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Vozes da Outra Margem — Familiares diversos


CAPÍTULO 18


Nova mensagem de Clovis Tavares

Nosso abnegado confrade Clovis Tavares, professor de História e de Direito Internacional Público, deixou o mundo físico aos 69 anos, na Santa Casa de Misericórdia de Campos, RJ, a 13 de abril de 1984.

Precocemente revelou ardorosa dedicação ao ideal espírita, pois com apenas 20 anos de idade, em 1935, fundou a Escola Jesus Cristo, de Campos, da qual foi seu diretor doutrinário desde a fundação. No jornalismo, sempre colaborou com vários órgãos doutrinários; e, na literatura, deixou-nos obras de grande valor, tais como: Vida de Allan Kardec para as Crianças, Amor e Sabedoria de Emmanuel, Trinta Anos com Chico Xavier.

Sete meses após sua desencarnação, em 29 de novembro de 1984, Clovis Tavares voltou a dialogar com seus entes queridos que deixou na Terra, pela mediunidade de Chico Xavier, em bela e esclarecedora mensagem que fundamentou o Capítulo 12 da obra Caravana de Amor. (F.C. Xavier, Espíritos Diversos, H.M.C. Arantes, IDE.)

E, recentemente, em reunião pública do GEP, em Uberaba, na noite de 9 de agosto de 1986, o referido médium psicografou nova mensagem do Professor Clovis, endereçada aos seus familiares e aos companheiros da Escola Jesus Cristo, com oportunos e preciosos comentários, úteis para todos que labutam na seara espírita, conforme veremos a seguir:


CARTA DE CLOVIS TAVARES


1 Querida Hilda, n peço a Jesus nos abençoe junto aos amigos que nos acolhem com a amizade de sempre, reunindo você e as nossas companheiras de viagem, nossa Ruth e nossa Gilda, n em minhas vibrações de paz e reconhecimento.

2 Agradeço todas as suas reflexões do silêncio em torno do seu Clovis e sou profundamente grato ao seu culto de amor inextinguível.

3 Nossos filhos estão aí, confirmando a felicidade que nos uniu, e hoje, véspera do Dia dos Pais, presto homenagem a você, mãezinha devotada e valorosa de todos eles, que permanecem por dentro de minha ternura e gratidão.

4 Você vem agindo nas tarefas de nossa Escola n e a sua sede de maior extensão de temas evangélicos em nossa casa de trabalho é igualmente minha. Felicito-me vendo todos os amigos, a partir de nosso Rubens, n consagrados à revivescência da Boa Nova em nossa instituição e particularmente rejubilo-me com as suas atividades conjugadas às de nosso Celsinho n para que as lições de Jesus e do cristianismo apostólico sejam reavivadas em nossa Escola de paz e amor.

5 Quanto mais se desdobra o tempo, mais intensamente reconheço o imperativo dos ensinamentos de Jesus, não só na nossa querida Escola, mas em todos os lugares atingidos pelo clarão imortal de nossos princípios renovadores.

6 Não desprezo a ciência, porque isso seria contrassenso em minhas atitudes, mas encareço a necessidade de harmonização da criatura humana com a elevação, a responsabilidade e a fé no amparo divino, que o homem não pode menosprezar sem graves consequências, sobretudo, nos setores da educação.

7 Sensibiliza-me o esforço dos grandes membros e amigos da humanidade, convidando os nossos irmãos para a convivência com o divino Mestre, sem que eles, os nossos irmãos, de modo geral, se abalancem a fixar a atenção na bússola do sentimento religioso, o único suscetível de conciliar nos com as leis do Universo e da Vida.

8 A robotização dos processos educativos, induzindo as crianças, tanto quanto jovens e adultos, à ausência do trabalho nas leiras do amor ao próximo, é capaz de acentuar a influência do materialismo negativista e destruidor em nossas fileiras, exterminando preciosas promessas de ação para o levantamento do mundo melhor.

9 Rogo ao Rubens e à nossa estimada Ruth Maria, nossos devotados companheiros, incentivarem as palestras evangélicas em que os corações se preparem para a era nova sem a hipertrofia da inteligência, ruinoso método de acender a fatuidade e o separatismo entre aqueles que foram convidados a honorificar o Senhor com as suas palavras e com suas próprias vidas.

10 Teorizações estéreis não faltaram no tempo do Cristo entre os homens. Gregos e romanos se conjugavam em experiências e afirmativas que a Idade Média sepultou em montes de cinza. E desses montes de cinza emergiram, sempre mais claras e mais construtivas, as instruções do inesquecível Nazareno, começando da Renascença em alvoradas de esperança e grandeza, e culminando até o nosso século de conflitos que, sem qualquer ofensa ao progresso, ser-nos-á possível considerar por desumanos.

