Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Maria Dolores — A própria


11


Drama de mulher

  1 O público, no júri, ouvia atento…


  2 Um moço pobremente apresentado

  Era o terrível réu em julgamento.


  3 Prosseguia a falar o promotor:

  — Senhores do conselho de sentença

  A casa da justiça é uma casa que pensa.

  Certo, já conheceis

  O perigoso salteador que temos sob a vista,

  É homicida e ladrão

  Quer, por vezes, passar por jovem cientista,

  Furtando assinaturas,

  Falsificando documentação…

  Não tem vinte e seis anos de contado

  E não passa de reles celerado.


  4 Se vos escravizais à compaixão cediça,

  Que será da justiça?

  Representais aqui toda a comunidade,

  Examinai o delinquente,

  Estudando à vontade

  O processo que o mostra claramente.

  E condenais sem medo,

  Sem que o falso carinho vos degrade

  O sentido de ordem, de defesa

  Contra o império do mal

  Que ameaça ferir a natureza,

  De maneira fatal…


  5 O silêncio pesou, na sala imensa,

  Toda a assembleia escuta, extática e suspensa.

  Por fim, o promotor, depois de grande pausa,

  Anunciou em voz tonitroante:

  — Aos senhores jurados neste instante,

  Peço a condenação do réu em causa.


  6 Antes, porém que o tribunal

  Fosse parlamentar em confidência,

  Uma senhora idosa da assistência

  Extremamente pobre por sinal,

  Ergue-se e diz:


  7 Senhor Juiz, rogo o vosso perdão mas serei breve.

  Sou eu a testemunha não ouvida,

  Muito embora arrasada, ante os golpes da vida,

  Eu sou a mãe do réu passível de sentença.

  Há muito tempo, eu fui uma jovem simplória,

  E o senhor promotor

  Era um moço robusto, um jovem de talento.

  Amamo-nos os dois, com redobrado ardor,

  E tivemos um filho,

  Fora do casamento:

  — O réu que há nesta sala…


  8 Mas, chegando a criança

  Ele me abandonou, matando-me a esperança

  De um lar que nunca tive e que sempre sonhei…

  Entreguei-me ao serviço

  E meu filho cresceu, sem saber disso.

  Fiz-me, para criá-lo, humilde lavadeira,

  Sofrendo privações a vida inteira…

  Dei a meu filho a escola, o sustento, o agasalho,

  Mas não pude guiá-lo às bênçãos do trabalho.

  Faltou-lhe o pai à vida e para dar-lhe o pão,

  Passei toda a existência em dura servidão…

  Nunca vendi amor, nunca fui prostituta,

  Vivi de sacrifício, entre a doença e a luta…


  9 E aquela estranha voz

  Que demonstrava em si padecimento atroz,

  Prosseguiu: — Excelência,

  Como julgar por nós as tramas da existência?

  Meu filho, o triste réu, é um pobre vagabundo,

  O promotor que acusa é o pai que o pôs no mundo…


  10 E acrescentou, em pranto:

  — Por que Deus fez as mães para sofrerem tanto?

  Por que, senhor Juiz,

  Tenho um filho que adoro

  Para vê-lo tão triste e desprezado,

  Tão sozinho e infeliz?


  11 O silêncio caiu na sala imensa,

  No promotor, a face era agora de cera,

  Ninguém se levantou, nem se moveu,

  Toda a comunidade emudecera…

  Mas o Juiz discreto usa o lenço em que estanca

  O pranto que lhe encharca a longa barba branca…

  E homem de consciência limpa e nobre coração

  Muito embora chorasse,

  Mostrando a imensa dor que lhe cobria a face,

  Declarou desejar a revisão

  Do processo, de todo, ainda não julgado,

  Depois, ergueu-se trêmulo, cansado,

  E adiou a sessão.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir