Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Parnaso de Além-Túmulo — Autores diversos


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Antero de Quental


Nascido na ilha de S. Miguel, nos Açores, em 1842 e desencarnado por suicídio em 1891. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas, caracterizando-se pelo seu espírito filosófico.


Ciência ínfima

1 Onde o grande caminho soberano
Da Ciência que abriu a nova era,
Investigando a entranha da monera,
A desvendar-se no capricho insano?


2 Ciência que se elevou à estratosfera
E devassou os fundos do oceano,
Fomentando o princípio desumano
Da ambição onde a força prolifera…


3 Ciência de ostentação, arma de efeito,
Longe da Luz, da Paz e do Direito,
Num caminho infeliz, sombrio e inverso;


4 Sob o alarme guerreiro, formidando,
Eis que a Terra te acusa, soluçando,
Como a Grande Mendiga do Universo!…




Rainha do Céu

1 Excelsa e sereníssima Senhora
Que sois toda Bondade e Complacência,
Que espalhais os eflúvios da Clemência
Em caminhos liriais feitos de aurora!…


2 Amparai o que anseia, luta e chora,
No labirinto amargo da existência.
Sede a nossa divina providência
E a nossa proteção de cada hora.


3 Oh! Anjo Tutelar da Humanidade.
Que espargis alegria e claridade
Sobre o mundo de trevas e gemidos;


4 Vosso amor, que enche os céus ilimitados,
É a luz dos tristes e dos desterrados,
Esperança dos pobres desvalidos!…




À Morte

1 Ó Morte, eu te adorei, como se foras
O Fim da sinuosa e negra estrada,
Onde habitasse a eterna paz do Nada
Às agonias desconsoladoras.


2 Eras tu a visão idolatrada
Que sorria na dor das minhas horas,
Visão de tristes faces cismadoras,
Nos crepes do Silêncio amortalhada.


3 Busquei-te, eu que trazia a alma já morta,
Escorraçada no padecimento,
Batendo alucinado à tua porta;


4 E escancaraste a porta escura e fria,
Por onde penetrei no Sofrimento,
Numa senda mais triste e mais sombria.




Depois da morte

I


1 Apenas dor no mundo inteiro eu via,
E tanto a vi amarga e inconsolável,
Que num véu de tristeza impenetrável
Multiplicava as dores que eu sofria.


2 Se vislumbrava o riso da alegria,
Fora dessa amargura inalterável,
Esse prazer só era decifrável
Sob a ilusão da eterna fantasia.


3 Ao meu olhar de triste e de descrente,
Olhar de pensador amargurado,
Só existia a dor, ela somente.


4 O gozo era a mentira dum momento,
Os prazeres, o engano imaginado
Para aumentar a mágoa e o sofrimento.


II


1 Misantropo da ciência enganadora,
Trazia em mim o anseio irresistível
De conhecer o Deus indefinível,
Que era na dor, visão consoladora.


2 Não O via e, no entanto, em toda hora
Nesse anelo cruciante e intraduzível,
Podia ver, sentindo o Incognoscível
E a sua onisciência criadora.


3 Mas a insídia do orgulho e da descrença
Guiava-me a existência desolada,
Recamada de dor profunda e intensa;


4 Pela voz da vaidade, então, eu cria
Achar na morte a escuridão do Nada,
Nas vastidões da terra úmida e fria.


III


1 Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,


2 Morri, reconhecendo todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!


3 E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,


4 Vim gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva
Iluminando todas as alturas.




Soneto

1 Quisera crer, na Terra, que existisse
Esta vida que agora estou vivendo,
E nunca encontraria abismo horrendo,
De amargoso penar que se me abrisse.


2 Andei cego, porém, e sem que visse
Meu próprio bem na dor que ia sofrendo;
Desvairado, ao sepulcro fui descendo,
Sem que a Paz almejada conseguisse.


