Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Entre a Terra e o Céu — André Luiz


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Em tarefa de socorro

(Sumário)

1. Na noite do dia seguinte, fomos inesperadamente visitados por Odila, que nos pedia socorro.

2 A preocupada amiga, agora ciente do drama escuro que se desenrolara no passado próximo para melhor entender as inquietudes do presente, compreendia as necessidades de Amaro e Júlio, aos quais amava por esposo e filho do coração, e rogava assistência para Zulmira, novamente acamada.

3 Atendendo a apelos de Evelina, tornara ao ambiente doméstico para soerguer o bom ânimo daquela que a sucedera na direção do lar, e voltara, aflita.

4 Arrojara-se Zulmira a profundo abatimento.

Recusava remédio e alimentação.

Enfraquecia assustadoramente.

5 Sabia agora que a permanência dela no mundo e na carne se revestia de excepcional importância para o seu grupo familiar e, atenta a isso, continuava intercedendo.

A rápida informação da mensageira impressionava e comovia pelo tom de amorosa aflição em que era vazada.

6 Não nos delongamos na resposta.

Era mais de meia-noite, na cidade, quando atravessamos a porta acolhedora da casa do ferroviário que, desde muito, constituía para nós valioso ponto de ação.

7 A dona da casa, de pensamento fixo nas derradeiras cenas da morte do pequenino, jazia no leito em prostração deplorável.

Emagrecera de modo alarmante.

Fundas olheiras roxas contrastavam com a acentuada palidez do rosto desfigurado.

8 Recaíra na introversão em que a conhecêramos.

Rememorava o afogamento do pequeno enteado e, longe de saber que o retivera nos braços como filho abençoado de sua ternura, sentia-se na condição de ré infortunada no banco da justiça.

9 Decerto, — pensava, agoniada, — sofria a punição divina. Aquela morte do pequeno, quando tudo fazia crer que ele cresceria para a ventura do lar, correspondendo-lhe à expectativa, era dolorosa pena imposta ao seu maternal coração. Ah! Devia ter sido pronunciada perante os juízes da Sabedoria Celeste. 10 No mundo, ninguém lhe conhecia o remorso de guardiã invigilante e cruel, mas fora sem dúvida identificada pelos tribunais de mil olhos do Direito Incorruptível.. Não amparara convenientemente o filhinho de Odila, relegando-o a intencional abandono… Agora, perdia inexplicavelmente o rebento que lhe definia a esperança no grande futuro. 11 Valeria erguer-se e disputar aquilo que para ela representava a dor de viver? Reconhecia-se esmagada. O complexo de culpa retomara-lhe o cérebro e enfermara-lhe o coração.

12 Reparamos que diversos medicamentos se alinhavam à cabeceira, mas nosso instrutor examinou-os, auscultou a doente e informou:

— O remédio de Zulmira é daqueles que a farmácia não possui. Virá dela mesma. Precisamos refazer-lhe a esperança e o gosto de viver. Descontrolou-se-lhe, de novo, a mente. Desinteressou-se da luta e a abstenção de alimentos acarreta-lhe a inanição progressiva.

13 — E o reencontro com o filhinho? — Perguntou Hilário, — não seria o melhor processo de restaurar-lhe o bom ânimo?

— É o que esperamos, — concordou o Ministro, — todavia, Júlio, na fase que atravessa, requisita, pelo menos, uma semana de absoluto repouso e, até lá, é indispensável entreter-lhe as energias.

14 Em seguida, Clarêncio entrou em ação, aplicando-lhe recursos magnéticos, com o nosso humilde concurso.

A tensão nervosa de Zulmira, porém, atingira o apogeu e apenas conseguimos sossegá-la, de alguma sorte, sem conduzi-la ao sono reparador que seria de desejar.


2. Odila, fortalecida, tomava-a aos seus cuidados, quando fomos defrontados por imprevisto fenômeno.

2 Mário Silva, desligado do corpo denso, com a rapidez de um relâmpago, penetrou o quarto, de olhos esgazeados, à maneira de louco, contemplou a doente por alguns instantes e afastou-se.

