Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


35


João de Deus


Nascido em S. Bartolomeu de Messines, Portugal, em 1830, e desencarnado em 1896, afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. Nestas poesias palpita, de modo inconfundível, a suavidade e o ritmo da sua lira.


As lágrimas

1 Desci um dia
Ao sorvedouro
Da atra agonia
Da Humanidade,
A procurar,
A perscrutar
Qual a verdade,
Qual o tesouro
O mais profundo,
Que neste mundo
O homem prendesse
E o retivesse.


2 E vi, então,
No coração
Da criatura,
Só a ilusão
Duma ventura.


3 E vi senhores
Que dominavam
E se orgulhavam
Do seu poder,
Sempre a abater
Os desgraçados.


4 Os potentados
Com seus valores
Bem se julgavam
Onipotentes,
Heróis valentes
Cá nesta vida…
Depois, porém,
Reconheceram
E viram bem
Nesta existência
Toda a impotência
Do deus-milhão,
Perante a mão
Da fria dor,
Que lhes domava
E lhes dobrava
O torpe egoísmo.


5 Busquei os lares,
Ricos solares
Dos protegidos,
Onde o conforto
Para a matéria
Anda em contraste
Com atroz miséria
Dos desvalidos.
E ainda aí
Não pude achar
O que eu ali
Fui procurar.


6 Eu vi mulheres
Nos seus prazeres,
Jovens e belas,
Alvas estrelas
De formosura,
Rindo e cantando
Dentro da noite
Da desventura.
Pobres donzelas,
Fanadas flores…
Luz sem fulgores,
Que, miseráveis
Párias da vida
Deixam o teto
Do seu afeto
Maior, supremo,
Insuperável.
Somente encontram
Dores que afrontam,
Mágoa insanável,
Incompreendida!


7 E penetrei
Pelos castelos
Dourados, belos,
Das diversões,
Onde se aninha
E se amesquinha
A multidão
Que busca rir,
Gozar, sorrir,
A ver se esquece
O que padece,
Julgando crer
Que está a ver
O paraíso.
Mas este riso,
Ao som da festa,
À meia luz,
É o que produz
Todo o amargor,


8 A maior dor,
Pois eu ali
Tristonho vi
O que em verdade
É a sociedade;
Só pensamentos
Das impurezas,
Só sentimentos
Que trazem presas,
Aniquiladas,
E esmagadas,
Ensandecidas
As criaturas
Outrora puras,
Belas outrora,
No entanto agora
Flores perdidas,
Almas impuras,
Desiludidas!
Nesse recinto
Eu vi, então,
A traição,
A iniquidade,
A grosseria,
Toda a maldade
Da hipocrisia;
E tudo, enfim,
Tristonho assim,
Dissimulado,
Falsificado
No fingimento
Que aparecia
No barulhento
Rumor de vozes,
Notas atrozes,
De uma alegria


9 Jamais sentida,
Desconhecida
Naquele meio.


10 Eu contemplei-o
Cheio de horror
E vi que as flores,
As pedrarias
Tão luminosas,
Eram sombrias,
Eram trevosas,
Pois só cobriam
Míseros trapos,
Pobres farrapos
De almas perjuras
Ao seu Criador,
Fracas criaturas
Baldas de amor.
E, condoído,
Desiludido,
Desanimado,
Num forte brado
Disse ao Senhor:


11 «Onipotente
Pai de Bondade,
Oh! tem piedade
Dos filhos teus
Que choram, gemem,
Pálidos tremem
Ó Senhor Deus!
Faze que a luz
Do bom Jesus
Penetre a alma
Na Terra aflita,
Dando-lhe a calma
Que necessita.
Só conheci
E encontrei,
Só contemplei
O mal que vi.»


12 Mas uma voz
Do azul do Céu,
Pronta e veloz,
Me respondeu:


13 «Filho bendito
Do meu amor,
Sou teu Senhor,
E no Infinito
Tudo o que fiz,
Nada se perde,
Assim tornando
O ser feliz.
Contempla, ainda,
A Terra linda
E então verás,
Donde provém
A grande paz,
O sumo bem.
O grão tesouro,
Mais fino ouro
Dos filhos meus,
Está na luta,
Nos prantos seus,
Que lhes transforma
A alma poluta
Num ser radioso,
Astro formoso
De pura luz!»


14 Eu ajoelhei
E contemplei
As multidões
Atropeladas,
Desenganadas
as perdições.
Vi transformadas
Todas as cenas;
Em todos seres,
Homens, mulheres,
Jovens, crianças,
Nas grandes penas,
Nas esperanças,
Por entre a luz,
Por entre flores,
Brotar a flux
No coração
De cada ser,
Em profusão,
Gotas pequenas
Como as brilhantes
Luzes serenas
Das madrugadas
Primaveris.


15 Reconheci
Que por aí
Na escura Terra
Onde eu amei,
Sorri, chorei,
Onde sofri
E onde eu vi
A dura guerra,
A amarga dor,
Lágrimas belas,
Gotas singelas,


16 Meigas, serenas,
Eram açucenas
De fino olor
Do espaço azul!


17 Depois, eu vi
Que os que as vertiam
Por este mundo,
Vale profundo
De mágoa e dor,
Quando voltavam
Do seu exílio,
Eram saudados
Por mensageiros
De amor e luz
Do bom Jesus,
Que os coroavam
Com gemas finas,
Joias divinas
Do escrínio santo,
Primor de encanto
Do amor de Deus.


