Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


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Um [poeta] desconhecido


MEDITANDO

  1 Eu fui daquelas almas que viveram

  Sem conhecer da Terra os paraísos,

  Que somente a amargura dos sorrisos

  Pela noite das dores conheceram


  2 Não que eu fosse infeliz e desditoso,

  Pois fui também humano entre os humanos,

  E através dos meus dias, dos meus anos,

  Se eu quisesse gozar, teria o gozo.


  3 É que ao sentir no âmago do peito

  A atitude do homem nessa vida,

  Coração enganado, alma iludida,

  Afastado do Puro e do Perfeito,


  4 O meu ser que sonhara a Humanidade

  Qual um ramo de flores perfumosas,

  Viu as almas tremerem, desditosas,

  Sob o peso da própria iniquidade.


  5 E isolado nos grandes sofrimentos

  De ser só, na aspereza dos caminhos,

  Encontrei o prazer pelos espinhos,

  Ao trilhar os carreiros dos tormentos.


  6 Pois no mundo pequeno da minhalma,

  Quando em dor me envolvia a desventura,

  Eu vislumbrava a luz brilhante e pura

  Que me trazia a paz, bonança e calma:


  7 — Era a luz que me vinha da visão

  De ver o Cristo-Amor, entre cansaços,

  E tinha então prazer de ver meus braços

  Enlaçados na cruz da provação.


O NOBRE CASTELÃO

  1 No interior

  Do esplêndido alcaçar,

  Agonizava o senhor

  Dos domínios extensos.

  O dono do solar

  Nos espasmos intensos

  Da agonia,

  Em torno dirigia

  Um último olhar,

  E viu então

  O seu brasão

  Invicto e glorioso,

  Insculpido nas fúlgidas realezas

  Do castelo formoso,

  Transbordante de glórias e riquezas!


  2 Mais alongando a vista,

  Viu-lhe o feito da esplêndida conquista

  Nas grandiosas searas,

  Que em suas mãos avaras

  Foram armas cruéis, destruidoras,

  Martirizando as almas sofredoras.

  Contemplou seus tesouros passageiros,

  E em espasmos convulsos, derradeiros,

  Opresso o coração,

  Mergulhado no pranto mais profundo,

  Expirou para o mundo

  O nobre castelão.

  A sua alma despida das grandezas,

  Das terrenas, efêmeras realezas,

  Bem após o transcurso de alguns anos

  De triste letargia,

  Foi um dia

  Despertada em amargos desenganos:

  Conturbado por agros dissabores,

  Contemplou seu solar

  Ocupado por outros moradores…

  A exclamar,

  Estranhou revoltado,

  Que ninguém acudisse ao seu chamado.

  E em atitude austera,

  Tomado de energia,

  De cólera severa

  Já que ele era o senhor,

  Reclamou os seus servos com calor

  E, entretanto, nenhum lhe obedecia.

  Imerso em turbação,

  Somente, às vezes,

  Escutava nos ditos mais soezes

  Terrível maldição

  Das vítimas de antanho!

  E o sofrimento era tamanho

  Em ser incompreendido,

  Que se julgou perdido

  Irremissivelmente.

  Assim, constantemente,

  Durante o transcorrer de muitos dias.

  Conservou-se naquelas cercanias

  Como presa feroz

  Do sofrimento atroz.

  De contínuos pesares e agonias…

  Todavia,

  O pobre sofredor,

  No auge do amargor,

  Recordou-se que havia

  Um Pai Onipotente

  E cheio de fervor,

  Humilde penitente,

  Implorou seu amor

  Numa súplica em lágrimas de pena.

  Sua alma sofredora

  Sentiu-se então mais calma e mais serena,

  Penetrada de doce claridade,

  De luz confortadora,

  Que provinha de alguém

  Que lhe fazia

  Meditar na grandeza da Verdade

  E lhe dizia

  Da beleza do Amor, da Luz, do Bem: —

  «O que sofres, amigo, é a consequência

  Da equívoca existência

  Que levaste,

  Já que sem piedade aniquilaste

  Muitas almas e muitos corações,

  Que hoje te envolvem os lúridos momentos

  Em rudes sofrimentos

  E estranhas maldições.


