Bible of the WayBíblia do Caminho  † Xavierian TestamentTestamento Xavieriano

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Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos ©

 

35

 

João de Deus

 

Nascido em S. Bartolomeu de Messines, Portugal, em 1830, e desencarnado em 1896, afirmou-se um dos maiores líricos da língua portuguesa. E tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. Nestas poesias palpita, de modo inconfundível, a suavidade e o ritmo da sua lira.

 

AS LÁGRIMAS

  1 Desci um dia

  Ao sorvedouro

  Da atra agonia

  Da Humanidade,

  A procurar,

  A perscrutar

  Qual a verdade,

  Qual o tesouro

  O mais profundo,

  Que neste mundo

  O homem prendesse

  E o retivesse.

 

  2 E vi, então,

  No coração

  Da criatura,

  Só a ilusão

  Duma ventura.

 

  3 E vi senhores

  Que dominavam

  E se orgulhavam

  Do seu poder,

  Sempre a abater

  Os desgraçados.

 

  4 Os potentados

  Com seus valores

  Bem se julgavam

  Onipotentes,

  Heróis valentes

  Cá nesta vida…

  Depois, porém,

  Reconheceram

  E viram bem

  Nesta existência

  Toda a impotência

  Do deus-milhão,

  Perante a mão

  Da fria dor,

  Que lhes domava

  E lhes dobrava

  O torpe egoísmo.

 

  5 Busquei os lares,

  Ricos solares

  Dos protegidos,

  Onde o conforto

  Para a matéria

  Anda em contraste

  Com atroz miséria

  Dos desvalidos.

  E ainda aí

  Não pude achar

  O que eu ali

  Fui procurar.

 

  6 Eu vi mulheres

  Nos seus prazeres,

  Jovens e belas,

  Alvas estrelas

  De formosura,

  Rindo e cantando

  Dentro da noite

  Da desventura.

  Pobres donzelas,

  Fanadas flores…

  Luz sem fulgores,

  Que, miseráveis

  Párias da vida

  Deixam o teto

  Do seu afeto

  Maior, supremo,

  Insuperável.

  Somente encontram

  Dores que afrontam,

  Mágoa insanável,

  Incompreendida!

 

  7 E penetrei

  Pelos castelos

  Dourados, belos,

  Das diversões,

  Onde se aninha

  E se amesquinha

  A multidão

  Que busca rir,

  Gozar, sorrir,

  A ver se esquece

  O que padece,

  Julgando crer

  Que está a ver

  O paraíso.

  Mas este riso,

  Ao som da festa,

  À meia luz,

  É o que produz

  Todo o amargor,

 

  8 A maior dor,

  Pois eu ali

  Tristonho vi

  O que em verdade

  É a sociedade;’

  É a sociedade;

  Só pensamentos

  Das impurezas,

  Só sentimentos

  Que trazem presas,

  Aniquiladas,

  E esmagadas,

  Ensandecidas

  As criaturas

  Outrora puras,

  Belas outrora,

  No entanto agora

  Flores perdidas,

  Almas impuras,

  Desiludidas!

  Nesse recinto

  Eu vi, então,

  A traição,

  A iniquidade,

  A grosseria,

  Toda a maldade

  Da hipocrisia;

  E tudo, enfim,

  Tristonho assim,

  Dissimulado,

  Falsificado

  No fingimento

  Que aparecia

  No barulhento

  Rumor de vozes,

  Notas atrozes,

  De uma alegria

 

  9 Jamais sentida,

  Desconhecida

  Naquele meio.

 

  10 Eu contemplei-o

  Cheio de horror

  E vi que as flores,

  As pedrarias

  Tão luminosas,

  Eram sombrias,

  Eram trevosas,

  Pois só cobriam

  Míseros trapos,

  Pobres farrapos

  De almas perjuras

  Ao seu Criador,

  Fracas criaturas

  Baldas de amor.

  E, condoído,

  Desiludido,

  Desanimado,

  Num forte brado

  Disse ao Senhor:

 

  11 «Onipotente

  Pai de Bondade,

  Oh! tem piedade

  Dos filhos teus

  Que choram, gemem,

  Pálidos tremem

  Ó Senhor Deus!

  Faze que a luz

  Do bom Jesus

  Penetre a alma

  Na Terra aflita,

  Dando-lhe a calma

  Que necessita.

  Só conheci

  E encontrei,

  Só contemplei

  O mal que vi.»

 

  12 Mas uma voz

  Do azul do Céu,

  Pronta e veloz,

  Me respondeu:

 

  13 «Filho bendito

  Do meu amor,

  Sou teu Senhor,

  E no Infinito

  Tudo o que fiz,

  Nada se perde,

  Assim tornando

  O ser feliz.

  Contempla, ainda,

  A Terra linda

  E então verás,

  Donde provém

  A grande paz,

  O sumo bem.

  O grão tesouro,

  Mais fino ouro

  Dos filhos meus,

  Está na luta,

  Nos prantos seus,

  Que lhes transforma

  A alma poluta

  Num ser radioso,

  Astro formoso

  De pura luz!»

 

  14 Eu ajoelhei

  E contemplei

  As multidões

  Atropeladas,

  Desenganadas

  as perdições.

  Vi transformadas

  Todas as cenas;

  Em todos seres,

  Homens, mulheres,

  Jovens, crianças,

  Nas grandes penas,

  Nas esperanças,

  Por entre a luz,

  Por entre flores,

  Brotar a flux

  No coração

  De cada ser,

  Em profusão,

  Gotas pequenas

  Como as brilhantes

  Luzes serenas

  Das madrugadas

  Primaveris.

 

  15 Reconheci

  Que por aí

  Na escura Terra

  Onde eu amei,

  Sorri, chorei,

  Onde sofri

  E onde eu vi

  A dura guerra,

  A amarga dor,

  Lágrimas belas,

  Gotas singelas,

 

  16 Meigas, serenas,

  Eram açucenas

  De fino olor

  Do espaço azul!