18 Fui então vendo,
Reconhecendo
Que aqui nos Céus,
Lágrimas lindas
São transformadas,
Remodeladas
Para formarem
Belo diadema
E aureolarem


19 Os que as verteram
Aí na Terra.


20 E vi, então,
Em profusão,
Gemas brilhantes,
Alvinitentes,
Ricas, fulgentes
E deslumbrantes,
Que nem Ofir
Pôde possuir.


21 Sejam benditas,
As pequenitas
Gotas de pranto,
Orvalho santo
Do amor divino
Que dá ventura,
Tranquilidade,
Felicidade
Ao peregrino.
Bendito o Pai,
O Nosso Deus
Que abranda o ai
Dos filhos seus;
Que a alegria
E a paz envia
À Humanidade
Tão sofredora,
Com a lágrima bela,
Luzente estrela
Consoladora!




O Céu

1 Pátria ditosa e linda, e onde o mal
Desaparece ao meigo olhar do Amor,
Que entre os seres do Além é sempre igual,
No mesmo anseio santo e superior!


2 Lá não se vê traição e cada qual
Urde ali sua auréola de esplendor,
Doce Mansão de Paz, imaterial,
Onde impera a bondade do Senhor!


3 Porto de Salvação para quem crê
Nessa Praia do Azul, que se antevê,
Pelo poder da Fé, na provação;


4 País dos Céus, aonde o pecador,
Depois de bem sofrer aí a dor,
Vai ali encontrar Consolação.




Morrer

1 Não mais a dor intensa e desmedida
No momento angustioso de morrer,
Nem o pranto pungente por se ver
Um ser amado em horas da partida!..


2 A morte é um sono doce; basta crer
Na Paz do Céu na Terra apetecida,
Para se achar o Amor, a Luz e a Vida,
Onde há trégua à tristeza e ao padecer.


3 Venturosa região do espaço Além,
Onde brilha a Verdade e onde o Bem
É o fanal reluzente que conduz;


4 Mansão de claridade e pulcritude,
Onde os bons, que adoraram a Virtude,
Gozam do afeto extremo de Jesus.




O mau discípulo

1 Era uma alma
Formosa e bela:
Fúlgida estrela
De puro alvor,
Que habitava
Qual uma flor
O espaço infindo,
Imenso e lindo,
Nessas regiões
Onde há mansões
Purificadas,
Iluminadas
Do Criador.


2 Porém, um dia,
Disse Jesus
A quem vivia
Em meio à luz:


3 «Filho querido,
Estremecido,
Dos meus afetos!
Tu necessitas
Buscar a Vida
Em meio às vagas
Das provações!
Dentro das lutas,
Tredas disputas
Do Bem, do Mal,
É que verei
Se o que ensinei
Ao teu valor,
Aproveitaste
E assimilaste
Em benefício
Da lei do amor,
Do sacrifício!…
Tens a fraqueza
Da imperfeição;
Aqui, porém,
Já te mostrei
A lei do amor,
Luz do Senhor —
O sumo bem.


4 Tu lutarás,
Mas vencerás
Se bem souberes
Te conduzir
Nesses caminhos
Entre prazeres,
Risos e flores,
Por entre espinhos,
Mágoas e dores…
E se aprenderes
Saber viver,
Sorrir, sofrer,
Conquistarás
A grande paz,
A grande luz
Que eu, teu Jesus,
Reservarei
E hei-de guardar
Para a tua alma,
Ao regressar.


5 A dor, somente
A luta amara
Lá nos prepara
Para vivermos,
Tranquilamente,
Nessas moradas
Iluminadas
Do nosso Pai!
Luta e trabalha
Singelamente
Nessa batalha
Que te ofereço,
Pra conquistares
A luz, o amor
Do teu Senhor.
Tu viverás
Entre os brasões
Das ilusões
Da Terra impura;


6 Conhecerás
Lindas riquezas
Iluminando
E te ensinando
O bom caminho,
A boa estrada
E com carinho
Sempre a mostrar-te
A caridade
Com toda a luz
Que ministrei
Ao teu pensar,
E ora conduz
Teus sentimentos,
Teus pensamentos,
À perfeição
Do coração.


7 Caminha avante,
Na deslumbrante
Rota do amor!
Espalha o olor
Que já plantei
E fiz brotar,
Que cultivei
Dentro em teu ser.
Sê sempre amigo
Dos sofredores.
Dos que padecem
Sem conhecer
Sequer abrigo
Onde isolar-se,
Onde guardar-se
Das fortes dores
Que acometem
Os sofredores.


8 Sê a Bondade
Entre a maldade
Dos homens feros,
Ambiciosos,
Frios, austeros,
Pecaminosos.


9 Se assim fizeres
E procederes,
Sempre cumprindo
Os teus deveres,
Tornar-te-ás
Em verdadeiro
Anjo da paz,
Em mensageiro
Do Deus de amor.
Assim darás
À Humanidade
O testemunho
Da caridade
Do teu Senhor!»


