Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Entre a Terra e o Céu — André Luiz


31


Nova luta

(Sumário)

1. O pequeno Júlio desenvolvia-se como flor de esperança no jardim do lar, todavia, sempre mirrado, enfermiço.

2 Desvelavam-se os pais por assisti-lo convenientemente, contudo, por mais adequados se categorizassem os tratamentos recalcificantes, trazia doloroso estigma na garganta.

3 Extensa ferida na glote dificultava-lhe a nutrição.

Farinhas suculentas concorriam com o leite materno para robustecê-lo, mas em vão.

4 Entretanto, apesar dos cuidados que exigia, era uma bênção de felicidade para os genitores e para a irmãzinha, que sentiam em seu rostinho tenro um ponto vivo de entrelaçamento espiritual.

5 Muitas vezes, conchegamo-lo ao coração, rememorando os trabalhos que lhe haviam precedido o regresso ao mundo, assinalando a ternura otimista com que Odila, transformada em generosa protetora da família, lhe acompanhava o desabrochar.

6 O pequerrucho já começava a falar por monossílabos, em vésperas do primeiro ano de renascimento, quando nova luta surgiu.

O inverno chegara rigoroso e vasto surto de gripe espalhara-se ameaçador.

7 A tosse e a influenza compareciam pertinazes, em todos os recantos, quando, num dia de grande trabalho para nós, eis que a genitora de Evelina veio, novamente, ao nosso encontro.

Dantes, procurava assistência para Zulmira, agora demandava auxílio para Júlio.

O menino, assaltado por teimosa amidalite, jazia prostrado, febril.

8 Dirigimo-nos incontinenti para o lar do ferroviário.

Com efeito, o vento soprava, úmido, sobre o largo espelho da Guanabara. As ruas, pela vestimenta pesada dos transeuntes, davam ao Rio o aspecto de uma cidade fria.

9 Alcançamos, sem detença, o domicílio de Amaro.

O quadro, à nossa vista, era indubitavelmente constrangedor.

10 Penetramos o aposento em que a criança gemia semi-asfixiada, no instante preciso em que o médico da família efetuava meticuloso exame.

11 Clarêncio passou a reparar-lhe todos os movimentos.

A garganta minúscula apresentava extensa placa branquicenta e a respiração se fazia angustiada, sibilante.

12 O instrutor meneou a cabeça, como se fora defrontado por insolúvel enigma, e colocou a destra na fronte do facultativo, compelindo-o a refletir com a maior atenção.

Zulmira e Evelina, sem perceber-nos a presença, fitavam o médico, preocupadas.

13 Após longo silêncio, o clínico voltou-se para a dona da casa, afirmando:

— Creio devamos procurar um colega imediatamente. Enquanto a senhora telefona para o marido, chamando-o da oficina, trarei comigo um pediatra.

14 A torturada mãezinha conteve a custo as lágrimas que lhe borbulhavam dos olhos.

O médico tornou, cismarento, à via pública, e, enquanto Evelina, rápida, corria até o armazém próximo para dar ciência ao genitor de quanto ocorria, Zulmira, presumindo-se a sós, abraçou-se ao doentinho e, chorando livremente, ciciou:

15 — Ó meu Deus, com tanto amor recebi o filho que me enviaste!… Não me deixes agora sem ele, Senhor!…

O pranto que lhe corria na face queimava-me o coração.

16 Nada pude indagar, em vista da emotividade que me tomara o espírito, mas o nosso orientador, sereno como sempre, exclamou, compadecido:

— A difteria está perfeitamente caracterizada. A deficiência congenial da glote favoreceu a implantação dos bacilos. É imprescindível o socorro urgente.

17 O instrutor começou a mobilizar recursos assistenciais de maior expressão, quando o ferroviário, desolado, ingressou no aposento.

Conversando com a mulher, tentava reanimá-la, quando o pediatra, conduzido pelo colega, deu entrada na humilde residência.