 

  17 Depois, eu vi

  Que os que as vertiam

  Por este mundo,

  Vale profundo

  De mágoa e dor,

  Quando voltavam

  Do seu exílio,

  Eram saudados

  Por mensageiros

  De amor e luz

  Do bom Jesus,

  Que os coroavam

  Com gemas finas,

  Joias divinas

  Do escrínio santo,

  Primor de encanto

  Do amor de Deus.

 

  18 Fui então vendo,

  Reconhecendo

  Que aqui nos Céus,

  Lágrimas lindas

  São transformadas,

  Remodeladas

  Para formarem

  Belo diadema

  E aureolarem

 

  19 Os que as verteram

  Aí na Terra.

 

  20 E vi, então,

  Em profusão,

  Gemas brilhantes,

  Alvinitentes,

  Ricas, fulgentes

  E deslumbrantes,

  Que nem Ofir

  Pôde possuir.

 

  21 Sejam benditas,

  As pequenitas

  Gotas de pranto,

  Orvalho santo

  Do amor divino

  Que dá ventura,

  Tranquilidade,

  Felicidade

  Ao peregrino.

  Bendito o Pai,

  O Nosso Deus

  Que abranda o ai

  Dos filhos seus;

  Que a alegria

  E a paz envia

  À Humanidade

  Tão sofredora,

  Com a lágrima bela,

  Luzente estrela

  Consoladora!

 


 

O CÉU

  1 Pátria ditosa e linda, e onde o mal

  Desaparece ao meigo olhar do Amor,

  Que entre os seres do Além é sempre igual,

  No mesmo anseio santo e superior!

 

  2 Lá não se vê traição e cada qual

  Urde ali sua auréola de esplendor,

  Doce Mansão de Paz, imaterial,

  Onde impera a bondade do Senhor!

 

  3 Porto de Salvação para quem crê

  Nessa Praia do Azul, que se antevê,

  Pelo poder da Fé, na provação;

 

  4 País dos Céus, aonde o pecador,

  Depois de bem sofrer aí a dor,

  Vai ali encontrar Consolação.

 


 

MORRER

  1 Não mais a dor intensa e desmedida

  No momento angustioso de morrer,

  Nem o pranto pungente por se ver

  Um ser amado em horas da partida!..

 

  2 A morte é um sono doce; basta crer

  Na Paz do Céu na Terra apetecida,

  Para se achar o Amor, a Luz e a Vida,

  Onde há trégua à tristeza e ao padecer.

 

  3 Venturosa região do espaço Além,

  Onde brilha a Verdade e onde o Bem

  É o fanal reluzente que conduz;

 

  4 Mansão de claridade e pulcritude,

  Onde os bons, que adoraram a Virtude,

  Gozam do afeto extremo de Jesus.

 


 

O MAU DISCÍPULO

  1 Era uma alma

  Formosa e bela:

  Fúlgida estrela

  De puro alvor,

  Que habitava

  Qual uma flor

  O espaço infindo,

  Imenso e lindo,

  Nessas regiões

  Onde há mansões

  Purificadas,

  Iluminadas

  Do Criador.

 

  2 Porém, um dia,

  Disse Jesus

  A quem vivia

  Em meio à luz:

 

  3 «Filho querido,

  Estremecido,

  Dos meus afetos!

  Tu necessitas

  Buscar a Vida

  Em meio às vagas

  Das provações!

  Dentro das lutas,

  Tredas disputas

  Do Bem, do Mal,

  É que verei

  Se o que ensinei

  Ao teu valor,

  Aproveitaste

  E assimilaste

  Em benefício

  Da lei do amor,

  Do sacrifício!…

  Tens a fraqueza

  Da imperfeição;

  Aqui, porém,

  Já te mostrei

  A lei do amor,

  Luz do Senhor —

  O sumo bem.

 

  4 Tu lutarás,

  Mas vencerás

  Se bem souberes

  Te conduzir

  Nesses caminhos

  Entre prazeres,

  Risos e flores,

  Por entre espinhos,

  Mágoas e dores…

  E se aprenderes

  Saber viver,

  Sorrir, sofrer,

  Conquistarás

  A grande paz,

  A grande luz

  Que eu, teu Jesus,

  Reservarei

  E hei-de guardar

  Para a tua alma,

  Ao regressar.

 

  5 A dor, somente

  A luta amara

  Lá nos prepara

  Para vivermos,

  Tranquilamente,

  Nessas moradas

  Iluminadas

  Do nosso Pai!

  Luta e trabalha

  Singelamente

  Nessa batalha

  Que te ofereço,

  Pra conquistares

  A luz, o amor

  Do teu Senhor.

  Tu viverás

  Entre os brasões

  Das ilusões

  Da Terra impura;

 

  6 Conhecerás

  Lindas riquezas

  Iluminando

  E te ensinando

  O bom caminho,

  A boa estrada

  E com carinho

  Sempre a mostrar-te

  A caridade

  Com toda a luz

  Que ministrei

  Ao teu pensar,

  E ora conduz

  Teus sentimentos,

  Teus pensamentos,

  À perfeição

  Do coração.

 

  7 Caminha avante,

  Na deslumbrante

  Rota do amor!

  Espalha o olor

  Que já plantei

  E fiz brotar,

  Que cultivei

  Dentro em teu ser.

  Sê sempre amigo

  Dos sofredores.

  Dos que padecem

  Sem conhecer

  Sequer abrigo

  Onde isolar-se,

  Onde guardar-se

  Das fortes dores

  Que acometem

  Os sofredores.

 

  8 Sê a Bondade

  Entre a maldade

  Dos homens feros,

  Ambiciosos,

  Frios, austeros,

  Pecaminosos.

 

  9 Se assim fizeres

  E procederes,

  Sempre cumprindo

  Os teus deveres,

  Tornar-te-ás

  Em verdadeiro

  Anjo da paz,

  Em mensageiro

  Do Deus de amor.