10 A alma formosa
Então desceu
Para lutar,
A conquistar
Maior ventura,
Rútila e pura
Aqui no Céu.


11 Então, nasceu
Num lar ditoso,
Régio, faustoso,
Dos venturosos,
Onde a alegria
Reinava, e ria
Constantemente,
Proporcionando
À rica gente
Que o habitava
Os belos gozos,
Lindos, formosos,
Mas irreais,
Desses palácios
Materiais.
Ainda criança,
Era adorado,
Felicitado
Nessa abastança;
Naquele lar,
Rico alcaçar
Dos abastados.
Ele então era
A primavera
Dos áureos sonhos
Dos pais amados!


12 Assim cresceu,
Belo esplendeu,
Na mocidade.
Ganhou saber
Nobilitante,
À luz brilhante
Dessa ciência
Que, na existência,
Por planetária,
Faz com que a alma
Se torne egoísta
E refratária
À lei de Deus.
Tornou-se esquivo,
Cruel e altivo
À Humanidade,
Não praticando
Mas renegando.
A caridade.


13 O que aprendera
No Infinito
E prometera
Ao bom Jesus,
Tudo esquecera
Em detrimento
Do sentimento
Que então trouxera,
Cheio de luz.
Refugiou-se
Na vã Ciência,
Despreocupou-se
Com a consciência.
Na Academia
Dos homens sábios,
Ele esplendeu
No vão saber;
O infeliz ser
Viveu dos lábios,
Seu coração
Jamais viveu!
Foi uma flor,
Mas sem olor;
Fulgiu, brilhou,
Mas renegou
A lei do amor.
E da existência
Da própria alma
Por fim descreu,
A relegar,
Como um ateu,
Filho do Mal,
A imensa luz
Espiritual.


14 Foi refratário
Ao próprio afeto
Dos pais que o amavam
E idolatravam
Com mór ternura,
Dele esperando
Sua ventura.
Os próprios filhos,
Suaves brilhos
Da nossa vida,
Nossa esperança
Encantadora,
Os desprezou,
Somente amando
Sua ciência
Enganadora.
Só procurou
Brilhar, fulgir;
Nunca buscou,
Assim, cumprir
Sua missão.


15 Sempre espalhou,
Em profusão,
Suas ideias
Tristonhas, feias,
Do ateísmo
Desventurado.
Nunca estancou
Uma só lágrima;
Nunca pensou
Uma ferida,
Que brota nalma
Desiludida;
Não consolou
O que sofria.
De quem fugia
Sem compaixão!
Enfim, viveu
Só na Ciência,
Nessa existência
Que passa breve!…
O ingrato teve
Mil ocasiões
De praticar
Boas ações
E espalhar
O amor e a luz
Que o bom Jesus
Lhe concedera:
Mas, infeliz,
Jamais o quis.


16 Porém um dia,
A Parca fria,
A morte amara,
Cruel, avara
E dolorosa,
O arrebatara
Nessa escabrosa
Escura via,
E o conduziu
Para o Infinito,
Onde, num grito,
Ele acordou
Do seu letargo,
Do sono amargo
Em que viveu.


17 Ao descerrar
O negro véu
Do esquecimento,
Sentiu seus olhos
Enevoados,
Tristes abrolhos
No pensamento!
Olhou o abismo
Do pessimismo
Em que vivera,
Por onde sempre
Se comprazera.


18 Sentiu-se, então,
Abandonado,
Amargurado
Na aflição!
Somente, assim,
Dentro da dor,
Lembrou de Deus,
Do seu amor,
A implorar
Da luz dos Céus
Consolação!


19 Das profundezas
Do coração,
Íntima voz
Disse-lhe então:


20 «Ó mau discípulo,
Em quem eu pus
Todo o esplendor
Da minha luz,
Do meu amor!
Tu te perdeste
Por teu querer,
Pelo viver
Que demandaste.
Jamais soubeste
Te conduzir,
E assim cumprir
O teu dever.
Por isso, agora,
Minhalma chora
Ao ver que és
Mísero ser.
Tu renegaste
E desprezaste
A inspiração
Do Deus de Amor!
Tua missão
Que era amar
E assim curar
A alheia dor,
Em luz perdida,
Foi convertida
Em fero braço
Esmagador.
O grande amor
— Fraternidade,
Que então devias,
Entre alegrias,
Oferecer
À Humanidade,
O abafaste
Como se fosse
Assaz mesquinho,
Quando só ele
É o caminho
Que nos conduz
À salvação,
À perfeição,
À região
Da pura luz!


21 Sempre esqueceste
Os teus deveres.
Dos próprios seres
Que te adoravam,
Que mais te amavam,
Foste inimigo,
E até negaste
A existência
Da própria alma,
A consciência!
Constantemente,
Continuamente
Foste um ingrato
E eu te julgara
Um lutador
Intimorato!…»


22 Calou-se a voz
E o pranto atroz
Jorrou, então,
Do coração
Do miserável,
Ser execrável
Que não soubera
E nem quisera
Compreender
O seu dever.
Entre lamentos
E dissabores,
Padecimentos,
Frios horrores,
Ele chorou
E lamentou,
Por muitos anos,
Seus desenganos
Na senda triste,
Fatal, amara,
Que assim trilhara
Na perdição.
Envergonhado,
Espezinhado
Na sua queda,
Correu sozinho
O mundo inteiro,
Qual caminheiro
A quem negassem
Um só carinho.
Perambulou
Qual Aasvero,
Sofreu, clamou,
Supliciado;
E, muitas vezes,
O seu olhar,
Amargurado,
Triste pousou
Sobre o lugar
Onde pecou.
A pobre mão
Sempre estendeu
Pedindo o pão,
Pedindo luz,
A lamentar
A sua cruz!
Jamais alguém
Quis escutá-lo;
O mesmo bem
Que ele fizera,
Assim lhe era
Retribuído…
E o pobre Espírito
Desiludido,
Desanimado,
Desamparado,
Só encontrava
Consolação
Nas lágrimas tristes
Que derramava
Em profusão.


