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Pinga-fogo — Emmanuel — Entrevistas ©

 

Introdução

 

Um Pinga Luz na TV

A noite de 28 de Julho de 1971 foi diferente. Tornou-se uma noite histórica para São Paulo e para o Brasil. Muita gente até hoje se pergunta porque estava diante de um aparelho de TV, esperando o “Pinga Fogo” do Canal 4. E a resposta é difícil. Francisco Cândido Xavier, o médium psicógrafo de Uberaba, ia submeter-se aos entrevistadores. Tanto o programa como o médium eram por demais conhecidos. Há quarenta anos Chico Xavier vem sendo submetido a entrevistas de jornais, revistas, rádios e televisões. Tudo já se fez com o Chico, até mesmo entrevistas sensacionalistas, procurando submetê-lo ao ridículo. Nada havia demais em que Chico Xavier aparecesse de novo no Canal 4. Mas, apesar disso, a cidade de São Paulo se debruçou ansiosa sobre o vídeo. E não só a cidade, mas todo o Estado e suas adjacências, como o sul de Minas e o norte do Paraná.

A coisa mais difícil de se compreender é esse interesse antecipado. Católicos, protestantes, ateus, materialistas, gente que não é de nada e gente que é de tudo, pessoas indiferentes e espíritas em penca, todos estavam atentos. Era como se fosse acontecer algo de inesperado. E realmente aconteceu. Chico Xavier entrou no palco da TV Tupi com seu jeito humilde e simples de sempre. Escondeu-se depressa atrás da mesa. Haviam lhe posto uma peruca,  n  (talvez para atrapalhar) que juntamente com os seus óculos preto dava-lhe um ar estranho, parecia outro. Mas quando começou a falar, todos viram que era o mesmo. O Chico de ontem, de hoje e de sempre.

No início da fila dos entrevistadores estava um católico ilustre, jornalista, escritor, professor universitário, membro de instituições filosóficas do país e do exterior. Esperava-se que desfecharia uma série de perguntas atordoantes contra o pobre Chico. Os demais eram figuras conhecidas da nossa imprensa e das nossas letras. Hábeis repórteres entre eles, poderiam embrulhar o médium. Mas logo se verificou que Chico Xavier tinha assessores. Ele mesmo o declarou numerosas vezes. Não falava por si, mas com a assistência e a orientação de seu guia espiritual Emmanuel, além de outras entidades que o ajudavam. Assessores invisíveis, mas que valeram. Até um assessor científico parecia haver entre eles, pois Chico, às vezes, parecia um médico e, às vezes, um físico e até mesmo um cosmonauta.

Isso mostra que o povo tem intuições coletivas muito sérias. Toda aquela gente debruçada no vídeo de milhares de aparelhos de televisão havia percebido com antecedência, mas com absoluta certeza, que Chico ia dar um show mediúnico naquela noite.

E deu mesmo.

Não somente um show pessoal, mas coletivo, porque deu também um baile nos entrevistadores. Um baile em regra, com muita elegância e delicadeza, com uma classe de assustar. Chico ouvia, atento, e respondia a seguir com sua voz mansa de caipira mineiro, como quem não quer nada, num tom de conversa mole. E o show maior, então, empolgou São Paulo e depois o Brasil. Um verdadeiro show de luzes. Pingou luzes na TV, ao invés de fogo.

 

LABAREDAS POR TODA A PARTE

 

Nunca um “Pinga Fogo” depois de realizado ao uivo, teve o seu vídeo-tape transmitido mais duas vezes nos dias seguintes. Mas o de Chico Xavier teve essa sorte. O público pedia e a emissora atendeu. Mas além disso, houve a sua repercussão pelo Brasil todo. O vídeo-tape foi remetido ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste. Em vários lugares foi também repetido. Muita gente gravou os seus diálogos em gravadores e até hoje continua a ouvi-los.

O Diário de São Paulo, depois da publicação do resumo do “Pinga Fogo”pelo Diário da Noite, teve de publicá-lo por extenso em seu suplemento chamado Jornal de Domingo. Saíram depois exemplares mimeografados do “Pinga Fogo” e várias editoras eram solicitadas a lançar o texto num livro. É o que fazemos agora, para que as labaredas de luz espiritual que se acenderam por toda a parte continuem a iluminar o nosso povo.

Labaredas de luz? Sim, porque há labaredas de fogo e fumaça, labaredas trágicas e destruidoras, que assustam a gente. Mas as labaredas que o Pinga Luz do Canal 4 acendeu por toda a parte são da mais pura luz espiritual. Quem ler este volume com atenção sairá dele inteiramente iluminado.