  Assim darás

  À Humanidade

  O testemunho

  Da caridade

  Do teu Senhor!»

 

  10 A alma formosa

  Então desceu

  Para lutar,

  A conquistar

  Maior ventura,

  Rútila e pura

  Aqui no Céu.

 

  11 Então, nasceu

  Num lar ditoso,

  Régio, faustoso,

  Dos venturosos,

  Onde a alegria

  Reinava, e ria

  Constantemente,

  Proporcionando

  À rica gente

  Que o habitava

  Os belos gozos,

  Lindos, formosos,

  Mas irreais,

  Desses palácios

  Materiais.

  Ainda criança,

  Era adorado,

  Felicitado

  Nessa abastança;

  Naquele lar,

  Rico alcaçar

  Dos abastados.

  Ele então era

  A primavera

  Dos áureos sonhos

  Dos pais amados!

 

  12 Assim cresceu,

  Belo esplendeu,

  Na mocidade.

  Ganhou saber

  Nobilitante,

  À luz brilhante

  Dessa ciência

  Que, na existência,

  Por planetária,

  Faz com que a alma

  Se torne egoísta

  E refratária

  À lei de Deus.

  Tornou-se esquivo,

  Cruel e altivo

  À Humanidade,

  Não praticando

  Mas renegando.

  A caridade.

 

  13 O que aprendera

  No Infinito

  E prometera

  Ao bom Jesus,

  Tudo esquecera

  Em detrimento

  Do sentimento

  Que então trouxera,

  Cheio de luz.

  Refugiou-se

  Na vã Ciência,

  Despreocupou-se

  Com a consciência.

  Na Academia

  Dos homens sábios,

  Ele esplendeu

  No vão saber;

  O infeliz ser

  Viveu dos lábios,

  Seu coração

  Jamais viveu!

  Foi uma flor,

  Mas sem olor;

  Fulgiu, brilhou,

  Mas renegou

  A lei do amor.

  E da existência

  Da própria alma

  Por fim descreu,

  A relegar,

  Como um ateu,

  Filho do Mal,

  A imensa luz

  Espiritual.

 

  14 Foi refratário

  Ao próprio afeto

  Dos pais que o amavam

  E idolatravam

  Com mór ternura,

  Dele esperando

  Sua ventura.

  Os próprios filhos,

  Suaves brilhos

  Da nossa vida,

  Nossa esperança

  Encantadora,

  Os desprezou,

  Somente amando

  Sua ciência

  Enganadora.

  Só procurou

  Brilhar, fulgir;

  Nunca buscou,

  Assim, cumprir

  Sua missão.

 

  15 Sempre espalhou,

  Em profusão,

  Suas ideias

  Tristonhas, feias,

  Do ateísmo

  Desventurado.

  Nunca estancou

  Uma só lágrima;

  Nunca pensou

  Uma ferida,

  Que brota nalma

  Desiludida;

  Não consolou

  O que sofria.

  De quem fugia

  Sem compaixão!

  Enfim, viveu

  Só na Ciência,

  Nessa existência

  Que passa breve!…

  O ingrato teve

  Mil ocasiões

  De praticar

  Boas ações

  E espalhar

  O amor e a luz

  Que o bom Jesus

  Lhe concedera:

  Mas, infeliz,

  Jamais o quis.

 

  16 Porém um dia,

  A Parca fria,

  A morte amara,

  Cruel, avara

  E dolorosa,

  O arrebatara

  Nessa escabrosa

  Escura via,

  E o conduziu

  Para o Infinito,

  Onde, num grito,

  Ele acordou

  Do seu letargo,

  Do sono amargo

  Em que viveu.

 

  17 Ao descerrar

  O negro véu

  Do esquecimento,

  Sentiu seus olhos

  Enevoados,

  Tristes abrolhos

  No pensamento!

  Olhou o abismo

  Do pessimismo

  Em que vivera,

  Por onde sempre

  Se comprazera.

 

  18 Sentiu-se, então,

  Abandonado,

  Amargurado

  Na aflição!

  Somente, assim,

  Dentro da dor,

  Lembrou de Deus,

  Do seu amor,

  A implorar

  Da luz dos Céus

  Consolação!

 

  19 Das profundezas

  Do coração,

  Íntima voz

  Disse-lhe então:

 

  20 «Ó mau discípulo,

  Em quem eu pus

  Todo o esplendor

  Da minha luz,

  Do meu amor!

  Tu te perdeste

  Por teu querer,

  Pelo viver

  Que demandaste.

  Jamais soubeste

  Te conduzir,

  E assim cumprir

  O teu dever.

  Por isso, agora,

  Minhalma chora

  Ao ver que és

  Mísero ser.

  Tu renegaste

  E desprezaste

  A inspiração

  Do Deus de Amor!

  Tua missão

  Que era amar

  E assim curar

  A alheia dor,

  Em luz perdida,

  Foi convertida

  Em fero braço

  Esmagador.

  O grande amor

  — Fraternidade,

  Que então devias,

  Entre alegrias,

  Oferecer

  À Humanidade,

  O abafaste

  Como se fosse

  Assaz mesquinho,

  Quando só ele

  É o caminho

  Que nos conduz

  À salvação,

  À perfeição,

  À região

  Da pura luz!

 

  21 Sempre esqueceste

  Os teus deveres.

  Dos próprios seres

  Que te adoravam,

  Que mais te amavam,

  Foste inimigo,

  E até negaste

  A existência

  Da própria alma,

  A consciência!

  Constantemente,

  Continuamente

  Foste um ingrato

  E eu te julgara

  Um lutador

  Intimorato!…»

 

  22 Calou-se a voz

  E o pranto atroz

  Jorrou, então,

  Do coração

  Do miserável,

  Ser execrável

  Que não soubera

  E nem quisera

  Compreender

  O seu dever.