11 Todos os movimentos que tendem a enquadrar os esclarecimentos espírita-cristãos e as atividades mediúnicas em investigações descabidas, embora a riqueza palavrosa com que se manifestam, apenas significam esquecimento das aquisições espirituais do mundo cristão que continua rogando trabalho, solidariedade, apaziguamento e confiança em Deus e em Suas leis.

12 Se dispomos de caminho laboriosamente construído pelos cristãos de todas as épocas — caminho para o nosso encontro com o Divino Emissário do “amai-vos uns aos outros” (Jo) — por que havemos de gastar tempo e serviço nos empreendimentos marginais que pretendem edificar avenidas de luxo no conhecimento humano? 13 Com o fim, embora, de alcançar a estrada certa para as convicções consoladoras, enriquecendo a doutrina de luz, complicam as sendas de evolução para milhares de pessoas que se apoiam na oração e na fé para se realizarem no melhor que são capazes de fazer.

14 Por que uma preleção sobre as galáxias para grande número de nossas irmãs que lutam nobremente pela sustentação da vida familiar, quando no momento o que solicitam é esperança e reconforto para se manterem fiéis aos compromissos assumidos?

15 Por que favorecer evidente elitismo entre os nossos companheiros, quando todos eles sentem fome de apoio na fraternidade real, para se sentirem úteis?

16 Nunca nos foi possível a discriminação entre ricos e menos ricos, ou entre pessoas virtuosas e aquelas julgadas distantes das qualidades espirituais que embelezam as almas.

17 Quando me refiro aos “menos ricos” é porque não compreendo possa existir pobreza ou penúria diante do Cristo de Deus. Os chamados pobres serão realmente pobres ou somos nós os mais ricos de conhecimento que lhes sonegamos a herança de socorro e amor que lhes compete no inventário dos bens que Jesus nos legou?

18 Essas indagações me afloram ao pensamento, examinando as suas aspirações e as do Celsinho no sentido de se intensificar a evangelização autêntica em nossa instituição de luz e vida.

19 Com estes enunciados, desejo a você e aos nossos filhos dedicados à obra do Senhor o êxito desejável nessa recomposição de valores adentro de nossa casa que pertence à escola de Jesus Cristo, com Jesus Cristo na cátedra dos corações.

20 Continuo trabalhando e agradeço ao Senhor a bênção de prosseguir na vida espiritual num vasto esquema de ação que não me concede tempo a divagações.

21 Aos nossos filhos, o abraço do Carlinhos n e o meu próprio, com os nossos votos de paz e alegria em auxílio a todos.

22 A nossa querida mãezinha Dona Maria n chegou até nós escoltada pela legião de afetos que ela soube cultivar, e prossegue no tratamento que lhe agracie com a recuperação completa.

23 A você e aos nossos filhos reitero as minhas saudades, mas sem que essas saudades signifiquem lamentação ou inércia, porque, na essência, são desafios a trabalharmos mais com o melhor de nossas limitações e possibilidades pela vitória do bem e da luz em todos os corações.

24 Saudando as nossas irmãs Ruth e Gilda, com os nossos melhores votos de paz, rogo a você receber a confiança no imenso amor do seu, sempre seu companheiro e servidor muito grato de todos os dias,

25 Sempre seu n


.Clovis. n


NOTAS E IDENTIFICAÇÕES


1 — Hilda — Prof.ª Hilda Mussa Tavares, esposa, cooperadora na Escola Jesus Cristo (EJC), residente em Campos, RJ, à Rua Benta Pereira, 112. Seu valioso depoimento sobre a mediunidade de Chico Xavier integra o livro Luz Bendita (F.C. Xavier, Emmanuel, Testemunhos Diversos, Rubens S. Germinhasi, IDEAL, S. Paulo, SP, pp. 65/72.)

2 — Ruth e Gilda — Senhoras Ruth Monteiro e Gilda Duncan Tavares, cooperadoras da EJC, presentes à reunião pública de Uberaba.

3 — nossa Escola — Escola Jesus Cristo (Instituição Espírita de Cultura e Caridade), fundada por Clovis Tavares, sob inspiração espiritual de Nina Arueira, em 27/10/1935, com sede própria à Rua dos Goitacases, n° 177, em Campos, RJ, mantém vários Departamentos e Serviços.

