Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

A Vida Conta — Maria Dolores


5


Recado de amor

  1 Chama-se Aurora a nobre companheira,

  Uma das que encontrei na hora derradeira

  Do corpo cujo laço me prendia;

  Mensageira da paz e da alegria,

  É um misto de menina, flor e estrela…

  Depois de longa convivência,

  Em meu novo processo de existência,

  Pude efetivamente conhecê-la.


  2 Para logo notei que Aurora onde estivesse,

  Ante os amigos de qualquer idade,

  Lembrava um coração que, de todo, se desse

  A tecer fios de felicidade

  Para quem lhe escutasse as palavras de luz;

  No entanto, aos poucos, vi que ela trazia

  Extenso traço de melancolia,

  Obscuro pesar, escondido e profundo.

  3 Sem que eu nada indagasse, certa feita,

  Ela me disse: — “Irmã Dolores,

  Devo tornar ao mundo

  Numa jornada estreita.

  Irmã, onde estiveres, onde fores,

  Roga ao Céu abençoe a luta que me leva

  A socorrer um ente amado,

  Para mim, tal qual filho desgarrado,

  Nas veredas da treva…”


  4 “Mas não podes, irmã, — perguntei, com cuidado,

  Ampará-lo daqui, sem renascer na Terra?”

  — “Não, não posso, — ela disse, é na volta que insisto,

  Já que em cinco existências, lado a lado,

  Esse filho que eu amo é um homem transtornado

  Que fugiu por orgulho à presença do Cristo.”


  5 Depois de semelhante entendimento,

  Acompanhei-a, certa vez,

  A fim de conhecer-lhe o ente amado

  A quem se afeiçoara noutras eras…

  Nele encontrei um cidadão prendado,

  Esbanjando poder, nome e talento.

  Conquanto homem de bem, de maneiras sinceras,

  Casado, pai de um filho

  Que ainda não chegara a contar quatro anos,

  Professor e eminente cientista,

  Emitia conceitos desumanos,

  Se alguém falava em fé, expondo-se-lhe à vista.


  6 Logo após, muitas vezes,

  Ateu maior, entre os grandes ateus,

  Dele escutei opiniões como estas:

  — “Santos e religiões nessa história de Deus

  São lendas de pessoas desonestas,

  O espírito é ilusão da mente alucinada,

  Quando a morte aparece, a vida é cinza e nada.”


  7 Mas Aurora voltou — afeição renascida —,

  Tomando dele próprio a sua nova vida.

  A mãezinha querida, excelente senhora,

  Por sugestão do Plano Superior,

  Deu-lhe o nome de Aurora…

  Tenra criança ainda, ela exprimia amor,

  Impressionando ao pai com o luminoso olhar…

  No regaço materno, era uma flor no lar.

  Crescendo um tanto mais, era-lhe a companhia,

  O pai achara nela a fonte da alegria…

  Cinco anos apenas e a criança

  Endereçava a ele assuntos tais,

  Que o genitor se via em profunda mudança,

  Nos seus próprios anelos paternais.


  8 Assim que os dois se punham mais sozinhos,

  Fosse em casa, nas praias, nos caminhos,

  A pequena fazia indagações:

  — “Papai, quem fez o mar assim tão grande?

  Quem cultiva estas plantas que nós vemos?

  Quem criou nossos pés para que a gente ande?

  Quem segura no chão a casa em que vivemos?

  Papai, quem dá comida aos pássaros na serra?

  Quem fez o sol? será que o sol assim, tão brilhante e tão quente,

  É uma vela de Deus, iluminando a Terra?”


  9 O pai ouvia a filha, enternecidamente,

  E respondia, admirado:

  — “Filhinha, vais crescer ao nosso lado

  Tudo compreenderás no momento preciso…”

  E parava a pensar, sob longo sorriso.

  Após algum silêncio, a expressar alegria,

  Vendo as aves saltando, ramo em ramo,

  Sempre agarrada ao pai, a pequena dizia:

  — “Papai, de tudo o que já sei

  Sabe o que já falei?

  Já falei à mãezinha que eu te amo…”


  10 Mas, um dia surgiu… Há sempre um “mas”

  Quando a vida feliz perde o gosto da paz.

  A menina adoeceu, inesperadamente

  E, após longa pesquisa, o médico anuncia

  A presença de estranha leucemia…

  Os pais lutaram quais leões, à frente

  De um perigo mortal, no entanto, hora por hora,

  Notam a pequenina e tema Aurora

  A definhar e a definhar…

  Até que, em certa noite, unidos a chorar

  Sem qualquer esperança que os conforte,

  Viram-na repousar no silêncio da morte.

  Lembrando um anjo lindo estruturado em cera,

  A filhinha querida adormecera.


  11 Dois meses sobre os traços da ocorrência

  A pedido de Aurora,

  Fui visitar-lhe a residência.

  Não mais achei ali a beleza de outrora…

  Tentei buscar-lhe o pai que soube ausente

  E encontrei-o num quadro comovente;

  Estava triste e só num campo santo,

  Tateando na lousa o nome da filhinha

  E, demonstrando a mágoa que o retinha,

  Falava em alta voz, encharcada de pranto:

  — “Filha do coração, embora eu viva triste,

  A verdade me diz que a morte não existe.

  Anjo de paz e amor, é impossível morrer,

  Vives hoje no Além, tanto quanto em meu ser…

  Perder-te a companhia é toda a minha dor,

  Não olvides teu pai, cansado e sofredor!…

  Nunca te esquecerei, filha dos sonhos meus,

  A saudade de ti trouxe-me a luz de Deus…”


  12 Então, pude anotar

  Naquela inteligência em supremo pesar,

  Mostrando o coração sem disfarce e sem véus,

  Que toda vida curta, ao brilhar e morrer,

  Para quem ama e fica, ante o mundo a sofrer,

  É um recado de amor no correio dos Céus!…


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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