  Entre lamentos

  E dissabores,

  Padecimentos,

  Frios horrores,

  Ele chorou

  E lamentou,

  Por muitos anos,

  Seus desenganos

  Na senda triste,

  Fatal, amara,

  Que assim trilhara

  Na perdição.

  Envergonhado,

  Espezinhado

  Na sua queda,

  Correu sozinho

  O mundo inteiro,

  Qual caminheiro

  A quem negassem

  Um só carinho.

  Perambulou

  Qual Aasvero,

  Sofreu, clamou,

  Supliciado;

  E, muitas vezes,

  O seu olhar,

  Amargurado,

  Triste pousou

  Sobre o lugar

  Onde pecou.

  A pobre mão

  Sempre estendeu

  Pedindo o pão,

  Pedindo luz,

  A lamentar

  A sua cruz!

  Jamais alguém

  Quis escutá-lo;

  O mesmo bem

  Que ele fizera,

  Assim lhe era

  Retribuído…

  E o pobre Espírito

  Desiludido,

  Desanimado,

  Desamparado,

  Só encontrava

  Consolação

  Nas lágrimas tristes

  Que derramava

  Em profusão.

 

  23 Até que um dia

  Em que sofria,

  Mais padecia

  A dor feroz,

  Cruel e atroz,

  A alma triste

  E solitária,

  Exp’rimentada,

  Extenuada

  No atro sofrer,

  Cheia de unção

  Por entre prantos,

  Formosos, santos,

  Disse ao Senhor

  Numa oração:

 

  24 «Ó Mestre Amado,

  Sei que hei pecado

  E transgredido

  As tuas leis,

  Tendo comigo

  A tua luz,

  Ó bom Jesus!

  E mesmo assim,

  Eu me perdi

  Por meu querer,

  Pois não cumpri

  O meu dever!..

  Fui a grilheta

  Da impiedade,

  Pobre calceta

  Da iniquidade.

  Mas tu que és bom,

  Tão justo e santo,

  Sabes do pranto

  Das minhas dores,

  No meu viver

  Sem luz, sem flores,

  E hás-de acolher

  Minha oração

  Cheia de fé!…

  Dá-me o acúleo

  Da expiação,

  Para que seja

  Exterminado

  O meu orgulho.

  Oh! dá-me agora

  A nova aurora

  De uma existência

  De provação.

  Quero sofrer

  Dura pobreza,

  Sempre viver

  Na singeleza.

  O meu desejo

  É só voltar

  À Terra impura

  Onde eu pequei,

  Para ofertar

  À criatura

  O grande amor

  Que lhe neguei.

  Não quero ter

  Nem um só dia

  Dessa alegria

  Que desfrutei,

  Mas só trazer

  No coração

  Todo o amargor

  Da privação.

  Não quero ver

  O dealbar

  De uma esperança;

  O próprio lar,

  Onde se encontra

  Maior ventura,

  Não quero ter;

  Nunca, jamais,

  Hei conhecer

  O que é sorrir!

  Quero existir

  Desconhecido,

  Incompreendido

  Em minha dor;

  Então serei

  Ramo perdido,

  Árido e seco

  Pelo vergel

  Enflorescido.

  Conhecerei

  A dor cruel

  Que nos retalha

  O coração.

  Nessa batalha

  Que empreenderei,

  Quero ganhar

  E conquistar

  A luz, o pão,

  O agasalho,

  Com meu trabalho.

  Eu só almejo

  Compreensão

  Para mostrar

  O teu perdão,

  Claro e sublime

  Para o meu crime,

  Ó bom Jesus,

  Ó Mestre Amado! —

  Eu lutarei

  E chorarei

  Nas rijas dores

  Mais inclementes,

  Nos turbilhões

  Incandescentes

  Das amarguras,

  Cruéis e duras

  Das aflições.

  Agora eu vejo

  Que na existência

  A grã ciência

  Só é grandiosa,

  Só é formosa,

  Quando aliada

  Da caridade,

  O puro amor.

  Quero com ardor

  Bem conquistar

  A perfeição!

  Serei, portanto,

  Neste planeta,

  Como a violeta

  Sob a folhagem…

  Viver somente

  Pela voragem

  Das desventuras.

  Quero sofrer

  Com humildade,

  E sempre ter

  Em mim bondade,

  Feliz dulçor

  Da caridade!…»

 

  25 E o Mestre Amado,

  Compadecido

  Do pobre Espírito

  Dilacerado,

  Enfim, perdido,

  Deu-lhe o perdão,

  A permissão

  Para voltar

  À antiga arena —

  Luta terrena,

  Oferecendo-lhe

  Ocasião

  Para tornar-se

  Mais venturoso

  E sempre digno

  Do seu perdão.

 

  26 Seja bendito,

  Pelo infinito

  Desenrolar

  E perpassar

  De toda a idade,

  O bom Jesus,

  Que, com sua luz

  E terno amor,

  Escuta a prece

  De quem padece,

  Fazendo assim

  Desabrochar

  O dealbar

  Das alvoradas

  Iluminadas

  De muitas vidas,

  Belas, queridas,

  Para lutarmos

  E nos tornarmos

  Dignos do Amor

  Inigualável,

  Incomparável,

  Do Criador!

 


 

NA ESTRADA DE DAMASCO

 

  1 Num certo dia

  A Ambição,

  De parceria

  Com o Orgulho,

  Chamou o homem

  Jactancioso,

  Rude e cioso

  Do seu poder

  E vão saber,

  E assim lhe disse:

 

  2 «Homem, tu és

  Senhor potente,

  Grande e valente

  Aqui no mundo;

  E se quiseres

  Tornar-te um rei

  Da imensa grei

  Da Criação,

  É só viveres

  A procurar

  Mais dominar

  Os elementos

  A transudar

  Nos sentimentos.

  Maior coragem

  Para ganhares

  Sempre vantagem

  No teu viver,

  E conquistares

  Sempre o poder

  Dos triunfantes.

