Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

No Mundo Maior — André Luiz


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Alienados mentais

(Sumário)

1. Antes de visitarmos as cavernas de sofrimento, Calderaro instou-me a fazer com ele rápida visita a grande instituto consagrado ao recolhimento de alienados mentais, na Esfera da Crosta.

2 — Compreenderás, então, mais exatamente, — explicou, generoso, dirigindo-se a mim com a delicadeza que lhe é peculiar, — a tragédia dos homens desencarnados, em pleno desequilíbrio das sensações. 3 Excetuados os casos puramente orgânicos, o louco é alguém que procurou forçar a libertação do aprendizado terrestre, por indisciplina ou ignorância. 4 Temos neste domínio um gênero de suicídio habilmente dissimulado, a autoeliminação da harmonia mental, pela inconformação da alma nos quadros de luta que a existência humana apresenta. 5 Diante da dor, do obstáculo ou da morte, milhares de pessoas capitulam, entregando-se, sem resistência, à perturbação destruidora, que lhes abre, por fim, as portas do túmulo. A princípio, são meros descontentes e desesperados, que passam despercebidos mesmo àqueles que os acompanham de mais perto. 6 Pouco a pouco, no entanto, transformam-se em doentes mentais de variadas gradações, de cura quase impossível, portadores que são de problemas inextricáveis e ingratos. Imperceptíveis frutos da desobediência começam por arruinar o patrimônio fisiológico que lhes foi confiado na Crosta da Terra, e acabam empobrecidos e infortunados. 7 Aflitos e semimortos, são eles homens e mulheres que desde os Círculos terrenos padecem, encovados em precipícios infernais, por se haverem rebelado aos desígnios divinos, preterindo-os, na escola benéfica da luta aperfeiçoadora, pelos caprichos insensatos.

8 Guardando carinhosamente a observação, acompanhei-o na excursão matinal ao grande estabelecimento, onde os mentecaptos eram em grande número.

No primeiro pátio que topamos, compacta era a quantidade de mulheres desequilibradas que palestravam.

9 Uma velha de cabelos nevados, mostrando acerba ferocidade no olhar, envergava o uniforme da casa, como quem arrastasse um vestido real, e dizia a duas companheiras apáticas:

— Na minha qualidade de marquesa, não tolero a intromissão de médicos inconscientes. Creio estar presa por motivos secretos de família, que averiguarei na primeira oportunidade. Tenho poderosos inimigos na Corte; contudo, as minhas amizades são mais prestigiosas e fiéis.

10 Baixou a voz, como receando espias ocultos, e falou ao ouvido de uma das irmãs de sofrimento:

— O Imperador está interessado em meu caso e punirá os culpados. Segregaram-me por miseráveis questões de dinheiro.

Elevando o diapasão, inesperadamente, bradou:

— Todos pagarão! Todos pagarão!

E continuava explicando-se com gestos de grande senhora.

11 Compungia-me observar a promiscuidade entre as enfermas encarnadas e as entidades infelizes, que ali se acotovelavam. Preso ainda ao meu antigo vezo de curiosidade, tentei estacar, a fim de ouvir a demente até ao fim, mas o Assistente deu-se pressa em considerar:

— Não nos detenhamos. Infelizmente, atravessamos vasta galeria de padecimento expiatório, onde nossos recursos socorristas não ofereceriam vantagens imediatas. 12 Aqui, quase todos os alienados são criaturas que abdicaram a realidade, atendo-se a circunstâncias do passado sem mais razão de ser. Essa desventurada irmã já possuiu títulos de nobreza em existência anterior; perpetrou clamorosas faltas, dando expansão às energias cegas do orgulho e da vaidade. 13 Renascendo em aprendizado humilde para o reajustamento imprescindível, alarmou-se ante as primeiras provações mais rudes da correção benfeitora, reagiu contra os resultados da própria sementeira, entregou o invólucro físico ao curso de ocorrências nefastas, e, por fim, situou-se mentalmente em zonas mais baixas da personalidade, passando a residir, em pensamento, no pretérito de mentiras brilhantes. Agarrou-se, desesperada, às recordações da marquesa vaidosa de salões que já desapareceram, e perambula nos vales da demência em lastimáveis condições.

14 Não déramos muitos passos, encontramos novo ajuntamento, em que sobressaía curiosa dama, extremamente nervosa.

— Deus me livre de todos!… Deus me livre de todos!… — Gritava, inquieta. — Não voltarei! Nunca, nunca!…

15 Aproxima-se, cordata, a enfermeira, e pede:

— Senhora, mais calma! É seu marido que vem à visita. Vamos ao guarda-roupa.

E sorrindo:

— Não se sente feliz?

— Jamais! — Bradava a demente com espantoso semblante de angústia. — Não quero vê-lo! Odeio-o, odeio, com tudo o que lhe pertence!

16 Repetindo expressões de desprezo, inteiriçou-se, caindo em lamentável crise de nervos, pelo que a auxiliar da enfermagem houve que requisitar socorro urgente.

