Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Nosso Lar — André Luiz


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Quem semeia colherá

(Sumário)

1. Não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento feminino das Câmaras de Retificação. Falei a Narcisa, do meu desejo, prontificando-se ela a satisfazer-me.

2 — Quando o Pai nos convoca a determinado lugar, — disse, bondosa, — é que lá nos aguarda alguma tarefa. Cada situação, na vida, tem finalidade definida… 3 Não deixe de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais. Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem, não será difícil identificar as sugestões divinas.

4 No mesmo dia, a enfermeira acompanhou-me, à procura de Nemésia, prestigiosa cooperadora naquele setor de serviço.

Não foi difícil encontrá-la.

5 Filas de leitos muito alvos e bem cuidados exibiam mulheres, que mais se assemelhavam a frangalhos humanos. Aqui e ali, gemidos lancinantes; acolá, angustiosas exclamações. Nemésia, que se caracterizava pela mesma generosidade de Narcisa, falou com bondade:

— O amigo deve estar agora habituado a estes cenários. No departamento masculino a situação é quase a mesma.

6 E, fazendo um gesto significativo à companheira, acentuou:

— Narcisa, faça o obséquio de acompanhar nosso irmão e mostrar os serviços que julgar convenientes ao aprendizado dele. Fiquem à vontade.

7 Minha amiga e eu comentávamos a vaidade humana, sempre atida aos prazeres físicos, enumerando observações e ensinamentos, quando atingimos o Pavilhão 7. Localizavam-se ali algumas dezenas de mulheres, em leitos separados, um a um, a regular distância.

8 Estudava eu a fisionomia das enfermas, quando fixei alguém que me despertou mais viva atenção. Quem seria aquela mulher amargurada, de aparência original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante, em cujos lábios pairava um ricto, misto de ironia e resignação. Os olhos, embaçados e tristes, mostravam-se defeituosos. 9 Memória inquieta, coração oprimido, em poucos instantes localizei-a no passado. Era Elisa. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de rapaz. Estava modificada pelo sofrimento, mas não podia ter quaisquer dúvidas. 10 Lembrei, perfeitamente, o dia em que ela, humilde, penetrara em nossa casa levada por velha amiga de minha mãe, que aceitou as recomendações trazidas, admitindo-a para os serviços domésticos. 11 A princípio, o ritmo comum, nada de extraordinário; depois, a intimidade excessiva, de quem abusa da faculdade de mandar e da condição de servir alguém. 12 Elisa pareceu-me bastante leviana, e, quando a sós comigo, comentava sem escrúpulo certas aventuras da sua mocidade, agravando com isso a irreflexão de nossos pensamentos. 13 Recordei o dia em que minha genitora me chamou a conselhos justos. Aquela intimidade, dizia, não ficava bem. Era razoável que dispensássemos à serva generosidade afetuosa, mas convinha pautar nossas relações com sadio critério. 14 Entretanto, estouvadamente, levara eu muito longe a nossa camaradagem. Sob enorme angústia moral, abandonou Elisa, mais tarde, a nossa casa, sem coragem de me lançar em rosto qualquer acusação. 15 E o tempo passou, reduzindo o fato, em meu pensamento, a episódio fortuito da existência humana. No entanto, o episódio, como alguma cousa da vida, estava também vivo. 16 À minha frente tinha Elisa, agora, vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera criatura, tão cedo atirada a doloroso capítulo de sofrimentos? Donde vinha? 17 Ah!… naquele caso, não me defrontava o Silveira, perto de quem pudera repartir o débito com meu pai. A dívida, agora, era inteiramente minha. Cheguei a tremer, envergonhado da exumação daquelas reminiscências, mas, qual a criança ansiosa de perdão pelas faltas cometidas, dirigi-me a Narcisa, pedindo orientação. 18 Eu mesmo me admirava da confiança que aquelas santas mulheres me inspiravam. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as elucidações que pedira à mãe de Lísias e, possivelmente, outra seria minha conduta naquele instante, se tivesse Tobias a meu lado. 19 Considerando que a mulher generosa e cristã é sempre mãe, voltei-me para a enfermeira, confiando mais que nunca. Narcisa, pelo olhar que me endereçou, parecia tudo compreender. Comecei a falar, contendo o pranto, mas, a certa altura da confissão penosa, minha amiga obtemperou:

20 — Não precisa continuar. Adivinho o epílogo da história. Não se entregue a pensamentos destrutivos. Conheço o seu martírio moral, de experiência própria. Entretanto, se o Senhor permitiu que reencontrasse agora esta irmã, é que já o considera em condições de resgatar a dívida.