18 Ambos os médicos submeteram o petiz a prolongado exame, permutando impressões em voz baixa.

O especialista, apreensivo, após manifestar a suspeita de crupe, reclamou a análise de laboratório, decidindo transportar consigo mesmo o material necessário à inspeção.

19 Ao sair, prometeu opinar, dentro de algumas horas. Notificou ao pai agoniado que tudo lhe fazia crer tratar-se de garrotilho. Entretanto, reservava o diagnóstico definitivo para depois. Se a hipótese se confirmasse, enviaria um enfermeiro de confiança para a aplicação do soro adequado.


2. Mantendo vigilância junto ao doentinho, o Ministro recomendou-nos, a Hilário e a mim, acompanhar o pediatra, de modo a prestar-lhe a colaboração possível ao nosso alcance.

2 Seguimo-lo sem hesitar.

O crepúsculo, encharcado de uma garoa fina, caía rápido.

3 Em minutos breves, atravessávamos o pórtico de vasto hospital, onde o nosso amigo procurou a sala em que certamente se recolhia para os trabalhos que lhe diziam respeito.

4 Chegados a estreito recinto, fomos defrontados por uma surpresa que nos impunha verdadeira estupefação.

Mário Silva, em seu traje branco, palestrava com dona Antonina que acomodava ao colo a pequena Lisbela, pálida e ofegante.

5 A jovem senhora, que não mais víramos, aguardava o especialista, trazendo a filhinha à consulta. Amparadas por Silva, francamente atraído para a simpática visitante, ambas tiveram acesso a gabinete particular, onde o facultativo diagnosticou uma pneumonia.

6 Antonina foi aconselhada a voltar, de imediato, ao ambiente doméstico, para a medicação da filha.

A penicilina devia ser administrada sem qualquer dilação.

Mário, demonstrando imenso carinho pela criança, prontificou-se a assisti-la.

Traria um automóvel e atenderia ao caso pessoalmente.

7 O chefe passeou o olhar pelo mostrador do relógio e aquiesceu, ressalvando:

— Bem, você pode cooperar com as nossas clientes, mas preciso de seu concurso em bairro distante, às vinte e duas horas.

8 O rapaz assumiu o compromisso de regressar a tempo e um táxi recolheu o trio, rolando na direção da casinha que visitáramos, certa vez.

9 Ante o inesperado daquele encontro, sentimos necessidade de um entendimento seguro com o nosso orientador.

Tornando ao quarto, onde o pequeno Júlio piorava sempre, fizemos breve relato do acontecido. Clarêncio escutou com interesse e ponderou, preocupado:

10 — Não podemos perder tempo. Dirijamo-nos à casa de Antonina. A lei está reaproximando os nossos amigos uns dos outros e Mário precisa fortalecer-se para exercitar o perdão. Os raios de ódio da parte dele podem apressar aqui o serviço inevitável da morte.


3. Corremos ao domicílio da valorosa mulher.

2 Com efeito, depois de haver iniciado o tratamento providencial da menina, agora acamada, Silva fixava a dona da casa, perguntando a si mesmo onde vira aquele torturado perfil de madona… Guardava a nítida impressão de haver conhecido Antonina em algum lugar…

3 Agradavelmente surpreendido, sentia-se ali como se fora em sua própria casa.

E a simpatia não se patenteava tão somente no coração dele. A senhora e os filhos cercavam-no de atenções.

4 Intimamente deslumbrado, o enfermeiro declarava de viva voz estar experimentando uma paz que há muito não conhecia, com o que Antonina se regozijava, sorrindo.

5 Percebendo que Haroldo e Henrique se mostravam apaixonados pelas disputas esportivas, deu curso a animada conversação em torno do futebol, conquistando-lhes o carinho.

6 A mãezinha, preparando o café, ingressava no alegre entendimento, de quando em quando, a fim de podar o entusiasmo dos meninos, quando a palavra deles se evidenciava menos construtiva.

7 Somente no decurso da afetuosa palestra, viemos a saber que nossa amiga se enviuvara. O esposo, segundo notícias recebidas de metrópole distante, havia falecido num desastre, vitimado pela própria imprudência.