3 Volvemos nossa indagadora atenção para o Ministro, que esclareceu, sem detença:

— É sabido que o criminoso habitualmente volta ao local do crime. O remorso é uma força que nos algema à retaguarda.

4 E porque nos inclinássemos à procura do visitante inesperado, o instrutor aquietou-nos, recomendando:

— Aguardemos. Mário voltará.

5 Com efeito, Silva, depois de alguns minutos, regressou ao aposento. Com a mesma expressão de dementado, fixou a pobre enferma e, dessa vez, rojou-se de joelhos, exclamando:

— Perdão! Perdão!… Sou um assassino! Um assassino!…


3. Levantamo-nos, instintivamente, com o propósito de socorrê-lo, mas tocado de longe pela nossa influência magnética, qual se fora alcançado por um raio, o enfermeiro projetou-se para fora.

— Infortunado amigo! — Falou o Ministro, contristado. — Sofre muito. Ajudemo-lo a soerguer-se.

2 Num átimo, ganhamos o domicílio de Mário, encontrando-o em pesadelo aflitivo, contido no leito à custa de poderosos anestésicos.

3 Com surpresa para nós, uma freira desencarnada rezava, junto dele.

Interrompeu as preces, a fim de saudar-nos, acolhendo-nos com simpatia.

4 — Estava certa, — disse delicada e confiante, — de que Nosso Senhor nos enviaria o socorro justo. Desde algumas horas, ocupo aqui o serviço de vigilância. A posição do nosso amigo, — e indicou Mário estendido na cama, — é francamente anormal e temo a intromissão de Espíritos diabólicos.

5 Clarêncio assumiu o aspecto de simples visitante, vulgarizando-se ao olhar da religiosa, que se sentia evidentemente encorajada com a nossa presença.

— É enfermeira? — Perguntou nosso instrutor, cortês.

— Não sou propriamente do serviço de saúde, — replicou a interpelada, — mas colaboro no hospital onde Silva trabalha.

6 Fitou o moço semi-adormecido e aduziu, piedosa:

— É um cooperador devotado às crianças doentes e a cuja assiduidade e carinho muito passamos a dever.

7 E, numa linguagem genuinamente católica romana, rematou:

— Muitas almas benditas têm descido do Céu para testemunhar-lhe agradecimento. Isso tem acontecido tantas vezes que, com alguns médicos e assistentes, fez-se credor das melhores atenções de nossa Irmandade.

8 Usando o tato que lhe era característico, nosso orientador indagou:

— Como soube a irmã que o nosso amigo se achava assim tão conturbado?

— Não recebemos qualquer notificação direta, contudo, ele não compareceu hoje às tarefas habituais e isso foi suficiente para indicar-nos que algo de grave estava acontecendo. Nossa superiora designou-me para verificar o que havia. Desde então, estou presa, de vez que não supunha a existência de tantos Espíritos das trevas na vizinhança.

9 A palavra da freira saturava-se de tanta bondade espontânea e evidenciava uma fé pura tão encantadoramente ingênua, que a curiosidade me espicaçou o íntimo. A tentação de pesquisar o fascinante problema daquele caridoso esforço assistencial me constrangia a interferir no assunto, mas um olhar de Clarêncio bastou para que Hilário e eu nos mantivéssemos em respeitoso silêncio.

10 — É comovente pensar na sublimidade de sua missão, depois de ausentar-se do corpo terrestre, — falou o Ministro, bondoso, talvez provocando alguma elucidação direta, capaz de satisfazer-nos.

— Sim, trabalhamos sob a direção de Madre Paula, — informou a interlocutora, sincera, — que nos explica ser a enfermagem nas casas públicas de tratamento uma forma de purgatório benigno, até que possamos merecer novas bênçãos de Deus.

11 — Mas, irmã, vê-se de pronto que o seu coração está comungando a paz do Senhor.

