O Caminho Escritura do Espiritismo Cristão
Doutrina espírita - 2ª parte.

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Opúsculos — F. C. Xavier — Francisca Clotilde ©

(Texto extraído da 4ª edição desse livro — 1987.)

6

Tintino… o espetáculo continua n


 

Leitor amigo.

Quando Francisca Clotilde, o educadora, acabou de contar a história de Tintino, num de nossos serões espirituais, o enternecimento nos tomara, de todo.

— Escreva, Francisca, escreva algumas notas sobre o nosso herói de vida simples — solicitou uma de nossas companheiras — transmita alguma notícia dele aos nossos irmãos do mundo físico. Esse é um episódio em que se reconhecerá o salário dos Céus aos que distribuem na Terra coragem e esperança, paz e alegria.

No dia imediato, estávamos a postos, em companhia do instrutora, junto do médium que nos acolhia.

A nobre amiga, depois da nossa prece, passou o escrever, mediunicamente, a história-poema que te colocamos nas mãos, agradecendo a Bondade de Deus.

Quando terminou o narrativa, reconstituindo a saga autêntica de um palhaço sensível e afetuoso, a autora mostrava os olhos iluminados de profunda alegria, relembrando a figura de Tintino que os arquivos da memória lhe colocavam à frente do coração.

Quanto a nós, acompanhando-lhe as páginas simples e belas, tínhamos a alma dominada, de novo, pela emoção, sem conseguir articular palavra.


Meimei


Uberaba, 2 de setembro de 1976.




TINTINO… O ESPETÁCULO CONTINUA

1 Segue Tintino doente,
Segue sempre, rua em rua.
Nem ele sabe onde mora,
Só sabe que continua…


2 Continua caminhando
Com vontade de chegar…
Chegar aonde?!… Sozinho,
Não tem a porta de um lar…


3 Escora-se unicamente
No cajado a que se aferra.
Guarda noventa janeiros
No corpo inclinado à terra.


4 Todo o rosto encarquilhado
Parece em rugas de cera.
Fora somente palhaço,
Em muitos circos vivera…


5 Nesse dia, estava aflito,
Sentia dores sem conta.
Tinha mais frio, mais febre,
Trazia a cabeça tonta.


6 Ah! se tivesse — anotava
Tristemente a refletir
Uma esteira e um cobertor
Num quarto para dormir!…


7 Lembrava a infância risonha
No rancho humilde e bem posto
O pai cultivando a roça,
A mãe a beijar lhe o rosto!…


8 De manhã, café à mesa,
Pão com manteiga em sacola;
Depois, as rixas alegres
Entre os colegas da escola…


9 Após a morte dos pais,
Levados por Deus ao Céu,
Fez-se menino de circo,
Seguindo de déu em déu.


10 Criou-se nele um palhaço…
Brincava de cena em cena.
Agora rememorava
As piruetas de arena…


11 Deram-lhe um nome: Tintino…
Isso talvez porque usasse,
Toda vez que se exibia,
Diversas tintas na face.


12 Recordava as grandes noites,
A música alvoroçada,
As palmas, chapéus em flores
E os gritos da petizada…


13 Quando mais ampla era a festa,
Quanto aplauso, quanta gente!…
Depois… Enfermo e cansado,
Era Tintino somente.


14 Começara a chuva leve…
Sob indomável temor,
Decidiu se a procurar
Quem lhe desse um cobertor.


15 Vinha a noite… Sob a ponte,
Em que, há muito, residia,
Enfrentaria, decerto,
Geada com ventania.


16 Foi ao próximo armazém,
Pediu, recebendo um “não”.
E o dono inda acentuou:
Saia daqui, beberrão!…


17 — Cachaça? Nunca bebi…
Disse o pobre amargamente.
Mas o chefe replicou:
— Caia fora, siga em frente!…


