Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Entre a Terra e o Céu — André Luiz


17


Recuando no tempo

(Sumário)

1. Depois do nosso esforço de autocondensação, para o necessário ajuste vibratório, Clarêncio abeirou-se dos dois amigos, com o amoroso poder que lhe era característico e, em nos reconhecendo, Mário associou-nos a presença ao pesadelo da véspera e passou a clamar:

2 — Meu caso não é com a polícia!… Não precisamos de qualquer delegado aqui!…

— Acalma-te, amigo! — Respondeu o Ministro, atencioso. — Não somos quem julgas. Estamos aqui para que te lembres… É indispensável te recordes.

3 E, situando a destra na fronte do enfermeiro, reparamos que Mário Silva aquietava-se, de repente.

O semblante dele acusou estranha metamorfose.

Afigurou-se-nos mais elegante, mais jovem.

4 Abriu desmesuradamente os olhos, depois de alguns momentos, e exclamou, semi-aterrado:

— Ah! Agora!… Agora me lembro!… Meu agressor de ontem é Leonardo Pires… Como poderia esquecê-lo assim tão infantilmente? Como não rememorar? Disputávamos a mesma mulher… Achávamo-nos em Luque, quando conheci a cantora e bailarina admirável… Lola Ibarruri! Quem senão ela poderia oferecer-me o bálsamo do esquecimento?! Realmente fiz tudo para separá-los… Ele não era o tipo de homem capaz de fazê-la feliz! Lola trazia consigo a beleza, a juventude e a arte reunidas e eu carregava no peito o esquife dos sonhos mortos… Deu-me o repouso de que minhalma necessitava… Restaurou-me. 5 Mas… Que domingo terrível aquele da praça embandeirada, em Piraju!… Deslocavam-se as forças para a caça ao inimigo… Imaginava, porém, a melhor maneira de reencontrar a mulher querida e, naquela manhã de terrível memória, consegui a simpatia de Frei Fidélis, antes da missa… O caridoso capuchinho auxiliar-me-ia, advogando-me a causa… Lola não deveria movimentar-se, entretanto, poderia, por minha vez, tornar à retaguarda!… Os maiorais eram meus amigos!… Obteria, por isso, o favor do Príncipe!… 6 Arquitetava meus planos, quando encontrei Leonardo… Não supunha conhecesse ele a deserção da companheira e procurei agradá-lo, aceitando-lhe a companhia… O suculento repasto exigia algum trago de vinho e Pires não hesitou, ministrando-me o veneno que trazia às ocultas!… Ah! Bandido! Bandido!…

7 Mário levou as mãos à garganta, como se aí registasse enorme sofrimento e caiu, desamparado, gemendo de dor.

O Ministro, paciente, aplicou-lhe recursos magnéticos balsamizantes e o rapaz levantou-se, aturdido.

8 Amaro, que se mostrava igualmente transtornado, acompanhava a cena com manifesta aflição.


2. Clarêncio ajudou o enfermeiro a firmar-se de novo sobre os pés e perguntou, concitando-o a relembrar:

— Por que razão te afeiçoaste à cantora, com tamanho desvario? Porque não atendeste aos avisos da consciência, que, decerto, te rogava não despertasses o ódio naquele que te aniquilaria o corpo físico?

2 Apresentando a expressão de um louco, Mário desferiu desconcertante gargalhada e bradou:

— Porque amei Lola Ibarruri? Porque não tive escrúpulos em arrebatá-la ao companheiro que a retinha nos braços?

3 Nosso instrutor afagava-lhe a cabeça com o evidente intuito de reavivar-lhe a memória.

— Ah! Sim!… — Prosseguiu Mário Silva, alarmado, — ausentei-me de Assunção com o espírito irremediavelmente desiludido…

4 De olhar vagueante, como se surpreendesse o passado ao longe, nos recôncavos da noite, continuou:

— Nos arredores da formosa capital paraguaia, construíra minha casa e era feliz!… Lina era o tesouro de meu coração… Minha amiga e minha esposa, minha esperança e minha razão de ser… Descendente de uma das famílias de Mato Grosso aprisionadas pelo inimigo, na invasão de dezembro de 1864, encontrei-a sem parentes, asilada por respeitável família, que a adotara por filha estremecida!… Ah! Quando lhe fitava os olhos claros e doces, sentia-me transportado a céus imensos… Era tudo o que a mocidade ideara de mais lindo para o meu coração… Nela encontrava a divina novidade de cada dia e, apesar das vicissitudes da guerra, mergulhávamo-nos ambos na rósea corrente dos mais belos sonhos… 5 O próprio Marquês de Caxias conheceu-a e animou-nos a união… Foi assim que, em janeiro de 1869, quando a trégua nos atingira, um sacerdote consagrou-nos o casamento… O Conselheiro Paranhos prometeu ajudar-nos, tão logo regressássemos ao Brasil, para que o nosso consórcio fosse devidamente festejado… Vivíamos tranquilos, como duas aves entrelaçadas no mesmo ninho, quando tive a desgraça de levar ao nosso templo doméstico dois companheiros de trabalho e de ideal… 6 Armando e Júlio… Sim, seriam eles amigos ou abutres? Sei apenas que Lina e eles se fizeram íntimos em pouco tempo… Com a desculpa de aliviarem os sofrimentos da campanha, os dois passaram a gastar, em nosso pequeno santuário de ventura, todo o tempo que lhes era disponível. Descansava minhalma na confiança sincera, até que um dia…

7 O semblante do narrador alterou-se, de súbito.

Esgares de amargura modificaram-lhe a feição.