23 Até que um dia
Em que sofria,
Mais padecia
A dor feroz,
Cruel e atroz,
A alma triste
E solitária,
Exprimentada,
Extenuada
No atro sofrer,
Cheia de unção
Por entre prantos,
Formosos, santos,
Disse ao Senhor
Numa oração:


24 «Ó Mestre Amado,
Sei que hei pecado
E transgredido
As tuas leis,
Tendo comigo
A tua luz,
Ó bom Jesus!
E mesmo assim,
Eu me perdi
Por meu querer,
Pois não cumpri
O meu dever!..
Fui a grilheta
Da impiedade,
Pobre calceta
Da iniquidade.
Mas tu que és bom,
Tão justo e santo,
Sabes do pranto
Das minhas dores,
No meu viver
Sem luz, sem flores,
E hás-de acolher
Minha oração
Cheia de fé!…
Dá-me o acúleo
Da expiação,
Para que seja
Exterminado
O meu orgulho.
Oh! dá-me agora
A nova aurora
De uma existência
De provação.
Quero sofrer
Dura pobreza,
Sempre viver
Na singeleza.
O meu desejo
É só voltar
À Terra impura
Onde eu pequei,
Para ofertar
À criatura
O grande amor
Que lhe neguei.
Não quero ter
Nem um só dia
Dessa alegria
Que desfrutei,
Mas só trazer
No coração
Todo o amargor
Da privação.
Não quero ver
O dealbar
De uma esperança;
O próprio lar,
Onde se encontra
Maior ventura,
Não quero ter;
Nunca, jamais,
Hei conhecer
O que é sorrir!
Quero existir
Desconhecido,
Incompreendido
Em minha dor;
Então serei
Ramo perdido,
Árido e seco
Pelo vergel
Enflorescido.
Conhecerei
A dor cruel
Que nos retalha
O coração.
Nessa batalha
Que empreenderei,
Quero ganhar
E conquistar
A luz, o pão,
O agasalho,
Com meu trabalho.
Eu só almejo
Compreensão
Para mostrar
O teu perdão,
Claro e sublime
Para o meu crime,
Ó bom Jesus,
Ó Mestre Amado! —
Eu lutarei
E chorarei
Nas rijas dores
Mais inclementes,
Nos turbilhões
Incandescentes
Das amarguras,
Cruéis e duras
Das aflições.
Agora eu vejo
Que na existência
A grã ciência
Só é grandiosa,
Só é formosa,
Quando aliada
Da caridade,
O puro amor.
Quero com ardor
Bem conquistar
A perfeição!
Serei, portanto,
Neste planeta,
Como a violeta
Sob a folhagem…
Viver somente
Pela voragem
Das desventuras.
Quero sofrer
Com humildade,
E sempre ter
Em mim bondade,
Feliz dulçor
Da caridade!…»


25 E o Mestre Amado,
Compadecido
Do pobre Espírito
Dilacerado,
Enfim, perdido,
Deu-lhe o perdão,
A permissão
Para voltar
À antiga arena —
Luta terrena,
Oferecendo-lhe
Ocasião
Para tornar-se
Mais venturoso
E sempre digno
Do seu perdão.


26 Seja bendito,
Pelo infinito
Desenrolar
E perpassar
De toda a idade,
O bom Jesus,
Que, com sua luz
E terno amor,
Escuta a prece
De quem padece,
Fazendo assim
Desabrochar
O dealbar
Das alvoradas
Iluminadas
De muitas vidas,
Belas, queridas,
Para lutarmos
E nos tornarmos
Dignos do Amor
Inigualável,
Incomparável,
Do Criador!




Na estrada de Damasco


1 Num certo dia
A Ambição,
De parceria
Com o Orgulho,
Chamou o homem
Jactancioso,
Rude e cioso
Do seu poder
E vão saber,
E assim lhe disse:


2 «Homem, tu és
Senhor potente,
Grande e valente
Aqui no mundo;
E se quiseres
Tornar-te um rei
Da imensa grei
Da Criação,
É só viveres
A procurar
Mais dominar
Os elementos
A transudar
Nos sentimentos.
Maior coragem
Para ganhares
Sempre vantagem
No teu viver,
E conquistares
Sempre o poder
Dos triunfantes.
Aos semelhantes
Em vez de amá-los
Tais como irmãos,
Faze-os vassalos
No teu reinado,
Glorificado
De grão-senhor!»


