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No mundo de Chico Xavier — Entrevistas — F. C. Xavier/Elias Barbosa

 

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Chico Xavier e o Dr. Jarbas Leone Varanda

Do Dr. Jarbas Leone Varanda, respeitado causídico no Foro de Uberaba e denodado espírita militante; salientamos o entendimento que levou a efeito com o médium Xavier, em torno dos seus quarenta anos de mediunidade ativa, entendimento esse que o prezado confrade nos deu a conhecer no mensário “O Triângulo Espírita”, de Uberaba, lançado no mês de julho de 1967 e que transcrevemos na íntegra.

 

ENTREVISTANDO CHICO XAVIER AOS QUARENTA ANOS DE MEDIUNIDADE
EXPERIÊNCIA MEDIÚNICA EM 40 ANOS

 

1. — Meu caro Chico, que gostaria você de dizer, como experiência mediúnica, nesses quarenta anos no campo da mediunidade?

— Creio que a melhor afirmação que posso fazer, nesse sentido, é que a prática da mediunidade em quarenta anos consecutivos me demonstrou que a existência na Terra é apenas um pedaço de vida, oferecendo-me ao mesmo tempo uma alegria e uma tranquilidade que não sofreu abalo em meu coração — a certeza de que a morte é apenas mudança ou retorno de nós mesmos à vida espiritual, a vida verdadeira.

 

CHICO EM FACE DAS ADVERSIDADES DA VIDA

 

2. — Nesses anos todos, como você tem recebido as críticas, os ataques, os elogios e os sofrimentos de toda espécie que sabemos ter sido uma constante em sua vida de médium?

— Desde muito tempo, Emmanuel, o nosso caro orientador espiritual, me ensinou que a crítica é necessária a qualquer trabalho sério e, à vista disso, admito que todos aqueles que ainda não se afinam comigo estão em melhores condições para verem os meus defeitos, de vez que os nossos amigos em nos estimulando para o cumprimento de nossas obrigações se detêm muito mais nos bons desejos que apresentamos, interpretando, às vezes, os nossos votos de melhoria moral, como realidades concretas, quando estamos apenas no capítulo das aspirações elevadas. Diz Emmanuel que precisamos dos amigos para acertar com os nossos deveres e dos adversários para corrigir as deficiências de que sejamos portadores. Entre uns e outros, estamos com a nossa realidade individual, porque somos o que somos, a caminho do que devemos ser, conforme os padrões de Jesus. Sofremos por nossos amigos por não sermos a criatura ideal ou o tipo de perfeição que eles esperam de nós e sofremos com nossos adversários, porque, nem sempre, carregamos todas as imperfeições e perversidades que eles nos atribuem. Mas, os Espíritos Benfeitores asseveram que devemos todos ter paciência uns com os outros, porque, um dia, chegaremos à Vida Maior, na qual nos amaremos mutuamente como verdadeiros irmãos perante Deus.

 

A SUA MAIOR ALEGRIA E A PRIMEIRA MENSAGEM DO ALTO

 

3. — Qual foi o acontecimento que mais o alegrou na seara espírita até o dia de hoje?

— Tenho tido sempre muitas alegrias em minha vida mediúnica, principalmente na recepção dos livros de nossos Instrutores do Alto, no entanto, assinalo, como sendo uma das mais belas surpresas da minha vida de médium, a saída de meu corpo físico, durante algumas horas, em julho de 1943, na companhia do nosso amigo desencarnado, André Luiz, a fim de conhecer uma faixa suburbana de “Nosso Lar”, a cidade que ele descreve no primeiro livro que ele escreveu, por meu intermédio, providência essa que Emmanuel permitiu fosse tomada para que eu não prejudicasse a psicografia de André Luiz, cujas narrações eram para mim inteiramente novas.

 

4.  — Qual foi a primeira mensagem recebida, e qual o seu autor espiritual?

— A primeira mensagem psicográfica que recebi era um apelo ao cumprimento de nossos deveres espíritas, perante Jesus, e veio assinada simplesmente por “um amigo espiritual”.

 

AS DUAS FASES — PEDRO LEOPOLDO E UBERABA

 

5. — Qual das duas fases — Pedro Leopoldo — Uberaba, foi a mais produtiva, mediunicamente?

— Não posso esquecer que em Pedro Leopoldo, Emmanuel e outros Espíritos Amigos trabalharam, através de minhas pobres faculdades, durante trinta e um anos sucessivos, procurando vencer os meus defeitos e adaptar-me para ser o instrumento que eles desejam que eu seja, e não posso olvidar que Uberaba me hospeda, carinhosamente, desde janeiro de 1959, dando-me, por intermédio de companheiros queridos, o ambiente necessário para que eu aproveite das lições recolhidas na terra em que renasci para as tarefas da presente reencarnação. Creio que a produtividade mediúnica nas duas cidades se equivalem, porque precisamos descontar o tempo e as dificuldades de minha preparação, que tem exigido muito esforço e tolerância dos Bons Espíritos. Creio não ser ingrato afirmando que Pedro Leopoldo é meu Berço e que Uberaba é minha Benção.