  Aos semelhantes

  Em vez de amá-los

  Tais como irmãos,

  Faze-os vassalos

  No teu reinado,

  Glorificado

  De grão-senhor!»

 

  3 E o pecador,

  Ser imperfeito

  Se achasse embora,

  A seu agrado,

  Bem satisfeito,

  Foi sem demora

  Então chamado

  Por um juiz

  De retidão,

  Que é a Consciência,

  Nesta existência

  De provação,

  Que então lhe diz:

 

  4 «Mas, e o bom Deus

  Que está nos Céus,

  Que tudo vê,

  Sabendo assim

  Quanto a tua alma

  Dele descrê?

  Ele é o teu Pai,

  O Criador,

  O Deus de amor.

  E o bom Jesus,

  Nosso Senhor,

  Mestre da luz,

  O Filho amado

  Que à Terra veio,

  A este mundo

  Ingrato e feio

  A redimir,

  E assim banir

  O teu pecado?

 

  5 Ele te amou

  E te ensinou

  Que ao teu irmão

  Tu deves dar,

  Nunca negar

  A tua mão;

  E espalhar

  Somente amor,

  A relegar

  Toda a maldade,

  Para que um dia

  Te fosse dado

  Reconhecer.

  Com alegria,

 

  6 O solo amado

  Do eldorado

  Dos belos sonhos,

  Lindos, risonhos,

  Do teu viver.

  Assim, procura

  Melhor ventura

  Em só buscar,

  Acompanhar,

  Seguir Jesus

  Em sua dor,

  Em seu amor,

  Em sua cruz!»

 

  7 Mas, o tal homem

  Tão orgulhoso,

  Que já se achava

  Bem poderoso,

  Achou estranho

  Esse conselho:

  Rigor tamanho

  Não poderia;

  Isso seria

  Obedecer

  E se humilhar;

  E ele havia

  Aqui nascido

  Só para ser

  Obedecido,

  Tendo o poder

  Pra dominar.

  Assim, buscou

  E perguntou

  Aos companheiros;

 

  8 Eles, então,

  Lhe responderam

  No mais profundo

  Do coração:

 

  9 — «Esse conselho

  É muito velho!

  Deus é irrisão.

  E o tal Jesus,

  Com sua cruz

  E seu calvário,

  Somente foi

  Um visionário.

  Enquanto ele

  Só te oferece

  Amargas dores,

  Desolações,

  Tristes agruras,

  Cruéis espinhos,

  Nós concedemos

  Ao teu valor

  De grão-senhor

  Sublimes flores,

  Lindos brasões,

  Grandes venturas

  Nesses caminhos.

 

  10 Quem mais souber

  Gozar e rir,

  Mais saberá

  O que é existir.

  A vida aqui

  Só é formosa

  Para quem goza;

  E pois, assim,

  Vale o gozar

  Constantemente,

  Pois vindo a Parca

  Bem de repente,

  Há-de levar

  Esse teu sonho

  De amar, sofrer,

  Ao caos medonho

  Do mais não-ser;

  Porque a morte

  Tão renegada,

  Essa é apenas

  O frio nada.

  O louco amor

  Do teu Jesus,

  Exprime a dor

  E não a luz.»

 

  11 E assim, quando

  O homem fraco

  E miserando

  Mais se exaltou

  E se jatou,

  Onipotente,

  Chegou a Dor

  Humildemente,

  A lapidária,

  A eterna obreira,

  A mensageira

  Da perfeição,

  Nessa oficina

  Grande e divina

  Da Criação;

  Fê-lo abatido

  E desolado,

  Até enojado

  Do corpo seu:

  Apodreceu

  O seu tesouro.

 

  12 E o homem-rei

  Reconheceu

  Que o paraíso

  Dos sãos prazeres

  Vive nas luzes

  Só da virtude,

  No cumprimento

  Dos seus deveres,

  Na humildade,

  Na caridade,

  Na mansuetude,

  Na submissão

  Do coração

  Ao sofrimento,

  Quando aprouver

  Ao Deus de Amor

  Oferecer

  Rude amargor

  Ao nosso ser.

 

  13 Depois, então,

  De mui sofrer

  E padecer

  Na expiação,

  Reconheceu

  A nulidade,

  A fatuidade

  Da vil matéria!

 

  14 Na atroz miséria

  Dessa agonia,

  Só procurou

  Buscar se via

  Os seus mentores

  Enganadores,

  Altivos filhos

  Da veleidade

 

  15 Só encontrou

  O juiz reto,

  O Magistrado

  Incorrutível

  Da consciência,

  E que, num brado

  Indescritível,

  Em consequência,

  Lhe fez com ardor

  Ao coração

  Ermo de afeto,

  Ermo de amor,

  A mais tremenda

  Acusação!

 

  16 É o que acontece

  Em toda a idade,

  Com a maioria

  Da Humanidade;

  Pois sempre esquece

  Os seus deveres

  E se submerge

  Nos vãos prazeres.

  Para a alegria

  Fatal converge

  O seu viver,

  Para o enganoso,

  Efêmero gozo

  Do material,

  A esquecer

  Tudo o que seja

  Espiritual.

  Feliz de quem

  Aí procura

  Maior ventura

  No sumo bem;

  Porque verá,

  Contemplará

 

  17 Todo o esplendor,

  A eterna luz,

  Do eterno amor

  Do bom Jesus.

 


 

PARNASO DE ALÉM-TÚMULO

 

  1 Além do túmulo o Espírito inda canta

  Seus ideais de paz, de amor e luz,

  No ditoso país onde Jesus

  Impera com bondade sacrossanta.

 

  2 Nessas mansões, a lira se levanta

  Glorificando o Amor que em Deus transluz,

   Para o Bem exalçar, que nos conduz

  À divina alegria, pura e santa.

 

  3 Dessa Castália eterna da Harmonia

  Transborda a luz excelsa da Poesia,

  Que a Terra toda inunda de esplendor.