3 E o pecador,
Ser imperfeito
Se achasse embora,
A seu agrado,
Bem satisfeito,
Foi sem demora
Então chamado
Por um juiz
De retidão,
Que é a Consciência,
Nesta existência
De provação,
Que então lhe diz:


4 «Mas, e o bom Deus
Que está nos Céus,
Que tudo vê,
Sabendo assim
Quanto a tua alma
Dele descrê?
Ele é o teu Pai,
O Criador,
O Deus de amor.
E o bom Jesus,
Nosso Senhor,
Mestre da luz,
O Filho amado
Que à Terra veio,
A este mundo
Ingrato e feio
A redimir,
E assim banir
O teu pecado?


5 Ele te amou
E te ensinou
Que ao teu irmão
Tu deves dar,
Nunca negar
A tua mão;
E espalhar
Somente amor,
A relegar
Toda a maldade,
Para que um dia
Te fosse dado
Reconhecer.
Com alegria,


6 O solo amado
Do eldorado
Dos belos sonhos,
Lindos, risonhos,
Do teu viver.
Assim, procura
Melhor ventura
Em só buscar,
Acompanhar,
Seguir Jesus
Em sua dor,
Em seu amor,
Em sua cruz!»


7 Mas, o tal homem
Tão orgulhoso,
Que já se achava
Bem poderoso,
Achou estranho
Esse conselho:
Rigor tamanho
Não poderia;
Isso seria
Obedecer
E se humilhar;
E ele havia
Aqui nascido
Só para ser
Obedecido,
Tendo o poder
Pra dominar.
Assim, buscou
E perguntou
Aos companheiros;


8 Eles, então,
Lhe responderam
No mais profundo
Do coração:


9 — «Esse conselho
É muito velho!
Deus é irrisão.
E o tal Jesus,
Com sua cruz
E seu calvário,
Somente foi
Um visionário.
Enquanto ele
Só te oferece
Amargas dores,
Desolações,
Tristes agruras,
Cruéis espinhos,
Nós concedemos
Ao teu valor
De grão-senhor
Sublimes flores,
Lindos brasões,
Grandes venturas
Nesses caminhos.


10 Quem mais souber
Gozar e rir,
Mais saberá
O que é existir.
A vida aqui
Só é formosa
Para quem goza;
E pois, assim,
Vale o gozar
Constantemente,
Pois vindo a Parca
Bem de repente,
Há-de levar
Esse teu sonho
De amar, sofrer,
Ao caos medonho
Do mais não-ser;
Porque a morte
Tão renegada,
Essa é apenas
O frio nada.
O louco amor
Do teu Jesus,
Exprime a dor
E não a luz.»


11 E assim, quando
O homem fraco
E miserando
Mais se exaltou
E se jatou,
Onipotente,
Chegou a Dor
Humildemente,
A lapidária,
A eterna obreira,
A mensageira
Da perfeição,
Nessa oficina
Grande e divina
Da Criação;
Fê-lo abatido
E desolado,
Até enojado
Do corpo seu:
Apodreceu
O seu tesouro.


12 E o homem-rei
Reconheceu
Que o paraíso
Dos sãos prazeres
Vive nas luzes
Só da virtude,
No cumprimento
Dos seus deveres,
Na humildade,
Na caridade,
Na mansuetude,
Na submissão
Do coração
Ao sofrimento,
Quando aprouver
Ao Deus de Amor
Oferecer
Rude amargor
Ao nosso ser.


13 Depois, então,
De mui sofrer
E padecer
Na expiação,
Reconheceu
A nulidade,
A fatuidade
Da vil matéria!


14 Na atroz miséria
Dessa agonia,
Só procurou
Buscar se via
Os seus mentores
Enganadores,
Altivos filhos
Da veleidade


15 Só encontrou
O juiz reto,
O Magistrado
Incorrutível
Da consciência,
E que, num brado
Indescritível,
Em consequência,
Lhe fez com ardor
Ao coração
Ermo de afeto,
Ermo de amor,
A mais tremenda
Acusação!


16 É o que acontece
Em toda a idade,
Com a maioria
Da Humanidade;
Pois sempre esquece
Os seus deveres
E se submerge
Nos vãos prazeres.
Para a alegria
Fatal converge
O seu viver,
Para o enganoso,
Efêmero gozo
Do material,
A esquecer
Tudo o que seja
Espiritual.
Feliz de quem
Aí procura
Maior ventura
No sumo bem;
Porque verá,
Contemplará


17 Todo o esplendor,
A eterna luz,
Do eterno amor
Do bom Jesus.




Parnaso de Além-Túmulo


1 Além do túmulo o Espírito inda canta
Seus ideais de paz, de amor e luz,
No ditoso país onde Jesus
Impera com bondade sacrossanta.


2 Nessas mansões, a lira se levanta
Glorificando o Amor que em Deus transluz,
 Para o Bem exalçar, que nos conduz
À divina alegria, pura e santa.


3 Dessa Castália eterna da Harmonia
Transborda a luz excelsa da Poesia,
Que a Terra toda inunda de esplendor.


4 Hinos das esperanças espargidos
Sobre os homens, tornando-os mais unidos,
Na ascensão para o Belo e para o Amor.




Angústia materna


1 «Ó Lua branca, suave e triste,
— A Mãe pedia, fitando o céu —
Dize-me, Lua, se acaso viste
Nos firmamentos o filho meu.


