Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Revelação — Jair Presente


6


Carnaval

  1 Procurando distração,

  Fui, contente, ao carnaval!

  Muito ouvia em torno dele

  E quis vê-lo ao natural.


  2 Apelei para João Panca,

  Um prestimoso vizinho,

  Que não me deixasse a sós,

  Não queria estar sozinho.


  3 João concordou comigo,

  Era sempre o companheiro…

  E lá nós fomos, os dois,

  Ao passeio, dia inteiro.


  4 João falava na caridade,

  Mas a festa estava à espera;

  Era preciso seguir,

  Beneficência “já era”.


  5 Já que falava em virtude

  Chamei-o a ver Dona Bela,

  Que nos atirou um vaso,

  Pingando água amarela.


  6 Conquanto desapontado,

  Visitamos Dona Aninha,

  Que nos jogou sobre o peito,

  Duas “joias” de galinha.


  7 João mostrava-se amargurado,

  E como alguém que se poupa,

  Regressou à própria casa,

  A fim de trocar de roupa.


  8 Encontrei um grande praça,

  Léo, filho de Dona Esther;

  Ele pediu-me, alterado,

  Uma saia de mulher.


  9 Todo amigo dava gritos,

  Nessa festa sem sentido,

  Afirmava Dona Clara,

  Ter a calça do marido.


  10 Vi flautas e violões,

  Passando, em busca ao sem-fim,

  Muita gente me chamava,

  Ao lado dos tamborins.


  11 Um homem que carregava,

  Dois chocalhos, uma vara,

  Não sei se foi por querer,

  Esmurrou-me a própria cara.


  12 Carnaval representava,

  A festa do meu País,

  Por isso segui em frente,

  Tão forte quanto feliz.


  13 Era justo conhecer

  Uma festa semelhante,

  Por isso aceitei sem mágoa,

  A agressão extravagante.


  14 Fui buscar, querendo um grupo,

  O amigo Simão Veloz,

  Ele queria cantar,

  Mas “rugia” junto a nós.


  15 Meus amigos sempre muitos,

  Pareciam-me doentes,

  No entanto, não quis deixá-los,

  Ao vê-los irreverentes.


  16 Venci diversos empeços

  E fui ao Tino da Chalaça,

  Ele, porém, nem me viu,

  Estirado na cachaça.


  17 O povo todo dançava,

  E eu olhava sem remoque,

  Achava muito esquisita,

  A orquestra chamada Roque.


  18 Um homem sério abriu alas,

  Era o melhor dos Nicolas,

  Lembrava antigo palhaço,

  Exibindo Cabriolas.


  19 Perguntei a um guarda amigo,

  Que a ninguém queria mal,

  Só desejava saber,

  Se estava no carnaval.


  20 Ele disse:

  Olhe as crianças,

  Todas dançam recordando

  Nossas futuras mudanças.


  21 Vi um par, a longos beijos,

  Na sombra de velho muro,

  Como a dizer que o amor,

  Só se revela no escuro.


  22 Disse o amigo:

  — Se o senhor quer demorar-se,

  Procurando amigos maus,

  Dê-me logo oitenta paus.


  23 Dentre os quadros que anotei,

  Vi o mestre Manassés,

  Que dançava e requebrava,

  Da cabeça até os pés.


  24 Um conflito sucedeu,

  Vendo a filha de Nereu

  Nos braços de outra pessoa,

  Genuíno enlouqueceu.


  25 Achei-me desencantado.

  Eu que entrara reverente.

  A fim de largar o grupo

  Precisava ser valente.


  26 Retornei a nossa casa

  Meditando, por sinal,

  Se o carnaval que assistira,

  Que seria? bem ou mal?


  27 Pensei em meu pai distante,

  Minha mãe falou: — Na vida,

  O carnaval é loucura,

  Doença desconhecida.


Jair Presente


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir