Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Os mensageiros — André Luiz


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Defesa contra o mal

(Sumário)

1. Descemos as escadarias e, em frente dos muros altos, pude observar a extensão das defesas do soberbo edifício. n Aquela construção grandiosa era muito mais importante que a de qualquer castelo antigo, transformado em fortaleza.

2 Novamente no exterior, podia detalhar a visão panorâmica com mais exatidão. Reconhecia, agora, que entráramos por um baluarte avançado, identificando a imponência da construção majestosa. Apresentavam-se-me as linhas gerais com nitidez.

3 Impressionavam-me, sobretudo, as fortificações. Via a torre de mensagem, consagrada, por certo, ao serviço de resistência; o baluarte agudo, elevando-se acima dos fossos que deixavam transbordar a água corrente; a torre de vigia, esbelta e alterosa. Observei o caminho da ronda, a cisterna, as seteiras e, em seguida, as paliçadas e barbacãs, refletindo na complexidade de todo aquele aparelhamento defensivo. 4 E as armas? Identificava-lhes a presença na maquinaria instalada ao longo dos muros, copiando os pequenos canhões conhecidos na Terra. Entretanto, vi com emoção, no cume da torre de vigia, a enorme bandeira de paz, muito alva, tremulando ao vento como largo penacho de neve…


2. O administrador percebeu a estranheza que se apossara de Vicente e de mim.

— Já sei a impressão que a nossa defesa lhes causa, — disse Alfredo, detendo-se para explicar.

2 Fixando-nos com o olhar muito lúcido, continuou:

— Naturalmente, não imaginavam necessárias tantas fortificações. Conforme veem, nossa bandeira é de concórdia e harmonia; no entanto, é imprescindível considerar que estamos em serviço que precisaremos defender, em qualquer circunstância. Enquanto não imperar a lei universal do amor, é indispensável persevere o reinado da justiça. 3 Nosso Posto está colocado, aqui, igualmente, como “ovelha em meio de lobos”, e, embora não nos caiba efetuar o extermínio das feras, necessitamos defender a obra do bem contra os assaltos indébitos. 4 As organizações dos nossos irmãos consagrados ao mal são vastíssimas. Não admitam a hipótese de serem, todos eles, ignorantes ou inconscientes. A maioria se constitui de perversos e criminosos. São entidades verdadeiramente diabólicas. Não tenham disso qualquer dúvida.

5 — Deus meu! — Exclamou Vicente, admirado, — mas porque se organizam deliberadamente para o mal? Não sabem, porventura, que todos os patrimônios universais pertencem à Majestade Divina? Não reconhecem o Soberano Poder?

6 — Ah! Meu amigo, — falou Alfredo em tom grave, — fiz as mesmas perguntas quando aqui cheguei pela primeira vez. As respostas que tive foram incisivas e concludentes. 7 Poderíamos, Vicente, formular na Crosta as mesmas interrogações. Os criminosos que fazem as vítimas da guerra, os exploradores da economia popular, os avarentos misérrimos, os sedentos de injustificado predomínio e os vaidosos cheios de fatuidade sabem, tão bem quanto os nossos adversários daqui, que tudo pertence a Deus, que o homem é simples usufrutuário dos divinos bens. 8 Não ignoram que os antepassados foram chamados à verdade e a contas pela morte, e que eles seguirão os mesmos caminhos; entretanto, atormentam-se na Crosta como verdadeiros loucos, amontoando possibilidades para a ruína e abusando das oportunidades mais santas. 9 Aqui se verifica a mesma coisa. Querem dominar antes de se dominarem, exigem antes de dar e entram em perene conflito com o espírito divino da lei. Estabelecido o duelo entre a fantasia deles e a verdade do Pai, resistem às corrigendas do Senhor e transformam-se, esses desventurados, em verdadeiros gênios da sombra, até que, um dia, se decidam a novos rumos.

10 Intrigado com as profundas observações, perguntei:

— Mas, como explicar as bases de semelhante atitude? Na Terra, compreendemos certos enganos, mas aqui…

11 O generoso interlocutor não me deixou terminar e prosseguiu:

— Na Crosta, nossos irmãos menos felizes lutam pela dominação econômica, pelas paixões desordenadas, pela hegemonia de falsos princípios. Nestas zonas imediatas à mente terrestre, temos tudo isso em identidade de condições. 12 Entre as entidades perversas e ignorantes, há cooperativas para o mal, sistemas econômicos de natureza feudalista, baixa exploração de certas forças da Natureza, vaidades tirânicas, difusão de mentiras, escravização dos que se enfraquecem pela invigilância, doloroso cativeiro dos Espíritos falidos e imprevidentes, paixões talvez mais desordenadas que as da Terra, inquietações sentimentais, terríveis desequilíbrios da mente, angustiosos desvios do sentimento. 13 Em todo o lugar, meu amigo, as quedas espirituais, perante o Senhor, são sempre as mesmas, embora variem de intensidade e coloração.