2 A Morte ingrata, fria e impiedosa,
Deixou vazio meu doce lar,
Deixou minhalma triste e chorosa,
Roubou-me o sonho — deu-me o penar


3 Se tu soubesses, Lua serena,
Como era grácil, que encantador
Meu anjo belo como a açucena,
Cheio de vida, cheio de amor!… »


4 Disse-lhe a Lua — «Eu sei do encanto
Dum filho amado que a gente tem;
E das ausências conheço o pranto,
Oh! se o conheço, conheço-o bem!…»


5 — «Então, responde-me sem demora,
Continuava, sempre a chorar:
Em qual estrela cheia de aurora.
Foi o meu anjo se agasalhar?…»


6 — «Mas não o avistas — responde-lhe ela —
Naquela estrela que tremeluz?
Abre teus olhos… É bem aquela
Que anda cantando no céu de luz.»


7 E a Mãe aflita, martirizada,
Fitou a estrela que lhe sorriu,
Sentiu-lhe os raios, extasiada,
E dos seus cantos, feliz, ouviu:


8 — «Ilha pacífica, da esperança,
Sou eu no mar do éter infindo;
Do sofrimento mato a lembrança
E abro o futuro, ditoso e lindo.


9 Do Senhor tenho doce trabalho,
Missão que é toda só de alegrias:
Flores reparto cheias de orvalho,
Flores que afastam as agonias.»


10 — «Quase te odeio, luz de alvorada,
Ó linda estrela que adorna o céu,
Gritou-lhe a pobre desconsolada,
Porque tu guardas o filho meu.»


11 — «Se tu me odeias, se me detestas,
Contudo eu te amo e pergunto: quem
Não tem saudades das minhas festas?
O teu anjinho teve-as também.


12 Em mim a noite não tem guarida,
Aqui terminam os dissabores;
Aqui em tudo floresce a vida,
Vida risonha, cheia de flores!…»


13 A mãe saudosa, banhada em pranto,
Notou de logo seu filho lindo,
Todo vestido dum brilho santo,
Num belo raio de luz, sorrindo…


14 Disse-lhe o filho — «Tive deveras
Muita saudade, mãezinha amada,
Senti a falta das primaveras,
Senti a falta desta alvorada!…


15 Não resisti… Tanta era a saudade!
Voltei do exílio, fugi da dor,
Aqui é tudo felicidade,
Paz e ventura, carícia e amor!


16 Ó mãe, perdoa, se mais não pude
Ficar contigo na escuridão,
A Terra amarga, tristonha e rude,
Envenenava meu coração.


17 Aqui, na estrela, também há fontes,
Jardins e luzes e fantasias,
Sóis rebrilhando nos horizontes,
Sonhos, castelos e melodias.


18 Daqui te vejo, daqui eu velo
Pelo sossego dos dias teus;
Faço-te um ninho ditoso e belo,
Muito pertinho do amor de Deus!…»


19 Aí os olhos da desditosa
Nada mais viram do Eterno Lar.
Viu-se mais calma, menos saudosa,
E, estranhamente, pôs-se a chorar…




Lamentos do órfão

1 Minha mãezinha, alguém me disse,
Que tu te foste, triste sem mim;
Já não me embala tua meiguice,
E não podias partir assim.


2 Eu acredito que tenhas ido
Pedir a Deus, que possui a luz,
Que de mim faça, do teu querido,
Um dos seus anjos, outro Jesus.


3 Mas tanto tempo faz que partiste,
Que me fugiste sem me levar,
Que sofro e choro, saudoso e triste,
Sem esperanças de te encontrar.


4 Há quantos dias que te procuro,
Que te procuro chamando em vão!…
Tudo é silêncio tristonho e escuro,
Tudo é saudade no coração.


5 Outros meninos alegres vejo,
Numa alegria terna e louçã,
Que exclamam rindo dentro dum beijo:
«Como eu te adoro, minha mamã!»


6 Sinto um anseio sublime e santo,
De nos meus braços, mãe, te beijar;
E abraço o espaço, beijo o meu pranto,
Somente a mágoa vem-me afagar.


7 Inquiro o vento: — «Quando verei
Minha mãezinha boa e querida?»
E o vento triste diz-me: — «Não sei!…
Só noutra vida, só noutra vida!…»


8 Pergunto à fonte, pergunto à ave,
Quando regressas dos Céus supremos,
E me respondem em voz suave:
«Nós não sabemos! nós não sabemos!…»


9 Pergunto à flor que engalana a aurora,
Quando é que voltas desse país,
E ela retruca, consoladora:
«Depois da morte serás feliz.»


10 E digo ao sino na tarde calma:
«Onde está ela, meu doce bem?»
Ele responde, grave, à minhalma:
«Além na luz! Na luz do Além!…»


11 O mar e a noite me crucificam,
Multiplicando meus pobres ais,
Cheios de angústias, ambos replicam:
«Tua mãezinha não volta mais.»


12 Somente a nuvem, quando eu imploro,
Diz-me que vens e diz que te vê;
E me conforta, do céu, se eu choro:
«Eu vou chamá-la para você.»


13 Sempre te espero, mas, ai! não voltas,
Nem para dar-me consolação;
Ó mãe querida, que mágoas soltas
Andam cortando meu coração.