17 Desejei reter-me, a fim de estudar a situação, mas o Assistente impediu-mo, esclarecendo:

— Não percas tempo. Não remediarias o mal. Nossa passagem aqui é rápida. Recomendo apenas anotes o refúgio de todos os que se esquecem dos deveres presentes, pretendendo escapar aos imperativos da realidade educadora.

18 Modificou a inflexão da voz e prosseguiu:

— “Não asseguramos que todos os casos do hospício se relacionem exclusivamente com esse fator. Muita gente atravessa este pavoroso túnel, premida por exigências da prova retificadora; é, no entanto, forçoso reconhecer que a maioria encetou o pungitivo drama em si mesma. 19 São irmãos nossos, revoltados ante os desígnios superiores que os conduziram a recapitular ensinamentos difíceis, qual o de se reaproximarem de velhos inimigos por intermédio de laços consanguíneos, ou o de enfrentarem obstáculos aparentemente insuperáveis.

20 “Para que se efetue a jornada iluminativa do Espírito é indispensável deslocar a mente, revolver as ideias, renovar as concepções e modificar, invariavelmente, para o bem maior o modo íntimo de ser, tal qual procedemos com o solo na revivificação da lavoura produtiva ou com qualquer instituto humano em reestruturação para o progresso geral. 21 Negando-se, porém, a alma a receber o auxílio divino, através dos processos de transformação incessante que lhe são oferecidos, em seu benefício próprio, pelas diferentes situações de que os dias se compõem no aprendizado carnal, recolhe-se à margem da estrada, criando paisagens perturbadoras com desejos injustificáveis.


2. “Quase podemos afirmar que noventa em cem dos casos de loucura, excetuados aqueles que se originam da incursão microbiana sobre a matéria cinzenta, começam nas consequências das faltas graves que praticamos, com a impaciência ou com a tristeza, isto é, por intermédio de atitudes mentais que imprimem deploráveis deflexões ao caminho daqueles que as acolhem e alimentam. 2 Instaladas essas forças desequilibrantes no campo íntimo, inicia-se a desintegração da harmonia mental; esta por vezes perdura, não só numa existência, mas em várias delas, até que o interessado se disponha, com fidelidade, a valer-se das bênçãos divinas que o aljofram, para restabelecer a tranquilidade e a capacidade de renovação que lhe são inerentes à individualidade, em abençoado serviço evolutivo. 3 Pela rebeldia, a alma responsável pode encaminhar-se para muitos crimes, a cujos resultados nefastos se cativa indefinidamente; e, pelo desânimo, é propensa a cair nos despenhadeiros da inércia, com fatal atraso nas edificações que lhe cabe providenciar.”


3. Nesse ponto dos esclarecimentos, penetrávamos extensa varanda no departamento masculino e logo se nos deparou um homem que decerto se enquadrava entre os esquizofrênicos absolutos. 2 Rodeavam-no algumas entidades de sombrio aspecto. Semelhava-se o doente a perfeito autômato, sob o guante de tais companheiros. Exibia gestos maquinais, e, ao guarda que se aproximava, cauteloso, explicou em tom muito sério:

3 — Venha, “seu” João. Não tenha receio. Ontem eu era o “leão”, mas hoje, sabe o senhor o que eu sou?

Ante o enfermeiro hesitante, concluiu:

— Hoje sou a “bananeira”.

4 Encontraria, eu, sem dúvida, no caso, excelente ensejo de enriquecer experiências, porquanto de pronto reconhecera a entrosagem completa entre a vítima e os obsessores que lhe eram invisíveis. O desditoso era rematado fantoche nas mãos dos algozes tipicamente perversos.

5 Calderaro, porém, não me permitiu interromper a marcha.

— O processo de desequilíbrio está consumado, — informou, — e não encontrarias possibilidade de recompor-lhe, em serviço rápido, as energias mentais centralizadas na região inferior. O infeliz vem sendo objeto de práticas hipnóticas de implacáveis perseguidores; acha-se exposto a emissões contínuas de forças que o deprimem e enlouquecem.

6 — Céus! — Exclamei, aparvalhado, — como socorrê-lo?

— Trata-se de um homem, — acrescentou o orientador, — que em encarnações anteriores abusou do magnetismo pessoal.

7 Não pude sopitar a objeção que me nasceu espontânea:

— Como? As ciências magnéticas são de ontem…

Calderaro estampou no olhar a condescendência que lhe é característica e retorquiu:

— Acreditas que teriam sido iniciadas com Mesmer?

E, sorridente, ajuntou:

— Se consideráramos o sentido literal do texto, o abuso de magnetismo pessoal teria começado com Eva, no paraíso…

8 Indicou o enfermo e prosseguiu:

— Em pretérito não muito remoto, nosso imprevidente amigo se excedeu em seu potencial de fascínio, desviando-o para aventuras menos dignas. Várias mulheres que lhe sofreram a ação corrosiva, assestaram contra ele incessantes explosões de ódio doentio e corruptor, extravasamentos que o pobre companheiro merecia em consequência da atividade condenável a que se dedicou por muitos anos. Minado pela reação persistente, minguou-lhe o cabedal de resistência; converteu-se, destarte, em joguete das forças destrutivas, às quais, a bem dizer, voluntariamente se unira, ao abraçar, entusiasta, a declarada prática do mal. Até quando se demorará em tal atitude, não será possível prever.

