Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Somente amor — Maria Dolores / Meimei


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Amor para sempre

  1 A senhora viúva, dia a dia,

  Sob os efeitos de uma hemiplegia,

  Trazia a própria vida concentrada

  Na cadeira de rodas, manejada

  Por amiga enfermeira.


  2 Dos parentes mais íntimos

  Um filho lhe restava, um filho só,

  O filho que ela amava enternecidamente…

  Marido, pais, irmãos, chamados pela morte,

  Deixaram-lhe na vida

  Muita emoção frustrada

  E aquele moço forte

  Que não lhe confortava a existência dorida,

  Muito embora abastada.


  3 Achamo-nos na véspera do

  Que marcaria o enlace do rapaz

  E a mãezinha doente

  Num misto de alegria,

  De esperança e de paz

  Entregou-lhe, feliz, tudo quanto possuía:

  A fazenda, as ações de grande companhia,

  Os créditos de banco e a linda moradia,

  A dizer-lhe, contente:

  — Filho, tudo o que tenho é seu…

  De amanhã para a frente,

  Passo a morar no estreito pavilhão

  Que seu pai construiu ao fundo da mansão.

  Desejo ver você e a jovem companheira

  Sempre felizes, sem cuidados…

  Toda alegria agora para mim

  Será sabê-los sossegados

  Ante a bênção de Deus, na visão do futuro…


  4 O filho comovido

  Beijou-lhe as mãos num gesto de amor puro

  E agradeceu a doação materna,

  Prometendo-lhe em voz macia e terna,

  Pela jovem com quem se casaria

  Segurança, carinho, convivência

  Para todas as horas da existência

  Que desejava fossem

  Adornadas de paz e de alegria.


  5 Depois do enlace, a enferma recebia

  Cartões lindos da Europa…

  O casal de viajores

  Via a lua-de-mel por um mundo de flores…

  Ambos davam notícias da beleza

  De Lisboa e Paris, de Florença e Veneza…

  6 Mas de retorno ao lar, após a festa

  De comemoração do regresso feliz

  A dama recebeu na vivenda modesta

  O jovem par… E a nora exigente lhe diz:

  — Minha sogra, ouça bem!…

  Seu filho e eu

  Pensando em seu descanso,

  Resolvemos agora transferi-la

  Para um lar de repouso, um abrigo claro e manso

  Onde a senhora viva mais tranquila.

  Precisamos aqui viver a sós,

  Não pretendemos tê-la junto a nós.


  7 Porque a pobre espantada procurasse

  O olhar do filho amado para ver

  A atitude interior que lhe viesse à face,

  Ele mesmo aduziu:

  — É um pouso geriátrico, mãezinha,

  A senhora, por lá, não estará sozinha.


  8 Nada disse a velhinha, posta a um canto,

  Tão-somente mostrou silêncio e pranto…


  9 No dia imediato,

  Mudara-se-lhe o trato…

  Internada num belo casarão,

  Apesar da gentil acompanhante,

  Eis que saudade enorme a domina e consome…

  O recinto de luxo para ela,

  Alma nobre e singela,

  Tinha apenas um nome:

  — “Exílio e solidão.”


  10 Seis meses transcorreram, lentamente,

  Não mais tornou a ver o filho ausente

  E sem que a pompa, em tomo, a reconforte,

  A velhinha mais triste e mais doente,

  De mágoa em mágoa, vagarosamente,

  Entregou-se, de todo, às mãos da morte…


  11 Ante as indagações do verniz social,

  Deu-se-lhe sobre a Terra um lindo funeral…

  A pobre repousou num sono longo e raro;

  Mais tarde, despertou solicitando amparo.

  Junto dela, um Emissário de Vigia,

  Descortinou-lhe os Céus, comentando a alegria

  Que a esperava na Altura..

  12 A pobre mãe, porém, perguntou com ternura:

  — E meu filho onde está?

  — Sem dúvidas quaisquer — falou-lhe o mensageiro

  Tanto quanto ficou, seu filho ficará

  Por muito tempo ainda em franco cativeiro,

  Tem muito que lutar, nos encargos que leva,

  Entre as forças da Luz e as tentações da treva…

  Mas você, minha irmã, pode elevar-se agora,

  Pelo seu sacrifício e devoção ao Bem,

  Mundos da Eterna Aurora

  Esperam-na no Além…


  13 A senhora, porém,

  Expressando respeito àquelas diretrizes,

  Disse, calma e sincera:

  — Não aspiro a viver entre os mundos felizes!…

  Voltar a ver e acompanhar meu filho,

  Sem qualquer empecilho,

  É todo o Céu de minha longa espera.


  14 O Mensageiro que lhe conhecia

  Os tempos de doença e de agonia

  Anotou com brandura:

  — Irmã, descer da Altura Imensa

  A fim de trabalhar sem recompensa

  Em favor dessa ou daquela criatura

  É conquistar maior merecimento…

  Para estar com seu filho, em constante união,

  Precisará viver

  Sob o regime da reencarnação…

  E, acaso, aceitará, por mãe a própria nora?


  15 — Como não, anjo bom? — replicou a senhora

  Se Deus me consentir, assim regressarei,

  Creio que a luz do amor é o princípio da Lei;

  Se tenho no meu filho a bênção que procuro,

  Como menosprezar a jovem que ele adora?

  Amá-lo-ei melhor por minha nora

  De quem devo ser filha no futuro…

  Hei de amá-la também, voltando a ser criança,

  Sempre encontrei no amor divina maravilha,

  Minha nora no lar me acolherá por filha,

  Serei nos braços dela uma nova esperança…

  Envolverei meu filho e ela em meu sorriso,

  Todo berço na Terra aponta o Paraíso…


  16 Cinco anos passaram sobre o Tempo…

  Hoje anotei um trio encantador:

  Ante a filhinha: — luz recém-nascida

  Disse o pai ao beijá-la: “minha vida!…”

  A criança sorriu no berço cor-de-rosa

  E a mãezinha, a enfeitar-lhe o corpinho de flor,

  Exclamou comovida e venturosa:

  Deus te abençoe, meu anjo meu amor!…”


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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