14 Tanta saudade, e, no entretanto,
Vejo-te linda nos sonhos meus;
Ajoelhada, banhada em pranto.
E de mãos postas aos pés de Deus.


15 Sempre a meus olhos, estás bonita
Qual uma rosa, como um jasmim!
Porém conheço que estás aflita,
Com o pensamento junto de mim.


16 Então, entrego-me ao meu desejo,
Tremo de anseio, calo, sorrio,
Sentindo o anélito do teu beijo…
Mas abro os olhos no ar vazio!


17 Vai-se-me o sonho… Quanta amargura,
Que sinto esparsa pelo caminho!
Que mágoa eterna! Que desventura,
Para quem segue triste e sozinho.


18 Volta depressa! Guardo-te flores,
Porque só vivo pensando em ti:
Celebraremos nossos amores,
Junto da fonte que canta e ri.


19 Já não suporto tantos cansaços!…
Se não voltares, pede a Jesus
Que te conceda pôr-me em teus braços,
Foge comigo para outra luz!…




O leproso

1 Dizia o pobre leproso:
Senhor! Não tenho mais vida,
Sou uma pútrida ferida
Sobre o mundo desditoso!


2 Mas o anjo da esperança
Responde-lhe com brandura:
Meu filho, espera a ventura
Com fé, com perseverança.


3 Se teu corpo é lama e pus
Em meio dos sofrimentos.
Tua alma é réstia de luz
Dos eternos firmamentos.




Bondade

1 Vê-se a miséria desditosa
Perambulando numa praça,
Sob o seu manto de desgraça
Clama o infortúnio abrasador.


2 Eis que a Fortuna se lhe esconde;
E passa o gozo, muito ao largo;
E ela chora, ao gosto amargo,
O seu destino, a sua dor.


3 Mas eis que alguém a reconforta:
É a Bondade. Abre-lhe a porta;
E a fada, à luz dessa manhã,


4 Diz-lhe, a sorrir: — Tens frio e fome?
Pouco te importe qual meu nome,
Chega-te a mim: sou tua irmã.




Oração

1 A Ti, Senhor,
Meu coração
Imerso em dor
Aflito vem,


2 Pedindo a luz,
Pedindo o bem
E a salvação.


3 Pedir a quem,
Senão a Ti,
Cuja bondade
Me sorri
E me conduz
À imensidade
Da perfeição?


4 És a piedade
Divina e pura
Que à criatura
Dá luz e pão.


5 Sou eu, somente,
O impenitente
Na expiação.


6 Em Ti, portanto,
Confio e espero,
De Ti eu quero
Me aproximar!


7 Consolo santo,
Para o meu pranto
Venho implorar.


8 Bem sei, Senhor,
Se sofro e choro.
Se me demoro
No padecer,
É porque andei
Longe do Amor,
No meu viver.


9 O Amor é a lei,
Que me ensinaste
E que deixaste
Aos irmãos teus!


10 Pra que eu pudesse,
Ditosamente,
Buscar os Céus.


11 Assim, contente,
Cheio de unção,
Elevo a prece
Do coração,
A Ti, Senhor,
Rogando amor,
Paz e perdão!




A fortuna

1 Anda a Fortuna por uma praça,
Fala à Ventura com riso irmão,
E mais adiante topa a Desgraça,
E altiva e rude lhe esconde a mão.


2 Vaidosa e bela, dá preferência
Ao torpe egoísmo acomodatício,
E entre as virtudes, na existência,
Escolhe sempre flores do vício.


3 E assim prossegue na desmarcada
Carreira louca do vão prazer,
Como perdida, e já sepultada,
No esquecimento do próprio ser.


4 Depois, cansada e já comovida,
Quando só pede luz e amor,
Acorre a Morte por dar-lhe a Vida,
E vem a Vida por dar-lhe a Dor.




Oração

1 Vós que sois a mãe bondosa
De todos os desvalidos
Deste vale de gemidos
          Mãe piedosa!…


2 Sublime estrela que brilha
No céu da paz, da bonança,
Do céu de toda a esperança —
          Maravilha!


3 Maria! — Consolação
Dos pobres, dos desgraçados,
Dos corações desolados
          Na aflição,


4 Compadecei-vos, Senhora,
De tão grandes sofrimentos,
Deste mundo de tormentos,
          Que apavora.


5 Livrai-nos do abismo tredo
Dos males, dos amargores,
Protegei os pecadores
          No degredo.


6 Estendei o vosso manto
De bondade e de ternura,
Sobre tanta desventura,
          Tanto pranto!


7 Concedei-nos vosso amor,
A vossa misericórdia,
Dai paz a toda discórdia
          Trégua à dor!…


8 Vós que sois Mãe carinhosa
Dos fracos, dos oprimidos
Deste vale de gemidos,
          Mãe bondosa!


          9 Oração:

Pai de Amor e Caridade,
Que sois a terna clemência
E de todas as criaturas
Carinhosa Providência!
Que os homens todos vos amem,
Que vos possam compreender,
Pois tendo ouvidos não ouvem,
E vendo não querem ver. ( † )




Além n

1 Além da sepultura, a nova aurora
Luminosa e divina se levanta;
Lá palpita a beleza onde a alma canta,
À luz do amor que vibra e revigora.


2 Ó corações que a lágrima devora,
Prisioneiros da dor que fere e espanta,
Tende na vossa fé a bíblia santa,
E em vossa luta o bem de cada hora.