3 Da morte a Paz busquei, como se fora
Apossar-me do eterno esquecimento,
Ao viver da minhalma sofredora;


4 E em vez de imperturbáveis quietitudes,
Encontrei os Remorsos e o Tormento,
Recrudescendo as minhas dores rudes.




O remorso

1 Quando fugi da dor, fugindo ao mundo,
Divisei aos meus pés, de mim diante,
A medonha figura de gigante
Do Remorso, de olhar grave e profundo.


2 Era de ouvir-lhe o grito gemebundo,
Sua voz cavernosa e soluçante!…
Aproximei-me dele, suplicante,
Dizendo-lhe, cansado e moribundo: —


3 «Que fazes ao meu lado, corvo horrendo,
Se enlouqueci no meu degredo estranho,
Acordando-me em lágrimas, gemendo?»


4 Ele riu-se e clamou para meus ais:
«Companheiro na dor, eu te acompanho,
Nunca mais te abandono! Nunca mais!»




Soneto

1 Mais se me afunda a chaga da amargura
Quando reflexiono, quando penso
No mar humano, encapelado e imenso,
Onde se perde a luz em noite escura…


2 Nesse abismo de treva a bênção pura,
Do espírito de amor ao mal infenso,
Sente o assédio do mal. É o contrassenso
Da luz unida à lama que a tortura.


3 Mais se me aumenta a chaga dolorida,
Escutando o soluço cavernoso
Da pobre Humanidade escravizada;


4 Sentindo o horror que nasce dessa vida,
Que se vive no abismo tenebroso,
Cheio do pranto da alma encarcerada!




Deus

1 Quem, senão Deus, criou obra tamanha,
O espaço e o tempo, as amplidões e as eras,
Onde se agitam turbilhões de esferas,
Que a luz, a excelsa luz, aquece e banha?


2 Quem, senão ELE fez a esfinge estranha
No segredo inviolável das moneras,
No coração dos homens e das feras,
No coração do mar e da montanha?!


3 Deus!… somente o Eterno, o Impenetrável,
Poderia criar o imensurável
E o Universo infinito criaria!…


4 Suprema paz, intérmina piedade,
E que habita na eterna claridade
Das torrentes da Luz e da Harmonia!!




Consolai

1 Se eu pudesse, diria eternamente,
Aos flagelados e desiludidos,
Que sobre a Terra os grandes bens perdidos
São a posse da luz resplandecente.


2 A dor mais rude, a mágoa mais pungente,
Os soluços, os prantos, os gemidos,
Entre as almas são louros repartidos
Muito longe da Terra impenitente.


3 Oh! se eu pudesse, iria em altos brados
Libertar corações escravizados
Sob o guante de enigmas profundos!


4 Mas, dizei-lhes, ó vós que estais na Terra,
Que a luz espiritual da dor encerra
A ventura imortal dos outros mundos!




Crença

1 Minha vida de dor e de procela
Que se extinguiu na tempestade imensa,
Despedaçou-se à falta dessa crença,
Que as grandes luzes místicas revela.


2 E estraçalhei-me como alguém que sela
Com o supremo infortúnio a dor intensa,
Desvairado de angústia e de descrença,
Dentro da vida sem compreendê-la.


3 Ah! Crer! bem que na Terra, não possuí,
Quando entre conjeturas me perdi,
De tão pequena dor fazendo alarde…


4 Crença! Luminosíssima riqueza
Que enche a vida de paz e de beleza,
Mas que chega no mundo muito tarde.




Não choreis

1 Não choreis os que vão em liberdade
Buscar no Espaço o luminoso leito
Da paz, distante do caminho estreito
Desse mundo de dor e de orfandade.


2 O pranto é a flor de aromas da saudade,
Que perfuma e crucia o vosso peito,
Mas, transformai-o em gozo alto e perfeito,
Em santa e esperançosa claridade.


3 Chega um dia em que o Espírito descansa
Das aflições, angústias e cansaços,
Dos aguilhões das dores absolutas:


4 Feliz de quem, na Crença e na Esperança,
Procura a luz sublime dos espaços,
Buscando a paz depois das grandes lutas.




Mão Divina

1 A luz da mão divina sempre desce,
Misericordiosa e compassiva,
Sobre as dores da pobre alma cativa,
Que está nas sendas lúcidas da Prece.


