Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Retratos da vida — Cornélio Pires


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Notas da sovinice

   1 Você deseja saber,

  Caro Antônio da Planura,

  O que sucede aos sovinas

  Depois que a morte os procura.


   2 O assunto pede cuidado,

  Porquanto, em tudo, na essência,

  Não se deve caminhar

  Com base na imprevidência.


   3 Observe a natureza:

  Na horta uma simples erva,

  Vive, ajuda e se garante

  Mantendo a própria reserva.


   4 A árvore ampara sempre

  Na bondade de que é feita,

  Mas resguarda a seiva própria

  Para dar outra colheita.


   5 Melhor é viver no mundo,

  Relembrando a história antiga:

  Nem tanto quanto a cigarra,

  Nem tanto quanto a formiga.


   6 Em verdade, nunca vi,

  Em meus caminhos terrenos

  Quem não tenha um tanto mais

  Para dar a quem tem menos.


   7 Toda pessoa precisa

  De escoras, forças e meios,

  De maneira a não pesar

  Nos orçamentos alheios.


   8 Mas sovinice, meu caro,

  Na melhor definição,

  É o pesadelo da posse

  Com trevas no coração.


   9 Você recorda Nhô Bruno,

  Falecido em Miradouro;

  Sem corpo, dorme no pó,

  Julgando que dorme em ouro…


   10 Enterrou muita moeda,

  O nosso amigo Marçal,

  Desencarnado, é vigia

  Na barranca do quintal.


   11 Agora depois da morte,

  Alarico do Estaleiro,

  Anda buscando o colchão

  Em que prendia o dinheiro.


   12 Sem corpo, Nhá Benta Paula

  Hoje é um fantasma perfeito,

  Mora no armário das joias

  Que guardava sem proveito.


   13 Conquanto rica, Nhá Cota,

  Desencarnada em Cumbica,

  Vive na cova, pensando

  Que mora em mina de mica.


   14 Apegada nas baixelas,

  Morreu Nhá Joana de Deus,

  Sem corpo, vive agarrada

  Ao que ficou nos museus.


   15 Muito rico, mas sovina

  Finou-se Juca do Grampo,

  Comeu por economia

  Tatu ervado no campo.


   16 Falando em ouro e mais ouro

  Morreu Altino de Grotas,

  Mora no barro pensando

  Que está num montão de notas.


   17 Nosso prezado Nhô Tuca,

  Morto no Sítio dos Lessas,

  Vive com medo dos santos

  Aos quais fintava promessas.


   18 Prudência, caro Antonico,

  É paz na hora futura,

  Entretanto, sovinice

  De qualquer modo, é loucura.


   19 Trabalhe, faça proveito

  Do que ajuntou pelo bem,

  Saiba, sempre, antes de tudo,

  Que Deus não falta a ninguém.


Cornélio Pires


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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