 

6. — De sua bibliografia mediúnica, quais as obras que você mais prazer teve em receber?

— Pessoalmente, dedico imensa estima ao livro “Cartas de Uma Morta”, por serem palavras de minha mãe Maria João de Deus, a quem devo uma abnegação sem limites, e o livro “Paulo e Estêvão”, na psicografia do qual o nosso Emmanuel me trouxe lições e observações inesquecíveis.

 

PERSPECTIVAS MEDIÚNICAS

 

7. — Existe alguma obra em perspectiva de André Luiz ou Emmanuel, programada através de sua mediunidade?

— Sim, tanto Emmanuel quanto André Luiz planejam novos livros para o futuro, entretanto, ambos quando se referem a isso não se esquecem de acrescentar que os projetos serão realizados “se Jesus permitir”.

 

8. — Chico, você pretende continuar na mediunidade receitista enquanto puder exercê-la, ou se fixará apenas na mensagem?

— Emmanuel, ultimamente, tem considerado que a tarefa mediúnica, por meu intermédio, está caminhando para maior fixação na mensagem psicografada ou, melhor, na produção do livro mediúnico, mas, acentua que isso dependerá de determinação do Plano Superior. De minha parte, digo no coração: “seja feita a Vontade do Senhor”.

 

MEDIUNIDADE GRATUITA

 

9. — Sabendo que a maioria de suas obras foi publicada pela Federação Espírita Brasileira, qual a compensação monetária recebida?

— Todos os livros recebidos de 1931 até hoje, por nossas pequenas faculdades, foram entregues à Federação Espírita Brasileira e a outras instituições espíritas do nosso País, incluindo a nossa Comunhão Espírita Cristã, de Uberaba, sem qualquer remuneração, no que, aliás, não vejo qualquer virtude de minha parte, por estar cumprindo tão somente um dever, já que os livros não são escritos por mim e sim pelos Amigos Espirituais que os assinam.

 

UBERABA E “COMUNHÃO ESPÍRITA CRISTÔ EM SUA VIDA

 

10. — Você gosta de Uberaba?

— Tenho motivos especiais para amar sempre e cada vez mais esta cidade que me acolheu com tanta bondade humana. Em minhas preces, rogo a Deus a engrandeça constantemente e sempre mais.

 

11. — Como interpreta a sua permanência na Comunhão Espírita Cristã?

— Tenho na Comunhão Espírita Cristã uma verdadeira família pelo coração.

 

12. — Qual o traço mais característico da Comunhão Espírita Cristã que você mais admira, afora, é claro, as atividades doutrinárias e assistenciais dessa grande instituição do Espiritismo em Uberaba?

— A publicação dos livros mediúnicos, recebidos de Espíritos Benfeitores, por meu intermédio, me criou um campo muito extenso de relações pessoais em muitas cidades brasileiras e, atualmente, fora de nosso País. Isso me obriga a responsabilizar-me isoladamente ou apenas sob a orientação de Emmanuel pela maioria dos meus atos na vida mediúnica. Aproveito, assim, a pergunta pana render minha homenagem de apreço e reconhecimento à Diretoria de nossa Instituição, representada em nossos admiráveis amigos Senhorita Dalva Borges, Dr. José da Silva Madeira e Sr. Lázaro Gonçalves, extensivamente a todos os companheiros da nossa casa de fraternidade e serviço com Jesus, não só pelo carinho constante que me dispensam, mas também pelo respeito à minha liberdade de ação, permitindo que eu seja o companheiro médium na Comunhão Espírita Cristã e o médium companheiro dos espíritas e de instituições outras, aos quais estou vinculado por traços de confiança e de afeto, desde muitos anos.

 

13. — Você vinha habitualmente a Uberaba, antes de estabelecer residência aqui? É verdade que trabalhou muitas vezes nos certames pecuários?

— Sim, trabalhei por alguns anos sucessivos, na condição de funcionário do Ministério da Agricultura, sempre no mês de maio, nas exposições pecuárias que Uberaba realiza. Tive a honra de acompanhar o Dr. Rômulo Joviano, conquanto as minhas atribuições de auxiliar muito pequenino, quando ele, meu chefe de serviço e então Inspetor Chefe do Antigo Serviço de Fomento da Produção Animal, em Minas Gerais, veio trazer às autoridades da digna Sociedade Rural do Triângulo Mineiro vários planos alusivos à construção do Parque Fernando Costa, em 1937, planos esses que foram autorizados pelo Dr. Fernando Costa, então Ministro da Agricultura.

