Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Retratos da vida — Cornélio Pires


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Questão de comida

   1 Você procura saber,

  Meu caro Afrânio Caçula,

  O que sucede no Além

  Com quem se estraga na gula.


   2 Parece problema simples

  A questão que você traz

  E nela há muita questão

  De vida, saúde e paz.


   3 Você sabe, caro irmão,

  Viver de fome é impossível.

  Tudo o que anda e trabalha

  Precisa de combustível.


   4 Note a lição do automóvel:

  O carro, seja qual for,

  Se move é com gasolina

  Dosada para o motor.


   5 A roseira por mais linda

  Acaba mofina e tonta,

  Quando sente na raiz

  Adubo acima da conta.


   6 Assim também a pessoa

  Por mais robusta e mais forte,

  Se come quanto não deve

  Procura doença e morte.


   7 A gula sempre estrangula

  A paz de qualquer irmão,

  Conversando, além de tudo,

  À sombra da obsessão.


   8 Recorde: comia tanto

  O nosso Quinquim Peixoto

  Que acordou no próprio enterro,

  Buscando restos de esgoto.


   9 Tanto abusava de peixe

  O amigo Teotônio Pio,

  Que vive depois de morto

  Lançando rede no rio.


   10 Andava de prato grande

  Nhô Juca do Alagadiço,

  Agora desencarnado

  Tornou-se papa-chouriço.


   11 Aquela morte esquisita

  De Dona Rita da Estaca?

  Foi gula… Morreu comendo

  Veneno de jararaca.


   12 Outra morte… a de Antonico

  Na Fazenda Nazaré,

  Foi pesada indigestão

  Com carne de jacaré.


   13 Morreu comendo bichinhos

  Nhô Nico Boaventura,

  Sem corpo vive caçando

  Farofa de tanajura.


   14 Nhô Silvino, de repente

  Morreu no Sítio da Sobra,

  Comera de siriema

  Que havia comido cobra.


   15 Comia tanto, mas tanto

  Juquinha Paraguassu,

  Que hoje desencarnado

  Só pensa em frango e tutu.


   16 Nem gordura nem magreza

  Turvam a vida no Além,

  Cada qual anda na Terra

  Conforme o corpo que tem…


   17 Mas a comida em excesso

  Por hábito inveterado

  É tormento doloroso

  Que dá problema e cuidado.


   18 Viva muito e coma pouco

  Na paz que nos endireite,

  Nem na montanha do açúcar,

  Nem na cisterna do azeite.


   19 Há muita gente na Terra

  De prato pesado e fundo

  Que acampa no necrotério

  E volta aos pratos do mundo.


   20 Não se alarme no que digo,

  Por estas linhas gerais,

  Coma sempre o que precise

  É só não comer demais.


Cornélio Pires


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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