 

  4 Hinos das esperanças espargidos

  Sobre os homens, tornando-os mais unidos,

  Na ascensão para o Belo e para o Amor.

 


 

ANGÚSTIA MATERNA

 

  1 «Ó Lua branca, suave e triste,

  - A Mãe pedia, fitando o céu -

  Dize-me, Lua, se acaso viste

  Nos firmamentos o filho meu.

 

  2 A Morte ingrata, fria e impiedosa,

  Deixou vazio meu doce lar,

  Deixou minhalma triste e chorosa,

  Roubou-me o sonho - deu-me o penar

 

  3 Se tu soubesses, Lua serena,

  Como era grácil, que encantador

  Meu anjo belo como a açucena,

  Cheio de vida, cheio de amor!… »

 

  4 Disse-lhe a Lua - «Eu sei do encanto

  Dum filho amado que a gente tem;

  E das ausências conheço o pranto,

  Oh! se o conheço, conheço-o bem!…»

 

  5 - «Então, responde-me sem demora,

  Continuava, sempre a chorar:

  Em qual estrela cheia de aurora.

  Foi o meu anjo se agasalhar?…»

 

  6 - «Mas não o avistas - responde-lhe ela -

  Naquela estrela que tremeluz?

  Abre teus olhos… É bem aquela

  Que anda cantando no céu de luz.»

 

  7 E a Mãe aflita, martirizada,

  Fitou a estrela que lhe sorriu,

  Sentiu-lhe os raios, extasiada,

  E dos seus cantos, feliz, ouviu:

 

  8 - «Ilha pacífica, da esperança,

  Sou eu no mar do éter infindo;

  Do sofrimento mato a lembrança

  E abro o futuro, ditoso e lindo.

 

  9 Do Senhor tenho doce trabalho,

  Missão que é toda só de alegrias:

  Flores reparto cheias de orvalho,

  Flores que afastam as agonias.»

 

  10 - «Quase te odeio, luz de alvorada,

  Ó linda estrela que adorna o céu,

  Gritou-lhe a pobre desconsolada,

  Porque tu guardas o filho meu.»

 

  11 - «Se tu me odeias, se me detestas,

  Contudo eu te amo e pergunto: quem

  Não tem saudades das minhas festas?

  O teu anjinho teve-as também.

 

  12 Em mim a noite não tem guarida,

  Aqui terminam os dissabores;

  Aqui em tudo floresce a vida,

  Vida risonha, cheia de flores!…»

 

  13 A mãe saudosa, banhada em pranto,

  Notou de logo seu filho lindo,

  Todo vestido dum brilho santo,

  Num belo raio de luz, sorrindo…

 

  14 Disse-lhe o filho - «Tive deveras

  Muita saudade, mãezinha amada,

  Senti a falta das primaveras,

  Senti a falta desta alvorada!…

 

  15 Não resisti… Tanta era a saudade!

  Voltei do exílio, fugi da dor,

  Aqui é tudo felicidade,

  Paz e ventura, carícia e amor!

 

  16 Ó mãe, perdoa, se mais não pude

  Ficar contigo na escuridão,

  A Terra amarga, tristonha e rude,

  Envenenava meu coração.

 

  17 Aqui, na estrela, também há fontes,

  Jardins e luzes e fantasias,

  Sóis rebrilhando nos horizontes,

  Sonhos, castelos e melodias.

 

  18 Daqui te vejo, daqui eu velo

  Pelo sossego dos dias teus;

  Faço-te um ninho ditoso e belo,

  Muito pertinho do amor de Deus!…»

 

  19 Aí os olhos da desditosa

  Nada mais viram do Eterno Lar.

  Viu-se mais calma, menos saudosa,

  E, estranhamente, pôs-se a chorar…

 


 

LAMENTOS DO ÓRFÃO

  1 Minha mãezinha, alguém me disse,

  Que tu te foste, triste sem mim;

  Já não me embala tua meiguice,

  E não podias partir assim.

 

  2 Eu acredito que tenhas ido

  Pedir a Deus, que possui a luz,

  Que de mim faça, do teu querido,

  Um dos seus anjos, outro Jesus.

 

  3 Mas tanto tempo faz que partiste,

  Que me fugiste sem me levar,

  Que sofro e choro, saudoso e triste,

  Sem esperanças de te encontrar.

 

  4 Há quantos dias que te procuro,

  Que te procuro chamando em vão!…

  Tudo é silêncio tristonho e escuro,

  Tudo é saudade no coração.

 

  5 Outros meninos alegres vejo,

  Numa alegria terna e louçã,

  Que exclamam rindo dentro dum beijo:

  «Como eu te adoro, minha mamã!»

 

  6 Sinto um anseio sublime e santo,

  De nos meus braços, mãe, te beijar;

  E abraço o espaço, beijo o meu pranto,

  Somente a mágoa vem-me afagar.

 

  7 Inquiro o vento: — «Quando verei

  Minha mãezinha boa e querida?»

  E o vento triste diz-me: — «Não sei!…

  Só noutra vida, só noutra vida!…»

 

  8 Pergunto à fonte, pergunto à ave,

  Quando regressas dos Céus supremos,

  E me respondem em voz suave:

  «Nós não sabemos! nós não sabemos!…»

 

  9 Pergunto à flor que engalana a aurora,

  Quando é que voltas desse país,

  E ela retruca, consoladora:

  «Depois da morte serás feliz.»

 

  10 E digo ao sino na tarde calma:

  «Onde está ela, meu doce bem?»

  Ele responde, grave, à minhalma:

  «Além na luz! Na luz do Além!…»

 

  11 O mar e a noite me crucificam,

  Multiplicando meus pobres ais,

  Cheios de angústias, ambos replicam:

  «Tua mãezinha não volta mais.»

 

  12 Somente a nuvem, quando eu imploro,

  Diz-me que vens e diz que te vê;

  E me conforta, do céu, se eu choro:

  «Eu vou chamá-la para você.»