4 — Rubens — Dr. Rubens Fernandes Carneiro, advogado, atual Diretor Doutrinário da EJC.

5 — Celsinho — Celsinho Vicente, filho, professor de História, cooperador da EJC.

6 — Carlinhos — Carlos Vítor Mussa Tavares, primogênito do casal. Desencarnou a 10/2/1973, após 17 anos de abnegado sofrimento. Pela psicografia de Chico Xavier, já enviou seis poesias de notável beleza e espiritualidade, sendo a primeira divulgada nos livros Entre Duas Vidas (F.C. Xavier, Elias Barbosa, Espíritos Diversos, CEC, Uberaba) e Tempo e Amor (F.C. Xavier, Clovis Tavares, Espíritos Diversos, IDE, Araras, SP).

7 — mãezinha Dona Maria — D. Maria Mussa, sogra, desencarnada a 14/7/1986.

8 — Clovis — “Sebastião Clovis Tavares nasceu em São Sebastião, distrito de Campos, RJ, a 20/01/1915.

Desde tenra idade demonstrava pendores acentuados de profunda religiosidade.

Pelos inexplicáveis caminhos de Deus, teve como preceptor das primeiras lições do Cristianismo Puro o Padre Émile Des Touches que lhe transmitiu também os primeiros rudimentos de língua francesa, bem como um grande amor à sua França. Émile Des Touches descendia de família de nobres e renunciou a títulos e bens para dedicar-se a trabalho missionário em terras brasileiras. O seu carinho pelo então menino Clovis o fazia tratá-lo na intimidade dos estudos de “Mon petit enfant”, e dessa maneira se identifica através de Chico em sua primeira comunicação para o nosso amigo.

Cresceu Clovis sob a austeridade da disciplina paterna, enriquecendo o seu saber de forma integral.

Aos 17 anos, acadêmico da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, depara-se com o Parnaso de Além-Túmulo, conhecida obra mediúnica psicografada por Francisco Cândido Xavier. Mesmo sem ter ainda lido o recém editado volume, nunca mais pôde se esquecer daquele nome que, segundo ele declarava muitas vezes, passou a exercer sobre ele um singular fascínio. Dentro dele manifestava-se um impulso incontido de conhecer o jovem médium de Pedro Leopoldo.

Com 20 anos de idade, depois de vivenciar experiências no campo político, como estudante de direito, experiências essas mais ligadas ao idealismo e entusiasmo jovem que clamava pela justiça social, ao lado de sua noiva Nina Arueira, vê-se, a 18 de março de 1935, diante de um fato que veio mudar totalmente o roteiro de sua vida: a morte inesperada de sua amada Nina Arueira. Nina, espírito de escol, jovem inteligente e brilhante, dotada de grandes virtudes morais, intelectuais e espirituais, foi a estrela guia indicadora do caminho que levaria o nosso Clovis ao encontro do Mestre, que seria mais tarde o grande amor de sua vida: Jesus Cristo.

Em outubro de 1935, funda a Escola Infantil Jesus Cristo comprovando o seu ideal de conduzir a criança pelos caminhos reais da espiritualidade, assim como, por bondade divina, tivera a felicidade de ele mesmo ter recebido, em sua primeira infância, esses ensinamentos.

O seu primeiro contato com Chico Xavier se deu em 1936, e, através dessa amizade que já nasceu grande, sustentou-se em Clovis a louvável iniciativa da transformação da Escola Infantil Jesus Cristo em Escola Jesus Cristo, Instituição Espírita de Cultura e Caridade. Temos a certeza de que essa estima a Chico Xavier, depois do grande amor que dedicava a Jesus Cristo, era uma das coisas mais importantes de sua vida.

Orador de singulares valores, tornou-se Clovis conhecido em todo meio espírita do país, tendo levado sua palavra inspirada, simples e convicta a muitas cidades e estados de nossa Pátria, embora a sua preferência de recolher-se ao anonimato, trabalhando com afinco na seara que o Mestre lhe destinou: a Escola Jesus Cristo.

Deixou-nos, além de muitos artigos escritos na imprensa local e espírita do país, e de pregações evangélicas gravadas, algumas obras dignas de registro: A vida de João Batista, Ed. do G. E. João Batista, Campos, 1940 (esg.); Sementeira Cristã, 3 vol., FEB, Rio, 1942; Os Dez Mandamentos (A Lei de Deus explicada às crianças), Lake, S. Paulo, 1950; Vida de Pietro Ubaldi, Lake, 1952; Histórias que Jesus contou, Lake, 1955; Meu Livrinho de Orações (preces para crianças), Lake, 1956; Vida de Allan Kardec para as crianças, Lake, 1957; Trinta Anos com Chico Xavier, IDE, Araras, SP, 1980; Amor e Sabedoria de Emmanuel, IDE, 1981; Tempo e Amor, co-autoria com Francisco C. Xavier e Espíritos Diversos, IDE, 1984; De Jesus para os que Sofrem, IDE, 1984.

