Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Excursão de paz — Autores diversos


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Cantoria da Morte

  1 Hoje, preciso enfrentar

  Problema de grande porte,

  Há quem me peça este assunto

  Supondo que eu seja forte,

  Mas não há quem forte seja,

  Ante a presença da morte.


   2 Não é a morte a megera

  Dos quadros de antigamente,

  Uma forma de esqueleto

  Com foice mirando a gente,

  A morte em cada pessoa

  Mostra face diferente.


   3 Conheço um homem que, um dia,

  Foi procurado por ela,

  Parecia uma enfermeira

  Que lhe escorava a espinhela;

  Trazia sono… e o coitado

  Caiu logo na esparrela.


   4 Quando ele quis acordar

  Do sono que ela trazia,

  Os pés estavam parados,

  Na geada que sentia,

  Quis falar, porém, a boca

  Estava selada e fria.


   5 Enxergava o próprio corpo

  Que ele mesmo havia usado,

  Tão quieto que parecia

  Um velho tronco espinhado,

  No entanto, não descobria

  Nenhuma bruxa de lado.


   6 Imaginando que a morte

  Ali pousasse escondida,

  Ele gritou: “Dona Morte,

  Não entro nesta partida,

  Tenho muito que fazer,

  Não posso perder a vida.


   7 “Tenho muitos compromissos,

  Deveres para tratar,

  Pedidos de clientela,

  Obrigações em meu lar,

  Quero o meu corpo, de novo,

  Para a vida regular.”


   8 A bruxa estava invisível,

  Nem de leve apareceu,

  Mas uma voz esquisita

  Logo, logo, respondeu:

  “Não me peças o impossível,

  Que teu corpo já morreu.”


   9 O homem apavorado

  Replicou, na mesma hora:

  “Eu quero o meu corpo vivo,

  Não sei andar de demora,

  Suplico na confiança

  Em Deus e Nossa Senhora.”


   10 Mas a voz falou mais firme:

  “Largaste o corpo no mundo,

  Quando a vida se transfere,

  A mudança é num segundo,

  A tua prece de agora

  Parece um cheque sem fundo.


   11 “Nada tens a reclamar,

  O teu pedido não vinga,

  Viveste como quiseste

  Catando caso e mandinga,

  Mesa farta e rede fofa,

  Fandango e trago de pinga.


   12 “Nasceste de boa gente,

  Mas não vês o tempo gasto,

  Em que mais te parecias

  A touro novo no pasto,

  Se vias qualquer morena,

  Seguias cheirando o rasto.


   13 “Algum bem trazes contigo,

  Isso, porém, é. dever,

  Mas quantas horas perdidas

  Que não podes devolver!…

  Cala-te e pensa na conta

  Do que deixaste a fazer…”


   14 “Qual será o meu lugar?”

  Indagou o pobre amigo.

  A voz pronta esclareceu:

  “Deus não aprova castigo;

  Estarás no purgatório

  Que já carregas contigo.


   15 “Muito serviço te espera

  Para a conquista da paz.

  Trabalha, não te lastimes,

  O tempo não volta atrás.

  Céu, inferno e purgatório

  Cada um tem os que faz.”


   16 Ele, aí, falou à voz:

  “Serás a morte na essência?”

  Ela, porém, respondeu

  Com firmeza e paciência:

  “A morte é caso passado…

  Sou a tua consciência.”


   17 De repente, despertando,

  Vi que tudo em mim tremeu,

  Larguei, correndo, assustado

  O corpo que fora meu…

  Então, descobri que o homem

  Não era outro… Era eu.


Leandro Gomes de Barros


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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