8 Lemos no olhar de Silva o contentamento com que obtinha semelhante informe.

Começava a registar insopitável interesse pela vida naquele ninho agasalhante que se lhe afigurava pertencer-lhe.

9 Às oito em ponto, Antonina, sem afetação, convidou com simplicidade:

— Sr. Mário, hoje temos nosso culto evangélico. Quer ter a bondade de partilhá-lo?

10 Incompreensivelmente feliz, o rapaz concordou, de pronto.

A reunião, nessa noite, foi efetuada ao redor do leito de Lisbela, que não desejava perder o benefício das orações.

Um copo de água pura foi colocado junto à cabeceira da pequenina.

11 E, de Novo Testamento em punho, acomodados os companheiros, Antonina recomendou a Henrique fizesse a rogativa inicial.

O menino recitou o “Pai Nosso” e, em seguida, pediu a Jesus a saúde da irmãzinha doente, com enternecedora súplica.

12 Vimos o nosso orientador acercar-se do recipiente de água cristalina, magnetizando-a, em favor da enferma que parecia expressivamente confortada, ante a oração ouvida, e, logo após, abeirar-se de Silva, que lhe recebeu as irradiações.

13 — Quem abrirá hoje o Livro? — Perguntou Haroldo, com graciosa malícia, fitando o hóspede inesperado.

— Certamente nosso amigo nos fará essa honra, — disse a genitora, indicando o enfermeiro.

14 Mário, ignorando como expressar a felicidade que lhe fluía do coração, acolheu o pequeno volume, sob a atenção de Clarêncio, que lhe tocava o busto e as mãos, influenciando-o para a descoberta do texto adequado.

15 O moço, algo trêmulo na participação de um serviço espiritual inteiramente novo para ele, sem perceber o amparo que o envolvia, abriu em determinada passagem, qual se agisse a esmo, passando o livro a Antonina, que leu em voz pausada o versículo vinte e cinco do capítulo cinco das anotações do Apóstolo Mateus: — “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto te encontras a caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz e o juiz te entregue ao oficial para que sejas encerrado na prisão.” ( † )

16 A dirigente do culto, que, naquela noite, se revelava mais retraída, pediu a interpretação dos meninos que, de modo ingênuo, se reportaram às experiências da escola, afirmando que sempre adquiriam a paz, buscando desculpar as faltas dos companheiros. Haroldo asseverava que a professora sempre sorria contente, quando lhe via a boa vontade e Henrique salientou haver aprendido no culto do lar que era muito mais agradável o esforço de viver em harmonia com todos.

17 A palestra parecia ameaçada de esmorecimento, mas o nosso orientador aproximou-se de Antonina e, impondo-lhe a destra sobre a fronte, como que a impelia ao comentário justo.

— Haroldo, — indagou a genitora, de olhos brilhantes, — como devemos interpretar um inimigo em nossa vida?

18 O menino replicou, sem pestanejar:

— Mãezinha, a senhora nos ensinou que conservar um inimigo em nosso caminho é o mesmo que manter uma ferida perigosa em nosso corpo.

19 — A definição foi bem lembrada, — falou a viúva com espontaneidade encantadora; — sem a compreensão fraterna que nos garante o culto da gentileza, sem o perdão que olvida todo mal, a existência na Terra seria uma aventura intolerável. 20 Além disso, quando Jesus nos ditou a lição que recordamos hoje, indubitavelmente considerava que a razão nunca vive inteira ao nosso lado. 21 Se fomos ofendidos, em verdade também ofendemos por nossa vez. Precisamos desculpar os outros para que os outros nos desculpem. 22 Quando abraçamos o ideal do bem, compete-nos tentar, por todos os meios ao nosso alcance, a justa conciliação com todos os que se encontrem conosco em desarmonia, prestando-lhes serviço para que renovem a conceituação a nosso respeito. 23 Mais vale para nós o acordo pacífico que a demanda mais preciosa, porque a vida não termina neste mundo e é possível que, buscando a justiça em nosso favor, estejamos cristalizando a cegueira do egoísmo em nosso próprio coração, caminhando para a morte com aflitivos problemas. 24 Coração que conserva rancor é coração doente. Alimentar ódio ou despeito é estender inomináveis padecimentos morais no próprio Espírito.

