Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Somente amor — Maria Dolores / Meimei


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O socorro imprevisto

  1 Vendo a amizade estreita

  Da filha que ele amava, ardentemente,

  Com a jovem artista,

  Comediante e equilibrista,

  Sempre atirada sob a espreita

  Da crítica feroz de muita gente,

  O pai chamou-a e disse em palavras severas:


  2 — “Filha, não tens ainda vinte primaveras

  Estudas num colégio austero e nobre,

  Dize: qual a razão

  Que te leva a escolher a companhia Dessa jovem mulher,

  Reles mulher sem consideração?”


  3 E, ante a muda surpresa da menina,

  O pai continuou na censura ferina:

  — “Proíbo-te qualquer intimidade

  Com essa moça envilecida,

  Que procura arruinar a própria vida,

  E que na condição de atriz, quer no palco ou na rua,

  Anda de trama em trama,

  Sempre despudorada e seminua

  Numa trilha de lama…”


  4 “Mas, meu pai,” — disse a filha humildemente,

  “Ela trabalha assim,

  Para tratar do pai cego e doente…”

  — “Minha ordem é o fim” —

  Grita o progenitor, derramando azedume,

  “Essa atriz para mim

  É uma pessoa deprimente,

  Que só por si resume

  Calamidade, astúcia, meretrício.

  Não mais te quero ver, onde estiver

  Essa infeliz mulher,

  Hoje dama do vício”.


  5 A menina chorou e obedeceu.

  Não mais buscou a antiga companheira

  E fez mais do que isso,

  Negou-se a recebê-la quando procurada,

  Alegando trabalho e compromisso.


  6 Mas os dias na Terra vêm e vão…


  7 Numa clara manhã de tórrido verão

  A família fidalga está na praia,

  Pai, mãe e filha, em meio dos banhistas…

  A multidão descansa, olhando o mar,

  Toda gente partilha o mesmo ar,

  Os filhos da cidade e os grupos dos turistas.

  O mar naquele dia

  Estava diferente… Parecia

  Um gigante que se alteia

  Para depois cair aos estrondos na areia…


  8 Eis que, em certo momento, uma onda mais alta

  Chega de escantilhão

  E arrasta para longe a menina fidalga

  Que desce às profundezas de roldão.

  A pobre vem à tona

  E grita por socorro,

  Aprestam-se a salvá-la os guardas de vigia;

  Há confusão, desordem, gritaria…

  9 No entanto, de um grupinho, à parte dos demais,

  Certa jovem que estava em gargalhadas,

  Avança, mar adentro, em valentes braçadas,

  Mergulha, em certo ponto, e num momento,

  Volta trazendo a jovem desmaiada.

  10 Mas ao depô-la salva, em terreno seguro,

  Um vagalhão enorme, um monstro escuro

  Arranca a salvadora para trás,

  A moça não resiste ao assalto voraz

  E, a debater-se, em vão, é atirada à distância e vai ao fundo…

  Esforça-se debalde… Está presa entre plantas,

  Que procura vencer, contudo elas são tantas!…

  11 Na luta que mantém, de segundo a segundo,

  Perde as forças… Por fim, se desanima,

  Não consegue voltar ao ar leve de cima…

  Em torno, a multidão, grita por ela,

  Agitam-se homens-rã, correm os nadadores,

  Depois de esforços desesperadores,

  A moça vem à tona… Posta num barco à vela

  A menina está morta e, em breve, junto dela,

  Une-se toda gente, a lastimar-lhe o fim…


  12 Aflito, chega o pai da jovem salva,

  Põe-se a rogar: “Acordem a heroína

  Essa moça merece a Proteção Divina,

  Ela salvou-me a filha,

  A filha que é meu sonho e a luz que me conforta,

  Quero entregar-lhe um prêmio e senti-la feliz…”

  Mas fitando no barco a pobre moça morta,

  Retrocedeu chorando… Era a famosa atriz.


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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