Cada passagem do programa, cada página deste livro, cada diálogo travado entre o Chico e um entrevistador e cada resposta dada ao telespectador são como um jato de luz clareando o nosso entendimento. Chico Xavier não se orgulha nem se orgulhou disso. Constantemente encontramos no texto a sua afirmação de que não falava por si mesmo, mas pelos Espíritos que o assistiam.

Esse é o ponto central da questão, para o qual queremos chamar a atenção dos leitores. Não se poderia compreender o fenômeno Chico Xavier e a noite histórica de 28 de julho, sem a compreensão do problema mediúnico. Um médium é uma criatura que serve de intérprete entre o chamado mundo dos mortos e o chamado mundo dos vivos.

Os mortos (que na verdade estão mais vivos do que os chamados vivos) falam ao médium na linguagem do Céu e ele a traduz para a linguagem da Terra. O médium, portanto, é um intérprete. Foi por isso que Chico Xavier saiu-se tão bem na televisão, enfrentando questões as mais diversas. Suas respostas não eram dele, eram dos Espíritos, várias vezes ele disse que estava falando o que ouvia dos Espíritos.

Assim, o “Pinga Fogo” do Canal 4 não foi, naquela noite, um programa comum. Foi um programa realizado entre dois mundos. Os Espíritos participaram dele através da mediunidade de Chico Xavier. E o fizeram com tanto desembaraço que muita gente até hoje afirma que tudo aquilo foi mesmo do Chico. Sim, porque o médium não se modificava, não saía da sua simplicidade e da sua autenticidade.

Essa gente não sabe que o bom médium é assim mesmo. Que o bom médium é um bom intérprete e não necessita de trejeitos para dizer aos homens o que os Espíritos querem que seja dito.

Não foi fácil organizarmos o texto deste volume. Serviu-nos de piloto o material publicado pelo “Jornal de Domingo”. Mas aquele material está longe de oferecer o “Pinga Fogo”completo. O programa foi tão extenso e variado que nem mesmo o jornal interessado, apesar de seus imensos recursos técnicos, conseguiu reproduzi-lo na íntegra.

De nossa parte não temos também essa pretensão. Mas fizemos o possível para cobrir a maior área. Demos à matéria a disposição mais aproximada da realidade e completamos o que foi possível com a revisão de gravações de amigos.

 

QUESTÕES A ESCLARECER

 

Por que chamamos de histórica a noite de 28 de julho de 1971? Porque nessa noite tivemos um fato inusitado — os Espíritos comunicando-se com o povo numa sessão mediúnica realizada na televisão. E porque essa sessão produziu resultados que marcam novos rumos para o nosso povo. Milhões de criaturas, no Brasil inteiro, mudaram de posição diante da vida ouvindo o “Pinga Fogo”. Essa mudança foi um passo à frente, assinalando um momento decisivo nas grandes e profundas transformações por que passa o Brasil em nossos dias.

Contam-se por milhares os cépticos e os descrentes que se voltaram para o estudo dos problemas espirituais a partir daquela noite. O que se deu, pois, foi uma verdadeira revolução — uma revolução espiritual que abriu perspectivas imensas para o futuro.

Mas como provar que essa revolução realmente se deu? Basta vermos o número de jornais, revistas, estações de rádio e de TV que passaram a tratar dos problemas espirituais dali por diante. Basta dizer que Chico Xavier passou a ser colaborador permanente de um grande jornal diário, o “Diário de São Paulo”, e de uma grande revista semanal, “O Cruzeiro”, que publicam todas as semanas as mensagens mediúnicas do famoso médium. Basta, por outro lado, notar o interesse pelas questões espirituais que passou a dominar as conversas de rua e de casa, os debates públicos, as próprias assembleias políticas, os cursos universitários, e ao mesmo tempo o aumento de publicações, particularmente de livros sobre esses assuntos.

O Canal 4, naquela noite, transformou-se num quartel general. Comandou sem o saber um verdadeiro movimento revolucionário. Há um Brasil de antes e um Brasil posterior ao “Pinga Fogo” com Chico Xavier.

Não se podem avaliar ainda as consequências daquela noite. Mas já podemos senti-las ao nosso redor. As mentes se abrem para uma concepção nova, mais elevada e mais otimista, do homem e da vida, do mundo e do futuro. Muita gente que só esperava tragédias passou a vibrar noutra faixa, animando esperanças felizes. Chico Xavier liderou o futuro.