2 Se a amargura das lágrimas se aviva,
Se o tormento da vida recrudesce,
Aguardai a abundância da outra messe
De venturas, que é da alma rediviva.


3 Confiando, esperai a Providência
Com os sentimentos puros, diamantinos,
Lendo os artigos ríspidos da Lei!


4 Os filhos da Piedade e da Paciência
Encontrarão nos páramos divinos
A paz e as luzes que eu não alcancei.




Almas sofredoras

1 Passam na Terra como as ventanias,
Ou como agigantadas nebulosas
Provindas de cavernas misteriosas,
Essas compactas legiões sombrias;


2 Turbas de almas escravas de agonias,
Com que andei entre queixas dolorosas,
Ao palmilhar estradas escabrosas,
Entre as noites mais lúgubres e frias!


3 Oh! visões de martírios que apavoram,
Miseráveis Espíritos que choram,
Sob os grilhões de rude sofrimento!


4 Orai por eles, bons trabalhadores
Que estais colhendo sobre a Terra as flores
De um doce e temporário esquecimento.




Supremo engano

1 Vê-se da Terra o Céu, em toda a vida,
Como um vergel azul de lírios brancos,
Onde mora a ventura, e em cujos flancos
Repousa a grande mágoa adormecida


2 Céu! Quanta vez minhalma entristecida
Anteviu tua paz, sob os arrancos,
Sob os golpes da dor, rijos e francos,
Na escuridão espessa e indefinida!


3 Não sonhei com teus deuses venturosos,
Com teus grandes olimpos majestosos,
Cheios de vida e de infinitos bens…


4 Antegozei, somente, em minhas dores,
A paz livre de trevas e pavores,
Do imperturbável nada que não tens!




Incognoscível

1 Para o Infinito, Deus não representa
A personalidade humanizada,
Pelos seres terrenos inventada,
Cheia, às vezes, de cólera violenta.


2 Deus não castiga o ser e nem o isenta
Da dor, que traz a alma lacerada
Nos pelourinhos negros de uma estrada
De provação, de angústia e de tormenta.


3 Tudo fala de Deus nesse desterro
Da Terra, orbe da lágrima e do erro,
Que entre anseios e angústias conheci!


4 Mas, quanto o vão mortal inda se engana,
Que em sua triste condição humana
Fez a essência de Deus igual a si!




Fatalidade

1 Crê-se na Morte o Nada, e, todavia,
A Morte é a própria Vida ativa e intensa,
Fim de toda a amargura da descrença,
Onde a grande certeza principia.


2 O meu erro, no mundo da Agonia,
Foi crer demais na angústia e na doença
Da alma que luta e sofre, chora e pensa,
Nos labirintos da Filosofia…


3 E no meio de todas as canseiras
Cheguei, enfim, às dores derradeiras
Que as tormentas de lágrimas desatam!…


4 Nunca, na Terra, a crença se realiza,
Porque em tudo, no mundo, o homem divisa
A figura das dúvidas que matam.




Estranho concerto n

1 Clamou o Orgulho ao homem: — «Goza a vida!
E fere, brasonado cavaleiro,
Coroado de folhas de loureiro,
Quem vai de alma gemente e consumida…»


2 Veio a Vaidade e disse: — «A toda brida!
Dominarás, além, no mundo inteiro,
Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro
De soberana glória indefinida!…»


3 Mas a Verdade, sobre a humana furna,
Gritou-lhe angustiada, em voz soturna:
— «Insensato! Aonde vais, sem Deus, sem norte?»


4 E impeliu, sem detença e sem barulho,
Cavaleiro e corcel, vaidade e orgulho,
Aos tenebrosos pântanos da Morte.


Antero de Quental



[1] Esta mensagem foi também publicada pelo GEEM e é a 6ª lição do livro “Vereda de Luz


Texto extraído da 6ª edição desse livro. — Revista e ampliada pelos autores espirituais.

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