Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Maria Dolores — A própria


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A lição do dinheiro

  1 Ele era salteador pela primeira vez.

  O cofre agora aberto estava à mão.

  E, lá dentro, ele viu, ante a casa vazia,

  Um pacote mostrando que trazia

  A soma respeitável de um milhão.


  2 Dispunha-se a empalmar toda a quantia…

  Quando o dinheiro lhe falou

  Em forma de conselhos e queixumes:


  3 — Pensa, amigo,

  Na obrigação que assumes,

  Ao levar-me daqui, nas condições de um louco,

  Já que podes buscar-me em compromisso

  Entre a força da fé e a bênção do serviço

  Retirando-me em paz, lidando pouco a pouco,

  Não quero ser motivo

  Para que sejas preso como eu vivo.


  4 Fui criado por Deus para fazer o bem,

  Não desejo aumentar as lutas de ninguém

  Quero sair daqui para ser agasalho

  Aos que gemem sem teto e sem trabalho.


   5 Anseio consolar as mães que padecem na estrada,

  De alma aflita e cansada,

  Ante a dor dos filhinhos

  A esmolarem socorro em remotos caminhos;

  Espero ser o apoio do homem triste

  Que de tanto sofrer necessidade,

  Já não sabe se resiste

  À tentação da morte que o invade.


  6 Sonho doar auxílio ao doente sem nome

  A fim de que suporte

  Ao duro sofrimento que o consome

  Livrando-se, por fim, das lâminas da morte,

  Quero sair daqui para que alguém me aceite

  De modo a ser o amigo sorridente,

  Que ofereça uma xícara de leite

  À criança doente.


  7 Quero ser cobertor para quem sente frio,

  Prato que nutra, força que refaça,

  Algo que plante amor no coração vazio,

  Instrumento do bem que ajuda, serve e passa.

  Mas ouve, amigo meu, não me faças razão

  De largar este cofre e levar-te à prisão.


  8 Trabalha e vem buscar-me

  Sem calúnia, sem crime, sem alarme,

  Quero ser luz e ação em tudo o que progrida

  E seiva a circular nas árvores da vida.


  9 Vê onde a sovinice me prendeu,

  Não te desejo o cárcere em que moro

  Na prova rude que me aconteceu.

  Quero ser livre e forte, assim como és,

  Caminhar com teus pés

  Aspiro a ser-te amigo e companheiro…


  10 Calara-se o Dinheiro

  E o pobre salteador inexperiente,

  Recuando, atingiu grande portão à frente.


  11 Nisso, o dono da casa, envolto em grande escolta,

  Veio à mansão de volta;

  Vendo o lar violentado e o cofre aberto

  Com o dinheiro intocado,

  Saudou o salteador que via perto

  E acreditando nele a presença de alguém

  Que lhe guardara a casa para o bem,

  Agradeceu-lhe o gesto

  De homem leal e honesto…


  12 Sustentando o silêncio e a tristeza no olhar,

  O pobre sem vintém começou a chorar…


  13 Ali mesmo, porém, começou vida nova,

  Transformado por dentro, alterou-se-lhe a prova;

  Passando a servidor da mansão que arrombara,

  Agia com firmeza, nobre e rara…

  Trabalhou a formar, de tostão a tostão,

  Os bens com que sabia socorrer

  Quem achasse a sofrer…

  E quando auxiliava aos semelhantes

  Em provações alucinantes

  Nos quais dizia ver os próprios irmãos seus,

  Rememorava a fala do milhão

  E clamava, em voz alta, ao lembrar-lhe a lição:

  — Obrigado, meu Deus!…


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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