Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Lira imortal — Autores diversos


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Alma escrava

  1 “Por que, meu Deus, a carne inda me prende,

  Por que me arrasto como um triste duende,

  Em miserabilíssimos despojos?…

  Era o ser encarnado que falava,

  Amarguradas queixas da alma escrava,

  No mais horrendo dos martirológios.


  2 “— Como pude descer nos labirintos,

  Onde os lobos vorazes dos instintos

  Nos consomem nos dentes de esfaimados,

  E por que idealizando puros gozos,

  Busco na carne abismos tenebrosos,

  Abominando todos os pecados?”


  3 “Sou no mundo um fantasma solitário,

  Só porque, um dia, um espermatozoário

  Uniu-se, ansioso, ao óvulo fecundo.

  E emergindo das ânsias e dos partos,

  Suguei, unindo a boca a uns seios fartos,

  Substâncias misérrimas do mundo…”


  4 “Desde esse dia tormentoso e aflito

  De intensa dor, envergo o sambenito

  De matérias iguais aos polipeiros,

  Entre as disposições hereditárias,

  Chorando as mesmas dores milenárias

  Dos que gemeram nestes cativeiros!…”


  5 Nada, contudo, lhe respondeu, de perto…

  A alma, porém, sozinha, no deserto,

  Viu sobre o mundo um monte de destroços;

  Sentiu, no Além, a vida verdadeira,

  Mas contemplando, pela Terra inteira,

  A carne infame, chocalhando os ossos!…


Augusto dos Anjos


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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