9 Geralmente, ao delinquirmos, podemos precisar o instante exato de nossa penetração na desarmonia; jamais sabemos, porém, quando soará o momento de abandoná-la. No retorno à estrada reta, através de atoleiros em que chafurdamos, por indiferença e má fé, não podemos prefixar calendários para a volta: implicamo-nos em jogos circunstanciais, de que só nos despeamos após doloroso reajustamento…

10 Observando-me a admiração, ante a experiência hipnótica que os frios verdugos levavam a efeito, o Assistente considerou:

— Não te impressiones. A morte física não modifica de súbito as inteligências votadas ao mal, nem o duelo da luz com a sombra se adstringe aos estreitos Círculos carnais.


4. Logo após, éramos surpreendidos por dois velhinhos atoleimados, a pronunciar frases desconexas.

2 — O tempo, — elucidou o orientador, indicando-os, — acaba sempre por denunciar a nossa posição verdadeira. 3 Quando a criatura não haja feito da existência o sacerdócio de trabalho construtivo, que nos cumpre na Terra, os fenômenos senis do corpo são mais tristes para a alma, pois, neste caso, o indivíduo já não domina as conveniências forjadas pelo imediatismo humano, patenteando-se-lhe a fixação da mente nos impulsos inferiores. 4 Milhões de irmãos nossos permanecem, séculos afora, na fase infantil do entendimento, por não se animarem ao esforço de melhoria própria. Enquanto recebem a transitória cooperação de saúde física relativa, das convenções terrenas, das possibilidades financeiras e das variadas impressões passageiras que a existência na Crosta Planetária oferece aos que passam pela carne, esteiam-se nos títulos de cidadãos que a sociedade lhes confere; logo, porém, que visitados pelo morbo, pela escassez de recursos ou pela decrepitude, revelam a infância espiritual em que jazem: voltam a ser crianças, não obstante a idade provecta manifestada pelo veículo de ossos, por se haverem excessivamente demorado nos sítios superficiais da vida.


5. A exposição não podia ser mais lógica; todavia, examinando aquele vasto ambiente, onde tantos loucos de ambos os sexos modorravam distantes do realismo do mundo, sem a mais leve perspectiva de desencarnação próxima, pensei nas criaturas que já renascem imperfeitas e perturbadas; 2 nas crianças atrasadas e nos moços em luta com a demência juvenil; 3 nas fobias sem número que amofinam pessoas respeitáveis e prestativas; solicitei, então, do instrutor, esclarecimentos sobre os quadros de sofrimento desse jaez, que de improviso assaltam os ambientes domésticos mais distintos.

4 O Assistente não se surpreendeu, e observou:

— Estudamos aqui, André, a messe das sementeiras, assim do presente, como do passado. 5 Ponderamos não só a aprendizagem de uma existência efêmera, mas também a romagem da alma nos caminhos infinitos da vida, da vida imperecível que segue sempre, vencendo as imposições e as injunções da forma, purificando-se e santificando-se cada dia. 6 Verificarás, conosco, afligente quadro de padecimentos espirituais, e é provável que apreendas, num hospício humano, algo dos desequilíbrios que afetam a mente desviada das Leis Universais. Em verdade, na alienação mental começa a “descida da alma às zonas inferiores da morte”. 7 Através do manicômio é possível entender, de certo modo, a loucura dos homens e das mulheres que, aparentemente equilibrados no campo social da Crosta Terrestre, onde permutam os eternos valores divinos por satisfações ilusórias imediatas, são relegados depois, além do sepulcro, a inominável desespero do sentimento. 8 Quanto às perturbações que acompanham a alma no renascimento ou na infância do corpo, na juventude ou na senilidade, é mister reconhecer que o desequilíbrio começa na inobservância da Lei, como a expiação se inicia no crime. 9 Adotada a conduta em desacordo com a realidade, encontra o Espírito, invariavelmente, em todos os Círculos onde se veja, os efeitos da própria ação. 10 Seja nos mecanismos da hereditariedade fisiológica, seja fora de sua influência, a mente, encarnada ou não, revela-se na colheita do que haja semeado, no campo de evolução do esforço comum, no monte da elevação pela prática do sumo bem, ou no vale expiatório pelo exercício do mal.

11 O Assistente, que se dispunha a retirar-se, fitou-me demoradamente, e rematou:

— O louco, em geral, considerando-se não só o presente, senão até o passado longínquo, é alguém que aborreceu as bênçãos da experiência humana, preferindo segregar-se nos caprichos mentais; e a entidade espiritual atormentada após a morte é sempre alguém que deliberadamente fugiu às realidades da Vida e do Universo, criando regiões purgatoriais para si mesmo. Compreendeste?

12 Fixei o instrutor, reconhecidamente.

Sim, havia entendido. E, ponderando a lição da manhã, segui o orientador, que silente abandonava o campo de observação, a fim de mais tarde nos avistarmos com os benfeitores que visitariam as cavernas, em missão de amor e de paz.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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