Ela baixou humildemente os olhos e ponderou:

— Não penso assim. Sou uma pobre religiosa, em trabalho para resgatar os próprios pecados.

12 No leito, Mário gemia inquieto.

O Ministro pareceu despreocupar-se da palestra de ordem pessoal e passou a afagar a fronte do enfermo, dando-nos a ideia de que só ele devia atrair-nos o interesse.

13 A freira acercou-se respeitosamente de nosso instrutor e disse, calma:

— Irmão, Madre Paula costuma dizer-nos que os ouvidos de Deus vivem no coração das grandes almas. Estou certa de que escutastes minhas rogativas. Tenho-vos por emissários da Corte Celeste. Acredito que, desse modo, me compete a obrigação de confiar-vos nosso doente.

14 Clarêncio agradeceu o carinho que transparecia daquelas palavras e expôs que a nossa passagem por ali era rápida, o bastante para ministrar o socorro preciso.

15 A interlocutora encareceu a necessidade de comunicar-se com o hospital, quanto ao cooperador em agitada prostração, e, prometendo voltar em breves minutos, ausentou-se à pressa.

16 A sós conosco, o orientador, embora de atenção ligada ao enfermeiro, explicou, atenciosamente:

— Nossa irmã pertence à organização espiritual de servidores católicos, dedicados à caridade evangélica. Temos diversas instituições dessa natureza, em cujos quadros de serviço inúmeras entidades se preparam gradualmente para o conhecimento superior.

17 — Sob a direção de autoridades ainda ligadas à Igreja Católica? — Perguntou Hilário, admirado.

— Como não? Todas as escolas religiosas dispõem de grandes valores na vida espiritual. 18 Como acontece à personalidade humana, as crenças possuem uma região clara e luminosa e uma outra ainda obscura. 19 Em nossa alma, a zona lúcida vive alimentada pelos nossos melhores sentimentos, enquanto que, no mundo sombrio de nossas experiências inferiores, habitam as inclinações e os impulsos que ainda nos encadeiam à animalidade. 20 Nas religiões, o campo da sublimação está povoado pelos Espíritos generosos e liberais, conscientes de nossa suprema destinação para o bem, ao passo que, nas linhas escuras da ignorância, ainda enxameiam as almas pesadas de ódio e egoísmo.

21 E, sorrindo, o Ministro acentuou:

— Achamo-nos em evolução e cada um de nós respira no degrau em que se colocou.

22 — Ela, porém, terá penetrado a verdade com que fomos surpreendidos, depois da morte? — Perguntei, intrigado.

— Cada Inteligência, — respondeu o orientador, enigmático, — só recebe da verdade a porção que pode reter.

23 Silva, no leito, dava inequívocos sinais de enorme angústia.

Não ignorava que o meu dever de assisti-lo era trabalho inadiável, todavia, o encanto espiritual da religiosa singularmente arraigada aos hábitos terrestres me excitava de tal maneira a curiosidade que não pude conter a indagação espontânea.

24 — Mas essa freira sabe que deixou o mundo, sabe que desencarnou e prossegue, assim mesmo, como se via antes?

— Sim, — confirmou o instrutor imperturbável.

— E estará informada de que a vida se estende a outras Esferas, a outros domínios e a outros mundos? Perceberá que o Céu ou o inferno começam de nós mesmos?

25 O orientador meneou a cabeça, dando mostras de negativa e acrescentou:

— Isso não. Ela não oferece a impressão de quem se libertou do círculo das próprias ideias para caminhar ao encontro das surpresas de que o Universo transborda. Mentalmente, revela-se adstrita às concepções que elegeu na Terra, como sendo as mais convenientes à própria felicidade.

26 — E ninguém a incomoda aqui por viver assim distante do conhecimento real do caminho?