 

14. — Emmanuel predisse a sua mudança para Uberaba, quando você morava ainda em Pedro Leopoldo?

— Não. Apenas aprovou o meu propósito de transferir-me para cá, em 1958, quando a minha saúde física aconselhava mudança de clima.

 

15. — Conheceu muitos companheiros espíritas em Uberaba quando vinha até aqui, a serviço das Exposições? Pode mencionar alguns?

— Perfeitamente. Não posso esquecer amigos que conheci de perto como sejam o Professor João Augusto Chaves, D. Maria Modesto Cravo, Dr. Henrique Krugger e Manoel Roberto, referindo-me aos desencarnados, sem que me seja possível falar dos companheiros valorosos que se encontram conosco, na Terra, porque correria o risco de esquecer algum nome, quando a todos consagro extremada afeição.

 

O PAPEL DE MANOEL QUINTÃO EM SUA PRIMEIRA OBRA MEDIÚNICA

 

16. — Dentre os nossos confrades, pode você salientar algum deles a que deva apoio decisivo para o lançamento do primeiro livro de sua mediunidade?

— Sim, considerando embora o reconhecimento que devo a numerosos companheiros de nossas atividades doutrinárias, sempre solícitos em estender-me os braços fraternos, não posso esquecer a figura inolvidável de Manoel Quintão, o evangelizador e escritor espírita, que, na Diretoria da Federação Espírita Brasileira, recebeu com extremado carinho, as cartas que enderecei a ele encaminhando-lhe as poesias que passei a psicografar. Leu todo o material com atenção e começou a escrever-me, encorajando-me para o serviço mediúnico. Apresentou-me, para minha felicidade, a respeitáveis autoridades da Doutrina Espírita, no Brasil, como sejam Dr. Guillon Ribeiro, Frederico Figner, Manoel Jorge Gaio, dentre os muitos apóstolos da nossa Causa já desencarnados, lembrando-me, ainda, de que foi ele quem me apresentou pessoalmente ao nosso caro amigo Dr. Wantuil de Freitas, o digno e abnegado atual Presidente da Casa de Ismael, com quem já mantinha ativa correspondência desde 1932, quando começaram a surgir, na imprensa espírita, as primeiras mensagens psicografadas através de nossas pequenas faculdades mediúnicas. Não exagero afirmando que, dentre os amigos encarnados, devemos a Manoel Quintão o lançamento do “Parnaso de Além-Túmulo”, em 1932.

 

CAUSAS DA PERSEVERANÇA NO SERVIÇO MEDIÚNICO

 

17. — Dentre os companheiros da vida cotidiana, pode citar algum que mais tenha contribuído para a sua permanência em serviço mediúnico, nestes quarenta anos?

— Depois dos nossos irmãos José Hermínio Perácio e de sua esposa D. Carmen que me abriram as portas do conhecimento espírita-cristão, tenho em minha vida medianímica um amigo, cuja lembrança nunca me sai da memória: Dr. Rômulo Joviano. Durante vinte anos sucessivos convivi com ele, pois em todo esse tempo, foi meu chefe na repartição do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo. Dedicado amigo do Espírito de Emmanuel, muitas vezes ouvi do próprio Emmanuel a recomendação de segui-lo nos exemplos de dever cumprido que a todos sempre nos dava. Dr. Rômulo ensinou me que nada se consegue na vida sem disciplina e trabalho e me auxiliou a compreender que um médium deve ser fiel aos Bons Espíritos sem vacilação. Com ele, a esposa e os filhos, tive a honra de reunir-me no culto do Evangelho no lar, todas as noites de quartas feiras em Pedro Leopoldo, de 1935 a 1952. Ainda hoje, Dr. Rômulo Joviano que reside e trabalha, no Rio, vive incessantemente em minha lembrança, envolvido no respeito e na gratidão que a ele consagro e consagrarei sempre.

 

CONTATOS E EXPERIÊNCIAS COM CONFRADES UBERABENSES

 

18. — Lembra-se de alguma nota particular de suas relações com os espíritas uberabenses mais antigos?

— Recordo-me com o maior enternecimento das atenções que sempre recebi da parte de Dona Maria Modesto Cravo, que sempre se desvelou para que não faltasse recurso algum, durante a minha permanência em Uberaba, fosse na Exposição a que servia ou no Hotel do Comércio onde me hospedava. Diariamente, o nosso amigo Omar Prata, distinto companheiro da família espírita uberabense, me procurava, para saber, da parte de Dona Maria Modesto, quais as providências que ela podia dar para que eu estivesse satisfeito, além do lanche que me enviava, por saber que o trabalho nas exposições, nos dias de movimentação mais intensa, me constrangia a grande atraso nas refeições.

