Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Momentos de ouro — Autores diversos


6


O anjo e a lama

  1 Dia de céu nevoento.

  Desce um homem do carro,

  Fita a longa extensão do caminho de barro

  E acusa a terra, em volta,

  Tomado de revolta,

  Irritado e violento:


  2 — Maldita lama!…

  Não posso me arriscar

  Neste caminho imundo;

  Meu carro habituado à firmeza do asfalto,

  Decerto tombaria em qualquer salto.

  Maldita seja a hora

  Em que saí de casa…


  3 E disse para a esposa que o ouvia:

  — Melhor voltarmos noutro dia.

  E esquecer este chão que me enerva e me arrasa.


  4 O solo humilde e escravo

  Assinalou o agravo

  E entrou em singular abatimento;

  Mas um dos anjos de orientação

  Do campo, que aguentava o assalto da garoa,

  Parou no mesmo ponto, onde o homem gritara

  E disse à terra úmida: — Perdoa

  Os insultos que ouviste…

  Continua servindo… Não te acuses…


  5 Chamam-te lama vil ou barro triste;

  Entretanto, nas leis da natureza,

  Ninguém consegue pão à mesa

  Sem recorrer ao trigo que produzes.

  Denominam-te chão lodoso e feio;

  Nota, porém, que os teus acusadores

  Querem consigo as flores

  Que te nascem do seio.


  6 O homem é um ser estranho; muita gente

  Que te condena e te maldiz

  Não conhece o tijolo, a telha e o corpo das paredes,

  Com que fazes no mundo

  Tanta gente feliz.


  7 O asfalto, na verdade, é indício de progresso

  Para as rodas de todos os matizes,

  Mas não sabe o processo

  De acalentar sementes e raízes

  Para que a planta estenda,

  Por mágica oferenda

  De supremo valor,

  A colheita que ajuda a conservar

  A fartura do lar

  Onde a vida situa a presença do amor.


  8 Lama, somente lama desprezível,

  Chamam-te aí no mundo,

  Mas quase ninguém sabe,

  Talvez com exceção da mãe bovina,

  Que Deus te honrou com a erva,

  Pela qual a pastagem se conserva,

  Para que o leite seja, ante a criança,

  A essência da esperança,

  Alimento e calor da Bondade Divina.

  Não te magoem críticas e golpes,

  Não olvides que, em ti, Deus resguarda e resume

  A química da vida que transforma

  O esterco envilecido em vagas de perfume!…


  9 A gleba imensa ouvia a mensagem celeste;

  Esqueceu toda injúria… Parecia

  Que a luz do sol voltando a beijava e envolvia,

  Procurando aquecer-lhe

  Todas as energias interiores…

  Desde esse dia, a lama desprezada,

  Sentiu-se renascer para nova alvorada

  E passou, de maneira invariável,

  A responder sem mágoa a quaisquer agressores,

  Trocando acusação, golpe e azedume

  Por ondas generosas de perfume,

  Em braçadas de flores.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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