Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Marcas do caminho — Autores diversos


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Recordações em Leopoldina

  1 A sombra amiga destes montes calmos,

  Meu pobre coração de anacoreta,

  Amortalhado em fina roupa preta,

  Desceu à escuridão dos sete palmos.


  2 Viera o fim dos sonhos intranquilos,

  Entre grandes e estranhos pesadelos,

  Satisfazendo aos trágicos apelos

  Da guerra inexorável dos bacilos.


  3 A morte terminara o horrendo cerco,

  Sufocando as moléculas madrastas…

  Eram trilhões de células nefastas

  Voltando à paz do túmulo de esterco.


  4 Indiferente aos últimos perigos,

  Meu corpo recebeu o último beijo

  E comecei o lúgubre cortejo,

  Sustentado nos braços dos amigos.


  5 Em triste solilóquio no trajeto,

  Espantado, fitando as mãos de cera,

  Rememorava o tempo que perdera,

  Desde as primárias convulsões do feto.


  6 Porque morrer amando e haver descrido

  Do Eterno Sol do qual vivera em fuga?

  Como é sombrio o pranto que se enxuga

  Pelo infinito horror de haver nascido!?…


  7 Depois, vi-me no campo onde a dor medra,

  Ao contato do chão frio e profundo,

  Chegara para mim o fim do mundo

  Entre as cruzes e os dísticos de pedra.


  8 Terrível comoção pintou-me a cara

  Na escabrosa cidade dos pés juntos,

  Tomara-se defunta entre os defuntos

  Toda a ciência de que me orgulhara.


  9 Trêmulo e só, no leito subterrâneo,

  Sentia, frente à lógica dos fatos,

  O pavor dos morcegos e dos ratos

  Dominar os abismos de meu crânio.


  10 Meus ideais mais puros, meus lamentos

  E a minha vocação para a desgraça

  Reduziam-se à mísera carcassa,

  Para o açougue dos vermes famulentos.


  11 Em seguida, o abandono, enfim, do plasma,

  Os micróbios gritando independência,

  E tomei nova forma de existência

  Sob a fisiologia do fantasma.


  12 Fugindo então ao gelo, à treva e à ruína

  Do caos sinistro em que vivera imerso,

  Revelou-se-me a glória do Universo

  Santificado pela Luz Divina!


  13 Oh! que ninguém perturbe meus destroços,

  Nem arranque meu corpo à última fuma,

  É Leopoldina a generosa urna

  Que, acolhedora, me resguarda os ossos.


  14 Beije minhalma alegre o pó da rua

  Deste painel bucólico e risonho,

  Onde aprendi, no derradeiro sonho,

  Que o mistério da vida continua…


  15 Bendita seja a terra augusta e forte,

  Onde, através das vascas da agonia,

  Encontrei a mim mesmo, em novo dia,

  Pelas revelações de luz da morte.


Augusto dos Anjos



(C. E. Amor ao Próximo — Leopoldina, MG, 17.06.1945)

Essa mensagem foi publicada originalmente em 1969 pela FEB e é a 81ª lição do livro “Poetas Redivivos


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