Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Os dois maiores amores — Autores diversos


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Outro conto de Natal

  1 Natal!… Estrelas ao alto

  São pontos de luz e arminho…

  Caminhando esfarrapado,

  Tropeça o pobre Joãozinho.


  2 Dez anos de idade apenas,

  Rolando ao calçado roto,

  Tem febre, não sabe o rumo

  Para o descanso no esgoto…


  3 “Hosanas! Jesus nasceu!…”

  Cantam vozes cristalinas,

  Guirlandas pendem no ar,

  Brilham bolas nas vitrinas.


  4 Muitos carros vão passando,

  Muita gente vai e vem,

  Ele, no entanto, vai só

  Sem atenção de ninguém.


  5 Sente frio, sede e fome…

  Vê-se tonto em tanta luz…

  Um grupo passa exaltando:

  — “Louvado seja Jesus!…”


  6 Por fim, alcança uma casa,

  Bate à porta e pede pão,

  O dono agride: — “Cai fora!…

  Tão pequenino e ladrão!…”


  7 Tremendo, afasta-se e pede

  Um copo d’água num bar,

  Um jovem grita: — “Chicote

  É tudo o que vou te dar…”


  8 Arrasta-se amedrontado,

  Prossegue gemendo em vão,

  Até que desanimado,

  Joãozinho tomba no chão.


  9 Agora sente-se em paz,

  Repousa e pensa, porque

  Caiu num recanto escuro,

  Quem passa não mais o vê.


  10 O pequeno chora e conta,

  Na mágoa que o desconforta,

  O tempo de solidão

  Depois da mãezinha morta.


  11 Quantas noites na calçada!…

  O menino não se esquece…

  Mãe morta, casa fechada,

  E mais ninguém que o quisesse…


  12 Quantos dias de penúria

  Atravessara a sofrer?

  Quanto tempo de orfandade?

  Não saberia dizer…


  13 Não desconhece, no entanto,

  Que sofre e que está sozinho…

  Por isso mesmo, cansado,

  Recorda e chora baixinho…


  14 Natal vibrando!… Não mais

  A casa de antigamente…

  Quem viria agora vê-lo?

  Quem lhe daria um presente?…


  15 Nisso, um moço de olhar brando

  Surgiu e disse-lhe: — “João,

  Escute! Que faz você

  Aí deitado no chão?…”


  16 Ele responde: — “Ah! senhor,

  O Natal é hoje e eu…

  Eu choro sentindo a falta

  De minha mãe que morreu…”


  17 Sentou-se o recém-chegado

  E, ao retirá-lo do pó,

  Acrescentou com bondade:

  — “Mas você não está só…”


  18 “Que espera hoje?” — indagou

  A voz serena e invulgar

  “Um companheiro, um cãozinho,

  Um carro para brincar?”


  19 “Deseja uma pipa grande

  Ou quer um grande balão?

  Estimaria outra coisa?

  Que quer você? Fale, João…”


  20 O pequeno esclareceu

  De olhar triste e fatigado:

  — “Ah! senhor, eu só queria

  Ter minha mãe ao meu lado!…”


  21 O visitante exclamou

  De expressão mais doce e bela:

  — “Pois vou levá-lo, Joãozinho,

  A fim de viver com ela!…”


  22 Gritou João abrindo os braços,

  Magros braços seminus:

   — “Mas o senhor quem é mesmo?…

  E o moço disse: — “Jesus!…”


  23 Naquela nesga de rua

  Esquecida e esburacada,

  Brilhava um clarão divino

  Na sombra da madrugada.


  24 Viu-se João num colo amigo,

  Tudo paz em derredor…

  A Terra ficava longe,

  O Céu ficava maior!…


  25 As vozes no firmamento

  Soavam plenas de amor:

  — “Hosanas! Jesus nasceu!…

  Louvado seja o Senhor!…”


  26 No coração do menino

  Da angústia nada mais resta,

  Sob o fulgor da esperança,

  Tudo alegria de festa!…


  27 De manhã um verdureiro,

  Ao fitá-lo em desconforto,

  Pôs-se a chamá-lo de leve,

  Mas Joãozinho estava morto.


Francisca Clotilde


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