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Novo mundo — Entrevistas — Emmanuel

 

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Chico fala dos seus sessenta anos de mediunidade

.Carlos A. Baccelli

 

(Jornal “A Flama Espírita” — Uberaba, Minas, 20 julho de 1987).

 

Dia 8 de julho próximo, o nosso estimado Chico Xavier estará completando sessenta anos de mediunidade!

Sabemos que foi em 1927 o início da tarefa abençoada que cumpre na presente existência.

As lutas foram e continuam sendo enormes, todavia, como fiel discípulo do Cristo, em silêncio ele prossegue servindo…

O seu trabalho chega a ser quase inacreditável! Sim, porque, em se tratando de uma só pessoa, com as limitações próprias de todo ser humano, não sabemos como consegue superar-se e produzir tanto, em que pese a presença constante dos Benfeitores Espirituais em sua vida, entre os quais se destaca a figura extraordinária de Emmanuel.

Os livros que lhe nasceram das mãos aproximam-se da marca dos trezentos volumes, em edições que se esgotam sucessivamente.

As suas seis décadas consagradas ao labor mediúnico, com Jesus e Kardec, em verdade representam uma faixa de tempo muito mais ampla, principalmente se levarmos em conta apenas as três ou quatro horas de repouso diário, no refazimento das próprias energias.

Desnecessário que nos alonguemos aqui em outras considerações.

Na noite do dia 25 de março fomos visitá-lo na intimidade de seu lar.

Pedimos-lhe, então, que nos concedesse uma rápida entrevista falando sobre os seus sessenta anos de mediunidade, já que não gostaríamos de cansá-lo com perguntas que, certamente, lhe foram feitas inúmeras vezes, ao longo do tempo.

Em nome da nossa amizade, Chico humildemente aquiesceu, e aqui está o resultado do trabalho que apresentamos agora aos nossos companheiros de Ideal Espírita, rogando ao Senhor da Vida que o envolva em nossas vibrações de carinho e profunda gratidão.

 

1. — Chico como você se sente ao estar completando, no próximo dia 8 de julho, sessenta anos de abençoada mediunidade?

— Baccelli, aos sessenta janeiros de mediunidade, com serviço constante, noto que o meu instrumento físico — no caso, o meu próprio corpo — registra desgaste natural e compreensível, após seis décadas de ação.

Digo isto, porque nessa cota de tempo está incluído o período de trinta e cinco anos em que servi na condição de funcionário do Ministério da Agricultura, hoje aposentado.

Entretanto, pode crer que, do ponto de vista espiritual, a minha alegria com a mediunidade não sofreu qualquer alteração.

O corpo terá motivos para não se mostrar tão apto como antigamente para as minhas atividades normais, no entanto, quanto mais se me desgasta o veículo físico, mais vivo é o meu entusiasmo com as tarefas que me foram confiadas.

Neste sentido, para que o nosso entendimento não se afaste do bom humor a que nos habituamos, peço permissão para contar a você que uma de minhas irmãs, residente em Pedro Leopoldo, perguntando-me numa carta do mês passado, como eu me sentia ao completar sessenta anos de mediunidade ativa e ininterrupta, respondi-lhe que me reconheço à maneira de um trabalhador do campo, preparando-me para o regresso ao lar, depois de um longo dia de trabalho.

 

2. — O que essa convivência estreita com os Espíritos lhe tem ensinado de mais importante?

— Creio que a matéria mais importante que recolhi da convivência diária com os Amigos Espirituais, durante sessenta anos, é o que julgo seja o meu relacionamento com os meus semelhantes.

Tendo saído de um curso primário que não me proporcionava naturalmente qualquer diretriz psicológica para compreender as outras pessoas, o tato e a caridade que os Espíritos Amigos me ensinaram para guardar o respeito que devo ao próximo e que preciso manter para minha paz íntima na essência, foram e ainda são os melhores recursos que recebi da convivência com eles para me relacionar com os irmãos da caminhada humana. Isso porque me cabe aceitá-los como são, dosando a verdade em qualquer diálogo que se faça necessário, sem feri-los e sem prejudicá-los.

Dizem os Amigos Espirituais que as atitudes de apreço e tolerância construtiva para com as criaturas, sejam como sejam, nos fazem ver que precisamos da cooperação delas, em nosso próprio benefício.

 

3. — Como entender o interessante fenômeno da multidão que, semanalmente, o procura nas atividades do Grupo Espírita da Prece?

— Guardo a certeza de que os amigos e simpatizantes da Doutrina Espírita que nos procuram em nossas reuniões dos sábados, no Grupo Espírita da Prece, são movidos pelo espírito de fraternidade com que se propõem a incentivar-nos os bons propósitos do trabalho que a própria Doutrina nos faculta.

 

4. — Ante as lutas que surgiram ao longo do tempo, alguma vez chegou a pensar em viver a sua própria vida, deixando a mediunidade?

— No princípio das tarefas, estranhei a disciplina a que devia submeter-me.

Fiquei triste ao imaginar que eu era uma pessoa rebelde e, nesse estado de quase depressão, certa feita me vi fora do corpo, observando um burro teimoso puxando uma carroça que transportava muitos documentos.

Notei que o animal, embora trabalhando, ficava com inveja dos companheiros da sua espécie que corriam livremente no pasto, mas vi igualmente que muitos deles entravam em conflitos, dos quais se retiravam com pisaduras sanguinolentas.

O burro começou a refletir que a vida livre não era tão desejada como supusera, de começo.

