br/artigo/ciencia-e-espiritismo.html

13. KARDEC, Allan. - O Evangelho segundo o Espiritismo. Op. Cit. Cap. 6, item 4, p. 151-152.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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