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Na hora do testemunho — Autores diversos — F. C. Xavier / J. Herculano Pires

 

Anexo I

 

AS CARTAS DE CHICO XAVIER

 

Os documentos da angústia

 

J. Herculano Pires

I

As cartas que Chico Xavier nos enviou, no período negro da adulteração, são os documentos da angústia por que passamos, todos os que víamos uma instituição espírita prestigiosa, envolvida pelas trevas no processo criminoso de adulteração da Doutrina. De março de 1975 a janeiro de 1976, como se vê pelas datas das cartas que ora publicamos, o abnegado médium escreveu-nos, revelando a sua perplexidade. Chegou mesmo. no princípio, a querer assumir a responsabilidade do desastre, aliviando os verdadeiros responsáveis. Viu-se depois na impossibilidade de fazê-lo, pois esse gesto de extrema abnegação contradiria todo o prolongado esforço de um trabalho mediúnico fiel, por quase meio século de rigorosa orientação doutrinária. Vemo-lo então confessar. amargamente, que nada tinha com o que se passava.

 

Por isso tivemos de defende-lo em certo momento e de incrimina-lo em outro, até que o esclarecimento se fizesse. Chico autorizou-nos a publicar os trechos de suas cartas que achássemos necessários, ou a usa-las por inteiro. Preferimos a transcrição total das mais significativas, para que o testemunho dos fatos ficasse completo, mostrando aos leitores a que ponto as trevas conseguiram afetar o trabalho na seara. A leitura e o exame atento desses documentos impõem-se a todos os espíritas de boa vontade e particularmente aos jovens, que neles encontram os recursos vivos e emocionantes para a vigilância que devem exercer no comportamento doutrinário. As novas gerações reelaboram as experiências das anteriores, como ensina Dewey W e neste caso as experiências podem ser examinadas na confissão espontânea do médium que marcou entre nós meio século de intensa atividade doutrinária.

 

Este livro era para ter saído muito antes, mas as dificuldades surgidas foram tantas, que só agora conseguimos superá-las. A luta contra a verdade espírita é muito maior do que geralmente se pensa. Num mundo inferior como o nosso, as forças negativas dispõem de mais recursos e possibilidades de ação do que as forças positivas. Mas a verdade acaba sempre vitoriosa, quando os que a propagam e defendem são sinceros e dotados de firme convicção. As cartas de Chico Xavier nos dão a medida exata da sua convicção espírita, bem como do seu amor e do seu zelo pela doutrina.

 


 

II

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 19.04.1975

Caro Amigo Prof. Herculano:

Deus nos abençoe!

Recebi a sua estimada carta de 16 [04.1975] e agradeço a sua generosidade e atenção de sempre.

A ausência da semana foi motivada por minha ida rápida a Pedro Leopoldo, mas estou nesta carta com os meus agradecimentos habituais.

Recebi igualmente a sua prezada carta de 27.03 [1975] e li, com muita atenção os seus apontamentos em nossa página do “Diário de São Paulo”, na edição de 6 do corrente.

Pode crer o querido amigo que tenho as suas manifestações referidas na mais alta conta como sempre sucede. Suas palavras nunca me poderiam ferir.

Elas nascem de sua necessidade, de seu imenso amor à nossa causa e o Espiritismo com Jesus e Kardec deve estar — e estará sempre com o Auxílio dos Mensageiros do Senhor, muito acima de nós. Assim tenho aprendido de nossa Doutrina de Luz e Amor e assim tenho visto em seus nobres exemplos. Lamento apenas não haver percebido, de minha parte, que me achava na base das dificuldades havidas porque a minha conversação com os nossos prezados confrades Paulo Alves Godoy e Jamil Salomão era para mim assunto de rotina, de que tratara e muitas vezes com amigos outros em conversações públicas e abertas, aguardando que companheiros competentes pudessem examinar as duas expressões de que falei ao estimado amigo, em correspondência anterior, — do ponto de vista de tradução apenas. Se houvesse tomado conhecimento de minha situação nos fatos, não poderia negar a minha responsabilidade e nem fugir de abraçá-la, como o fiz.