 

  13 Sempre te espero, mas, ai! não voltas,

  Nem para dar-me consolação;

  Ó mãe querida, que mágoas soltas

  Andam cortando meu coração.

 

  14 Tanta saudade, e, no entretanto,

  Vejo-te linda nos sonhos meus;

  Ajoelhada, banhada em pranto.

  E de mãos postas aos pés de Deus.

 

  15 Sempre a meus olhos, estás bonita

  Qual uma rosa, como um jasmim!

  Porém conheço que estás aflita,

  Com o pensamento junto de mim.

 

  16 Então, entrego-me ao meu desejo,

  Tremo de anseio, calo, sorrio,

  Sentindo o anélito do teu beijo…

  Mas abro os olhos no ar vazio!

 

  17 Vai-se-me o sonho… Quanta amargura,

  Que sinto esparsa pelo caminho!

  Que mágoa eterna! que desventura,

  Para quem segue triste e sozinho.

 

  18 Volta depressa! guardo-te flores,

  Porque só vivo pensando em ti:

  Celebraremos nossos amores,

  Junto da fonte que canta e ri.

 

  19 Já não suporto tantos cansaços!…

  Se não voltares, pede a Jesus

  Que te conceda pôr-me em teus braços,

  Foge comigo para outra luz!…

 


 

O LEPROSO

  1 Dizia o pobre leproso:

  Senhor! Não tenho mais vida,

  Sou uma pútrida ferida

  Sobre o mundo desditoso!

 

  2 Mas o anjo da esperança

  Responde-lhe com brandura:

  Meu filho, espera a ventura

  Com fé, com perseverança.

 

  3 Se teu corpo é lama e pus

  Em meio dos sofrimentos.

  Tua alma é réstia de luz

  Dos eternos firmamentos.

 


 

BONDADE

  1 Vê-se a miséria desditosa

  Perambulando numa praça,

  Sob o seu manto de desgraça

  Clama o infortúnio abrasador.

 

  2 Eis que a Fortuna se lhe esconde;

  E passa o gozo, muito ao largo;

  E ela chora, ao gosto amargo,

  O seu destino, a sua dor.

 

  3 Mas eis que alguém a reconforta:

  É a Bondade. Abre-lhe a porta;

  E a fada, à luz dessa manhã,

 

  4 Diz-lhe, a sorrir: — Tens frio e fome?

  Pouco te importe qual meu nome,

  Chega-te a mim: sou tua irmã.

 


 

ORAÇÃO

  1 A Ti, Senhor,

  Meu coração

  Imerso em dor

  Aflito vem,

 

  2 Pedindo a luz,

  Pedindo o bem

  E a salvação.

 

  3 Pedir a quem,

  Senão a Ti,

  Cuja bondade

  Me sorri

  E me conduz

  À imensidade

  Da perfeição?

 

  4 És a piedade

  Divina e pura

  Que à criatura

  Dá luz e pão.

 

  5 Sou eu, somente,

  O impenitente

  Na expiação.

 

  6 Em Ti, portanto,

  Confio e espero,

  De Ti eu quero

  Me aproximar!

 

  7 Consolo santo,

  Para o meu pranto

  Venho implorar.

 

  8 Bem sei, Senhor,

  Se sofro e choro.

  Se me demoro

  No padecer,

  É porque andei

  Longe do Amor,

  No meu viver.

 

  9 O Amor é a lei,

  Que me ensinaste

  E que deixaste

  Aos irmãos teus!

 

  10 Pra que eu pudesse,

  Ditosamente,

  Buscar os Céus.

 

  11 Assim, contente,

  Cheio de unção,

  Elevo a prece

  Do coração,

  A Ti, Senhor,

  Rogando amor,

  Paz e perdão!

 


 

A FORTUNA

  1 Anda a Fortuna por uma praça,

  Fala à Ventura com riso irmão,

  E mais adiante topa a Desgraça,

  E altiva e rude lhe esconde a mão.

 

  2 Vaidosa e bela, dá preferência

  Ao torpe egoísmo acomodatício,

  E entre as virtudes, na existência,

  Escolhe sempre flores do vício.

 

  3 E assim prossegue na desmarcada

  Carreira louca do vão prazer,

  Como perdida, e já sepultada,

  No esquecimento do próprio ser.

 

  4 Depois, cansada e já comovida,

  Quando só pede luz e amor,

  Acorre a Morte por dar-lhe a Vida,

  E vem a Vida por dar-lhe a Dor.

 


 

ORAÇÃO [II]

  1 Vós que sois a mãe bondosa

  De todos os desvalidos

  Deste vale de gemidos

  Mãe piedosa!…

 

  2 Sublime estrela que brilha

  No céu da paz, da bonança,

  Do céu de toda a esperança —

  Maravilha!

 

  3 Maria! — consolação

  Dos pobres, dos desgraçados,

  Dos corações desolados

  Na aflição,

 

  4 Compadecei-vos, Senhora,

  De tão grandes sofrimentos,

  Deste mundo de tormentos,

  Que apavora.

 

  5 Livrai-nos do abismo tredo

  Dos males, dos amargores,

  Protegei os pecadores

  No degredo.

 

  6 Estendei o vosso manto

  De bondade e de ternura,

  Sobre tanta desventura,

  Tanto pranto!

 

  7 Concedei-nos vosso amor,

  A vossa misericórdia,

  Dai paz a toda discórdia

  Trégua à dor!…

 

  8 Vós que sois Mãe carinhosa

  Dos fracos, dos oprimidos

  Deste vale de gemidos,

  Mãe bondosa!

 

  9 Oração:

 

  10 Pai de Amor e Caridade,

  Que sois a terna clemência

  E de todas as criaturas

  Carinhosa Providência!

  Que os homens todos vos amem,

  Que vos possam compreender,

  Pois tendo ouvidos não ouvem,

  E vendo não querem ver. (Mt)

 


 

ALÉM  n 

  1 Além da sepultura, a nova aurora

  Luminosa e divina se levanta;

  Lá palpita a beleza onde a alma canta,

  À luz do amor que vibra e revigora.