3. — Mas… e as armas? — Perguntei, — acaso são utilizadas?

— Como não? — Disse Alfredo, pressuroso, — não temos balas de aço, mas temos projéteis elétricos. Naturalmente, a ninguém atacaremos. Nossa tarefa é de socorro e não de extermínio.

2 — No entanto, — aduzi, sob forte impressão, — qual o efeito desses projéteis?

— Assustam terrivelmente, — respondeu ele, sorrindo, — e, sobretudo, demonstram as possibilidades de uma defesa que ultrapassa a ofensiva.

3 — Mas apenas assustam? — Tornei a interrogar.

Alfredo sorriu mais significativamente e acrescentou:

— Poderiam causar a impressão de morte.

— Que diz! — Exclamei com insofreável espanto.

4 O administrador meditou alguns instantes, e, ponderando, talvez, a gravidade dos esclarecimentos, obtemperou:

— Meu amigo! Meu amigo! Se já não estamos na carne, busquemos desencarnar também os nossos pensamentos. 5 As criaturas que se agarram, aqui, às impressões físicas, estão sempre criando densidade para os seus veículos de manifestação, da mesma forma que os Espíritos dedicados à região superior estão sempre purificando e elevando esses mesmos veículos. 6 Nossos projéteis, portanto, expulsam os inimigos do bem através de vibrações do medo, mas poderiam causar a ilusão da morte, atuando sobre o corpo denso dos nossos semelhantes menos adiantados no caminho da vida. 7 A morte física, na Terra, não é igualmente pura impressão? Ninguém desaparece. O fenômeno é apenas de invisibilidade ou, por vezes, de ausência. Quanto à responsabilidade dos que matam, isto é outra coisa. 8 E além desta observação, que é da alçada da Justiça Divina, temos a considerar, igualmente, que, nesta Esfera, o corpo denso modificado pode ressurgir todos os dias, pela matéria mental destinada à produção dele, enquanto que, para obter o corpo físico, almas há que trabalham, por vezes, durante séculos…

Vicente e eu caláramos, estupefatos.


4. Alfredo sorriu serenamente e perguntou, bem humorado:

— Vocês conhecem a lenda hindu da serpente e do santo?

2 Ante a nossa expressão negativa, o administrador continuou:

— Contam as tradições populares da Índia que existia uma serpente venenosa em certo campo. Ninguém se aventurava a passar por lá, receando-lhe o assalto. Mas um santo homem, a serviço de Deus, buscou a região, mais confiado no Senhor que em si mesmo. 3 A serpente o atacou, desrespeitosa. Ele dominou-a, porém, com o olhar sereno, e falou: — Minha irmã, é da lei que não façamos mal a ninguém. A víbora recolheu-se, envergonhada. 4 Continuou o sábio o seu caminho e a serpente modificou-se completamente. Procurou os lugares habitados pelo homem, como desejosa de reparar os antigos crimes. Mostrou-se integralmente pacífica, mas, desde então, começaram a abusar dela. 5 Quando lhe identificaram a submissão absoluta, homens, mulheres e crianças davam-lhe pedradas. A infeliz recolheu-se à toca, desalentada. Vivia aflita, medrosa, desanimada. 6 Eis, porém, que o santo voltou pelo mesmo caminho e deliberou visitá-la. Espantou-se, observando tamanha ruína. A serpente contou-lhe, então, a história amargurada. Desejava ser boa, afável e carinhosa, mas as criaturas perseguiam-na e apedrejavam-na. 7 O sábio pensou, pensou e respondeu após ouvi-la: — Mas, minha irmã, houve engano de tua parte. Aconselhei-te a não morderes ninguém, a não praticares o assassínio e a perseguição, mas não te disse que evitasses de assustar os maus. 8 Não ataques as criaturas de Deus, nossas irmãs no mesmo caminho da vida, mas defende a tua cooperação na obra do Senhor. Não mordas, nem firas, mas é preciso manter o perverso a distância, mostrando-lhe os teus dentes e emitindo os teus silvos.

9 Nesse momento, Aniceto sorriu de maneira expressiva.

O administrador fez longa pausa e concluiu:

— Creio que a fábula dispensa comentário.


André Luiz



[1] [Vide: Algumas referências ao uso de aparelhos e objetos diversos no Mundo Espiritual.]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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