De qualquer modo, estou muito grato caro Professor por tudo. Digo isso, de coração, sem qualquer ideia de fazer efeitos.

Sua palavra amiga e correta de sempre, convidando-me a pensar mais detidamente em meus compromissos e encargos mediúnicos, é uma atitude abençoada e nobre. Não posso mas não posso mesmo me considerar um médium com qualidades especiais. Preciso e preciso muito, do amparo de todos os companheiros da nossa Causa, principalmente no que se refere aos assuntos de orientação doutrinária, para que as minhas fraquezas de criatura não se imiscuam nas manifestações de bondade dos Benfeitores Espirituais, trazendo complicações à nossa Seara de Luz e Amor, com as minhas falhas de comportamento. Creio que essas falhas são devidas mais à minha própria ignorância do que ao meu intuito de cultivá-las, mas quem sabe, caro amigo? Na mediunidade, mesmo naquelas exercidas por longo tempo, o médium pode ser acometido por acessos de invigilância, de vaidade, de orgulho, de intromissão na Obra dos Bons Espíritos, e criar muitas faixas de sombras. Médium falível e talvez até mais falível do que os outros de minha singela condição, se estou bem, isso se deve à presença dos Benfeitores Espirituais em meus passos e se estou mal, o que acontece muitas vezes, é que estou em mim mesmo e por mim mesmo.

Nessa luta prossigo e, por isso mesmo, necessito do apoio de todos os amigos que amam a nossa Doutrina Renovadora.

Continuo, desse modo, a pedir e pedir preces de todos os irmãos, em meu favor, e vou seguindo, na marcha dos dias, confiando nos Mensageiros de Jesus.

Quanto à nossa página no “Diário de São Paulo”, não terá. para mim, seu amigo e admirador, qualquer significação sem a sua presença. Peço-lhe, e peço-lhe, de coração, continuarmos juntos nessa tarefa aos domingos. E fale-me sempre como preciso ouvir. Exponha os seus pensamentos com a sua sinceridade de sempre. E creia, caso venha a desistir do seu nobre trabalho no “Diário”, em nossa seção aos domingos, de minha parte, considerarei também cessada a tarefa que me coube até agora. Juntos, começamos, juntos terminaremos.

Não saberia continuar sem o seu braço de companheiro. Que Jesus nos ajude e nos abençoe para continuarmos no trabalho de sempre.

 


 

III

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 27.04.1975

Caro Prof. Herculano

Deus nos abençoe!

Li hoje os seus apontamentos no “Diário” que estão notavelmente doutrinários. Deus nos abençoe e nos fortaleça para servimos em nossos ideais. De mim mesmo, sou eu quem agradece a sua bondade e o seu apoio que me fazem sempre muito feliz e reconhecido.

A Doutrina necessita de companheiros sempre firmes na dedicação à nossa Causa e o seu exemplo é sempre para mim uma luz.

Humildade, não tenho, e a verdade é esta aí. Estou longe de ser o que devo ser, e só me consola a certeza de que luto para não ser o que sou e como sou, para ser o que realmente devo ser e o que esperam de mim.

Que Jesus tenha misericórdia deste seu amigo e servidor.

 


 

IV

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 17.05.1975

Meu cara Prof. Herculano

Deus nos abençoe!

Recebi a sua confortadora carta de 25 último e sou eu quem agradece a sua dedicação. Suas palavras, como sempre, me trouxeram grande edificação espiritual e estou convencido de que os pioneiros de nossa Doutrina de Luz e Amor, qual Leon Denis e outros, estarão sustentando as suas forças nas tarefas gigantes da hora que atravessamos. O Senhor, por Seus Mensageiros, fortalecê-lo-á e renovar-lhe-á as energias, como sempre sucede, e tê-lo-emos firme na segurança de nossos princípios, a orientar-nos os caminhos.

É preciso não esmorecer e prosseguir à frente, porque o trabalho da Espiritualidade é sempre maior e sei que esse trabalho bendito, em suas mãos, cresce com as horas.

