Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Maria Dolores — A própria


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A lenda da rosa

  1 Dizem que quando a Terra começava

  A ser habitação de forças vivas,

  Nas telas primitivas,

  Tudo passara a ser agitação de festa;

  As cidades nasciam

  Em singelas aldeias na floresta…

  A beleza imperava,

  O verde resplendia,

  Toda a vegetação se espalhava e crescia,

  Dando refúgio e proteção

  Aos animais,

  Do mais fraco ao mais forte…

  O progresso ganhava as marcas de alto porte.


  2 No campo, as plantas todas

  Respiravam felizes,

  Da folhagem no vento à calma das raízes;

  Era um mundo de belos resplendores,

  Adornado de flores,

  Com uma estranha exceção.

  Tão-somente, o espinheiro,

  Era triste e sozinho

  Uma espécie de monstro no caminho,

  De que ninguém se aproximava,

  Todo feito de pontas agressivas,

  Recordando punhais de traiçoeiro corte,

  Que anunciavam dor e feridas de morte.


  3 De tanto padecer desprezo e solidão,

  Um dia, o espinheiral

  Fitou o Azul Imenso e disse em oração:

  — Senhor, que fiz de mal

  Para ser espancado e escarnecido,

  Todos me evitam cautelosamente

  Como se eu não devesse haver nascido…


  4 Compadece-te, oh! Pai, da penúria que trago,

  Terei culpa das garras que me deste?

  Acendes astros mil para a noite celeste,

  Vestes a madrugada em mantilhas vermelhas,

  Dás lã para as ovelhas,

  Inteligência aos cães, cântico às aves,

  Estendeste no chão a bondade das fontes

  Que deslizam suaves

  Na força universal com que desdobras,

  A amplitude sem fim dos horizontes,

  Em cujo místico esplendor

  Falas de majestade, paz e amor…


  5 Não me abandones, Pai, às pedras dos caminhos,

  Se posso, não desejo

  Oferecer somente espinhos…

  Quero servir-te à obra, aspiro a ser perfume,

  Inspiração e cor, harmonia e beleza,

  Para falar de ti nas leis da Natureza.


  6 Dizem que Deus ouviu a inesperada prece

  E notando a humildade e a contrição do espinheiral,

  Mandou que, à noite, o orvalho lhe trouxesse

  Um prodígio imortal.

  Na seguinte manhã, logo após a alvorada,

  Por entre exalações maravilhosas,

  O homem descobriu, de alma encantada,

  Que Deus para mostrar-se o Pai e o Companheiro,

  Atendendo a oração pusera no espinheiro

  A primeira das rosas.


Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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