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EADE — Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita — Religião à luz do Espiritismo

TOMO II — ENSINOS E PARÁBOLAS DE JESUS — PARTE I
Módulo V — Aprendendo com fatos cotidianos

 

Roteiro 4

 

O centurião de Cafarnaum

 

Objetivo: Interpretar a passagem evangélica do centurião de Cafarnaum, à luz do entendimento espírita.


 

IDEIAS PRINCIPAIS

  • Identificamos na passagem evangélica, intitulada o centurião de Cafarnaum, valiosas lições que tratam, entre outras, de uma cura à distância, realizada por Jesus e também da importância da prática do bem, da solidariedade, da intercessão, da gratidão e da fé.

  • O centurião representa o exemplo de homem de bem que, por força das qualidades morais e da fé que possuía, conseguiu transformar adversários em amigos, os quais se solidarizaram com ele num momento em que buscou auxílio de Jesus em benefício de um servo doente.

  • O […] centurião compreendia perfeitamente aquilo que até hoje muitos ignoram, isto é, a maneira de Jesus agir através das milícias do céu. A analogia que ele estabeleceu […] entre seu comando e o comando de Jesus dirigindo os batalhões celestes, é das felizes para aclarar o modo de ação empregado pelo Redentor do mundo na obra de salvação. Vinícius (Pedro Camargo): Em torno do Mestre, item: As milícias do céu.

  • A cura operada à distância por Jesus nada teve de milagroso, considerando a natureza excepcional do seu Espírito. Sendo Ele o maior Missionário que baixou à Terra, não podia, para o bom exercício de sua missão, deixar de vir revestido de poderes e forças que o distinguissem dos demais homens. Cairbar Schutel: O espírito do Cristianismo. Cap. 53.

 


 

SUBSÍDIOS

 

1. Texto evangélico

 

E o servo de um certo centurião, a quem este muito estimava, estava doente e moribundo. E, quando ouviu falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse curar o seu servo. E, chegando eles junto de Jesus, rogaram-lhe muito, dizendo: É digno de que lhe concedas isso. Porque ama a nossa nação e ele mesmo nos edificou a sinagoga. E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa, enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; e, por isso, nem ainda me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o meu poder, e digo a este: vai; e ele vai; e a outro: vem; e ele vem; e ao meu servo: faze isto; e ele o faz. E, ouvindo isso, Jesus maravilhou-se dele e, voltando-se, disse à multidão que o seguia: Digo-vos que nem ainda em Israel tenho achado tanta fé. E, voltando para casa os que foram enviados, acharam são o servo enfermo. Lucas, 7:2-10.

 

Cafarnaum, aldeia situada na margem noroeste do mar da Galileia, significa “cidade de Naum” (do grego Kaphamaoum). É também identificada como “Tell Hum”, nome de uma colina, praticamente inexistente nos dias atuais devido às inúmeras escavações a que foi submetida ao longo dos tempos.

 

Consta que Jesus teria se estabelecido em Cafarnaum e feito ali seu lar no in(cio de seu ministério. Dali realizou suas primeiras pregações e fez muitas curas […]. Ali curou o escravo do centurião que havia construído a sinagoga. […] No século I a.C., quando suas casas foram construídas, Cafarnaum era evidentemente uma aldeia de pescadores e tinha uma população de não mais de mil pessoas. (1)

 

Essas informações históricas, associadas aos registros de Lucas, nos fazem situar, no tempo e no espaço, revelando que o centurião era uma pessoa de bem, mesmo sendo romano, povo conquistador da Galileia, considerado inimigo. Estimado na aldeia, respeitava a tradição religiosa dos conquistados, a ponto de erguer-lhes uma sinagoga, cujo construtor era um criado, judeu, a quem devotava amizade, retratado no texto como o doente que Jesus curou.

O texto de Lucas nos revela, além da cura à distância realizada por Jesus, importantes ensinamentos relacionados a outros personagens: exemplificação no bem, a força da solidariedade, os benefícios da gratidão, o valor da intercessão e o poder da fé.