 

  2 Ó corações que a lágrima devora,

  Prisioneiros da dor que fere e espanta,

  Tende na vossa fé a bíblia santa,

  E em vossa luta o bem de cada hora.

 

  3 Além da morte, a vida tumultua,

  O trabalho divino continua…

  Vida e morte — exultai ao bendizê-las!

 

  4 Esperai nos tormentos mais profundos,

  Que a este mundo sucedem-se outros mundos,

  E às estrelas sucedem-se as estrelas!

 


 

SONETO [VI]

  1 Como outrora, entre ovelhas desgarradas,

  O coração tocado de agonias,

  O Mestre chora como Jeremias.

  Vendo o mundo nas lutas condenadas.

 

  2 Sempre a miséria e a dor nos vossos dias!

  Sempre a treva nas míseras estradas…

  Preces infindas e desesperadas,

  Do caminho de lágrimas sombrias…

 

  3 Dois milênios contando o grande ensino

  Do Amor, o luminoso bem divino,

  Sobre as desolações do mundo velho…

 

  4 Mas, em todos os tempos é a vaidade

  No egoísmo da triste Humanidade,

  Demorando as vitórias do Evangelho.

 


 

A PRECE

  1 O Senhor da Verdade e da Clemência

  Concedeu-nos a fonte cristalina

  Da prece, água do amor, pura e divina,

  Que suaviza os rigores da existência.

 

  2 Toda oração é a doce quintessência

  Da esperança ditosa e peregrina,

  Filha da crença que nos ilumina

  Os mais tristes refolhos da consciência.

 

  3 Feliz o coração que espera e ora,

  Sabendo contemplar a eterna aurora

  Do Além, pela oração profunda e imensa.

 

  4 Enquanto o mundo anseia, estranho e aflito,

  A prece alcança as bênçãos do Infinito,

  Nos caminhos translúcidos da Crença.

 


 

FRATERNIDADE

  1 Fraternidade é árvore bendita,

  Cujas flores e ramos de esperança

  Buscam a luz eterna que se agita,

  Rumo ao país ditoso da bonança.

 

  2 É a fonte cristalina em que descansa

  A alma humana fraca, errante e aflita;

  É a luminosa bem-aventurança

  Da mensagem de Deus, pura e infinita!…

 

  3 Vós que chorais ao coro das procelas,

  Vinde, irmãos! Desdobrai as vossas velas!…

  Não vos sufoque o horror da tempestade.

 

  4 Fraternidade é o derradeiro porto,

  A terra da união e do conforto,

  Que habitaremos na Imortalidade.

 


 

LEMBRAI A CHAMA

  1 Vós que buscais além da sepultura

  A resposta de luz da Eternidade,

  Nunca olvideis a Excelsa Claridade,

  Que reside convosco em noite escura.

 

  2 Somos todos a Grande Humanidade,

  Em direção à Fonte Eterna e Pura,

  Somos em toda parte a criatura

  Buscando os dons supremos da Verdade.

 

  3 Tendes convosco a Chama Adormecida…

  Rogamos acendais a Luz da Vida,

  Já que buscais mais crença junto a nós!

 

  4 Se quiserdes brilhar nos Outros Planos,

  Ó torturados corações humanos,

  Deixai que o Cristo nasça dentro em vós.

 


 

ETERNA MENSAGEM

  1 Ainda e sempre o Evangelho do Senhor

  É a mensagem eterna da Verdade,

  Senda de paz e de felicidade,

  Na luz das luzes do Consolador.

 

  2 Nos caminhos da lágrima e da dor,

  Ante os desfiladeiros da impiedade,

  Não sabe o coração da Humanidade

  Beber dessa água límpida do Amor.

 

  3 Mas os túmulos falam pela estrada,

  Em toda parte fulge uma alvorada

  Que ao roteiro dos Céus nos reconduz;

 

  4 O Evangelho, na luz do Espiritismo,

  É a escada de Jacob vencendo o abismo,

  Trazendo ao mundo o verbo de Jesus.

 


 

NO TEMPLO DA EDUCAÇÃO

  1 Distribuía o Mestre os dons divinos

  Da luz do seu Espírito sem jaça,

  E exclama, enquanto a turba observa e passa:

  — «Deixai virem a mim os pequeninos!…»

 

  2 É que na alma sincera dos meninos

  Há uma luz de ternura, amor e graça,

  De que o Senhor da Paz quer que se faça

  O sol da nova estrada dos destinos.

 

  3 Vós, que tendes a fé que ama e consola,

  Fazei do vosso lar a grande escola

  De justiça, de amor e de humildade!

 

  4 As conquistas morais são toda a glória

  Que a alma busca na vida transitória,

  Pelos caminhos da imortalidade.

 


 

NA NOITE DE NATAL

  1 — «Minha mãe, porque Jesus,

  Cheio de amor e grandeza,

  Preferiu nascer no mundo

  Nos caminhos da pobreza?

 

  2 Porque não veio até nós,

  Entre flores e alegrias,

  Num berço todo enfeitado

  De sedas e pedrarias?»

 

  3 — «Acredito meu filhinho,

  Que o Mestre da Caridade

  Mostrou, em tudo e por tudo,

  A luminosa humildade!…

 

  4 Às vezes, penso também.

  Nos trabalhos deste mundo,

  Que a Manjedoura revela

  Ensino bem mais profundo!»

 

  5 E a pobre mãe de olhos fixos

  Na luz do céu que sorria,

  Concluiu com sentimento,

  Em terna melancolia:

 

  6 — «Por certo, Jesus ficou

  Nas palhas, sem proteção,

  Por não lhe abrirmos na Terra

  As portas do coração.»

 

.João de .Deus

 


[1] Esta mensagem psicografada em 19/5/1942, foi publicada originalmente em 1972 pela LAKE e é a 2.ª do livro “Taça de luz

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.