Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Momentos de ouro — Autores diversos


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Aula da vida

  1 A casa repousava, além de zero hora,

  Quando o juiz no leito ouviu certo rumor ao fundo.

  Quem seria? pensou, ansioso e expectante…

  Talvez um assaltante…

  Quem, no entanto, ousaria

  Penetrar-lhe a mansão, construída no alto,

  Com dois guardas, na ronda, de vigia?


  2 A princípio, o ruído parecia

  Um barulho tão leve, tão de manso,

  Que mais se assemelhava ao vento na folhagem,

  Quando o palácio, à noite, era paz e descanso.


  3 Mas o brando alarido aumentava de porte,

  Justamente na alcova sempre reservada

  Em que ele, o juiz, mantinha um cofre forte.

  Armou-se à pressa e afastou-se da cama,

  Pés descalços, andou no carpete, em pijamas;

  E pela porta além, levemente entreaberta,

  Lobrigou a figura baixa e estranha

  De um mascarado que se recobria

  Numa capa sombria,

  A furtar-lhe, no cofre escancarado,

  Todo o dinheiro ali depositado.


  4 Manejando lanterna diminuta,

  O invasor ocupado nada escuta.

  Mas o juiz entrando em fúria cega

  Ergue o revólver, firme. Aponta e descarrega

  Toda a carga de balas no infeliz

  Que tomba morto agora em pleno escuro.

  Indeciso e nervoso, o magistrado

  A erguer-se em defensor do próprio domicílio,

  Liga a luz, sob a dor do gesto cometido,

  E fita o mascarado

  A encharcar-se de sangue…


  5 Chama os guardas amigos, de plantão,

  Ativa o telefone e pede policiais

  Que lhe arranquem do lar o assaltante caído,

  Depois de se lavrarem

  Depoimentos, notas, testemunhos

  Para os efeitos justos e legais.


  6 Efetuadas todas as medidas,

  Um servente de mãos embrutecidas

  Inspeciona o cadáver e, ao movê-lo,

  Despe-lhe a capa enorme

  E retirando a máscara de pano,

  Vem ao juiz e informa, desumano:

  — É um menino, Excelência … Um ladrão nato

  Devia ter no jeito a esperteza de um rato.


  7 Na angústia enorme do seu próprio drama,

  O magistrado exclama:

  — Horríveis tempos! Dias infelizes!…

  Época de ladrões e meretrizes!…

  Já não mais temos lar em segurança

  Que possa resguardar uma simples criança…

  Onde iremos, meu Deus? Meninos salteadores,

  Crimes, violência, guerra e uma série de horrores!…


  8 Nisso, quatro serventes se aproximam,

  Carregam com cuidado o corpo inerte e triste,

  Mas o Juiz, ao vê-lo, não resiste;

  Detém todo o cortejo em súbita parada,

  Cai sobre o morto em pranto convulsivo,

  Beija-lhe a face inerme e ensanguentada,

  Como se o jovem morto inda estivesse vivo

  E bradou, em supremo desconforto:

  — O que fiz, Grande Deus, para sofrer em minha própria casa,

  Esta dor que me arrasa?

  Matei para viver e estou aniquilado e morto;

  Matei, mas nem de longe imaginava

  Que abatia sem pena

  O filho que adorava…

  Deus, Grande Pai, dá-me de qualquer forma,

  A expiação que me condena…

  Lançava o sangue ao chão amplo e rubro rastilho

  E o pobre prosseguia, em convulsões de dor:

  — Dá-me forças, meu Deus!… Perdoa-me, Senhor!…

  O pequeno assaltante era o seu próprio filho.


Maria Dolores


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