O orientador assumiu feição mais carinhosamente paternal para comigo e ajuntou:

— Antes de tudo, deve nossa irmã merecer-nos a maior veneração pelo bem que pratica 27 e, quanto ao modo de interpretar a vida, não podemos esquecer que Deus é Nosso Pai. Com a mesma tolerância, dentro da qual Ele tem esperado por nossa mais elevada compreensão, aguardará um melhor entendimento de nossa amiga. 28 Cada Espírito tem uma senda diversa a percorrer, assim como cada mundo tem a rota que lhe é peculiar.

29 E, fixando-me com particular atenção, observou:

— A maior lição aqui, André, é a da sementeira que produz, inevitável. Mário Silva, na posição de enfermeiro, não obstante a ruinosa impulsividade em que se caracteriza, tem sido prestimoso e humano, tornando-se credor do carinho alheio. Segundo vemos, não é um homem devotado às lides religiosas. É irritável e agressivo. De ontem para hoje, chega a sentir-se criminoso… Entretanto, é correto cumpridor dos deveres que abraçou na vida e sabe ser paciente e caridoso, no desempenho das próprias obrigações. Com isso, granjeou a simpatia de muitos e encontramo-lo fraternalmente guardado por uma freira reconhecida…


4. O ensinamento era efetivamente comovedor.

2 Dispunha-me a prosseguir no comentário, contudo, Silva começou a gemer e o Ministro, inclinando-se para ele, demorou-se longo tempo a auscultá-lo.

3 Em seguida, Clarêncio reergueu-se e falou:

— Pobre amigo! Permanece impressionado com a morte de Júlio, conservando aflitivo complexo de culpa. Tem o pensamento ligado ao pequenino morto, à maneira de imagem fixada na chapa fotográfica. Passou o dia acamado, sob extrema perturbação. Observo que não foi a casa de Antonina, conforme previa. Sentiu-se vencido, envergonhado… Entretanto, somente nossa irmã possui para ele o remédio indispensável…

4 Depois de pausa ligeira, indagamos se não nos seria possível socorrê-lo, de modo mais positivo, através de passes, ao que Clarêncio respondeu, seguro de si:

— O auxílio dessa natureza ampara-lhe as forças, mas não resolve o problema… Silva deve ser atingido na mente, a fim de melhorar-se. Requisita ideias renovadoras e, no momento, Antonina é a única pessoa capaz de reerguê-lo com mais segurança.

5 Recordei instintivamente o drama que se desenrolara ao tempo da Guerra do Paraguai, parecendo-me ouvir, de novo, a narração do velho Leonardo Pires.

6 Assinalando-me o pensamento, o Ministro ponderou:

— Tudo na vida tem a sua razão de ser. Noutra época, Silva, na personalidade de Esteves, aliou-se a Antonina, então na experiência de Lola Ibarruri, para se afogarem no prazer pecaminoso, com esquecimento das melhores obrigações da vida. Atualmente, estarão reunidos na recuperação justa. Os que se associam na leviandade, à frente da Lei, acabam esposando enormes compromissos para o reajustamento necessário. Ninguém confunde os princípios que regem a existência.

7 Decidia-me a desfechar novas interrogações, mas Clarêncio, pousando afetuosamente o indicador sobre os meus lábios, recomendou:

— Cessa a curiosidade, André! Quando passamos a explanar sobre a Lei, nossa conversação adquire o sabor de eternidade, e a imposição de serviço nos condiciona ao minuto que passa.

8 E, indicando o enfermeiro excitado, anunciou:

— Na tarde de amanhã, voltaremos para conduzi-lo à residência de nossa irmã. Por intermédio de Antonina, habilitar-se-á para o indispensável reerguimento. Por agora, não podemos fazer mais.

9 Decorridos alguns instantes, a freira regressou à nossa presença, assistida por outra irmã, que nos cumprimentou com atenciosa reserva.

Ambas haviam sido designadas para a tarefa de auxílio ao cooperador doente. A congregação encarregar-se-ia de todos os trabalhos de vigilância e enfermagem espiritual, enquanto Silva assim permanecesse.

10 Depois de breve diálogo, saudamo-las com respeitosa cordialidade e nos retiramos, com a promessa de voltar no dia seguinte.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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