 

A PROJEÇÃO DO DR. INÁCIO FERREIRA NO EXTERIOR

 

19. — Chico, tendo você, viajado no exterior, em 1965 e 1966, pode dizer se você encontrou entre os espíritas do Brasil projetados em outros Países, o nome de algum espírita uberabense?

— Sim, o nome do nosso abnegado Dr. Inácio Ferreira é profundamente respeitado fora do Brasil. Em Londres, quando lá estivemos em agosto de 1965, Mr. Maurice Barbanell, diretor do jornal “Psychic News”, perguntou-nos, pessoalmente, pela saúde e pelo trabalho de nosso caro Dr. Inácio. Em 1965, ouvi as melhores referências às obra dele, da parte do nosso confrade Mr. Victor Buttler, em Nova Iorque, e em 1966, tive a satisfação de registrar apontamentos de muita admiração e carinho, em torno dele, na palavra de amigos residentes na Carolina do Norte.

 

SESSÕES DE MATERIALIZAÇÕES NO CENTRO ESPÍRITA UBERABENSE

 

20. — Pode citar algum fato que tenha causado a você inesquecível impressão nas reuniões espíritas a que assistiu antigamente em Uberaba?

— Das sessões mediúnicas a que assisti em Uberaba, guardo inolvidável recordação de uma noite de maio de 1945, no Centro Espírita Uberabense. A convite de D. Maria Modesto Cravo, Dr. Rômulo Joviano e eu, comparecemos naquele templo para uma reunião de materialização com o médium de efeitos físicos, Garibaldi Cavalcanti. A assembleia em reduzida. Poucas pessoas. Dos presentes recordo-me de D. Maria Modesto, do Sr. Mário de Almeida Franco, do cantor Sílvio Vieira e dos irmãos do médium Srs. Mário e Guilherme Cavalcanti, além de outros amigos. Dentre as entidades que se materializaram, estava um amigo espiritual a quem chamávamos pelo nome de Quincas. Garibaldi repousava em poltrona perto de nós e Quincas materializado, à nossa frente, nos reconfortava com a sua alegria característica. Em dado instante, me falou aos ouvidos que alguém do Mundo Espiritual desejava abraçar o cantor Sílvio Vieira. Transmiti o recado e, quase ao mesmo tempo, Sílvio declarou-se chamado pela voz e pelas mãos materializadas de Quincas para o meio do salão. Todos os presentes viram os dois juntos, mas pela vidência mediúnica, D. Maria Modesto e eu, vimos aproximar-se deles mais alguém. Era uma entidade não materializada que se encostou ao Espírito materializado de Quincas, como a buscar força para demorar-se no ambiente. De imediato, espalmou uma das mãos, no peito do cantor, e Sílvio Vieira, de modo inexplicável para os nossos companheiros presentes, mas de maneira muito compreensível para D. Maria Modesto e eu, entoou em voz alta e lacrimosa uma canção de saudade e de afeto, que não mais me saiu da memória, conquanto não lhe pudesse reter as palavras. Terminada a canção, diante da pequena assembleia comovida, o Espírito de Quincas guiou Sílvio para que ele retomasse o lugar que lhe era próprio, enquanto o formoso Espírito que lhe tocara o coração se afastava, soluçando… Quem era essa entidade que Dona Maria Modesto e eu observávamos, e que me fez derramar lágrimas de emotividade, eu nunca soube. Perguntei a Emmanuel algo a respeito, entretanto, ele me disse apenas que se tratava de alguém das existências passadas do mencionado cantor que, até agora, não mais tornei pessoalmente a encontrar.

 

PALAVRAS FINAIS

 

21. — Que desejaria você de especial agora que está completando quarenta anos de serviço mediúnico?

— Se Jesus puder me atender, estimarei continuar trabalhando com Emmanuel e outros Amigos Espirituais, na obra do livro mediúnico, embora as minhas imperfeições.

 

22. — Poderá você dizer como é que os Bons Espíritos interpretam o Espiritismo no Brasil atual?

— Nosso abnegado Emmanuel afirma sempre que o Espiritismo no Brasil é o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo, redivivo para o Mundo inteiro. Peçamos, pois, a Deus nos inspire e abençoe para que possamos servir à divulgação da Doutrina Espírita, com Jesus patrocinando Kardec e com Kardec explicando Jesus, cada vez mais.

 

.Francisco Cândido Xavier

.Emmanuel

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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