 

2. Interpretação do texto evangélico

  • E o servo de um certo centurião, a quem este muito estimava, estava doente e moribundo. E, quando ouviu falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, rogando-lhe que viesse curar o seu servo. E, chegando eles junto de Jesus, rogaram-lhe muito, dizendo: É digno de que lhe concedas isso. Porque ama a nossa nação e ele mesmo nos edificou a sinagoga. (Lc 7:2-5)

A narrativa apresenta uma sequência de acontecimentos que podem ser considerados, no mínimo, inusitados. Primeiro porque o pedido de auxílio a Jesus veio de um centurião, indivíduo pertencente ao quadro do exército invasor. Segundo porque o beneficiado não era alguém social ou politicamente importante, mas um escravo. Terceiro pelo endosso, concedido pelos anciãos ao pedido do romano, que também destacaram as suas qualidades morais. Por último, evidencia-se a surpreendente fé do romano.

Na verdade, a principal mensagem do texto é mostrar a força do bem que marca as ações de todos os personagens envolvidos nessa história. Nesse sentido, é oportuno o conselho de Bezerra de Menezes:

 

Continuemos buscando Jesus em todos os irmãos da Terra, mas especialmente naqueles que sofrem problemas e dificuldades maiores que os nossos obstáculos, socorrendo e servindo e sempre mais felizes nos encontraremos sob as bênçãos dele, nosso Mestre e Senhor. (5)

 

O oficial romano considerado, a priori, inimigo, se revelou como pessoa de boa índole, respeitando as tradições culturais e religiosas dos habitantes da aldeia, subjugados ao domínio de César, conquistando-lhes a simpatia e a amizade. Esse romano deve ter sido, efetivamente, alguém especial que, não se valendo da posição política que ocupava e, sem fugir dos deveres inerentes ao cargo, soube cativar a comunidade de Cafarnaum pela construção de uma sinagoga.

O exemplo do centurião nos deve calar fundo, considerando a missão do Espiritismo na revivência da mensagem cristã.

 

Há […] um talento de luz acessível a todos. Brilha entre ricos e pobres, cultos e incultos. Aparece em toda parte. Salienta-se em todos os ângulos da luta. Destaca-se em todos os climas e sugere engrandecimento em todos os lugares. É o talento da oportunidade, sempre valioso e sempre o mesmo, na corrente viva e incessante das horas. É o desejo de doar um pensamento mais nobre ao círculo da maledicência, de fortalecer com o sorriso o ânimo abatido do companheiro desesperado, de alinhavar uma frase amiga que enterneça os maus a se sentirem menos duros e auxilie os bons a se revelarem sempre melhores, de prestar um serviço insignificante ao vizinho, plantando o pomar da gratidão e da amizade, de cultivar algum trato anônimo de solo, onde o arvoredo de amanhã fale sem palavras de nossas elevadas intenções. (6)

 

Os representantes dos judeus, por outro lado, revelaram possuir o nobre sentimento da gratidão, quando, ao se dirigirem a Jesus, passam por cima das diferenças religiosas, possivelmente existentes entres eles e o Cristo, e endossam o pedido do centurião, afirmando: “É digno de que lhe concedas isso. Porque ama a nossa nação e ele mesmo nos edificou a sinagoga.”

O benefício recebido do preposto de César encontrou eco no coração daqueles judeus.

 

Concluímos do exposto que o maior beneficio que recebemos, através duma graça que nos é concedida, não está propriamente no objeto alcançado, mas no reconhecimento que o fato pode despertar. A gratidão é o elo indissolúvel que une o beneficiário ao benfeitor. (3)

 

A forma de agir do representante de César e a dos judeus indica também que as pessoas de boa vontade conseguem, efetivamente, superar as divergências pessoais e culturais para, juntas, viverem em paz.

 

Não existem tarefas maiores ou menores. Todas são importantes em significação. Um homem será respeitado pelas leis que implanta, outro será admirado pelos feitos que realiza. […] A comunidade é um conjunto de serviço, gerando a riqueza da experiência. E não podemos esquecer que a harmonia dessa máquina viva depende de nós.

Quando pudermos distribuir o estímulo do nosso entendimento e de nossa colaboração com todos, respeitando a importância do nosso trabalho e a excelência do serviço dos outros, renovar-se-á a face da Terra, no rumo da felicidade perfeita. Para isso, porém, é necessário nos devotemos à assistência recíproca, com ardente amor fraterno… […] Seremos compreendidos na medida de nossa compreensão. Vejamos nosso próximo, no esforço que despende, e o próximo identificar-nos-á nas tarefas a que nos dedicamos.[…] O capital mais precioso da vida é o da boa vontade. Ponhamo-lo em movimento e a nossa existência estará enriquecida de bênçãos e alegrias, hoje e sempre, onde estivermos. (8)

 

Outra ideia perpassa pelos registros do evangelista, além da força do bem. Trata-se da intercessão em benefício de alguém: o centurião intercede pelo criado, os anciãos intercedem pelo centurião e Jesus intercede, junto a Deus, por todos.

