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1 Depois de morto, o Tonho Fazendeiro,
Ricaço do Varjão de Tapiruva,
Deu de morar num galho de criúva
E assombrar as galinhas do terreiro.
2 Roncava ser grandão e manda-chuva,
Xingava e gargalhava o dia inteiro.
Queria terra e sacos de dinheiro,
A debochar das preces da viúva.
3 Certa noite surgiu sobre o sarilho
O Espírito do pai que disse: — “Filho,
Deus te abençoe, meu filho, meu Antônio!”
4 Mas Nhô Tonho correu pulando um muro,
Berrou que nem cabrito: — “Te esconjuro!”
Pensando que o pai dele era o demônio…
5 “Quem foge ao mar não se afoga”,
Repete o povo onde vais,
Contudo, quem não se arrisca
Nunca se afasta do cais.
6 Dinheiro e palha — um só peso
Pelo prumo da balança,
Mas dinheiro com bondade
Renova a luz da esperança.
7 Não há noite tão profunda
De tentação ou pesar,
Que o pensamento na prece
Não consiga iluminar.
Cornélio Pires |