Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Entre a Terra e o Céu — André Luiz


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Num lar cristão

(Sumário)

1. Propúnhamo-nos seguir o caso de Zulmira, não só para cooperar, a favor de suas melhoras, mas também para registar os ensinamentos possíveis, e, solicitando o concurso de Clarêncio, dele ouvimos judiciosas ponderações.

2 — Sim, — disse, — para auxiliar em processos dessa natureza, é preciso marchar para a frente, mas, para compreender o serviço que nos compete e avançar com segurança, é necessário voltar à retaguarda, armando-nos de lições que nos esclareçam.

3 Não sabíamos como interpretar-lhe a palavra, entretanto, ele mesmo nos socorreu, explicando, depois de ligeira pausa:

— Para realizarmos um estudo geral da situação, convém o contato com outras personagens do drama que se desenrola. Ser-nos-á interessante, para isso, uma visita ao pequeno Júlio, no domicílio espiritual em que estagia.

— Oh! Será um prazer! — Clamei, contente.

— Poderíamos seguir agora? — Perguntou Hilário, encantado.

4 O Ministro refletiu por segundos e observou:

— Nas responsabilidades que esposamos, não é aconselhável indagar por indagar. Procuremos o objetivo, a utilidade e a colaboração no bem. Não nos achamos em férias e sim em trabalho ativo.

5 Pensou, pensou… e aduziu:

— Sei que amanhã, à noite, Eulália deve acompanhar duas de nossas irmãs encarnadas à visitação dos filhinhos que as precederam na grande viagem da morte e que se encontram no mesmo sitio em que Júlio se demora asilado. Poderemos substituir nossa cooperadora no serviço a fazer. Seguiremos em lugar dela. Prestaremos assistência às nossas amigas e examinaremos a situação da criança.

6 Anotando a preciosa lição de trabalho que aquelas expressões encerravam, aguardamos a noite próxima, com ansiedade real.

Na hora aprazada, descemos à matéria densa, em busca das irmãs que seguiriam conosco.

7 Deixou-nos o Ministro numa casinha singela de remota região suburbana, depois de informar-nos:

— Aqui reside nossa irmã Antonina, com três dos quatro filhos que o Senhor lhe confiou. 8 Incapaz de vencer as tentações da própria natureza, o marido abandonou-a há quatro anos para comprometer-se em delituosas aventuras. 9 A dona da casa, porém, não desanimou. Trabalha com diligência numa fábrica de tecidos e educa os rebentos do lar com acendrado amor ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus. Tem sabido resgatar com valor as dívidas que trouxe do pretérito próximo. 10 Perdeu, há, meses, o pequeno Marcos, de oito anos, atacado de fulminante pneumonia, com quem se encontrará, depois da prece que proferirá com os pequeninos. 11 Trarei comigo a outra companheira de nossa viagem. Quanto a vocês, auxiliem nas orações e nos estudos de Antonina, até que eu volte, de modo a seguirmos todos juntos.

12 Hilário e eu penetramos a sala desataviada e estreita.

Uma senhora ainda jovem, mas extremamente abatida, achava-se de pé, junto de três lindas crianças, dois rapazinhos entre onze e doze anos e uma loura pequerrucha, certamente a caçula da família que pousava na mãezinha os belos olhos azuis.

13 Num recanto do compartimento humilde, triste velhinho desencarnado como que se colocava à escuta.


2. Dona Antonina colocou sobre a toalha muito alva dois copos com água pura, tomou um exemplar do Novo Testamento e sentou-se.

2 Logo após, falou carinhosamente:

— Se não me falha a memória, creio que a prece de hoje deve ser feita por Lisbela.

3 A pequenita levou as minúsculas mãos ao rosto, apoiou graciosamente os cotovelos sobre a mesa e, cerrando os olhos, recitou:

— Pai Nosso que estais no Céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na Terra como nos Céus, o pão nosso de cada dia dai-nos hoje, perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores, não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos de todo mal, porque vosso é o Reino, o poder e a glória para sempre. Assim seja. ( † )

4 Lisbela abriu os olhos, de novo, e procurou silenciosamente a aprovação maternal.

Dona Antonina sorriu, satisfeita, e exclamou:

— Você orou muito bem, minha filha.

5 E dividindo agora a atenção com os dois meninos, entregou o Evangelho a um deles, convidando:

— Abra, Henrique. Vejamos a mensagem cristã para os nossos estudos da noite.

O rapazinho escolheu o texto, ao acaso, restituindo o livro às mãos maternais.

6 A genitora, emocionada, leu os versículos vinte e um e vinte e dois do capítulo dezoito das anotações do apóstolo Mateus: ( † )

— “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: — Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim e eu lhe perdoarei? Até sete? Jesus lhe disse: — Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete.”

7 Calou-se dona Antonina, como quem aguardava a manifestação de curiosidade dos jovens aprendizes.

O pequeno Henrique, iniciando a conversação, perguntou, com simplicidade:

— Mãezinha, porque Jesus recomendava um perdão, assim tão grande?