18 Um homem que observava
Acrescentou do balcão:
— Este velho é conhecido,
Era palhaço e ladrão.


19 Não se ouviu qualquer resposta
Do infortunado pedinte…
Foi-se Tintino, em silêncio,
Bater à casa seguinte.


20 Respeitoso, pôs-se à porta
De Dona Estela, a viúva;
Pediu, em nome de Deus,
Mostrou receio da chuva…


21 Dona Estela resmungou:
— Vá-se, patife indecente;
Você viveu na folia,
Sem folia que se aguente!…


22 O pobre mudou de rumo,
Foi ao bar de João da Lua;
Mas João disse aos empregados:
— Joguem Tintino na rua!…


23 Um moço de corpo enorme,
O lutador Marturino,
Tomou de grande vassoura
E avançou sobre Tintino…


24 Tintino arrastou-se a custo,
Pôs-se, ao longe, na calçada;
Recebera nas costelas
Vigorosa vassourada.


25 Caíra a noite chuvosa,
Quantos carros em vai-vem!…
Tintino queria amparo,
Mas não surgia ninguém.


26 Meia-noite… Trevas densas…
Sobre a pedra, fraco e mudo,
O pobre não mais se erguera;
O vento gelava tudo.


27 Se pudesse, gritaria,
Em vão, tentava falar!…
Quem lhe traria remédio
À dor do peito sem ar?


28 Por fim, dormiu e sonhou
Que estava como queria.
Renovado e bem disposto
Numa noite de alegria.


29 Escutou alguém cantando…
Que linda voz!… De quem era?
Viu-se em noite enluarada
Com cheiro de primavera.


30 A roupa nova, que usava,
De tão bela parecia
Toda tecida de prata,
Mais clara que a luz do dia.


31 Seguia estrada entre flores,
Admirado por vê-las…
E, andando, achou-se ante um circo
Todo enfeitado de estrelas.


32 Pediu entrada e ouviu logo
As palmas de muito povo;
Crianças vinham em bando
Para abraçá-lo de novo.


33 Onde estaria? — indagava —
Em que formoso país?
E, embora seguindo a esmo,
O pobre ria feliz.


34 Ouviu-se música em festa…
Quis trabalhar, prazenteiro;
Entretanto, a criançada
Vibrava no picadeiro.


35 Um moço surgiu à frente
E falou, dando-lhe a mão:
— Tintino, você chegou
À grande libertação.


36 Você construiu no circo,
Servindo de bom humor,
A senda que o trouxe agora
Ao reino de paz e amor.


37 — Que vejo? — gritava ele…
E o brando amigo explicava:
— São as crianças da Terra
A quem você consolava.


38 Mais além, é a multidão,
Que trabalhava e sofria,
Para a qual você levava
O pão de luz da alegria.


39 O Céu vela sobre todos,
Não há serviço infecundo;
Eu sei que você chorava
Embora alegrando o mundo…


40 Há quem reclame dos outros
Recreações sem medidas,
Sem ver que os outros caminham
Por lágrimas escondidas.


41 O circo pagou a graça
Que você distribuiu.
Mas Deus lhe premia agora
As dores que ninguém viu.


42 Tintino em pranto indagou
Ao moço vestido em luz:
— Diga senhor…. quem me fala?…
Ele disse: — Eu sou Jesus!…


43 Tintino abraçou-se a ele
E ele abraçou-se a Tintino…
No alto fez-se uma estrada
Aberta em fulgor divino.


44 Amparado por Jesus,
Ia-se o terno palhaço,
Crendo fitar nas estrelas
Trapézios soltos no espaço…


45 Vozes cantavam, de manso,
No caminho em brilho e flor:
— Deus engrandeça na vida
A fonte eterna do amor!…


46 No outro dia, uma senhora
Viu Tintino olhando o alto.
Mas verifica: — o mendigo
Morrera à beira do asfalto.


47 No rosto imóvel pairava
Uma expressão de criança
Que tivesse adormecido,
Numa festa de esperança.


Francisca Clotilde



[1] O livro impresso está inteiramente ilustrado com imagens representativas do seu conteúdo.


Texto extraído da 4ª edição desse livro.

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