3 Além da morte, a vida tumultua,
O trabalho divino continua…
Vida e morte — exultai ao bendizê-las!


4 Esperai nos tormentos mais profundos,
Que a este mundo sucedem-se outros mundos,
E às estrelas sucedem-se as estrelas!




Soneto

1 Como outrora, entre ovelhas desgarradas,
O coração tocado de agonias,
O Mestre chora como Jeremias.
Vendo o mundo nas lutas condenadas.


2 Sempre a miséria e a dor nos vossos dias!
Sempre a treva nas míseras estradas…
Preces infindas e desesperadas,
Do caminho de lágrimas sombrias…


3 Dois milênios contando o grande ensino
Do Amor, o luminoso bem divino,
Sobre as desolações do mundo velho…


4 Mas, em todos os tempos é a vaidade
No egoísmo da triste Humanidade,
Demorando as vitórias do Evangelho.




A prece

1 O Senhor da Verdade e da Clemência
Concedeu-nos a fonte cristalina
Da prece, água do amor, pura e divina,
Que suaviza os rigores da existência.


2 Toda oração é a doce quintessência
Da esperança ditosa e peregrina,
Filha da crença que nos ilumina
Os mais tristes refolhos da consciência.


3 Feliz o coração que espera e ora,
Sabendo contemplar a eterna aurora
Do Além, pela oração profunda e imensa.


4 Enquanto o mundo anseia, estranho e aflito,
A prece alcança as bênçãos do Infinito,
Nos caminhos translúcidos da Crença.




Fraternidade

1 Fraternidade é árvore bendita,
Cujas flores e ramos de esperança
Buscam a luz eterna que se agita,
Rumo ao país ditoso da bonança.


2 É a fonte cristalina em que descansa
A alma humana fraca, errante e aflita;
É a luminosa bem-aventurança
Da mensagem de Deus, pura e infinita!…


3 Vós que chorais ao coro das procelas,
Vinde, irmãos! Desdobrai as vossas velas!…
Não vos sufoque o horror da tempestade.


4 Fraternidade é o derradeiro porto,
A terra da união e do conforto,
Que habitaremos na Imortalidade.




Lembrai a chama

1 Vós que buscais além da sepultura
A resposta de luz da Eternidade,
Nunca olvideis a Excelsa Claridade,
Que reside convosco em noite escura.


2 Somos todos a Grande Humanidade,
Em direção à Fonte Eterna e Pura,
Somos em toda parte a criatura
Buscando os dons supremos da Verdade.


3 Tendes convosco a Chama Adormecida…
Rogamos acendais a Luz da Vida,
Já que buscais mais crença junto a nós!


4 Se quiserdes brilhar nos Outros Planos,
Ó torturados corações humanos,
Deixai que o Cristo nasça dentro em vós.




Eterna mensagem

1 Ainda e sempre o Evangelho do Senhor
É a mensagem eterna da Verdade,
Senda de paz e de felicidade,
Na luz das luzes do Consolador.


2 Nos caminhos da lágrima e da dor,
Ante os desfiladeiros da impiedade,
Não sabe o coração da Humanidade
Beber dessa água límpida do Amor.


3 Mas os túmulos falam pela estrada,
Em toda parte fulge uma alvorada
Que ao roteiro dos Céus nos reconduz;


4 O Evangelho, na luz do Espiritismo,
É a escada de Jacob vencendo o abismo,
Trazendo ao mundo o verbo de Jesus.




No Templo da Educação

1 Distribuía o Mestre os dons divinos
Da luz do seu Espírito sem jaça,
E exclama, enquanto a turba observa e passa:
— «Deixai virem a mim os pequeninos!…» ( † )


2 É que na alma sincera dos meninos
Há uma luz de ternura, amor e graça,
De que o Senhor da Paz quer que se faça
O sol da nova estrada dos destinos.


3 Vós, que tendes a fé que ama e consola,
Fazei do vosso lar a grande escola
De justiça, de amor e de humildade!


4 As conquistas morais são toda a glória
Que a alma busca na vida transitória,
Pelos caminhos da imortalidade.




Na noite de Natal

1 — «Minha mãe, porque Jesus,
Cheio de amor e grandeza,
Preferiu nascer no mundo
Nos caminhos da pobreza?


2 Por que não veio até nós,
Entre flores e alegrias,
Num berço todo enfeitado
De sedas e pedrarias?»


3 — «Acredito meu filhinho,
Que o Mestre da Caridade
Mostrou, em tudo e por tudo,
A luminosa humildade!…


4 Às vezes, penso também.
Nos trabalhos deste mundo,
Que a Manjedoura revela
Ensino bem mais profundo!»


5 E a pobre mãe de olhos fixos
Na luz do céu que sorria,
Concluiu com sentimento,
Em terna melancolia:


6 — «Por certo, Jesus ficou
Nas palhas, sem proteção,
Por não lhe abrirmos na Terra
As portas do coração.»


João de Deus



[1] Esta mensagem psicografada em 19/5/1942, foi publicada originalmente em 1972 pela LAKE e é a 2ª do livro “Taça de luz”.


Texto extraído da 6ª edição desse livro. — Revista e ampliada pelos autores espirituais.

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