21 Vendo a minha indecisão, prosseguiu:

— Não tema. Aproxime-se dela e reconforte-a. Todos nós, meu irmão, encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos. Esta afirmativa não é frase doutrinária, é realidade universal. Tenho colhido muito proveito de situações iguais a esta. Bem-aventurados os devedores em condições de pagar.

22 E, percebendo-me a resolução firme de empreender o necessário ajuste de contas, acentuou:

— Vamos, mas não se dê a conhecer, por enquanto. Faça-o, depois de beneficiá-la com êxito. Isso não será difícil, pelo fato de continuar ela em cegueira quase completa, temporariamente. Pelas forças que a envolvem, noto-lhe a triste característica das mães fracassadas e das mulheres de ninguém.


2. Aproximamo-nos. Tomei a iniciativa da palavra confortadora. Elisa identificou-se, dando o próprio nome e prestando, de boa vontade, outras informações. 2 Havia três meses que fora recolhida às Câmaras de Retificação. Interessado em castigar a mim mesmo, diante de Narcisa, para que a lição me penetrasse n’alma com caracteres indeléveis, perguntei:

— E sua história, Elisa? Deve ter sofrido muito…

3 Sentindo a inflexão afetuosa da pergunta, sorriu, muito resignada, e desabafou:

— Para que lembrar coisas tão tristes?

— As experiências dolorosas ensinam sempre objetei.

4 A infeliz, que apresentava profunda modificação moral, meditou alguns momentos, como quem concatenava ideias, e falou:

— Minha experiência foi a de todas as mulheres doidivanas que trocam o pão bendito do trabalho pelo fel venenoso da ilusão. 5 Nos tempos da mocidade distante, como filha d’um lar paupérrimo, vali-me do emprego em casa de abastado comerciante, onde a vida me impôs imensa transformação. 6 Esse negociante tinha um filho, tão jovem quanto eu, e depois da intimidade estabelecida entre nós, quando toda a reação de minha parte seria inútil, esqueci criminosamente que Deus reserva o trabalho a todos que amem a vida sã, por mais faltosos que tenham sido, e entreguei-me a experiências dolorosas, que não preciso comentar. 7 Conheci, de perto, o prazer, o luxo, o conforto material e, de seguida, o horror de mim mesma, a sífilis, o hospital, o abandono de todos, as tremendas desilusões que culminaram na cegueira e na morte do corpo. 8 Errei, muito tempo, em terrível desespero, mas, um dia, tanto roguei o amparo da Virgem de Nazaré, que mensageiros do bem me recolheram por amor ao seu nome, trazendo-me a esta casa de abençoada consolação.

9 Comovidíssimo até às lágrimas, perguntei:

— E ele? Como se chama o homem que a fez tão infeliz?

Ouvi-a, então, pronunciar meu nome e de meus pais.

— E você o odeia? — Indaguei, acabrunhado.

10 Ela sorriu tristemente e respondeu:

— No período do meu sofrimento anterior, amaldiçoava-lhe a lembrança, nutrindo por ele um ódio mortal; mas a irmã Nemésia modificou-me. Para odiá-lo, tenho de odiar a mim mesma. No meu caso, a culpa deve ser repartida. Não devo, pois, recriminar a ninguém.

11 Aquela humildade sensibilizou-me. Tomei-lhe a destra sobre a qual, sem que o pudesse evitar, rolou uma lágrima de arrependimento e remorso.

— Ouça, minha amiga, — falei com emoção forte, — também eu me chamo André e preciso ajudá-la. Conte comigo, doravante.

— E sua voz, — disse Elisa, ingenuamente, — parece a dele.

12 — Pois bem! — Continuei, comovido, — até agora, não tenho propriamente uma família em “Nosso Lar”. Mas você será aqui minha irmã do coração. Conte com o meu devotamento de amigo.

13 No semblante da sofredora, um grande sorriso parecia uma grande luz.

— Como lhe sou grata! — Disse ela enxugando as lágrimas, — há quantos anos ninguém me fala assim, nesse tom familiar, dando-me o consolo da amizade sincera!… Que Jesus o abençoe.

14 Nesse instante, quando minhas lágrimas se fizeram mais abundantes, Narcisa tomou-me as mãos, maternalmente, e repetiu:

— Que Jesus o abençoe.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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