Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Momentos de ouro — Autores diversos


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História de um violino

  1 Parei, fitando um acervo de sucata

  Que iria arder em fogo breve,

  Por um fósforo leve,

  Cuja chama pequena incendeia e consome,

  Qualquer montão de peças estragadas,

  Mesmo aquelas que trazem doces nomes

  De pessoas amadas…


  2 Dentre as centenas de objetos,

  Vasos, portões e móveis incompletos,

  Cuja destruição era o destino,

  Encontrei um violino

  Que mais me parecia

  Uma relíquia em agonia

  No resto de instrumento que ele fora…


  3 De onde procederia

  — Perguntei a mim mesma, altamente intrigada —

  Aquela peça desprezada?

  Sob que mão renovadora

  Teria sido, um dia,

  Perfeitamente manejada?


  4 Então, aquele traste,

  Em rude desconforto,

  Falou-me ao coração:


  5 — Não lastime a sorte que me espera.

  Quanto anotas no mundo,

  Desde o campo relvoso ao deserto infecundo,

  Tudo é renovação!…


  6 Eu fui um tronco verde, o mais belo de um horto,

  Que mais brilhava ao sol da primavera.

  Era visto, de longe, nos caminhos

  Em que passasse alguém que amasse

  Os pássaros e os ninhos…

  Minhas flores vermelhas

  Eram a adoração dos enxames de abelhas…

  Orgulhava-me, sim, de ser forte e robusto…

  Veio, um dia, porém,

  Um homem frio e armado

  De serrote e machado

  E esfacelou-me os pés, agindo a custo…

  Depois, tombei vencido sobre a Terra.


  7 Fui, logo após, levado, serra em serra,

  Em terrível viagem,

  Largado muito tempo ao desprezo e à secagem…


  8 Certa feita, um artesão

  De tato delicado, estranho e fino,

  Transformou-me em violino

  E fui vendido a um moço artista,

  Que me deu cordas, vida e coração…


  9 A princípio, chorei com saudades do chão

  Em que subia ao firmamento

  Na viva emanação de meu próprio perfume,

  Entre flores bailando, ante as flautas do vento;

  Recordava, a chorar, a presença das aves,

  Que falavam comigo em cânticos suaves,

  Agradecendo a Deus, cada manhã,

  A beleza e a alegria da alvorada

  Que mais nos parecia uma festa dourada,

  À luz do sol nascente…


  10 Mas o artista abraçou-me docemente

  E manejando as cordas que me dera,

  Fez-me sentir, por fim, o instrumento que eu era…

  Muita gente me ouvia,

  Embargada de pranto,

  Sem que fizesse algo para tanto…


  11 Mães que houvessem perdido algum filhinho,

  Ante o poder da morte,

  Choravam com saudade e com carinho,

  Pondo-se a relembrar

  Os sonhos de outro tempo e as canções de ninar…


  12 Muito doente em prece

  Pensava em Deus, onde eu me achava,

  Sem que eu mesmo soubesse

  Explicar a razão…

  Notando que tornava as almas que sofriam

  Mais consoladas e felizes,

  Não mais me lamentei de me haver afastado

  Do bosque bem amado

  Em que deixara as últimas raízes…

  Depois de muitos anos,

  Vi muita desventura e muita dor

  Transformando-se em preces ao Senhor.


  13 Vendo, enfim, que servia e consolava,

  O artista mais me quis, quanto mais me tocava.

  Até que, um dia,

  O moço enfermo, trêmulo e alquebrado

  Foi coberto num túmulo fechado…

  Então alguém me achou inútil para a vida

  E me guardou aqui num cova escondida,

  À espera da fogueira

  Em que eu possa também

  Encontrar minha hora derradeira…


  14 Nesse justo momento,

  Alguém ateou fogo ao monturo opulento…

  E vi outro alguém descer das imensas alturas:

  Um moço belo e forte

  Que arrancou, de improviso,

  A forma do instrumento à labareda e à morte…

  E ao colocar no braço o violino refeito

  Em matéria de luz,

  Dele extraía sons… Era um hino perfeito

  Que o fazia esquecer a cinza transitória

  Na música de vida, esperança e vitória!…


  15 Então, eu me lembrei de vós, médiuns amigos!

  Entregai-vos às mãos dos Artistas do Bem,

  Que eles façam em vós a música do Além.

  E, um dia,

  Qual se fosseis desprezados,

  Por trastes relegados

  Ao frio dos museus,

  Braços de amor virão

  Para traçar convosco o Novo Dia

  Que trará para os homens

  O Caminho de Luz da Perfeita Alegria,

  Entre a bênção da Paz e a proteção de Deus.


Maria Dolores


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