Concluiu ainda em sua profícua existência mais duas obras de altíssimo teor doutrinário e espiritual: Mediunidade dos Santos e Apostilas de Didática do Evangelho, que, se Deus quiser, serão publicados em breve.

No ano de 1984, Clovis estava ainda em plena atividade na Escola Jesus-Cristo, onde sempre foi o diretor doutrinário, quando no dia 13 de abril, segundo deixa entrever em sua primeira mensagem por Chico Xavier, em novembro do mesmo ano, foi convocado pelo Plano Espiritual Superior a assumir a Escola Jesus Cristo, do Mundo Maior, situada na Cidade Nosso Lar, no Ministério do Auxílio, fundada mais ou menos dez dias antes da fundação da Escola Jesus Cristo de nossa Campos.

Ter-se-ia muito mais para dizer de nosso querido amigo e benfeitor Clovis Tavares, sem querer ferir o seu espírito humilde e fiel aos princípios cristãos do “silêncio e trabalho”. Fica, no entanto, registrado aqui o principal: Clovis Tavares foi um apóstolo do “trabalho sem férias” da seara cristã e espírita, consciente de que a sua dedicação deveria se dar em tempo integral.” (Prof.ª Hilda Mussa Tavares)


9 — DEPOIMENTO DA FAMÍLIA — Esta segunda carta mediúnica foi divulgada pelos familiares do Prof. Clovis, em impresso bem confeccionado, que apresentou na última página o seguinte depoimento, sob o título “Algumas Considerações”:

“Esta segunda Mensagem de nosso querido Clovis despertou em nós, seus familiares, a necessidade imperiosa de tecer alguns comentários sobre o seu tema central que, como a primeira, comprova a preocupação maior de sua vida terrena — o estudo da palavra do Cristo e a prática cada vez mais crescente do “amai-vos uns aos outros”.

Em ambas as mensagens recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier, constata-se a autenticidade dessa sua mais forte linha de pensamento pela explicitação clara de suas ideias sobre “teorizações estéreis”, “hipertrofia da inteligência”, “edificações de avenidas de luxo no conhecimento humano”, sempre comentadas em suas aulas e pregações na Escola Jesus Cristo.

A simplicidade do Evangelho sempre o encantou e, sábio e culto como era, reconhecido em nossa comunidade como uma das pessoas mais letradas e professores mais respeitados, nunca aceitou para si títulos de inteligência ou destaque que o afastassem de sua opção definitiva de vida: ensinar e estudar, estudar e trabalhar, educar e estudar, estudar e servir, sempre comunicando os ensinos de Cristo da forma mais singela, como o próprio Cristo o fez, a fim de que aquelas pessoas mais humildes pudessem lhe apreender a essência do pensamento.

Ressalta-se aqui a surpresa de que fomos apanhados quando da abordagem nesta carta da “robotização dos processos educativos”, por ter sido tema de conversas na intimidade dá família e de questionamento em estudo feito em sala de aula da própria Escola Jesus Cristo, nos dias que precederam à recepção da mensagem por Chico, sem que este tivesse conhecimento de tal fato.

Avaliar o quanto a Escola Jesus Cristo recuperou de estímulo e de confiança com esta mensagem é impossível, mas é incontestável que a partir dela foi-nos permitido, por acréscimo de misericórdia divina, redescobrir novos valores para o nosso trabalho com Jesus.

O que dizer da mediunidade de Chico, a não ser o que o próprio Clovis já dissera em sua passagem por este mundo, em livro de sua autoria: “…faz revelações sobre o Mundo Maior, afirma e reafirma evidências extraordinárias, consoladoras, insofismáveis, a atravessar quase todo este século vinte, de ponta a ponta”?

Para ele, nosso querido Chico, o único presidente honorário de nossa Escola Jesus Cristo, pela amizade estreita que sempre o uniu ao nosso Clovis e aos nossos pobres corações, por todas as luzes que humildemente acende nos caminhos deste mundo, com heroísmo apostólico, rogamos as bênçãos do Céu, agora e para sempre, na Terra e na Eternidade.


.A família Clovis Tavares


.Hércio Arantes


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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