25 Silva estava pálido.

Aquelas conclusões feriam-lhe, fundo, o modo de ser.

Tão desajustado se revelou escutando aqueles apontamentos que Antonina, em lhe registando a estranheza, ponderou, sorrindo:

26 — O senhor decerto nunca teve inimigos… Um enfermeiro diligente será, sem qualquer dúvida, o irmão de todos…

— Sim… sim, não tenho adversários… — gaguejou o moço, constrangido.

27 Mas, na tela mental, sem que ele pudesse controlar a eclosão das próprias reminiscências, apareceram Amaro e Zulmira, como os desafetos que ele, no âmago do espírito, não conseguia desculpar.

28 Odiava-os, sim, odiava-os, — pensou de si para consigo, — jamais suportaria um acordo com semelhantes adversários. Entretanto, a sinceridade da interlocutora encantava-o. 29 Aquela viúva jovem, cercada de três filhinhos, superando talvez obstáculos dos mais inquietantes para viver, constituía um exemplo de quanto podia edificar o espírito de sacrifício. Em nenhum ambiente encontrara antes aquele calor de fé pura necessário às grandes construções de ordem moral. 30 Além de tudo, laços de vigorosa afinidade impeliam-no para aquela mulher, com quem se simpatizara à primeira vista. Por mais vasculhasse as próprias lembranças, não conseguia recordar onde, como e quando a conhecera. Sentia, porém, que a palavra dela lhe impunha indefinível bem-estar…

31 Fitando-a, com enternecimento, perguntou:

— A senhora julga que devemos procurar a conciliação com qualquer espécie de inimigos?

— Sim! — Respondeu a interpelada sem hesitar.

32 — E quando os adversários são de tal modo inconvenientes que a simples aproximação deles nos causa angústia?

33 Antonina compreendeu que algo doloroso vinha à tona daquela consciência que lhe ouvira a dissertação, ocultando-se, e obtemperou:

— Entendo que há sofrimentos morais quase intoleráveis, entretanto, a oração é o remédio eficaz de nossas moléstias íntimas. 34 Se temos a infelicidade de possuir inimigos, cuja presença nos perturba, é importante recorrer à prece, rogando a Deus nos conceda forças para que o desequilíbrio desapareça, porque, então, um caminho de reajuste surgirá para nossa alma. Todos necessitamos da alheia tolerância em determinados aspectos de nossa vida.

35 Os olhos de Mário cintilaram.

— E quando o ódio nos avassala, ainda mesmo quando não desejemos? — Inquiriu, preocupado.

— Não há ódio que resista aos dissolventes da compreensão e da boa vontade. Quem procura conhecer a si mesmo, desculpa facilmente…

36 Silva empalidecera.

Antonina percebeu que o tema lhe fustigava o coração e, amparada por nosso instrutor que a enlaçava, paternal, rematou considerando:

— Um homem, porém, na sua tarefa, é um missionário do amor fraterno. Quem socorre os doentes, penetra a natureza humana e entra na posse da grande compaixão. As mãos que curam não podem odiar…

37 Em seguida, o primogênito da casa fez a prece de encerramento.

A viúva serviu o café reconfortante, acompanhado de um bolo humilde.

38 A conversação prosseguia animada, todavia, o hóspede consultou o relógio e reparou que o tempo lhe exigia a retirada.

39 Deu instruções a Antonina, quanto à medicação da doentinha, e pediu, respeitoso, para voltar no dia imediato, não somente para rever Lisbela, mas também para palestrar com os amigos.

40 A senhora e as crianças aquiesceram, felizes, afirmando-lhe que seria sempre bem-vindo, e Mário, com um sentimento novo a lhe brilhar nos olhos, seguiu dentro da noite, como quem caminhava tangido por abençoada esperança, ao encontro de novo destino.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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