Imprimindo à voz lúgubre acento, continuou, atormentado:

— Até que, um dia, encontrei Lina e Júlio abraçados um ao outro, como se o tálamo conjugal lhes pertencesse.

8 Cravou em nós o olhar agora coruscante e terrível e acrescentou:

— Compreenderão, acaso, a dor do homem que se vê irremissivelmente atraiçoado pela mulher em que se apoia para viver? Entenderão o incêndio que lavra no espírito flagelado de quem, num minuto, vê destruídas as esperanças da vida inteira?… Tudo é treva para quem carrega consigo mesmo o carvão dos enganos mortos! 9 Não quis acreditar no que via e interpelei a mulher amada… Lina, porém, atirou-me em rosto o mais frio desprezo… Afirmou, rudemente, que não podia amar-me, senão como irmã que se compadece de um companheiro necessitado; que me desposara simplesmente para fugir às humilhações que experimentava numa terra estrangeira e que eu, efetivamente, deveria desaparecer… 10 Envergonhado, invoquei a proteção de superiores amigos e fugi de Assunção… Eu era, contudo, um homem diferente… A segurança de caráter que cultivava, brioso, fora abalada nos alicerces… Viciei-me… Confiei-me ao álcool e ao jogo… Do militar responsável, desci à condição de aventureiro infeliz… Foi assim que encontrei Lola e Leonardo e não hesitei em exterminar-lhes a felicidade… É muito difícil albergar respeito aos outros, quando fomos pelos outros desrespeitado.

11 Valendo-se da pausa que se evidenciava, espontânea, Clarêncio indagou:

— E nunca recebeste notícias da esposa?

12 Mário Silva, reconduzido à personalidade de Esteves pela influência magnética, exibiu sarcástico sorriso e informou:

— Lina, que passei a odiar, era demasiado cruel. Achava-me não longe de Assunção, depois de três meses sobre a mágoa terrível que me fora assacada, quando vim a saber que Júlio fora igualmente escarnecido por ela. 13 Certo dia, de volta ao lar, encontrou-a nos braços de Armando, o outro amigo que parecia consagrar-nos estima fraternal. Menos forte que eu mesmo, Júlio esqueceu-se do revés com que me dilacerara, semanas antes, e, cego de absorvente afeição, ingeriu grande dose de corrosivo… 14 Socorrido a tempo, na caserna, conseguiu sobreviver, mas, incapaz de suportar os males corpóreos decorrentes da intoxicação, depois de alguns dias embebedou-se deliberadamente e arrojou-se às águas do Paraguai, aniquilando-se, enfim… 15 Depois disso, nada mais soube. A morte aguardava-me em Piraju… O destino marcara-me, impiedoso…

16 Mário fixou desagradável carantonha e acentuou:

— Sou um poço de fel. Não posso modificar-me… Haverá paz sem justiça e haverá justiça sem vingança?

17 Nosso orientador ergueu a voz calmante e considerou, generoso:

— É necessário esquecer o mal, meu amigo. Sem aquela atitude de perdão, recomendada pelo Cristo, seremos viajores perdidos no cipoal das trevas de nós mesmos. Sem amor no coração, não teremos olhos para a luz.


3. Silva dispunha-se a responder, entretanto, Amaro fizera ligeiro movimento e mostrou-se-nos singularmente renovado. 2 Seu veículo espiritual parecia haver regredido no tempo. Revelava-se mais leve e mais ágil e sua face impressionava pelos traços juvenis.

3 Buscou aproximar-se do enfermeiro num gesto natural de cordialidade, todavia, em lhe observando o rosto metamorfoseado, o antagonista bradou entre o ódio e a angústia:

— Armando! Armando!… Pois és tu? O Amaro que hoje detesto é o mesmo Armando de ontem? Onde me encontro? Enlouqueci, porventura?!…

4 Instruindo-nos, cuidadoso, Clarêncio falou, rápido:

— Não precisei despender grande esforço para que a memória de Amaro tornasse ao pretérito. O sofrimento reparador conferiu-lhe à mente e à sensibilidade recursos novos. Bastou-me tocá-lo de leve, para que aproveitasse a digressão do antigo companheiro, recuperando as recordações da época em estudo…

5 O esposo de Zulmira procurava estender braços amigos ao adversário que o contemplava, galvanizado de assombro, contudo, recuando, de repente, como animal ferido, Mário gritou em desespero:

— Não, não! Não te acerques de mim! Não me provoques, não me provoques!…

6 O Ministro, no entanto, situando-se entre os dois, pediu, comovidamente:

— Tenhamos calma! Respeitemo-nos uns aos outros!

7 E, dirigindo-se particularmente ao enfermeiro, determinou, sem afetação:

— Agora, é o momento de nosso amigo. Comentaste o pretérito à vontade. É indispensável que Amaro fale por sua vez. A justiça, em qualquer solução, deve apreciar todas as partes interessadas.

8 Contido pela força moral da advertência, Mário calou-se e, voltados então para o ferroviário, que se fizera mais simpático pela serenidade de que se investira, continuamos à escuta.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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