Se os companheiros sinceros e dedicados à nossa Causa silenciarem, o que será de nosso movimento assediado por vendavais da sombra, em todas as direções?

A luta é grande, mas a proteção dos Bons Espíritos é sempre maior e eles, os nossos Amigos da Vida Superior, que velam por nós, sustentarão as suas forças.

Sou, por espontânea vontade, conscientemente escravo dos meus deveres para com os nossos Benfeitores Espirituais, no entanto, perante os nossos irmãos da Humanidade, estou descompromissado e livre para respeitar as suas manifestações de lidador sincero e leal da Doutrina Espírita e para admirá-lo em sua fortaleza de ânimo e em sua fidelidade aos nossos princípios renovadores.

Jesus nos proteja e nos auxilie a seguir para adiante.

Agradeço a generosa remessa do seu livro “A Pedra e o Joio” portador de estudos e reflexões que me alertam e me auxiliam a pensar e discernir, como também agradeço o belo Volume “A Cor de Deus”, de autoria do nosso distinto poeta Rudmar Augusto, com a sua generosa dedicatória. É um formoso livro de apelos à verdade e à confraternização humana. Muito grato por suas atenções de sempre.

 


 

V

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 08.07.1975

Caro Prof. Herculano

Deus nos abençoe!

O seu belo estudo “Chico Xavier, o homem, o médium e o mito” muito me alegrou e enterneceu.

Muito reconhecido ao carinho e a sinceridade de que as suas considerações estão impregnadas. A condição humana é uma bênção, mas a mitologia é dura de enfrentar. Efetivamente, eu ficaria muito envergonhado se fosse um médium diferente dos outros, sem provações e sem erros a marcarem o meu caminho de Espírito em resgate. Vamos seguindo para adiante e que Jesus nos abençoe e nos fortaleça.

Caro Professor, quando recebi a sua estimada carta anterior sobre os nossos volumes, em parceria, o nosso amigo Caio com outros companheiros do G. E. Emmanuel, já havia estado aqui oito dias antes.

Ele, nosso prezado Caio, me trouxe a notícia de que o prezado amigo dera a idéia e plano para que os livros com as crônicas domingueiras no “Diário de São Paulo” fossem lançados doravantes apenas com as notas escritas por mim acompanhadas pelas mensagens de nossos Benfeitores Espirituais, sem as suas interpretações, o que compreendi, de imediato. Não pude, desse modo, pelo inesperado com que a notícia me vinha ao conhecimento, senão concordar com a medida, mas pedi ao Caio me fornecesse todo o material em estudo para o novo volume, a sair para que eu possa retirar dez dos lançamentos do “Diário” mais expressivos e claros, em que a sua atitude, no caso da publicação do “Evangelho”, na tradução do nosso confrade Paulo Alves de Godoy, mais se evidenciasse, lançamentos esses que eu mesmo escolherei, para enviá-los às suas mãos ante a possibilidade de se publicar, sob o seu patrocínio, na Editora de que escolha, um livro em que estejamos juntos, marcando a questão havida para o agora e para o futuro. Caio e os presentes concordaram com a minha ideia e estou esperando o material aludido para retirar os dez lançamentos em que estejamos reunidos, — a mensagem, os seus apontamentos e as notas deste seu servidor, a fim de submeter o assunto ao seu exame e consideração. No caso, eu escolheria as dez crônicas-tríplices para o livro e o caro Professor escolherá os trechos de nossa correspondência sobre o assunto, ao mesmo tempo que o apresentará no possível volume. Que acha?

Com isso, marcaríamos ambos o episódio havido, no qual o caro Professor mostrará a sua defesa justa, ante a Codificação kardequiana, e de minha parte, demonstrarei, muito embora polidamente, o meu respeito a elas. Estou aguardando o citado material para fazer-lhe a remessa. Se o prezado amigo concordar com a ideia, organizaremos o volume na primeira oportunidade. Sinto bastante estarem as suas notas desmembradas dos lançamentos, em volumes próximos, mas não consegui sair do compromisso de continuar assinando os direitos autorais para o GEEM, logo ao receber a visita do Caio, com a anotação de que a ideia vinha do caro amigo. Entretanto, peço-lhe conservar os seus apontamentos publicados no “Diário”, os que não constarão dos livros próximos, pois pretendo enviar-lhe………. e duas mensagens não lançadas no “Diário”, em breve tempo, para que o prezado amigo estude a possibilidade de apresentá-las. No caso, o prezado professor estudará a possibilidade de encaixar os seus apontamentos já publicados, nas mensagens que enviarei em volume, a benefício das obras assistenciais de que me fala. Escreverei mais, oportunamente.