  3 Porque ocultaste as flores formosas

  Que na Terra colheste,

  Flores lindas que nunca ofereceste

  Às almas desditosas?

  Porque não concedeste um só bocado

  Do teu pão abundante

  Ao pobre esfomeado?

  Ocupando-te em gozo, a todo o instante,

  Jamais vestiste os nus, nem consolaste

  Aquele que sofria;

  Desprezavas o fraco e nunca amaste

  Quem de ti carecia!

  A caridade,

  O sentimento-luz, a flor-tesouro,

  Não tiveste em teus dias de maldade

  No grande sorvedouro!

  Porém, o Deus de Amor

  É sempre o magnânimo Senhor,

  E permite que voltes aos humanos,

  Para que se dissipem teus enganos

  No amargor;

  Voltarás,

  Porém, já não terás

  Efêmeras venturas,

  Serás agora escravo e não senhor…

  Conhecerás

  As dores e amarguras,

  As mágoas escabrosas

  Pelas estradas rudes e espinhosas!


  4 Abençoa o Senhor

  Que te concede a dor,

  Para assim compreenderes

  Que os reais e legítimos prazeres

  Que da vida nos vêm.

  Não residem no Mal e sim no Bem.»


NESGA DE CÉU

  1 A alma extasiada

  Sobe… sobe…

  Há toda uma amplidão iluminada

  À sua vista…


  2 A estrada

  É uma etérea alfombra

  Sem resquícios de sombra!

  É o domínio da luz que ela conquista!


  3 Vibra no ar

  Dulcíssima harmonia,

  Como se fora feita

  De luar,

  De alegria…

  De alegria perfeita.


  4 Parece um hino de amor

  Dos Paganinis siderais,

  A ventura, o fulgor.

  Transformados em notas musicais.


  5 Além, fulguram sóis;

  Em tudo há um misto

  Nunca visto

  De manhãs e arrebóis.


  6 Aos clarões dessa aurora.

  A alma chora

  Em êxtase profundo.


  7 E lembra-se que sofreu,

  Que amou, que padeceu.


  8 Ao longe, muito ao longe,

  O mundo

  É um ponto negro que gira…


  9 Ainda além, mais além,

  A Via-Láctea transluz,

  Como um éden de luz

  E de amor.


  10 Nesgas do céu, imagens de esplendor,

  Cenários majestosos,

  Soberbas harmonias

  Nos mundos luminosos!


  11 Seres que passam rápidos, flutuantes,

  Sorridentes, radiantes,

  Nos espaços sem termos, onde a vida

  É a imortalidade

  Anelada, querida,

  De pureza, de beleza,

  De perfeição e de felicidade!


  12 Em baixo as vastidões,

  Em cima, as emoções

  Do Ilimitado.


  13 Atrás a noite e as mágoas de agonia

  Do passado;

  E, em frente,

  Um futuro esplendente

  Pintalgado de rosas,

  Da mais pura alegria.


  14 Feito de éter, de sonho,

  O caminho é risonho,

  Recamado de flores perfumosas.


  15 Melodia, luz, aroma!…

  De repente,

  Numa nesga de céu resplandecente

  Assoma

  Uma rútila esfera,

  Como um país de doce primavera,

  Intérmina de gozos!…


  16 A alma se extasia

  Na luz do Eterno Dia.

  Com os pensamentos puros e radiosos,

  Ora a Deus:


  17 Recorda em prece os sofrimentos seus,

  Evoca as lágrimas vertidas!

  Contempla panoramas de outras vidas,

  Vidas de estranha dor…


  18 Mas cada gota amarga dos seus prantos


  19 Agora

  É um raio de aurora,

  Que um a um

  Vão formando uma auréola

  De brilhos santos,

  Que a engrinalda de luz.


  20 Em suavíssima unção,

  A pobre alma orando,

  Chorando,

  Nessa prece

  Reconhece

  A alvorada de sua redenção!


Anônimo


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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