8 Demonstrando vasto treinamento evangélico, a senhora replicou:

— Somos levados a crer, meus filhos, que o Divino Mestre, em nos ensinando a desculpar todas as faltas do próximo, inclinava-nos ao melhor processo de viver em paz. 9 Quem não sabe desvencilhar-se dos dissabores da vida, não pode separar-se do mal. Uma pessoa que esteja parada em lembranças desagradáveis caminha sempre com a irritação permanente. 10 Imaginemos vocês na escola. Se não conseguirem esquecer os pequeninos aborrecimentos nos estudos, não poderão aproveitar as lições. Hoje é um colega menos amigo a preparar lamentável brincadeira, amanhã é uma incorreção do guarda enfadado em razão de algum equívoco. Se vocês imobilizarem o pensamento na impaciência ou na revolta, poderão fazer coisa pior, afligindo a professora, desmoralizando a escola e prejudicando o próprio nome e a saúde. 11 Uma pessoa que não sabe desculpar vive comumente isolada. Ninguém estima a companhia daqueles que somente derramam de si mesmos o vinagre da queixa ou da censura.

12 Nessa altura do ensinamento, dona Antonina fitou o primogênito e perguntou:

— Você, Haroldo, quando tem sede preferiria beber a água escura de um cântaro recheado de lodo?

— Ah! Isso não, — replicou o mocinho muito sério, — escolherei água pura, cristalina…

— Assim somos também, em se tratando de nossas necessidades espirituais. 13 A alma que não perdoa, retendo o mal consigo, assemelha-se ao vaso cheio de lama e fel. Não é coração que possa reconfortar o nosso. Não é alguém capaz de ajudar-nos a vencer nas dificuldades da vida. Se apresentamos nossa mágoa a um companheiro dessa espécie, quase sempre nossa mágoa fica maior. Por isso mesmo, Jesus aconselhava-nos a perdoar infinitamente, para que o amor, em nosso espírito, seja como o Sol brilhando em casa limpa.

Expressivo intervalo fez-se notar.

14 O jovem Haroldo, de semblante apoquentado, interferiu, indagando:

— Mas a senhora crê, mãezinha, que devemos perdoar sempre?

— Como não, meu filho?

— Ainda mesmo quando a ofensa seja a pior de todas?

— Ainda assim.

15 E, observando-o, inquieta, dona Antonina acentuou:

— Porque tratas deste assunto com tamanha preocupação?

— Refiro-me ao papai, — disse o menino algo triste, — papai abandonou-nos quando mais precisávamos dele. Seria justo esquecer o mal que nos fez?

16 — Oh! Meu filho! — Comentou a nobre mulher, — não te detenhas nesse problema. Porque alimentar rancor contra o homem que te deu a vida? Como condená-lo se não sabemos tudo o que lhe aconteceu? Seria realmente melhor para o nosso bem estar se ele estivesse conosco, mas, se devemos suportar a ausência dele, que os nossos melhores pensamentos o acompanhem. Teu pai, meu filho, com a permissão do Céu, deu-te o corpo em que aprendes a servir a Deus. Por esse motivo, é credor de teu maior carinho. Há serviços que não podemos pagar senão com amor. Nossa dívida para com os pais é dessa natureza…

17 Recordando talvez que a família se achava num curso de formação cristã, a dona da casa acrescentou:

— Um dia, quando Moisés, o grande profeta, foi ao monte receber a revelação divina, uma das mais importantes determinações por ele ouvidas do Céu foi aquela em que a Eterna Bondade nos recomenda: — “Honrarás teu pai e tua mãe”. ( † ) A Lei enviada ao mundo não estabelece que devamos analisar a espécie de nossos pais, mas sim que nos cabe a obrigação de honrá-los com o nosso amoroso respeito, sejam eles quais forem.

18 A reduzida assembleia recolhia as explicações, de olhos felizes e iluminados.

Haroldo mostrou-se conformado, todavia, ainda ponderou:

— Compreendo, mãezinha, o que a senhora quer dizer. Entretanto, se papai estivesse junto de nós, talvez que Marcos não tivesse morrido. Teríamos o dinheiro suficiente para tratá-lo.

19 Dona Antonina enxugou, apressada, as lágrimas que lhe caíram, espontâneas, ante a evocação do filhinho, e continuou:

— Seria um erro permitir a queda de nossa confiança no Pai Celestial. Marcos partiu ao encontro de Jesus, porque Jesus o chamava. Nada lhe faltou. Rogo a vocês não darmos curso a qualquer ideia triste, em torno da memória do anjo que nos precedeu. Nossos pensamentos acompanham no Além aqueles que amamos.

20 Nesse ponto da conversação, Lisbela inquiriu, graciosa:

— Mãezinha, Marcos nos vê?

— Sim, minha filha, — esclareceu dona Antonina, emocionada, — ele nos ajuda em espírito, pedindo a Jesus forças e bênçãos para nós. Por nossa vez, devemos auxiliá-lo com as nossas preces e com as nossas melhores recordações.

21 Dona Antonina, porém, pareceu asfixiada por enormes saudades. Enquanto os meninos comentavam com interesse os ensinamentos da noite, demorava-se absorta, mentalizando a imagem do pequenino…

Quando o relógio assinalou o fim do culto, solicitou a Henrique fizesse a oração de encerramento.

O petiz repetiu a prece dominical, rogando ao Senhor abençoasse a mãezinha, e o trabalho terminou.

22 A dona da casa repartiu com os pequenos alguns cálices da água cristalina que Hilário e eu magnetizáramos e, logo após, pensativa e saudosa, retirou-se com os filhinhos para a câmara em que se recolheriam todos juntos.


André Luiz


Texto extraído da 1ª edição desse livro.

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