Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Tesouro de alegria — Autores diversos


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Ausência e fé

   1 Alma fraterna, um dia meditando

  Na imensidão do amor, assim qual é,

  Interroguei, no mundo, as vidas simples

  De que modo aliar distância e fé.

  Por que meios guardar a confiança

  Quando o amargo da ausência nos invade?

  Quando a falta dos entes mais queridos

  É suplício com o nome de saudade?


   2 Ouvi uma andorinha

  Que se encontrava anônima e sozinha,

  Sob antigo telhado:

  — “Veja, irmã, o meu ninho desprezado!…”

  Disse-me sem revolta e sem tristeza.

  — “Tive filhos que amei com desvelo e ternura,

  Entretanto, segundo a Natureza,

  Quando se viram emplumados,

  Procuraram altura,

  Desenvoltos, felizes, fascinados

  Ante o Infinito Azul que os atraía…

   3 A princípio, sofri terrível agonia…

  Depois, vim a saber

  Que Deus, de quem vieram para mim,

  O Pai de Imenso Amor e Compaixão sem fim,

  Que pode avaliar a minha longa espera,

  E quem me fará vê-los,

  Para cercá-los com meus zelos

  No brilho de futura primavera!…”


   4 Entrevistei robusta laranjeira;

  Ela clamou serena e conformada:

  — “Irmã, tenho lutado a vida inteira

  E estou sempre ferida ou despojada…

  Sabe o Céu com que amor gero os meus frutos,

  No entanto, a todos vejo arrebatados,

  Sob torções cruéis e, a gestos brutos,

  Para serem vendidos nos mercados.

  Mas sei que Deus, nosso Pai, que nos ama e nos fez,

  Quem conserva o pomar por troféu da lavoura,

  Devolverá meus frutos, outra vez,

  Na colheita vindoura…”


   5 Busquei ouvir formoso jasmineiro.

  Ele falou-me apenas: — “Minhas flores

  São taladas sem meu consentimento

  Por criaturas de instintos inferiores

  Que nada sabem de meu sofrimento…

  Uma certeza única, no entanto,

  Resguarda as forças de que me levanto:

  Deus, o Criador das Matas e Jardins

  Dar-me-á novamente outros jasmins…”


   6 Fui ver um manancial, a fim de ouvi-lo…

  Ele aclarou tranquilo:

  — “As fontes que me trocam pelo chão

  São filhas de meu próprio coração!…

  Dói-me notar que correm sobre a lama,

  Auxiliando ao solo que as reclama…

  A fé, porém, me anima e me acalenta…

   7 Em abordando o Mar, o belo e imenso Mar que Deus sustenta,

  Tornarão a voltar,

  Primeiramente em forma de vapor,

  Subindo ao firmamento…

  No Alto, serão nuvens, contemplando

  As minhas grandes mágoas

  E voltarão a mim, entre chuvas em bando,

  De novo enriquecendo as minhas próprias águas!…”


   8 Reconheci, então, alma querida,

  Que a saudade é esperança em nova vida,

  Para o reencontro daqueles que nos são

  Tesouros de alegria e de afeição,

  A esperarem por nós no Mais Além…

  Porque Deus que de amor nos fez o coração

  Nunca nos deixa em solidão

  Nem separa ninguém.

Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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