  • E foi Jesus com eles; mas, quando já estava perto da casa, enviou-lhe o centurião uns amigos, dizendo-lhe: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; e, por isso, nem ainda me julguei digno de ir ter contigo; dize, porém, uma palavra, e o meu criado sarará. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados sob o meu poder, e digo a este: vai; e ele vai; e a outro: vem; e ele vem; e ao meu servo: faze isto; e ele o faz. E, ouvindo isso, Jesus maravilhou-se dele e, voltando-se, disse à multidão que o seguia: Digo-vos que nem ainda em Israel tenho achado tanta fé. E, voltando para casa os que foram enviados, acharam são o servo enfermo. (Lc 7:6-10)

A forma de tratamento utilizada pelo centurião quando se dirige a Jesus, chamando-o, respeitosamente, de Senhor, indica que reconheceu encontrar-se diante de uma autoridade a quem caberia reverenciar. Percebeu, igualmente, a fenomenal grandeza do Espírito do Cristo, a ponto de se sentir constrangido com o esforço do Senhor se deslocar até a sua residência. Por esse motivo disse: “Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; e, por isso, nem ainda me julguei digno de ir ter contigo […].”

São palavras saturadas de humildade que revelam a beleza da alma daquele centurião. Outras características do seu caráter são também reveladas na conclusão do seu diálogo com Jesus.

 

O centurião que procurou a Jesus para curar-lhe o fâmulo que se encontrava gravemente enfermo, mostrou compreender perfeitamente a organização do exército sideral. Retrucando a Jesus que prometera atendê-lo indo a sua casa, disse: Senhor, não é preciso que te incomodes tanto. Nem eu mesmo sou digno de te receber em minha casa. Dize somente uma palavra, e meu servo se curará. Eu também sou homem sujeito à autoridade, e tenho inferiores ás minhas ordens, e digo a este: vem cá, e ele vem; faze isto, e ele faz.

Pelos dizeres acima, vemos que o centurião compreendia perfeitamente aquilo que até hoje muitos ignoram, isto é, a maneira de Jesus agir através das milícias do céu. A analogia que ele estabeleceu […] entre seu comando e o comando de Jesus dirigindo os batalhões celestes, é das mais felizes para aclarar o modo de ação empregado pelo Redentor do mundo na obra da salvação. […] Há, portanto, exércitos divinos como há os humanos. A diferença é que aqueles combatem por amor, e estes, por egoísmo. O amor fecunda as almas prodigalizando a vida e vida em abundância. O egoísmo vai disseminando entre os homens o luto, a dor e a morte. No combate sustentado pelas milícias celestes não há vencidos: todos são vencedores. (4)

 

Aliás, não é difícil perceber que o servo doente serviu de instrumento da misericórdia divina para que o centurião manifestasse seu livre-arbítrio. Verificamos, assim, que são nos acontecimentos cotidianos que temos a oportunidade de fazermos as nossas escolhas, revelando as próprias disposições íntimas que caracterizam nosso nível evolutivo.

Causa admiração a Jesus a firmeza das ideias do centurião, a ponto de afirmar à multidão que o seguia: “Digo-vos que nem ainda em Israel tenho achado tanta fé.” O soldado romano não cansa de nos surpreender: além dos valores morais e da inteli­gência arguta, demonstra confiança e fé no Mestre.

 

A árvore da fé viva não cresce no coração, miraculosamente. Qual acontece na vida comum, o Criador dá tudo, mas não prescinde do esforço da criatura […]. A conquista da crença edificante não é serviço de menor esforço. A maioria das pessoas admite que a fé constitua milagrosa auréola doada a alguns espíritos privilegiados pelo favor divino. Isso, contudo, é um equívoco de lamentáveis consequências. A sublime virtude é construção do mundo interior, em cujo desdobramento cada aprendiz funciona como orientador, engenheiro e operário de si mesmo. Não se faz possível a realização, quando excessivas ansiedades terrestres, de parceria com enganos e ambições inferiores, torturam o campo íntimo, à maneira de vermes e malfeitores, atacando a obra. A lição do Evangelho é semente viva. […] É imprescindível tratar a planta divina com desvelada ternura e instinto enérgico de defesa. (9)

 

Voltando para casa, o centurião encontrou o servo curado. Natural que fosse assim, considerando o prodigioso magnetismo de Jesus e as elevadíssimas qualidades do seu Espírito. O Mestre não precisou se deslocar até a casa do centurião para realizar a cura, esta foi realizada à distância.