A viagem da carroça seguia regularmente e ele se reconheceu amparado por diversas pessoas que lhe ofereciam alfafa e água potável.

Finda a visão-ensinamento, coloquei-me na posição do animal e compreendi que para mim era muito melhor estar sob freios disciplinares do que ser livre no pasto da vida, para escoicear companheiros ou ser por eles escoiceado.

 

5. — Como interpretar a fase atual de sua tarefa mediúnica, na recepção de mensagens que os desencarnados endereçam aos familiares na Terra?

— Quando recebo determinada mensagem dirigida a familiares que se reconfortam, sinto realmente uma grande alegria.

 

6. — O que Chico Xavier pensa de Chico Xavier?

— À medida que os Benfeitores Espirituais nos transmitem lições de esperança e de aperfeiçoamento, assinalo a distância em que me encontro do médium evangelizado que eu deveria ser.

A luta se estabelece em minha vida interior, qual se eu me pusesse a rixar comigo mesmo.

Nessa luta prossigo, sob a paciência e a compaixão dos Benfeitores da Vida Maior que nos orientam caridosamente, mas, embora não sendo o Chico Xavier que preciso ser, continuo a trabalhar com fé em Deus, reconhecendo as minhas imperfeições e esperando o dia em que serei o Chico Xavier que possa corresponder à confiança dos nossos Amigos Espirituais e dos nossos companheiros da Terra.

 

7. — Você tem saudades dos primeiros anos da mediunidade, quando então tudo começava?

— Tenho saudades dos companheiros e das irmãs com quem me iniciei na mediunidade, atualmente quase todos na Vida Espiritual, no entanto, essas saudades que ensinam a valorizar os companheiros e as irmãs que a Divina Providência me concedeu para trabalhar e aprender a servir nos dias de hoje, irmãos esses aos quais, no presente, devo o mesmo amor e o mesmo reconhecimento que me unem a memória às almas queridas que tanto me auxiliaram no passado.

 

8. — Existe algum episódio de suas reminiscências que, particularmente, gostaria de lembrar agora aos companheiros de Doutrina que o amam tanto?

— Lembro-me de um acontecimento que considero por vitória da fé.

Em 1928, as nossas necessidades de recursos materiais eram prementes e não víamos como solucionar o problema senão esperando pela Misericórdia de Deus.

A situação era essa, quando, numa noite de preces, uma jovem tuberculosa nos procurou, rogando auxílio.

Estava abatida e ofegante.

Falou-nos das hemoptises que já sofrera.

Pedia uma orientação do Dr. Bezerra de Menezes que, nesse tempo, já nos estendia a caridade da sua atenção.

Dr. Bezerra veio até nós e recomendou à moça diversas providências que lhe auxiliariam a cura.

E, terminadas as instruções dele, disse, escrevendo por nossas mãos: “— Filha, procure fazer o que lhe peço tomando a presente orientação por trinta dias seguidos.”

A jovem chorou e disse que não dispunha de dinheiro algum para atender aos conselhos recebidos.

Por outro lado, muito me comovi porque eu também não possuía os recursos necessários.

Disse a ela que tivesse confiança porque os recursos apareceriam.

Depois de um mês, a mesma jovem voltou às nossas preces, plenamente revigorada!

Perdera o abatimento.

Trazia a face rosada.

Fui impelido a perguntar-lhe se havia obtido os recursos que nem ela nem eu possuíamos, trinta dias antes.

Sorrindo, ela me disse: “— Chico, o Dr. Bezerra me aconselhou a usar as instruções dele por trinta dias. Não tendo dinheiro, cortei o papel da orientação em trinta pedacinhos e, cada manhã, eu fazia uma prece, pedindo o amparo de Jesus, e engolia um dos pedacinhos com água de nossa casa. Ao fim de trinta dias, bebi a receita do Dr. Bezerra, e o próprio médico que me tratou, a princípio, já declarou que estou perfeitamente restabelecida…”

 

9. — Como vê os rumos da Doutrina Espírita no Brasil, quando observamos tantos conflitos no movimento colocando em risco a paz do grupo?

— Creio que devemos efetuar campanhas de silêncio contra as chamadas “fofocas”, cultivando orações e pensamentos caridosos e otimistas, em favor da nossa união e da nossa paz geral.

Esta minha lembrança simples pode parecer ingênua, mas, sempre que me abstive do cultivo de “fofocas” e sempre que recorri à prece, consegui paz e entendimento para o meu coração.

 

10. — Chico, no dia 02 de abril você completará setenta e sete anos de vida no corpo físico. Você se considera realizado e feliz?

— Sinto-me profundamente feliz por todas as bênçãos que Jesus e os Amigos Espirituais me concedem, mas sentir-me realizado, segundo acredito, é um projeto para daqui a milênios!

Estou desenhado pela Espiritualidade, mas extremamente longe da imagem que eles projetaram para meus apuros e necessidades de automelhoria.

 

11. — Qual é a sua mensagem para os médiuns que estão dando agora os primeiros passos?

— Quando Emmanuel me apareceu pela primeira vez, em fins de 1931, dizendo que pretendia auxiliar-me no serviço mediúnico, indaguei a ele:

— O que acha o senhor que devo fazer para ser-lhe útil, já que nada tenho de mim para receber o amparo do senhor?

Ele me respondeu:

— Começaremos com três recursos, que não são inacessíveis para você.

Então voltei a perguntar:

— Quais são esses recursos?

Muito sério, mas benevolente, ele me respondeu: — Disciplina, disciplina e disciplina.

 

.Francisco Cândido Xavier

.Emmanuel

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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