Agora podemos compreender melhor o otimismo espiritual de Humberto de Campos quando escreveu, através do Chico Xavier, aquele livro maravilhoso que é a plataforma da política espiritual de amanhã: Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

 

AS DÚVIDAS CIENTÍFICAS

 

Surgiram, porém, certas dúvidas científicas que poderiam aniquilar o êxito do “Pinga Fogo”. Nas reportagens posteriores lançadas por jornais e revistas apareceram opiniões de homens abalizados, pondo em dúvida a autenticidade da sessão mediúnica de 28 de julho. Esses senhores, muito respeitáveis e competentes, não foram, entretanto, prudentes como deviam. Opinaram geralmente sobre assuntos que desconhecem. Entenderam que existem impossibilidades científicas para a aceitação da realidade mediúnica.

Será mesmo assim? É o que vamos procurar pôr a limpo, de maneira rápida.

Já no próprio “Pinga Fogo” o ilustrado escritor Prof. João de Scantimburgo, pôs em dúvida a mediunidade de Chico Xavier, tentando explicar a psicografia pela tese científica da escrita automática. Ora, a escrita automática é conhecida no Espiritismo bem antes das pesquisas psíquicas a respeito. Scantimburgo insistiu no problema do inconsciente. A escrita automática seria uma manifestação do próprio inconsciente do médium.

Desde 1857 o Espiritismo colocou cientificamente (na Ciência Espírita) o problema das manifestações anímicas, ou seja, da própria alma do médium, produzidas através da escrita e por via oral. A descoberta do inconsciente por Freud, nos princípios deste século, e as pesquisas sobre a escrita automática na Psicologia, também da mesma época, só fizeram confirmar a tese espírita, depois de mais de meio século.

O Prof. Scantimburgo e os que mais tarde se manifestaram a respeito pensavam estar opondo uma tese científica ao Espiritismo, mas erravam redondamente. E curioso lembrar que quando Kardec publicou O Livro dos Espíritos, em que trata do assunto, Freud devia ter apenas um ano de idade, pois esse livro saiu em 1857 e Freud havia nascido em 1856…

Hoje a Parapsicologia, que o Prof. Scantimburgo citou erroneamente, já confirmou a diferença que o Espiritismo estabeleceu há mais de um século entre escrita automática e Psicografia. O caso de Chico Xavier é evidentemente de Psicografia (manifestação de espírito pela escrita) e nenhum especialista no assunto admite qualquer confusão do seu trabalho mediúnico com a escrita automática.

Uma revista descobriu um eletro-encefalograma de Chico Xavier e o publicou, acompanhado de interpretações de psiquiatras. Esses afirmaram que o eletro correspondia a um cérebro anormal. Houve mesmo quem dissesse que o Chico era epiléptico. Mas o eletro fora feito pelo próprio médico assistente do médium, o Prof. Dr. Elias Barbosa, lente da Faculdade de Medicina de Uberaba, com a finalidade de pesquisar, não a possível anormalidade do seu cliente, mas sim as ocorrências paranormais em seu cérebro privilegiado.

Essas pesquisas são uma constante da atual investigação parapsicológica mundial. Nenhum especialista confunde a disritmia funcional dos sensitivos ou médiuns com os casos patológicos.

Assim, como se vê, as interpretações científicas do caso Chico Xavier entre nós, com a pretensão de negar a sua psicografia, estão atrasados de um século e alguns anos. Aconselhamos os interessados a ler, para bem se informarem a respeito desse assunto, o Livro Parapsicologia Hoje e Amanhã, do Prof. J. Herculano Pires (presidente do Instituto Paulista de Parapsicologia) lançado por esta editora.

A mediunidade psicográfica de Chico Xavier é tão evidente que não se pode pô-la em dúvida, a menos que não se conheça a sua extensão e profundidade. Foi o que demonstrou o Prof. Scantimburgo quando perguntou ao médium, como se vê no texto do “Pinga Fogo”, se ele havia citado quatrocentos autores.

Não, Chico não citou, mas recebeu páginas e livros de mais de quinhentos autores brasileiros e estrangeiros. Sua obra mediúnica é um desafio a todos os que duvidam da nossa sobrevivência à morte do corpo e da comunicabilidade dos chamados mortos.

Quarenta anos de psicografia a serviço do amor, da paz, da compreensão entre os homens, da esperança, da fé, da dignidade humana! Onde está a Academia Sueca (em Estocolmo ou na Lua) que até agora não concedeu a esse homem o Prêmio Nobel da Paz?  n 

 

Trabalho elaborado pelo DEPARTAMENTO CULTURAL DA EDICEL

 


[1] Chico Xavier usa peruca.

[2] Em 1981, dez anos após, esse aspecto foi considerado.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.