 

O poder de curar, em Jesus, era um dom sobre-humano. Quando dizemos sobre-humano, excluímos da nossa tese a palavra sobrenatural, visto nada existir que não seja natural. Era sobre-humano visto ser esse dom, em Jesus, perfeito, ultrapassando, portanto, os limites do poder humano, mesmo dos melhores curadores. Sendo Jesus um Espírito perfeito, claro está que perfeitos deveriam ser todos os seus dotes. Sendo Ele o maior Missionário que baixou à Terra, não podia, para o bom exercício de sua missão, deixar de vir revestido de poderes e forças que o distinguissem dos demais homens. Assim é que, o seu grande conhecimento das leis que regem o Universo e dos fluidos neles existentes, a sua força para dominação e transformação desses fluidos, a sua vontade soberana de fazer realçar a Lei de Deus, o seu amor imenso pelos sofredores, pelos deserdados da sorte, o auxílio constante que recebia diretamente de Deus, a enorme Milícia Celeste e a Multidão de Espíritos que se achavam sob as suas ordens, tudo concorria para que Ele dissesse ao cego: “Vê”; ao paralítico: “Anda”; ao leproso: “Sê limpo”; à sua Palavra, tudo se cumpria! (2)

 

Por último, é importante considerar que as curas e outros acontecimentos prodigiosos operados por Jesus representavam um meio para a divulgação do seu Evangelho.

 

É que o Mestre Divino não veio à Terra apenas para religar ossos quebrados ou reavivar corpos doentes, mas acima de tudo, descerrar horizontes libertadores à sublime visão da alma, banindo o cativeiro da superstição e do fanatismo. Em meio ao coro de hosanas que fazia levantar a turba de enfermos e paralíticos, efetuava a pregação do Reino de Deus que, no fundo, era sempre aula de profunda sabedoria, despertando a mente popular para a imortalidade e para a justiça. Fosse no topo do monte, ao pé da multidão desorientada ou no recinto das sinagogas onde lia os escritos sagrados para ouvintes atentos, fosse na casa de Pedro, alinhando anotações da Boa Nova, ou na barca dos pescadores que convertia em cátedra luminosa na universidade da Natureza, foi sempre o Mestre, leal ao ministério do ensino, erguendo consciências e levantando corações, não somente no socorro às necessidades de superfície, mas na solução integral dos problemas da Vida Eterna. (7)

 


 

ANEXO

 

Citação de Lucas 10:2

 

 

 

 

ORIENTAÇÕES AO MONITOR: Os participantes devem interpretar, à luz da Doutrina Espírita, a passagem evangélica que trata do centurião de Cafarnaum, (Lucas, 7:1-10) tendo como base as ideias desenvolvidas nos Subsídios deste Roteiro. Devem, em seguida, correlacionar o assunto a acontecimentos cotidianos.

 


Referências:

1. DICIONÁRIO DA BÍBLIA. Vol. As pessoas e os lugares. Organizado por Bruce M. Metzger e Michael D. Coogan. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002, p. 38.

2. SCHUTEL. Cairbar. O espírito do Cristianismo. 8. ed. Matão, SP: O Clarim, 2001. Cap. 53 (As curas de Jesus), p. 276-277.

3. VINÍCIUS (Pedro Camargo). Em torno do mestre. 8. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. Item: O médico das almas, p. 106.

4. Idem - Item: As milícias do céu, p. 134-135.

5. XAVIER, Francisco Cândido. Caridade. Por diversos Espíritos. 12. ed.Araras: IDE, 2000. Cap. 11 (Quanto mais-mensagem de Bezerra de Menezes), p. 46.

6. Idem - Cap. 14 (O talento esquecido — mensagem de Emmanuel), p. 54.

7. Idem - Doutrina-escola. Por diversos Espíritos. 1. ed. Araras: IDE, 1996. Cap. 11 (Jesus e estudo - 1: mensagem de Emmanuel), p. 63-64.

8. Idem - Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 35 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap.122 (Entendamo-nos), p. 307-308.

9. Idem - Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 25 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 40 (Fé), p. 99-100.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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