 


 

VI

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 07.09.1975

Caro amigo Prof. Herculano

Deus nos abençoe!

Em anexo, envio-lhe hoje as (12) doze publicações de ápice no processo de opiniões, em torno da tradução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no qual, com o auxílio dos Benfeitores Espirituais, pude reconhecer a legitimidade da sua nobre tarefa na defesa da Obra de Allan Kardec. Por muito sincera fosse a minha ideia de substituir algumas palavras no texto da tradução em Português para não alterar as disposições mentais dos ouvintes novos das lições kardequianas em reuniões públicas, a verdade é que a sua veemência necessária na defesa da Obra de Allan Kardec me fez pensar muito no cuidado que todos nós, os espíritas devemos ter na preservação dos textos referidos, sob pena de criarmos dificuldades irreparáveis para nós mesmos, agora e no futuro. Meditando nisso sou eu quem me sinto honrado em enviar-lhe as referidas publicações, no intuito de demonstrarmos num livro-documentário a elevação da sua defesa e o meu respeito, no tocante à Codificação kardequiana, que nos cabe endereçar ao futuro tão autêntica, quanto nos seja possível.

No caso de se levar adiante o lançamento de um livro nessas diretrizes, sob a nossa dupla responsabilidade, o prezado Professor poderá usar ou apresentar no contexto do volume qualquer trecho ou a total correspondência que lhe tenho enviado sobre o assunto, pois isso poderá clarear a atitude que tomei, reconhecendo o meu erro e acatando o seu elevado ponto de vista, na aceitação espontânea de suas nobres razões em favor de nós todos.

A organização e título do livro, apresentação e comentários outros ficarão na pauta das expressões e maneiras que o estimado amigo julgar sejam as mais convenientes.

 


 

VII

 

.Francisco Cândido Xavier

 

UBERABA, 10.02.1976

Caro Prof. Herculano

Deus nos abençoe!

Parece incrível mas graças a Deus, o serviço para vós é tanto que os nossos assuntos, fora de nossas tarefas habituais, vão ficando adiados, sem que o desejamos.

Mas assim é que deve estar certo e, por isso, sei que o prezado amigo, sempre com muito mais encargos e lutas de trabalho do que as nossas pequenas tarefas, me perdoará o atraso em nossos temas do dia a dia.

Caro Professor, quanto ao nosso livro, em que compareceremos, expondo as nossas atitudes perante Jesus e Kardec, envio-lhe a importância de Hum mil cruzeiros que reúne parcelas de vários amigos de Belo Horizonte e Pedro Leopoldo, cuja lista de nomes tenho em mãos e aos quais falei sobre o volume. Esses amigos desejam adquirir o livro, logo que a publicação apareça, e, desse modo, mesmo que isso tenha alguma demora, peço-lhes guardar a importância para que os exemplares correspondentes à quantia reunida sejam enviados em meu nome, pois daqui farei a remessa ou farei a entrega pessoalmente em P. Leopoldo e B. Horizonte. Desde já, muito agradeço pela atenção que nos dispensará como sempre.

Sobre o possível rendimento do livro, se isso surgir, peço ao caro amigo canalizar para a instituição que julgue a mais indicável, porque, em nosso grupo aqui temos, sim, um bom núcleo de trabalho assistencial, mas confesso ao caro amigo que não convém aumentar aqui essas tarefas, porque se a assistência crescer muito, em nosso círculo, receio que isso prejudique o trabalho da mensagem psicográfica.

O seu coração amigo me compreenderá. Continuaremos com os nossos assuntos em outras cartas. Abraços

 

Chico.

 

Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

 

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